CINZAS E BRUMAS
37 ESPERANÇA E REDENÇÃO
O mundo parou em meio à batalha. Tudo congelou na visão de John. Exceto a figura à sua frente. Tessia havia morrido na noite do massacre em Nádej, e John segurou seu corpo frio com as próprias mãos. O cavaleiro, mesmo vendo a garota em sua frente, diz incrédulo:
— Isso... Não, não é possível.
A garota, que sempre mantinha seu sorriso e jeito travesso, fala:
— Eu que o diga! Olha o seu estado! Como alguém pode chegar nesse nível de relaxo?! Apesar de que a aparência nunca foi uma de suas preocupações. Hihi!
John, com a voz fraca, mas pesada, diz:
— Eu... te vi morrer, Tessia... Eu te enterrei!
Tessia, vendo o amargor na feição do cavaleiro, fala:
— Eu também não entendo o que está acontecendo, John. Eu... apenas senti que precisava estar aqui! Eu não sei onde estava antes, mas agora eu estou aqui, com você.
John finalmente tinha percebido que não se tratava de uma alucinação, mas também que Tessia continuava morta. Então o cavaleiro, com as mãos trêmulas e a voz a falhar, diz para a garota:
— Tessia... Eu... me desculpe! Eu não devia ter ficado em Nádej! Eu sabia dos riscos, sabia que poderiam me encontrar! Mas eu fui fraco! Eu... eu gostava da companhia de vocês! Eu gostava daquela paz! Vocês me receberam de braços abertos mesmo sabendo que eu era um imperial! E... eu os retribuí com morte! Eu arrastei o Sike para essa loucura de acabar com o Império só para tentar me redimir dos meus erros, dos meus pecados! Me perdoe, garota... Eu... Eu...
Nesse momento, Tessia abraça John. O cavaleiro se cala. Tudo fica quieto. Então a garota se levanta e pergunta:
— Acabou?
Em sequência, ela desfere um cascudo poderoso na cabeça de John. O ataque faz o cavaleiro cobrir a cabeça com dor. Após isso, ela se levanta e fala com a sua típica informalidade:
— Meu Deus! Como você tá mole! Todo esse papo de "Eu sou culpado" e "Me desculpe por favorzinho" não combina com você!
O cavaleiro então escuta a garota em silêncio. Ela continua:
— Achei que nós já tínhamos tido essa conversa! Sobre responsabilidade dos próprios atos e tals! Mas parece que preciso te lembrar!
A garota então aponta o dedo para a cara de John e fala:
— Você não é responsável pela maldade dos outros, John! Nós da vila decidimos te proteger por vontade própria! Ninguém nos obrigou! Pare de nos tratar como incapazes ou estúpidos mesmo depois de nossa morte! Nádej significa esperança! E não covardia! Pare de sentir pena de si mesmo por algo que você não decidiu!
Nesse momento, a visão do cavaleiro, antes turvada pela culpa, começava a se alinhar.
John, mais uma vez, sente um fardo sendo puxado de suas costas. E, mais uma vez, é a garota da vila de pescadores que puxa esse fardo. O cavaleiro olha para baixo e vê que suas mãos pararam de tremer. Seus olhos, antes vazios e duvidosos quando deixou Nádej, começaram a brilhar novamente.
Tessia estufa o peito e diz:
— Hum, parece que finalmente entendeu, hein, velhote!
O cavaleiro sorri e diz:
— Hum, pirralha abusada... Saiba que ainda tenho trinta e dois!
Ambos se olham e confirmam que, mesmo em mundos diferentes, ainda são inseparáveis. John se levanta e sua postura volta a ser firme e inabalável. Porém, o corpo de Tessia começa a desaparecer em fragmentos de luz azul. Então ela diz:
— É, parece que eu fiz o que tinha que fazer! Meu tempo acabou, John!
John então fica cabisbaixo, mas entende a situação e diz:
— Manda um abraço pro velho Hank por mim.
A garota ri dizendo:
— Hihi, você continua sendo mesmo o pau mandado do vovô!
Antes de desaparecer completamente, Tessia desfere um tapa nas costas de John e grita:
— Pega esse leão, grandão!
John responde à altura:
— Pode deixar, pirralha!
Após isso, Tessia desaparece. O tempo volta a andar. Agora com John de pé na arena, de forma inabalável. Rokar, que há poucos segundos estava decepcionado com John, percebe na hora a mudança de espírito do cavaleiro. E diz:
— Você... está completamente diferente de agora há pouco! O que você fez?!
John sorri e fala:
— A pergunta certa é: o que eu vou fazer, Rokar! Acho que eu tinha prometido um casaco de pele de leão, não é mesmo?
Rokar gargalha e fala:
— Hahaha, seu espírito pode estar mais alegre agora. Mas o que isso muda na realidade?!
John responde, sereno:
— Vamos ver...
O cavaleiro então assume uma postura de luta diferente. Algo que ele não fazia há muito tempo. Mais precisamente, na sua época como aprendiz.
O leão então observa, e estremece. Rokar coloca seus sentidos em alerta máximo e seus músculos ficam tensos como rocha. Então ele diz com voz pesada:
— Seu... Como... como você conhece essa postura?!
O cavaleiro então responde:
— Isso? É algo que meu mentor me ensinou. Mas nunca usei de verdade. Achava muito complicado e chato.
Rokar então fala, exaltado:
— Seu mentor?! Seu desgraçado! O último que vi com essa postura foi...
John então, em um piscar de olhos, avança sobre o leão. Que, em retaliação, mira seu punho contra o cavaleiro e desfere um poderoso soco. Mas John, em uma fração de segundos, agarra o braço de Rokar e o torce, jogando-o contra o chão. O impacto é seco e devastador. A arena se racha ao meio e o som ecoa por toda a floresta. John então recua e, assumindo novamente sua nova postura, diz:
— Esse... é o estilo de luta imperial desenvolvido por Sir Zilion. Estilo Gladka!
O rumo da batalha parece mudar após o enfrentamento do passado.
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