(CDZ)Diligit quod transcendit
8 Cap. 7 A solução de onde menos se espera
Notas iniciais
Eliza: Supondo que eu não pense que estejamos tendo uma alucinação coletiva e diga que sim... o que pensam em fazer agora?
Mila me encarou tão perplexa que eu não pude deixar de sorrir ante a ingenuidade dela.
Eliza: O que pensou? Que eu ia dizer que lindo e vivam esse amor? Não, Mila. Me pergunto o que farão. Não é como se isso fosse um filme onde tudo termina bem e nada acontece quando alguém morto reaparece, mas é bem diferente. Vão fazer o que agora? Se mudar? Esconder Mu no porão? Fugir do Deus que vocês dizem respeitar acima de tudo? O que farão?
Mila: Você realmente sabe como estragar a felicidade dos outros, Eliza.
Eliza: Não. Sei ver os problemas e trazê-los a tona antes que eles apareçam por si só. E não sou apenas eu. Mu parece pensar exatamente nisso.
Ele ergueu os olhos e encarou para mim. Pela primeira vez, desde que nos conhecemos, fomos cúmplice em alguma coisa. Shaka, que parecia ter se abstido de se manifestar, deu um suspiro profundo.
Shaka: Eliza tem razão. O que pensam em fazer? E como fazer?
Mila: Ainda não sabemos. (ela mordeu o lábio) Podíamos nos mudar para fora do país, em um lugar onde ninguém nos conheça... para Mu não precisar ficar escondido... talvez Londres ou... outro lugar.
Eliza: A morte de Mu foi um trágico acidente. A notícia foi televisionada para vários países, a foto dele saiu nos jornais. Acha mesmo que ninguém irá reconhecê-lo, não importando o local, Mila? Isso é impossível.
Mila: Então o que quer que eu faça? (ela se ergueu e gritou) Não sei o que fazer, simplesmente não sei. Apenas sei que estou feliz por Mu ter voltado. Isso me basta.
Eliza: Basta? Realmente basta? Um fantasma na sua vida te basta, Mila? Não pode se conformar com a morte de Mu e prefere ter um fantasma, que provavelmente sofrerá limitações em todos os planos?
Mila: Ele não é um fantasma, é um anjo. E... sim, isso me basta. Sua amargura atingiu proporções tão grande Eliza, que você está começando a querer a infelicidade dos seus amigos.
Me preparei para retrucar. Contudo, a voz de Mu ecoou.
Mu: Basta! Chega, Mila. Nós dois sabemos que Eliza tem razão.
Mila: Mu... mas você disse...
Mu: Eu posso ter dito o que você queria ouvir, mas isso não quer dizer que não pensei em toda e cada consequência. O preço que pagaremos é caro demais. Eliza e Shaka me viram. Não posso mais voltar atrás da decisão que tomei, não poderei contar mais com Deus. E provavelmente sofrerei um terrível castigo por ter escolhido este caminho, e você também, Mila, por ter me incentivado a tomá-lo.
Eliza: Engraçado... (não pude me conter) sempre pensei que o Deus fosse um Deus de amor.
Mu: E é. Mas até os mais piedosos podem perder a cabeça quando as coisas tomam tais rumos. O que fizemos foi errado e cometeremos mais erros até esse dia acabar. Não podemos passar impunes a isso.
Achei melhor não perguntar que erros seriam aqueles.
Eliza: O que acha que acontecerá com vocês?
Mu: O Inferno para ambos, provavelmente... eu estou morto, perderei a condição de anjo... e Mila irá para o mesmo caminho quando o dia chegar. E pensar que tudo isso começou justamente para evitar isso... evitar que ela fosse se matar e ir para o Inferno...
Ele baixou a cabeça e começou a chorar. Pelo que exatamente? Por ter traído ou seus princípios ou por ter falhado em sua missão? Senti pena dos dois. Vi que Mila o abraçava e o apertava com força. E vi que apesar de seus sentimentos, ele a abraçou com força, ainda feliz de estar junto a ela, mesmo que aquilo não fosse durar.
Mila: Se no fim formos nos encontrar lá... valerá a pena, Mu, sempre vale a pena. Eu te amo, não importa onde nem quando, eu simplesmente te amo...
