C.D.T. - O homem que vive nas sombras
11 Capítulo 11 - O purgatório de aço
O inconfundível barulho de algo se quebrando ecoou mais uma vez, só que agora muito mais alto. Um sinistro ruído que todos reconheceram como um grito humano de dor acompanhou aquele som, fazendo um forte calafrio atravessar a espinha de todos os cinco ouvintes.
A fim de descobrir a origem daquele estrondoso som, o quinteto dirigiu-se para o interior da Casa dos Jogos. Só quando finalmente atravessaram o grande portão da entrada eles puderam por fim observar o conflito que já havia começado. Ficaram profundamente surpreendidos quando olharam para a arena, pois o assoalho do campo de batalha estava quebrado em dois lugares diferentes.
O impacto de algo muito pesado se chocando contra o piso havia deformado a pedra da qual ele era feito e como consequência um par de pequenas crateras tinha sido criado no chão. Junto ao segundo buraco — cheio de sangue, entulhos e pedras soltas — um competidor agonizava com a perna esquerda completamente esmagada. O responsável por aquilo era um gigante de pele negra que tinha dois metros e trinta de altura.
— Pelos céus! Nunca vi um homem tão grande em toda a minha vida! – Disse Bill.
Gordo — porém extremamente forte e musculoso — o guerreiro tinha uma espessa barba escura e um cabelo crespo, trançado, que lhe caía até um pouco abaixo dos ombros. Sua arma era uma grande esfera de aço ligada a uma corrente prateada que estava presa a um bracelete que se fechava em torno do seu pulso direito.
— Isso tem de ser algum truque! – Exclamou Arthur, surpreso – Não há como alguém manusear uma arma deste tamanho!
— Eu não duvidaria se fosse você, Normandut. – Replicou Selena – O braço dele é pelo menos duas vezes mais grosso do que sua perna.
— Acredito que afirmar isso seria um exagero, mas devo admitir que esse guerreiro é realmente muito forte. – Concluiu Akio.
Utilizando as duas mãos, o gigante girou a corrente em torno de seu próprio corpo e atingiu o peito desprotegido de um oponente com a esfera. Cuspindo sangue, o pobre homem largou sua espada no mesmo instante e foi arremessado vários metros para fora da competição. Ele nunca mais se levantaria do lugar de onde pousara.
Como se fossem pequenos insetos, os cinco homens remanescentes — assustados e feridos — enfrentavam com dificuldade aquele único e poderoso indivíduo que os mantinha encurralados nos cantos da arena com sua arma de longo alcance.
O colosso era lento e desajeitado, mas ninguém se atrevia a chegar perto de sua mortífera bola de aço. Sempre que um inimigo tentava se aproximar do grande guerreiro, era repelido por um forte giro de sua arma. Aquela distância foi mantida durante cerca de um minuto. Depois desse tempo, Sortudo fez um comentário.
— Talvez vocês ainda não tenham percebido... Mas o grandalhão está começando a ficar em apuros.
— Porque diz isso, amigo? – Perguntou Arthur – Ele continua mantendo os inimigos bem longe de si. Não parece estar em perigo!
— Olhe de novo. – Insistiu o músico.
Bastaram alguns segundos de luta para que a verdade nas palavras do bardo fosse confirmada. O gigante tentou acertar um oponente que estava à sua esquerda com um poderoso golpe de cima para baixo, mas o guerreiro que era seu alvo conseguiu esquivar-se no último instante, de modo que uma terceira cratera foi aberta no chão.
Percebendo o seu erro, rapidamente tentou puxar a corrente de volta para si, porém ela estava presa. Aproveitando aquele momento de fraqueza, um novo inimigo correu ao seu encontro — vindo da direção oposta — e abriu um longo corte em seu braço direito com um veloz golpe de machado. O sangue escarlate saiu do ferimento em grande quantidade.
O portador do machado ergueu sua arma para atacar mais uma vez, no entanto o colosso acertou uma potente cabeçada na testa do seu agressor que fez o homem desmaiar na mesma hora. Gritando, ele arrancou a bola de metal de dentro da cratera com um violento puxão. Apesar de suado, ferido e ofegante, estava pronto para continuar lutando.
Bill falou.
— Nem me atrevo a estimar a quantidade de energia que é necessária para mover esta arma... É impressionante que esse homem ainda esteja de pé!
