CDZ: A Era dos Extremos
1 Prólogo
Notas iniciais
1928, Grécia
Santuário de Atena, interior do Salão do Grande Mestre
O salão estava completamente vazio quando a Santa de Peixes atravessou a porta dupla de carvalho. A armadura de ouro protegia a maior parte da pele morena dessa guerreira, de aproximadamente 1,73 metros de altura e vinte e quatro anos de idade. Seus cabelos lisos e compridos eram escuros como a noite, e a feminilidade de seu rosto estava escondida por uma máscara de ouro branco que ostentava uma gema de água-marinha em forma de lágrima incrustada na região da testa.
De forma silenciosa, a mulher encerrou sua marcha no espaço em que deveria esperar pelos seus irmãos de dever, ficando parada e olhando para parede como se fosse mais um dos pilares de mármore daquele salão. Sendo a guardiã da Casa de Peixes, era comum que ela fosse a primeira a responder àquele tipo de convocação. A pisciana não tinha certeza sobre quantos cavaleiros de ouro estavam no Santuário naquele momento, ela mesma havia retornado há menos de um dia, e todas as casas que visitara durante a travessia estavam vazias.
Passaram-se menos de quinze minutos desde a chegada dela até que as portas do salão se abrissem novamente. O homem que surgiu entre elas era o orgulhoso Santo de Leão, vestido com a majestosa armadura de ouro e a capa branca e longa presa aos ombros. O cavaleiro não parou ao lado da pisciana e sim de frente para ela, com uma distância de aproximadamente um metro e meio, encarando-a com um olhar intimidador.
— Não há mesmo como ser mais pontual que você, Yara de Peixes – disse ele, com um quase desdém, – estou muito atrasado?
— Quinze minutos. Se quiser ser o primeiro, recomendo que saia de casa mais cedo, Ludwig de Leão – ela respondeu, olhando para ele com a expressão vazia da máscara.
Com cerca de 1,86 metros de altura, Ludwig era um homem branco, de cabelos curtos e loiros, e um rosto em formato de diamante. Seus olhos eram cinzentos e maliciosos, e o corpo era musculoso como o de um herói grego. Sua barba havia sido feita há pouco tempo, Yara percebeu através da fragrância de loção que empesteou o salão.
— Pelo visto nossos colegas possuem afazeres mais importantes que participar da União Dourada. Espero que o velho se contente com nós dois – o leonino comentou, cruzando os braços.
Yara não sabia dizer o quão terrível aquilo soava. De todos os irmãos de dever que tinha, o leonino era o último com quem ela gostaria de trabalhar.
— O que pode ser mais importante que atender ao chamado do Santuário? – uma voz de mulher emergiu do meio do salão. O leonino tinha deixado as portas abertas e a Santa de Ouro se introduziu de maneira tão silenciosa que ninguém notara a sua presença.
— Ora, se não é a princesa das doze casas – Ludwig anunciou enquanto a mulher se posicionava ao lado de Yara. – É um prazer vê-la outra vez, Anastásia de Câncer.
Prestes a completar 27 anos, Anastásia era a menor entre os três presentes, tendo pouco menos de 1,60 metros de altura; os seus cabelos caíam sobre os ombros e através das costas em uma cascata volumosa de fios castanhos claros, levemente avermelhados quando expostos à luz do sol. A máscara que cobria o seu rosto era de um branco pálido, sem vida, diferente da máscara de Yara, cujo material cintilava à luz do archote.
— São tempos de paz. Não consigo imaginar aonde todos eles foram, mas devem estar fazendo algo importante – A pisciana respondeu. Anastasia não era alguém que ela pudesse chamar de amiga, mas era melhor tê-la ali com eles do que ficar sozinha com o cavaleiro de Leão.
Ludwig sorriu.
— Você é tão romântica, Yara. Espera demais desses patifes. Se ordem e disciplina existiram nesse lugar algum dia, ficaram no passado.
— Eles são nossos Irmãos. Se não confiar neles, em quem mais confiaria? – ela rebateu.
— Irmãos... – Anastasia murmurou ao lado. – Eu tive irmãos uma vez, mas estão todos mortos agora. Assassinados por homens como o Santo de Touro. Então não, não consigo enxergar nenhum de vocês dessa forma.
O alemão gargalhou de onde estava.
— Viu, Yara? Nosso sangue de plebeu talvez não seja digno para Vossa Alteza.
Nesse instante, o Grande Mestre atravessou as cortinas, atraindo os olhares do trio. Os dourados ajoelharam-se prontamente enquanto o Papa se dirigia ao majestoso trono de ouro.
— Senhores, fico feliz que vocês tenham recebido meu convite – Shion os cumprimentou. Estava usando a túnica branca dos tempos de paz e o enorme elmo dourado na cabeça, de onde os cabelos grisalhos caíam sobre os ombros cansados. – Chamei-os aqui porque a leitura das estrelas tem me preocupado. E não somente elas.
O patriarca dos 88 cavaleiros sentou-se em seu trono, os santos presentes abandonaram a posição de reverência, colocando-se de pé.
— Hades? – Ludwig perguntou, num tom vacilante.
— As últimas décadas têm sido um lamentável banho de sangue. Uma grande guerra aconteceu há poucos anos, assim como uma terrível peste, sem contar as crises que estão lançando milhões ao desespero da fome. Os humanos se lançam uns contra os outros com uma avidez assustadora, dia após dia, desenhando um cenário tão terrível que poderia ser obra de um Deus.
— Mas não é – interveio Anastásia. – Todos os desastres recentes são consequências das ações humanas.
— Você está certa. No entanto...
Ludwig lançou um olhar esperançoso para o velho mestre.
— Chegou o momento da gente finalmente interferir? Com o nosso poder, a humanidade seria controlada pelo Santuário e marcharia para o caminho certo. Nenhum Império, por mais poderoso que seja, seria capaz de nos desafiar – disse ele.
— Nosso dever como Santos de Atena é proteger a Terra das forças do mal, e o dever de vocês em especial é de preparar as novas gerações para uma futura Guerra Santa – respondeu o Grande Mestre, – continuará sendo assim até nossa deusa reencarnar nesse mundo. Isso ainda pode demorar, vocês estão cientes desse fardo, mas... Ouçam, chamei-os aqui porque temo que a conjuntura desse século esteja favorável ao retorno de um inimigo tão temido por Atena quanto Hades ou Poseidon. Falo do seu irmão, Ares. Que há muito não aparece nesse mundo.
Os cavaleiros trocaram olhares. Yara sentiu um súbito arrepio em seu corpo. Ares não era um Deus que fora ensinada a temer. Quieta em seu lugar, continuou a ouvir o que o Grande Mestre tinha a dizer.
Notas finais
Sim, a canceriana é a Romanov, to brincando aqui com o mito da princesa que desapareceu. Aqui, bem, ela realmente desapareceu, mas porque foi parar no Santuário.
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