Vi que Shaka m encarava e desviei o olhar. Agora não era o momento para pensar em mim ou nele e sim na situação onde estávamos.
Eliza: Talvez você esteja enganado... não existe o famoso livre arbítrio? Quem sabe esse era um direito seu? Querer voltar?
Mu: O que quer dizer com isso, Eliza?
Eliza: Simplesmente isso, Mu: não perca a esperança.
Eu quase ri ao dizer aquilo, admito. Logo vindo justamente de mim. Mu me olhou com uma cara de descrença, mas eu não dei atenção. A chuva havia aumentado, assim como meus pensamentos. O mundo acabara de provar que eu estava errada e que havia bem mais coisas do que minha vã filosofia poderia imaginar.
Pensaria isso naquela noite, quando estivesse deitada em minha cama. No momento tudo o que eu queria era ficar sozinha.
Eliza: Acredito que todos nós devemos descansar. Foi um longo dia.
Mila: Não sei se devo... devo levar o Mu para minha casa?
Shaka: Acredito que não, afinal... todos conhecem vocês lá.
Mu havia voltado a ficar em silÊncio.
Eliza: Pensemos nisso amanhã. A verdade é que estou cansada demais para me mexer e pensar. E de qualquer maneira, está chovendo demais e provavelmente a estrada leste estará interditada. Durmam todos aqui em casa. Amanhã pensaremos no que fazer.
Mu me encarou. Sorriu com suavidade.
Mu: Me ajudará realmente, Eliza, ou pensará em uma maneira de me afundar em definitivo? Nem mesmo a morte livrou você de mim.
Eliza: Não me preocupo com você há muito tempo, Carneiro. É com a sanidade da Mila que me preocupo. Fiquem com o quarto de hóspedes. Há uma cama de casal lá. E se não respeitaram as ordens divinas, duvido que respeitarão minha casa. Não que eu me importe com isso.
Mila sorriu suavemente. Mu a segurou pelo braço.
Mu: E se estiver certa a respeito das minhas limitações?
Eliza: Você tentará mostrar com tudo, aposto, que não tenho razão.
Mu riu. Segurando a mão de Mila, ambos seguiram para o quarto. Suspirei e então me voltei para meu quarto. Não conseguia encarar Shaka.
Eliza: Pode ficar com o outro quarto. É perigoso sair de carro com uma chuva dessas.
Shaka: Eu sei. Mas não quero impor minha companhia.
Eliza: Suportarei, Virgon. Embora admito, é incomodo ter que encará-lo depois de tudo que aconteceu.
Shaka: Imagino.
Eliza: Não, você não imagina. Na realidade você não sabe de nada. Boa noite, Shaka.
E saí.
No quarto de hóspedes, Mila e Mu estavam deitados, ainda vestidos. A chuva havia feito a temperatura cair e começou a fazer frio. Mu a abraçava, por baixo dos edredons. Mila, com a cabeça apoiada no peito dele, tinha a estranha sensação de não sentir o coração dele bater, nem sua pele se aquecer com as cobertas. Era estranho. Estranho demais. Observando o silêncio dela, Mu se mexeu.
Mu: No que está pensando? No que vai acontecer agora?
Mila: Não, em absoluto. Na realidade pensava em como era estranho... não sentir sua pele esquentar, não ouvir seu coração... eu me esqueci, realmente, que você estava morto... com tudo o que aconteceu.
Ele suspirou. Realmente, era tudo estranho demais.
Mu: Não poderei mudar isso. Eu pensava exatamente em coisas como essas quando quis deixar você. Mas você pegou em um ponto delicado, Mila... posso deixá-la, posso sofrer eternamente para fazer o certo... mas não posso deixar que duvide do amor que senti por você. Não quando precisei prová-lo todos os dias, para que pudéssemos ficar juntos.
Mila: Eu nunca duvidei... (ela o tocou no peito) nem mesmo no começo, quando havia tantas incertezas... mas eu precisava fazer vocÊ ficar do meu lado.... eu sempre precisei de você. Não me preocupo com o amanhã, Mu, eu juro... apenas quero ficar do seu lado por hoje.
Mu sorriu, com relutância.
