CINZAS E BRUMAS

48 INTERROGATÓRIO E VERDADE


Na sala do trono, a pressão faz os ombros de todos pesarem. A Rainha List está sentada à frente, emanando uma autoridade absoluta e um poder esmagador. Ela exige saber as identidades e as reais intenções dos três forasteiros que salvaram o príncipe de uma emboscada suspeita. Apoiando a mão no trono, ela decreta:


​— Muito bem. Eu irei escolher quem deve começar a responder às minhas questões.


​Lórien, de pé ao lado dos companheiros, alerta com um sussurro tenso:


​— Por favor, apenas digam a verdade. Não mintam de forma alguma...


​Todos concordam silenciosamente. A matriarca então aponta o dedo:


​— Você, o jovem da bolsa! Comece a se explicar!


​Ela aponta diretamente para Sike, que está visivelmente desconfortável e intimidado pelo imenso poder da elfa. O mago engole em seco e responde, apreensivo:


​— Si-Sike, majestade! Eu me chamo Sike!


​A Rainha analisa o garoto de cima a baixo:


​— Muito bem, jovem Sike. Vejo que é um humano e também um mago.


​Sike, surpreso com a dedução imediata, responde sem pensar:


​— Is-isso mesmo. A senhora acertou... Como descobriu apenas me olhando?


​A Rainha estreita os olhos e sua voz ecoa pesada como chumbo:


​— Está me interrogando, humano?


​Nesse exato instante, a alma de Sike quase abandona o corpo e ele perde toda a cor do rosto. Porém, a tensão se quebra quando a Rainha solta uma gargalhada delicada e limpa:


​— Hahaha, estou brincando, mago! Agora me diga: o que veio fazer na minha nação?


​Sike tenta desesperadamente se recompor:


​— E-e-eu vim pedir um favor ao Príncipe Lórien, Vossa Alteza!


​A Rainha pondera por alguns segundos. Com um estalo de dedos que ressoa pelas paredes de cristal, ela deduz:


​— Ah, então você seria o mago humano que ajudou o príncipe quando ele, de forma muito imprudente, tentou despertar o seu Lonnai e quase se matou no processo?


​Lórien cobre o rosto com a mão e resmunga em um sussurro envergonhado:


​— Mãe...


​A Rainha ignora o filho e continua:


​— Então, jovem Sike, o que seria de tamanha importância para se recorrer à realeza dos elfos?


​Sike hesita, relutante em fazer o grande pedido naquele ambiente opressor. Vendo o desespero do amigo, John dá um passo à frente, ajoelha-se no chão de forma cortês e intervém:


​— Majestade. Sei que é rude de minha parte interromper a conversa com o rapaz, mas o motivo pelo qual a senhora o questiona envolve diretamente a mim. Então, permita-me explicar no lugar dele, eu imploro.


​A nobre Rainha desvia o olhar do jovem mago e o crava no guerreiro. Ela diz, com uma curiosidade fria:


​— Realmente, é rude interromper algo do tipo no meu salão. Mas devo confessar que sua atitude instigou a minha curiosidade. Como se chama, homem de cabelos loiros?


​John, não tendo alternativa e honrando sua palavra, revela a seco:


​— Meu nome é John Dickson, ex-Mestre Cavaleiro do Império de Rôga.


​As lanças dos soldados que guardam a porta tilintam, e eles se põem em posição de alerta máximo diante da afirmação do cavaleiro. A Rainha, porém, dá um pequeno sorriso contido e diz:


​— Ora. Vejo que o senhor tem mesmo culhões, Senhor Dickson. Honestamente, não achava que você iria admitir sua identidade com tanta facilidade.


​John sorri de volta, embora uma fina gota de suor escorra por seu rosto. Ele responde:


​— Então a senhora já sabia...


​A Rainha confirma, apoiando o rosto graciosamente em sua mão:


​— Mas é claro. Além do mais, você ainda carrega esse seu fluxo esquisito desde a época em que acompanhava Tyron nas reuniões da Cúpula.


​O cavaleiro franze as sobrancelhas e questiona a si mesmo em voz baixa:


​Meu... fluxo?


​A Rainha dos Elfos muda abruptamente de foco:


​— Estou muito curiosa sobre a sua história e o seu pedido, Senhor Dickson. Mas agora quero me dirigir a outra questão. Quero falar com a mulher que os acompanha!


​A apreensão volta a sufocar o grupo. A monarca estreita os olhos para a garota encolhida:


​— Isso... é muito interessante. O que é você, mulher? Uma humana? Hahaha, eu simplesmente não consigo ler o seu fluxo! Isso nunca aconteceu antes.


​Mirabel congela no momento em que é questionada. A Rainha ordena novamente, agora com a voz potente, preenchendo cada centímetro do salão com uma aura letal:


​— Diga, mulher! Quem é você e quais são as suas verdadeiras intenções?!


​A princesa não vê outra saída. Com o coração acelerado pelo medo, ela levanta o olhar para responder à indagação. Mas, neste exato momento, um gatilho a atinge. Mirabel não vê mais a Rainha dos Elfos sentada no trono à sua frente, mas sim a silhueta colossal de seu pai, Mahuma III.


​É a exata visão que presenciou ao ser julgada, desprezada e sentenciada em sua terra natal. A partir desse delírio induzido pelo trauma, o medo evapora. A princesa não treme mais. Nenhuma gota de suor ousa escorrer por seu rosto. Com uma calma e serenidade impressionantes que chocam todos ao redor, ela ergue o queixo e revela com a voz firme:


​— Meu nome é Mirabel. Sou a segunda filha de Mahuma e Princesa da Nação de Drake.


​Tudo para. Nenhuma respiração, nenhum batimento cardíaco é ouvido. Absolutamente tudo congela no salão de Airgid.


​Então, a Rainha quebra o silêncio com um tom monótono e desprovido de qualquer misericórdia:


​— É mesmo? Então, morra.


​Centenas de projéteis de puro Tok se materializam instantaneamente ao redor da Rainha e são disparados em velocidade hipersônica em direção a Mirabel.


​A princesa aceita o destino e fecha os olhos, esperando o fim. Porém, ao perceber que não sente dor alguma, ela os abre lentamente. O ataque fulminante cessou no ar. Lórien está de braços abertos à sua frente, com o próprio corpo e poder servindo de barreira absoluta entre a draco e a fúria de sua mãe.


​A Rainha semicerra os olhos, com a paciência esgotada, e questiona:


​— O que significa isso, Príncipe Lórien?


​Príncipe e Rainha se olham friamente. O clima de respeito reverencial desaparece, tornando-se o prenúncio de brumas extremamente densas e letais no coração de Kidma.