CINZAS E BRUMAS

58 DRACO E INDESCRITÍVEL


Com o ombro ferido e sangrando intensamente, Mirabel cambaleia, enfraquecida pela perda de sangue. Um dos moradores, abrigado nos escombros, fala perplexo:


​— O-o que ela fez? Será que ficou maluca?


​Outro grita, com a voz trêmula de pavor:


​— Nã-não se deixem enganar! Ela claramente está encenando! Afinal, ela é de Mahuma, uma draco!


​A princesa, de cabeça baixa e arfando de dor, cochicha para si mesma:


​— Draco isso, draco aquilo...


​O mesmo homem pergunta com hostilidade:


​— O que você disse, aberração?!


​Em um grito sincero, visceral e devastador, Mirabel explode:


​— NÃO ME INTERESSA NADA DISSO!!!


​O grito fora do comum gela o sangue de todos os aldeões escondidos ao redor. Em voz firme e com uma expressão inabalável, a draco continua:


​— Não me interessa se vocês odeiam os dracos ou se não gostam de mim só por eu ser quem eu sou! A metros daqui, pode ocorrer uma catástrofe que varrerá tudo! Um cavaleiro e um mago estão colocando as próprias vidas em risco para salvar vocês... para me salvar! Se vocês ignorarem isso, vão desonrar a coragem absoluta deles! Se não for por mim, por favor... saiam daqui por eles!


​Todos ficam em um silêncio sepulcral. O homem que há pouco a acusava tenta retrucar, encolhendo-se:


​— Ma-mas... Você é uma inimiga dos elfos...


​Com o sangramento piorando, Mirabel luta bravamente para manter a consciência. Ela diz, com uma calma assustadora:


​— Se me temem tanto assim, fujam daqui, e eu não sairei do lugar.


Fazendo exatamente como diz, a princesa cai de joelhos e fica imóvel com sua consciência a sumir.


​Neste exato momento, uma velha anciã da vila sai de sua moradia em ruínas e vai andando a passos lentos até Mirabel. A pequena elfa olha para o estado lamentável da princesa e, por fim, pergunta:


​— Por que faria algo assim por pessoas que nem são do seu povo, jovem?


​Com os olhos se fechando e perdendo as forças, ela responde com um sorriso sereno:


​— Ora, vocês continuam sendo pessoas... não é mesmo...?


​Após a fala, a princesa draco cai completamente desacordada na terra ensanguentada. A pequena anciã fica perplexa com a pureza da resposta da jovem. Imediatamente, ela ordena com firmeza:


​— Vamos, fujam de Zelena! Levem esta jovem conosco e cuidem do ferimento dela!


Um dos homens se opõe retrucando:


-Como é!? Mas ela...


Sem mais paciência, a velha grita com raiva:


-CALE A BOCA SEU IDIOTA! SE QUISER VIVER, FAÇA OQUE ESTOU FALANDO!!!


​Sem mais questionar, os moradores saem de seus esconderijos e carregam Mirabel, agora desmaiada, para longe do banho de sangue.


​No olho do furacão, o General Ron percebe o distanciamento da princesa. Com urgência assassina, ele rosna:


​— Isso eu não posso permitir!


​Em alta velocidade, ele se vira para persegui-la, mas um calafrio repentino sobe por sua espinha. John está exatamente em seu encalço, com o fio inquebrável da Rezarti mirando a nuca dele. Como um vulto contorcido, o draco desvia da lâmina no último microssegundo. Ele recua, pensando, alarmado:


​Ele... ficou mais rápido?! Como isso é possível?! É só um humano!


​Assim que o pensamento cruza sua mente, Ron percebe uma brusca queda de temperatura no ambiente. Dezenas de espinhos gigantescos de gelo se materializam sobre a sua cabeça, prontos para despencar. Ele fala, surpreso com a resistência dos inimigos:


​— O mago... Ele ainda tem energia para isso?!


​Sike grita ao longe, do alto da barreira:


​— FICA EM CHOQUE NÃO, SEU LAGARTO!!!


​Os espinhos maciços descem em velocidade terminal, bombardeando o alvo e fazendo o chão de Zelena tremer violentamente. Em meio a um nevoeiro gélido e cortante, raios negros explodem, despedaçando as estacas de gelo. O general ressurge ileso, porém nitidamente irritado. Ron fala, presunçoso:


​— Não se ache demais, maguinho!


​Ele aponta a mão na direção de Sike para disparar uma rajada elétrica letal. Porém, John intervém como um cometa, transpassando o fio da espada anã direto no braço estendido de Ron. A lâmina crava na carne dura. O general arregala os olhos de espanto, enquanto o cavaleiro abre um sorriso zombeteiro e provoca:


​— Você... ia fazer alguma coisa com essa mão?


​Com um rugido estrondoso que abala a estrutura do local, Ron explode:


​— COMO OUSA, INSETO!!!?


​Uma brutal rajada de choque negro rompe do corpo do draco, quebrando a ofensiva de John. O impacto monstruoso acerta o cavaleiro em cheio, arremessando-o pelo ar até ele colidir e rachar a barreira de gelo nas costas. Sike grita, desesperado com a pancada sofrida pelo companheiro:


​— John! Tá vivo?!


​Com grunhidos pesados de dor, o cavaleiro se levanta, espanando o gelo da armadura e resmungando:


​— Urgh... Tô... Mas você bem que poderia ter defendido essa, moleque.


​O mago responde, com as veias saltadas de raiva:


​— Tá achando que minha mana dá em árvore, é?!


​O General Ron olha fixamente para o próprio braço, sangrando pelo ataque profundo da Rezarti. Há muito tempo ele não presenciava a cor do seu próprio sangue. O draco fica perplexo, e a confusão logo se converte em indignação absoluta. Em uma fúria repentina e bestial, ele berra:


​— NÃO... EU NÃO TOLERAREI MAIS ATRASOS PARA MAHUMA!!!


​John e Sike percebem a mudança drástica na pressão atmosférica e ficam em posição de alerta imediatamente. Com a ira transbordando de seus olhos, Ron proclama:


​— VOCÊS... NÃO SÃO DIGNOS DISSO! MAS EU NÃO POSSO TOLERAR PERDER A PRINCESA NOVAMENTE!!!


​O céu acima de Zelena escurece de forma assustadora. Relâmpagos negros rasgam os ares em uma tempestade agourenta. Sike, focado na anomalia e engolindo em seco, diz para John, misturando o humor típico com o puro pavor:


​— É... parece que irritamos ele de vez.


​O cavaleiro responde, segurando sua espada com as duas mãos e o suor escorrendo pelo rosto tenso:


​— Parece que sim... Agora vamos ter que segurar o tranco.


​Após ser engolfado pela tempestade de relâmpagos sombrios, o General Ron revela uma nova e aterrorizante forma. Com imensas asas negras brotando de suas costas e garras banhadas em pura eletricidade destrutiva, ele anuncia, com a voz reverberando como um trovão distorcido:


​— VEJAM E TEMAM, HUMANOS! VOCÊS ESTÃO DIANTE DE UMA FORMA PRIMORDIAL!!!


​Emanando um poder sem precedentes, o draco se consolida como uma força indescritível e esmagadora perante os mortais no campo de batalha.