— Ele está ficando cansado. – Notou Akio – Não vai aguentar muito tempo.
— Concordo, Akio. – Falou Sortudo — Se as coisas continuarem assim, o grandalhão está acabado. Esses quatro que sobraram são mais ágeis e espertos do que aqueles que tombaram, mas devo lembrá-lo que isso nunca foi uma luta de sete contra um. São todos contra todos... Talvez o gigante não precise derrotar sozinho esses últimos lutadores.
Pela segunda vez, era como se o músico estivesse adivinhando o que de fato aconteceria. Um competidor de pele bronzeada e longos cabelos negros sacou uma faca de dentro da bota e cortou o pescoço de um espadachim que se encontrava distraído demais com a ameaça que o gigante negro representava.
Abaixou-se rapidamente – evitando assim uma pancada lateral da bola de aço – e saltou para o lado com uma ágil cambalhota, aproximando-se de mais um oponente. Este portava uma cimitarra, mas não soube manuseá-la com suficiente habilidade. O lutador de pele bronzeada esquivou-se de um corte diagonal e revidou com um chute ascendente que acertou em cheio os testículos do atacante. Aquele golpe – tão covarde e desleal – criou uma abertura na guarda do homem que permitiu uma mortal apunhalada no coração.
No outro lado da arena, mais um estrondo ecoou pelo ginásio. O gigante derrubara um outro lutador com um soco, esmagando-lhe logo em seguida o braço direito com sua pesada ferramenta de destruição. Agora o campo de batalha tinha quatro buracos profundos e somente dois competidores ainda em condições de lutar.
— Parece que agora é agilidade contra força! – Disse Arthur – Vai ser interessante!
O colosso girou a corrente um pouco acima de sua cabeça e logo em seguida a arremessou. A bola de aço atravessou rapidamente a distância que separava os dois lutadores e só não acertou o seu alvo porque o competidor de cabelos negros conseguiu antecipar aquele ataque e esquivar-se da investida com um veloz salto para a esquerda.
Com a faca em punho, levantou-se e correu em direção ao seu inimigo, porém foi interrompido por um novo giro da corrente. Precisou recuar alguns passos para salvar-se do golpe lateral que vinha em sua direção, escapando por muito pouco. Ele percebeu que seria impossível aproximar-se daquela maneira. Seria preciso recorrer a meios... Menos convencionais.
Não era difícil prever os movimentos do gigante já que seus ataques quase sempre seguiam um mesmo padrão. Primeiro ele arremessava a bola, depois puxava a corrente de volta para si e em seguida a girava duas vezes afim de preparar o próximo golpe. No início do combate, todo esse processo acontecia de maneira extremamente rápida e sem interrupções. Agora, porém, o negro estava ficando cada vez mais cansado.
Logo surgiu a oportunidade que o portador da faca tanto esperava para colocar o seu plano em prática. Quando a esfera de metal veio em sua direção — numa diagonal de cima para baixo — ele deu um salto mortal para trás e pousou no assoalho, ileso, enquanto um quinto buraco era aberto no chão. Quando seu oponente estava prestes a puxar a corrente, ele segurou-se nela com as duas mãos.
A força do grande homem mostrou-se inacreditavelmente impressionante, pois ele conseguiu puxar com relativa facilidade não apenas a sua arma, mas também o corpo de seu inimigo. E antes que ele tivesse chance de se arrepender pelo seu erro, seu adversário já explorava a proximidade que obtivera abrindo-lhe um longo corte na coxa direita.
O colosso tentou revidar com um soco na altura do rosto, mas foi inútil. O ágil lutador esquivou-se habilmente e ainda conseguiu ferir com sua lâmina o braço esticado de seu inimigo. Vendo-se cada vez mais em perigo, o gigante tentou golpear seu oponente com a maciça bola de ferro, errando novamente. O guerreiro de pele bronzeada abaixou-se velozmente e perfurou a barriga do seu adversário, fazendo ele cair de joelhos. A isso, seguiu-se um estrondoso grito feminino vindo das arquibancadas.
— Levanta, maninho!
O gigante considerava-se derrotado. O ferimento aberto em sua barriga somado ao enorme cansaço havia exaurido todas as suas forças e aniquilado sua vontade de lutar. Porém tudo mudou naquele instante, quando ele ouviu o grito daquela pequena garota de cabelos crespos e pele escura que deveria ter pouco mais de quinze anos.
