CINZAS E BRUMAS

49 HONESTIDADE E DECISÃO


Diante da Rainha, Lórien se impõe contra a execução imediata da Princesa de Drake, Mirabel. O elfo, servindo de escudo vivo para a draco, suplica:


​— Rainha List Airgid, por favor, me escute!


​Porém, a matriarca responde com frieza absoluta:


​— Não necessito de explicações, General. Se essa mulher que você defende for quem afirma ser, não encontrará nada além de uma execução sumária neste salão.


​O elfo tenta explicar a situação com puro desespero na voz:


​— Essa mulher... salvou a minha vida! Eu tenho uma dívida, minha senhora!


​A Rainha se irrita profundamente. O ar volta a ficar extremamente denso e asfixiante, como se a própria gravidade estivesse esmagando o recinto. Todos no local, mais uma vez, lutam com sérias dificuldades para se manterem de pé. A líder absoluta dos elfos ecoa:


​— Você, sangue da Casa de Airgid, está afirmando abertamente que tem uma dívida com a filha de Mahuma?!


​A voz poderosa e carregada de fúria ecoa pelo salão do trono, pesada como chumbo. O príncipe, rangendo os dentes sob a pressão brutal, ativa o seu Lonnai. O brilho azul toma conta de suas veias e, com extremo esforço, ele consegue se reerguer. Encarando a monarca de igual para igual, ele declara com firmeza:


​— Senho... Não, mãe! Eu sei que sempre fui muito orgulhoso e imprudente. Mas nunca fui desonesto! Se eu permitir que a senhora mate essa mulher hoje, não poderei mais me considerar de sangue nobre! Eu tenho uma dívida de vida, minha mãe!


​A matriarca escuta o filho e crava o olhar no fundo de seus olhos. Ela lê a pureza do fluxo de energia dele naquele exato milissegundo. Convencida da verdade inabalável em seu coração, a pressão esmagadora na sala dissipa-se e a gravidade volta ao normal.


​Todos respiram aliviados, levantando-se com extrema apreensão. Lórien desativa seu Lonnai imediatamente e cai de joelhos, ofegante e no limite de suas forças físicas e mentais. A Rainha já tem a sua sentença. Com uma voz firme e cortante, ela proclama:


​— Príncipe Lórien da Casa de Airgid! Eu, como Comandante Suprema de Vilini, retiro-lhe o título de General e o exonero de todas as suas funções militares! Você não tem mais permissão para ter qualquer participação ativa nesta guerra que travamos.


​O elfo, ainda ajoelhado, questiona, furioso e em choque:


​— Como assim?! Nosso povo está sofrendo nas linhas de frente e muitos do nosso exército não podem retornar para suas casas! Se me tirar do campo de batalha, milhares de vidas a mais serão sacrificadas!


​A Rainha responde de forma gélida e calculista:


​— Não posso assumir tamanho risco militar depois que você assumidamente defendeu o sangue real de Drake bem na minha frente. Você pode se tornar emocionalmente instável se precisar tomar decisões drásticas e vitais no campo de guerra.


​Lórien suplica, com a voz embargada e o orgulho quebrado:


​— Mãe, eu imploro! Não faça isso!


​A Rainha ordena com voz imperativa e inquestionável:


​— Cale-se, Lórien! Eu já tomei a minha decisão!


​Tudo mergulha em um silêncio sepulcral. Então, ela muda para um tom mais brando, quase melancólico, e conclui:


​— Isso é a guerra, garoto.


​O príncipe fica absolutamente devastado. Com o olhar fixo no chão polido, ele desfere um soco bruto contra o piso de cristal, rachando a superfície enquanto grita a plenos pulmões:


​— DROGA!!!


​Mirabel presencia toda a cena destrutiva. Ela se segura ao máximo para não falar e não arruinar ainda mais a vida do príncipe que abriu mão de tudo para defendê-la, mas a culpa a corrói por dentro. A draco dá um passo à frente, abrindo a boca para protestar.


​Nesse exato momento, a mão pesada e calejada de John pousa firmemente em seu ombro, paralisando-a. Com uma voz baixa, porém dura como aço, o cavaleiro sussurra para ela:


​— Não. Não faça isso. Ele sacrificou a própria honra e posição para te poupar. Não deixe que o esforço dele seja em vão.


​A princesa recua. Ela morde os próprios lábios com tanta força para segurar a frustração e as lágrimas que os faz sangrar.


​A Rainha, com sua postura inabalável de volta, ordena:


​— Guardas, levem a draco para os níveis inferiores da prisão! Eu mesma irei interrogá-la mais tarde!


​Os soldados de elite chegam de imediato, flanqueando a princesa e escoltando-a para o cárcere. John e Sike correm para o lado de Lórien, apoiando o príncipe pelos braços para ajudá-lo a se levantar. A Rainha suspira suavemente e diz:


​— Peço desculpas pela confusão familiar, Senhor Dickson. Mas espero que entenda que ouvirei o seu pedido em um momento mais oportuno. Tenho assuntos de segurança de Estado mais urgentes agora.


​John curva levemente a cabeça e responde:


​— Eu que agradeço a tolerância, Rainha List.


​A matriarca, com um tom subitamente materno escondido sob a máscara real, pede ao cavaleiro:


​— Por favor, Senhor Dickson e Mago Sike... acompanhem o Príncipe Lórien até a ala curativa para que ele receba os devidos cuidados. Poderiam me fazer esse favor?


​O cavaleiro assente positivamente. Juntos, eles cruzam as grandes portas e saem da sala do trono, amparando Lórien pelos corredores do palácio.


​O salão esvazia-se. A Rainha List fica completamente sozinha no trono. Ela relaxa a postura, soltando um longo e pesado suspiro. Olhando para o vazio, ela sussurra para si mesma:


​— Ahh... por que o seu filho tinha que ser tão teimosamente idêntico a você, Aran?


​Enquanto isso, muito longe da segurança e da política da capital, as fumaças do caos começam a cobrir os céus. O vilarejo e posto avançado de Zelena está prestes a entrar em colapso total.