CINZAS E BRUMAS
19 INOCENTE E INSTÁVEL
Naquela época, as lideranças de Ludí eram convocadas pelo Rei Tyron Rubrê para reuniões de rotina no coração do palácio. Entre relatórios de fronteira e discussões táticas, o clima era sempre de uma formalidade gélida. Ao fim de um desses encontros, John aproximou-se de Vince Elanter, cujas vestes impecáveis pareciam brilhar sob a luz dos candelabros.
— Saudações, Elanter. Tenho uma pergunta para lhe fazer — começou John. — Quem é aquele garoto magricela que chegou recentemente?
Vince, com sua habitual face de poucos amigos, respondeu secamente:
— No que isso lhe diz respeito?
— Calma lá, senhor mago fantástico — ironizou John, em tom de deboche. — Sei que acabei de me tornar Mestre Cavaleiro, mas acho que tenho o direito de saber por que uma criança está por aí exalando magia e uma aura tão deprimente.
Vince estacou, olhando John de cima a baixo.
— Então os boatos são verdadeiros... você realmente consegue sentir o "cheiro" da mana. Não vou mentir, isso me causa certa curiosidade.
— E então? Vai ficar impressionado com o meu nariz ou vai me responder?
Vince relutou, processando a insistência do cavaleiro, mas acabou cedendo com um suspiro pesado:
— Ah... aquilo não é uma criança, Dickson. É uma arma.
John franziu a testa, a palavra ecoando de forma errada em seus ouvidos.
— O quê?
— Em Ludí, sempre existiram aqueles que nascem com o controle da mana, e o Império sempre tentou recrutá-los. Seja através da compra de seus pais ou por meio da força. Se nasce um mago, ele é propriedade do Estado — explicou Vince. — Existem três tipos de aptidões: fogo, como a minha; gelo; e, em casos raríssimos, a luz. A maioria desperta o fogo, alguns o gelo, e existem apenas cinco registros de magos de luz em toda a história de Ludí. Aquele que você chama de criança possui o potencial para controlar os três.
John processou a informação em silêncio.
— Ele é uma amálgama — concluiu Vince. — É extremamente perigoso tratá-lo como uma criança normal. Por isso, aviso: pelo seu próprio bem, fique longe daquela coisa.
Os dois se encaram por alguns segundos.
— Obrigado por sanar minhas dúvidas, Elanter — respondeu John, já se virando para sair.
— Muito bem... — Vince o chamou, mudando o foco. — Mas, mudando de assunto: o que você tem de tão especial para o colocarem como sucessor de Sir Zilion?
John parou e olhou por cima do ombro, com um sorriso provocador:
— Ora, se conseguir me irritar o suficiente, pode acabar descobrindo, mago.
Vince não recuou, respondendo à altura:
— Hum. Esse dia pode não estar tão longe, cavaleiro.
A Pós as provocações, os dois seguem seus caminhos.
Ao anoitecer, o palácio era um labirinto de sombras e silêncio. O pequeno Sike estava em uma das sacadas, os olhos perdidos nas estrelas, pequeno e frágil contra a vastidão do céu. Sem que ele percebesse sua aproximação, John parou ao seu lado.
— São bonitas, não são?
Sike deu um salto, assustado.
— Si-sim... são bonitas — gaguejou o menino, encolhendo os ombros como se esperasse um golpe. — Eu sei que não devia estar aqui. Desculpe, vou voltar para o meu quarto.
Quando o garoto se virou para fugir, John o segurou gentilmente pela parte de trás da túnica.
— Calma aí, moleque. Não vim te dar bronca. Sabe, eu também acabei de chegar por aqui. Antes, eu só vivia em campos de treinamento ou de combate, mas, cá entre nós... o pessoal daqui é bem xarope, não é?
O garoto, que desde sua chegada só conhecia ordens e experimentos, hesitou. Ao olhar para o rosto de John e não ver desprezo ou medo, ele não conseguiu segurar uma pequena risada.
— Hahaha... é verdade.
— E aquele cara de cabelo vermelho, o Vince? — John continuou, incentivado pelo riso do menino. — Argh, ele cheira a rato queimado. Mas não fala isso para ele, hein? Senão é capaz daquela cabeça gigantesca explodir de raiva.
Sike, cujos olhos antes pareciam vazios, agora brilhava com uma alegria genuína, incentivados pelas zombações do cavaleiro.
— Hahaha! Quem é o senhor, tio?
John endireitou a postura, colocando a mão sobre o peito com um sorriso largo:
— Eu sou John Dickson, o Mestre Cavaleiro.
Naquela noite, no lugar da tristeza e do cheiro ácido de mana contida, o que se ouviu na sacada foram apenas gargalhadas.
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