Mu: Você não precisa se preocupar com o amanhã. Eu me preocupo por nós dois.
Ela se ergueu no cotovelo. Fitando o rosto do marido, Mila tocou seu rosto com uma das mãos.
Mila: Mas não por hoje. Poderei enfrentar até mesmo Deus em pessoa amanhã, mas essa noite quero dormir com você, sem me preocupar. Se lembra, Mu? Chovia na noite em que nos conhecemos. Exatamente assim...
Mu a abraçou, apertando-a contra si e a fez se deitar novamente.
Mu: Para mim choveu em todas as noites antes de conhecê-la. Quando a conheci a chuva simplesmente... passou.
Ele a beijou com doçura, assim que terminou de falar. Mila o apertou com força, tentando se ajustar ao corpo de Mu. Ele a cobriu com o seu corpo, aprofundando o beijo, abrindo gentilmente seus lábios com a língua, a beijando de maneira mais íntima. Suspirando, Mila sentiu a pele esquentar e os batimentos do coração aumentar, mas Mu, exceto pelo brilho em seus olhos, estava impassível.
Mila: Mu... faça amor comigo... me deixe lembrar como era estar ao seu lado.
Mu: Mila... não sei se devemos. Quero dizer... é tudo tão estranho. Eu estou morto.
Mila: Não. Você está aqui. Está do meu lado. Eu posso sentir você, posso tocar você. E mesmo que não sinta suas reações, sei que está tão emocionado quanto eu.
Mu: Mila...
Mila: Shhh. Só me abrace, querido. Deixe o resto acontecer. Não me preocupo se isso é pecado... não me preocupo com o pecado há muito tempo. Quero apenas ter você de novo comigo. Se lembra, Mu? Naquela mesma noite? Também chovia. E você me beijou, perguntou se eu queria aquilo mesmo, se não devia deixar para depois....
Ele voltou a beijá-la, as mãos percorrendo seu corpo com delicadeza. Mila deixou ele despi-la, se livrando das roupas amarrotadas e amassadas de um longo dia. Ela, hesitante, retirou as peças dele, achando que as mesmas se desfariam no ar, como um sonho. Ficou surpresa quando as roupas caíram no chão, sólidas, ainda existente.
Nus, eles se encararam, como se fosse a primeira vez, não como se fosse um reencontro.
Mila: Eu te amo, Mu. Você sempre será o único para mim.
Mu: Você sempre foi a única, Mila. Sempre será. Eu sempre te carrego em meu coração.
E palavras não precisaram mais ser ditas. Com um arremesso suave, ele a penetrou, iniciando o ritual de amor. Nesse exato momento, tento desviar meus pensamentos para outro ponto. Acho que me intrometi em intimidades demais. Mas mesmo assim, essa é uma cena que marca esta história.
Enquanto isso, eu me alevantava da cama e ia para cozinha. Não conseguia dormir e os gemidos baixos do quarto ao lado tampouco me serviam para me deixar em paz. Resolvi tomar um copo de leite quente, a fim de me acalmar e pensar no amanhã. Um amanhã sem futuro, para todos os que se encontravam naquela casa.
Eliza: Bem, (pensei) ao menos no plano sexual as coisas entre eles vão funcionar muito bem. Mas... e quanto ao resto?
Separando o leite, coloquei o copo no microondas e apertei o botão para esquentar. Enquanto me escorava na cozinha, os cabelos caindo em minha cara, senti uma movimentação. Me voltei e lá estava Shaka, de pé, na minha frente, apenas de calção, me encarando.
Shaka: Também não consegue dormir?
Eliza: Não. Acredito que nessa noite ninguém dormirá.
O microondas assinalou o fim do tempo e peguei meu copo. Tomei um gole do leite e ofereci a Shaka.
Eliza: Quer?
Shaka: Não, obrigado. Tenho aversão a Lactose.
Eliza: É mesmo? (estranhei) Eu não sabia. Calculo que seja mais uma das coisas que não saiba ao seu respeito.
Me voltei para a pia da cozinha, bebendo o leite. Shaka se aproximou mais de mim.
Shaka: Realmente não sabemos nada um do outro. Mas... creio que está na hora de resolvermos isso, não é verdade?
