CINZAS E BRUMAS

42 EXILADO E ACALENTO


​Na clareira destruída, Lórien está de joelhos perante seu inimigo, que se revela ser Telyon, um elfo. O príncipe, então, fala com dificuldade, cuspindo sangue:


​— Eu... não entendo... Você foi exilado! Como pôde voltar?!


​Telyon, a fim de sanar a dúvida inquietante do príncipe general, diz:


​— Não era minha intenção aparecer aqui em Vilini, Lorde Lórien. Mas, a partir do momento em que a herdeira de Mahuma entrou no território, isso se tornou inevitável.


​Lórien congela por um instante. Ainda com dor, ele diz:


​— Herdeira?! Princesa?! Então, ela realmente é...!


​Telyon, com voz gélida, confirma o que o príncipe queria negar:


​— Sim. A mulher a quem você se afeiçoou em tão pouco tempo é a princesa da nação que está matando os nossos irmãos. Ela é a segunda filha de Mahuma III!


​A reação de Lórien é silenciosa. O sentimento de traição o atinge como uma lâmina. Ele pensa, atordoado:


​A princesa de Drake... o sangue daquele que massacra meu povo...


​Então Telyon continua:


​— Príncipe Lórien, eu peço perdão por te fazer passar por tudo isso. Mas, agora que fui descoberto, não posso deixar que saia com vida daqui.


​O elfo renegado prepara um ataque de fogo potentíssimo. O ar ao seu redor distorce com o calor extremo. Com a palma carregada de chamas rugindo, ele diz:


​— Mais uma vez, me perdoe, Lorde Lórien...


​O príncipe já não escuta mais nada. Ele apenas sente o calor abrasador vindo em sua direção para ceifá-lo. Ele fecha os olhos e espera. Porém, ao invés de sentir as chamas derreterem sua pele, ele sente algo diferente. Gotas de água? Começou a chover no local? Não. São lágrimas. Lágrimas de Mirabel.


​Ela aparece em um salto, envolvendo-o em um abraço caloroso e, por fim, recebendo o impacto total do ataque de Telyon em suas próprias costas. Uma explosão abafada ecoa. Após o golpe, o perseguidor salta para trás, abrindo distância entre ele e os membros da realeza.


​Mirabel cai sem forças nos braços do elfo ferido. Lórien, pasmo com a atitude da princesa draco, gagueja em voz baixa:


​— Por... por que você fez isso? Você é a princesa do reino que meu povo odeia e que com certeza tentaria te matar...


​Em um estouro na voz, o elfo conclui, gritando em desespero:


​— Por que você fez algo assim?! Droga!!!


​A princesa, que por muito tempo só carregava pranto de angústia e incerteza no rosto, agora está sorrindo. Ela põe a mão trêmula no rosto de Lórien e sussurra:


​— Eu... consegui te proteger... Lórien, meu amigo...


​A mão de Mirabel cai pesadamente. A floresta entra em silêncio absoluto. Nada se move, nem mesmo o vento. Então, Telyon quebra o silêncio dizendo:


​— Isso... foi inusitado. A princesa sempre foi descrita como covarde e fraca. Acho que o oráculo estava um pouco desatualizado. Bom, mas isso não importa. Ela ainda vai servir ao seu propósito do jeito que está! Vamos, príncipe! Não prolongue mais isso, me entregue a draco.


​Lórien não escuta absolutamente nada depois que a mão de Mirabel escorrega de seu rosto. Seu semblante apenas endurece, assumindo uma frieza mortal. Olhando para o rosto da princesa, ele coloca suavemente o corpo dela no chão. Então se levanta e ergue os olhos para o céu escuro, dizendo:


​— Minha mãe e Rainha List... me perdoe.


​Após a fala, um fluxo de Tok ultraviolento envolve e explode ao redor do príncipe. O chão racha e a pressão do ar esmaga as árvores ao redor. Algo completamente devastador e sem precedentes está para surgir daquela ira silenciosa. Telyon se espanta e recua um passo:


​— Você... está infundindo seu Lonnai com sua própria força vital, Lórien?! Está louco?!


​Com os olhos brilhando em um azul profundo e ofuscante, Lórien aponta seu dedo indicador para Telyon. Um zumbido agudo rasga o ar e um feixe de energia perfura o ombro do inimigo instantaneamente. O elfo renegado começa a sangrar abundantemente e se afasta depressa.


​Telyon grita:


​— Seu idiota! Você vai se matar só por conta dessa mulher?!


​Lórien não possui mais consciência e muito menos a capacidade de fala. Sua mente abriga apenas uma instrução primitiva: destruir o alvo.


​O príncipe estende o braço para disparar um ataque devastador e definitivo, quando, de repente, uma espessa esfera de gelo surge do nada, engolindo-o e paralisando-o momentaneamente. Uma voz desesperada ecoa pela clareira:


​— Agora, velho! Vai!


​Algo cai dos céus com uma velocidade e força estrondosas em direção a Telyon. O elfo renegado se esquiva no último milissegundo, mas a onda de choque do impacto cria uma cratera absurda, acertando-o parcialmente e deixando um de seus braços estraçalhado e inutilizado. Telyon recua, ofegante e em choque.


​Em meio à poeira erguida pelo impacto, uma silhueta se levanta da cratera, estalando o pescoço:


​— Hum. Você é rápido, elfo.


​Essa pessoa é John Dickson, vestindo a armadura herdada de Sir Zilion. Sike está logo atrás, com as mãos estendidas em direção à prisão de gelo, gritando:


​— Vai logo, John! Eu tenho bastante mana para manter o gelo, mas segurar esse cara assim tá muito difícil!


​John responde sem tirar os olhos do inimigo:


​— Tá legal, aguenta aí! Isso não vai demorar muito.


​Com o descontrole letal de Lórien e a chegada esmagadora de John e Sike, a floresta está mais perigosa do que nunca.