O portador da faca preparou-se para efetuar o golpe de misericórdia, mas quando tentou apunhalhar o pescoço desprotegido de sua vítima, foi surpreendido por uma defesa. O negro erguera o braço direito e usara seu bracelete de metal – ao qual a corrente estava ligada – para interceptar a lâmina mortal.
Depois disso, soltou um poderoso grito e trasformou toda a sua determinação em uma força descomunal. Socou a barriga de seu adversário com o braço esquerdo e a força daquele golpe foi tão tremenda que o competidor de cabelos longos recuou vários metros, pousando em uma das crateras enquanto contorcia-se de dor.
Com grande dificuldade, o gigante ficou de pé. Aproximou-se de seu oponente e começou a girar a bola de ferro ao lado do seu corpo, pronto para finalizar aquele homem que não conseguia mais esboçar reação alguma. Preparou-se para o último golpe, mas interrompeu-se com os braços erguidos quando a mesma garota gritou mais uma vez.
— Victor! Não!
A expectativa apoderou-se do ginásio. Num profundo silêncio, todos aguardavam a resposta do gigante barbado que mantinha sua arma erguida, mas não se movia. Aquela tensão durou somente alguns segundos que no entanto pareceram uma eternidade, até que, silenciosamente, o portador da corrente virou-se e começou a caminhar para fora da arena.
Ele decidiu poupar seu inimigo.
Tudo indicava que o resultado da batalha já havia sido decidido, porém a verdade era que o conflito ainda não tinha chegado ao fim. Veloz como um raio, o ágil competidor derrotado levantou-se e correu na direção do colosso afim de feri-lo com sua faca.
Felizmente, a garota havia percebido aquela estranha movimentação e alertou seu amigo com um grito, dando a ele tempo o bastante para se esquivar. Apesar de sua pele não ter sido atingida, o longo corte diagonal rasgou de fora a fora o tecido de sua camisa, revelando não apenas as suas costas, mas também uma espécie de desenho que fora gravado em sua carne com queimaduras de ferro em brasa.
As marcas representavam duas serpentes enroladas uma na outra – provavelmente lutando – dentro de uma jaula. Atrás da jaula, duas linhas paralelas no sentido diagonal que certamente representavam um rio. Quando viu aquela imagem, Sortudo soltou uma exclamação de surpresa e cobriu a testa com a mão direita. Com os olhos arregalados, pronunciou as seguintes palavras.
— Pu Jao... Não pode ser.
— Sortudo... – Começou Akio – o que você...
Um novo estrondo reverberou pela arena, interrompendo aquela corversa. Como não é difícil de imaginar, o lutador de cabelos longos havia cometido um erro terrível. O último erro de sua vida. A pesada bola de aço atingiu seu corpo com toda a força e abriu uma sexta cratera no assoalho. Era evidente que os encarregados da limpeza teriam muito trabalho a fazer. Akio voltou a falar após alguns segundos de silêncio.
— Pu Jao? O que você quer dizer com isso, Sortudo?
— Pu Jao é uma prisão. – Respondeu o bardo – Mas não uma prisão qualquer! É uma masmorra feita inteiramente do mais espesso ferro-negro, o material mais resistente conhecido pelo homem! Longe de ser somente um presídio... Pu Jao é uma fortaleza capaz de impedir qualquer tentativa de fuga ou de invasão.
Ela fica na Nação Rubra e se destina aos chamados traidores, os mais terríveis e temidos inimigos do Imperador. Quando uma pessoa é muito perigosa, muito odiada, ou as duas coisas ao mesmo tempo... É para lá que ela é mandada. Não para cumprir pena ou se redimir com a sociedade... Só quem não tem mais nenhuma chance de recuperação é enviado para lá. O destino dos prisioneiros é apodrecer e morrer, de preferência sofrendo muito para servir de exemplo aos demais. Tradicionalmente, ninguém sai de lá. Ninguém.
Depois disso, Selena falou.
— Então como você explica a presença do nosso amigo grandalhão? Parece que Pu Jao não é assim tão inexpugnável... Ele deve ser um fugitivo.
— Não! – Interrompeu o músico – Eu falei que tradicionalmente ninguém sai de lá. Escalar os altos muros? Absurdo! Passar pelas centenas de guardas? Impensável! Mas mesmo assim... Existe uma, e apenas uma maneira de sair.
— Que seria? – Perguntou Bill.