Eliza: Creio que nossa chance passou... há dois anos, Shaka. Você a deixou passar.
Shaka: Eu sei. E sinto muito. Deveria ter dado uma chance para você ao menos me mostrar quem era... sempre a julguei mal, Eliza.
Eliza: Não. Você nunca me julgou mal. Sou o que sou, Shaka. Você simplesmente não me aceitou. Mas... não vale a pena falar sobre isso. O passado está enterrado. Embora alguns vençam a morte, o que não é nosso caso.
Dei uns passos na direção da porta.
Eliza: Vou tentar dormir. Boa noite, Shaka.
Me apressei para sair de lá, mas as palavras seguintes dele acabaram comigo.
Shaka: Eu a amo, Eliza.
Nenhuma, nenhuma mulher deveria ser colocada contra a parede como eu fui colocada por Shaka naquele momento. A confusão, misturada com os sentimentos, sem dúvida me tornava muito vulnerável. Respirei fundo e não me deixei abater.
Eliza: Me ama? Mesmo Shaka? Demorou anos para assumir isso. Mas eu sabia. Acho que sempre soube que no fim você acabaria assumindo que me queria.
Tentei feri-lo com isso.. Mas ele sorriu suavemente.
Shaka: Não é agora em que você me humilha e me dispensa, me mostrando o que perdi? Pelo que eu me lembre foi isso que você jurou naquele hospital... não faz muito tempo. Um dia?
Para mim havia sido como se tivesse passado um mês desde então.
Eliza: Acha que eu sou capaz de fazer isso Shaka? Dispensá-lo?
Eu precisava que ele disesse que sim. Precisava sentir raiva e ódio pelos sentimentos dele, para não fraquejar. Mas aquilo não fora o que Shaka respondera. Na realidade, sua resposta acabou comigo.
Shaka: Há um dia, naquele hospital, sim eu acreditaria que era capaz. Mas hoje... não, nem um pouco. Muita coisa aconteceu. Descobri muita coisa sobre você. Coisas que jamais descobriria se não tivesse acontecido tudo isso. Não queria que Mu e Mila tivessem sofrido tudo isso para eu descobrir que você valia a pena, Eliza. Preferia ter descoberto antes, sem tanto sofrimento. Precisei do sofrimento dos outros para saber que... bom, que eu sem dúvida dei uma de psiquiatra incompetente.
Eu nada disse. Ele continou.
Shaka: Você tem duas opções: escolher seu orgulho, sofrer o resto da vida e me deixar sofrendo também ou parar de se conter e me abraçar, e nós dois pensaremos o que faremos de agora em diante. Sei que não podemos passar uma borracha no passado, mas... podemos começar agora. Eu te dando uma chance de te conhecer e você... mostrando seu lado não advogado frio e calculista.
E agora?
Os instintos me mandavam escolher o orgulho... mas eu sabia que no fim escolheria o coração.
Eliza: Você exige demais, Shaka. Confiança quando nunca confiou em mim.
Shaka: Não lhe peço nada mais do que uma chance, Eliza. O resto virá com o tempo.
Eu tremia. Quem diria que eu, Eliza Hankotsu, A exterminadora, estaria entre a cruz e a espada? Qualquer decisão geraria mais tarde arrependimento e muitos "ses", quando os problemas começassem a surgir. Ao mesmo tempo... eu já sabia como era minha vida sem Shaka. Não sabia como seria minha vida com ele. Sem contar que eu o amava... e, no fim, sempre esperei por aquele momento, mesmo pensando que ele nunca poderia chegar a se concretizar.
Eliza: Se eu aceitasse... bem, você não poderia criticar meu trabalho, meus métodos, meus objetivos... não aceito que me dite um modelo de conduta, Shaka. Nunca aceitei. Terá que me aceitar assim. Má e boa. Amiga e inimiga.
Shaka: Concluí que não sou ninguém para dizer como os outros devem se comportar, a menos que me peçam e me paguem para isso. Eu a amo, Eliza. E Deus, me ajude, mas a amo do jeito que é. Se você mudasse, mesmo que fosse um pouco... não seria você. Terei que conviver com a minha conciência, mas isso não implica em nada no amor que eu sinto por você.
Era difícil de acreditar. No momento eu não acreditei e mais tarde teria me dado conta de que eu também me enganava, e muito, a respeito de Shaka Virgon. Mas, naquele momento, tudo o que eu queria era ficar onde eu sempre tinha sonhado: nos braços e no coração de Shaka.
Eliza: Um bom acordo.
Shaka: Quer que eu assine em duas vias e mande uma para o cartório? Ou será que um beijo selaria isso melhor? Nunca me declarei para uma advogada antes.
Eliza: E eu nunca debati a relação com um psiquiatra antes. Espero não terminar deitada no divã. (me aproximei dele) Eu o amo, Shaka. Sei que isso não irá durar e que mais cedo do que imaginamos vamos nos separar... mas amo você, e quero acreditar que isso será eterno pelo tempo que durar.
Era estranho, mas eu sabia que aquilo não ia durar muito. Como eu sabia? Não sei. Só sei que eu sabia que eu e Shaka juntos era como uma peça fora do quebra cabeça, algo que não devia acontecer. E eu sabia que aquilo terminaria mais cedo do que eu gostaria.
Eu não queria ter razão.
Mas naquele momento, meus pensamentos se perderam com os beijos que trocamos. Com as declarações que sussurramos. E, depois de algumas horas eu finalmente consegui dormir, em paz, coisa que nunca conheci antes.
Mas eu tinha razão. Realmente não durou.
E não foi por nossa culpa.
–--
Ao amanhecer, enquanto eu ainda dormia e Mila e Mu planejavam o futuro, Deus finalmente terminara de ver o que Vênus armara. Ela sorriu, vitoriosa e ergueu as mãos.
Vênus: Você não pode mais negar. O mundo entrou em colapso. Um anjo e uma humana, um morto e uma viva. Você não tem escolha. Terá que lhe fazer o que sugeri.
Deus: Isto é fato. Não vejo mais solução para isso. Mas, você sabe... não é apenas a vida de Mila e Mu que está em jogo. Há outras pessoas cujas vidas mudarão, e muito, com o que faremos.
Vênus: Ninguém precisa sair infeliz disso, se Você fizer o que eu disse.
Deus: Vênus, isso inclui a vida dos outros dois. Se eles não aceitarem, então nada poderemos fazer.
Vênus: Eles aceitarão. Acredita realmente que quereriam ser felizes à custa dos amigos? O mundo não está perdido, ainda existe amizade verdadeira.
Deus: Não tenho certeza. Eu não diria que a moça iria para o céu. Talvez um purgatório. Ela foi realmente ruim em vida e pode se preocupar mais com ela do que com os demais.
Vênus: Nota-se que Você não conhece os corações dos humanos. Menos ainda os das mulheres. Simplesmente faça a proposta. Veremos se aceitarão ou não. Todos precisam aceitar.
Deus: E se não aceitarem?
Vênus: Aí lavo minhas mãos. Se bem que, tendo em vista o caos que armei, se eles se recusarem você pode fazer outro dilúvio... e juro que não me meterei mais em seus assuntos.
Mu fora o primeiro a acordar. A chuva havia passado e raios de sol brilhantes entravam pela janela do quarto. Ele suspirou. Teve uma sensação estranha. Como se algo bom e ruim fosse acontecer ao mesmo tempo. O ruim, ele sabia que aconteceria em breve. E sabia que teria que confrontá-lo cedo ou tarde.
Ele se ergueu da cama e beijou Mila suavemente na testa. Ela não acordou. Sem fazer barulho, Mu se vestiu, ainda olhando os raios de Sol. Sabia que Ele não demoraria. E queria estar lá antes dele chegar.
Saiu do quarto sem fazer barulho. Não queria Mila junto a ele naquele momento. Se fosse sofrer as consequências, sofreria sozinho. Mila teria que ser poupada.
Fechou a porta suavemente e olhou ao redor de minha casa. Não viu ninguém. Eu estava com Shaka em meu quarto, adormecida. Tampouco o ouvi pegar a chave e sair.
Minha casa possui um grande gramado, cheio de flores e plantas diversas. Mu caminhava entre o jardim, passeando, fitando o local com atenção. Ele sorriu ao ver rosas brancas. Presumo que tal qual como Shaka, achou que minha casa daria direto para os portões do inferno. Bem, não posso culpá-lo por isso.
Ele parou na frente de uma árvore. Suspirou. Fechou os olhos e esperou. Quando os abriu, Deus, em sua forma humana estava na sua frente. Mu o encarou. E ficou surpreso ao ver um pouco de divertimento no rosto de Deus.
Deus: Então... você não só Me desobedeceu como voltou para ela e cometeu o maior pecado imaginado pelo homem e pelos anjos. Está pairando entre dois mundos.
Mu: É verdade, Senhor.
Deus: E agora veio ao Meu encontro, sabendo que eu estaria aqui tão logo isso acontecesse? E não pensou em fugir? Vai simplesmente arcar com as consequências?
Mu suspirou.
Mu: Fugir seria perda de tempo. Ainda mais quando é Deus que está no nosso encalço. E tem a consciência também. Enfim, aceito meu castigo. Mas tudo o que lhe peço é que não puna Mila.
Deus: Por que não deveria puni-la? Ela foi quem começou esta confusão. Você estava decidido a não ceder, mas cedeu por ela. Ela é quem o fez fazer tudo isso. Na minha concepção, ela mais do que todos, merece uma punição.
Mu: Puna apenas a mim. Eu a segui porque quis. Era óbvio que nada isso ia dar certo. Mas... eu a amo, como nunca amei ninguém. Foi por isso que me lembrei. Foi por isso que desisti de lutar contra ela. Sei que a melhor punição para mim era vê-la sofrer, mas eu Lhe imploro... se o Senhor é um Deus misericordioso, puna apenas a mim. Deixe Mila em paz. Por favor.
Deus: Então... você veio aqui para ser um sacrifício? Se sacrificar e pedir clemência para Mila?
Mu: Exatamente. Não a quero ver sofrer mais do que já sofreu.
Deus o fitou com atenção. Parecia estar observando Mu atentamente. Suspirou e o encarou, ainda divertido.
Deus: E se eu aceitasse sua proposta, Mu... o que me oferece para eu não punir Mila?
Ele ia responder. E eu sei hoje, Deus sabia que a oferta seria irrecusável. Mu lhe ofereceria sua alma. E isso é algo que poucos, exceto os que realmente estão desesperados, podem oferecer.
Mas acontece que ele nunca pronunciou as palavras.
Uma chuva de cabelos loiros irrompeu pelo jardim. E em seguida, o corpo de Mila surgiu na frente de Deus. Ela não parecia abatida nem desesperada. Uma firme resolução tomava conta de seu rosto.
Mila: Ele não lhe oferece nada. Nós dois arcaremos com a consequência juntos.
Mu: Mila, por favor, volte para a cama. Deixe que eu resolvo isso.
Mila: Não. Você não irá fazer nenhum sacrifício idiota, Mu. Sei porque saiu evasivo da cama esta manhã e resolvi segui-lo. Sabia que Ele veria e queria aceitar tudo isso sozinho. Não. Nós fizemos isso tudo juntos. Vamos pagar juntos.
Acredito que ninguém falou durante muito tempo. Todos ficaram se encarando, pensando no que aconteceria em seguida. Mu sabia que seria inútil insistir e pedir clemência na altura dos acontecimentos. Deus permanecia quieto, olhando o casal. Mila, a despeito da fraqueza que demonstrara nos dias anteriores, tinha uma vontade férrea. E eu, naquele exato momento olhava pela janela e via a agitação no meu jardim. Me desvencilhei de Shaka, sem incomodá-lo e saí, a procura deles.
Não sei o que me fez tomar tal decisão. Mas sabia que ela tinha sido bem acertada. Enquanto eu me arrumava, a conversa voltou a fluir. Naquele momento, apenas a intuição me movia, mas hoje, sei que havia algo muito maior em ação.
–-
Deus: Há tempos não via isso. Já faz muito tempo que os humanos pensam apenas em si mesmos, capazes de aceitar tudo para se livrarem dos castigos. Mas você... (olhou para Mu) quer aceitar seu castigo sozinho a fim de poupá-la. E você (olhou para Mila) quer pagar pelos seus erros junto com ele. Incrível.
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