— O desenho nas costas do sujeito. Todos conseguiram ver as cobras?
Os quatro acenaram positivamente.
— Ótimo. O que elas faziam?
— Acho que estavam lutando. – Respondeu Akio.
— Exatamente! Essa é a única maneira de fugir de Pu Jao, um lugar tão agradável e aconchegante que foi carinhosamente apelidado de “Purgatório de aço”.
— Sortudo... Nada do que você diz faz sentido.
— Logo explicarei. Primeiro, vamos olhar para a arena. Parece que Yuri Ziberman finalmente está conseguindo falar com o vencedor. Estava sendo completamente ignorado até agora, mas a garota que soltou aqueles berros durante a luta agora está ajudando. Me pergunto que tipo de relação existe entre os dois. Será que ouvi ela gritando “maninho”?
— Também ouvi isso. – Falou Bill.
— É com grande alegria que te parabenizamos pela merecida vitória! – Anunciou Yuri, provavelmente pela terceira vez – Como devemos chamá-lo, poderoso guerreiro?
O estádio ficou em silêncio. Novamente, parecia que o gigante não iria responder. Alguns segundos de amarga espera transcorreram até que finalmente a garota negra falou.
— Pode falar, mano... Ele é amigo.
O gigante parecia estar confuso. Lentamente, pronunciou as seguintes palavras.
— Ele... Amigo?
— Sim... Ele amigo. Pode falar.
— Eu... Vic... Tor. Você... Amigo?
Como não sabia o que responder, Yuri escolheu ignorar a pergunta.
— Victor! És o vencedor do sétimo grupo! Deseja continuar na competição?
O lutador pensou um pouco antes de responder. Abaixou a cabeça e olhou para os cadáveres que se amontoavam sobre arena. Depois observou a plateia, pasmo e perdido. Em seguida, dirigiu sua atenção para o teto e o contemplou por longo período. Só então finalmente respondeu.
— Não.
Um grande burburinho fez-se ouvir na Casa dos Jogos. Uma resposta negativa era algo completamente inesperado. A garota de cabelos crespos parecia decepcionada e um pouco irritada.
— Victor! – Gritou ela.
O gigante recuou. Era quase como se o grito da jovem dama o tivesse assustado. Abaixou a cabeça demonstrando o que parecia ser tristeza e voltou a falar quando o barulho da plateia se amainou.
— Victor... Mudou de ideia. Victor vai lutar.
E assim retirou-se da arena. A garota trocou algumas poucas palavras com Yuri Ziberman – que ninguém conseguiu escutar – e foi embora junto com o guerreiro. Eles não voltaram a se sentar nas arquibancas. Ao invés disso, saíram do ginásio.
— Isso foi deveras confuso. – Disse Sortudo.
— Pois é. – Completou Selena – Eu diria que a palavra “confusão” descreve bem. Pelo menos agora temos bastante tempo até todo esse sangue ser retirado da arena. Pode começar a dizer o que você sabe, amigo.
Ao ouvir aquilo, Arthur se manifestou.
— Amigo? Quem disse que Sortudo é seu amigo? Porque chama ele de “amigo” enquanto eu sou “Normandut”?
— Por favor, Normandut... Não se exalte. Acredito que Sortudo tem algumas coisas para explicar. Començando pela relação entre as serpentes lutando na gravura e a única maneira de sair de Pu Jao. Não vejo como as duas coisas se ligam.
— Bem, é complicado. – Começou o músico – Não conheço todos os detalhes da narrativa, mas darei o melhor de mim para prestar esclarecimentos. Vamos lá.
Tudo começou com Lei Xiang, o Terceiro Imperador Vermelho. Na época em que ele viveu, a Nação Rubra estava se expandindo e era composta por apenas dez Divisões, mas já tinha um tamanho considerável e isso acabou se tornando um problema. Algum de vocês consegue imaginar o motivo?
Foi Bill quem respondeu.
— Bem... Eu posso estar errado, mas acho que consigo imaginar um motivo, afinal uma coisa parecida acontece aqui no Império Dourado. Se o território for muito grande, fica difícil para o governo controlar as pessoas que moram nos lugares mais distantes. As tropas, os cobradores de impostos... Tudo, até mesmo as notícias, precisarão percorrer longas distâncias e por isso demoram a chegar.
— Exatamente! – Falou Sortudo, satisfeito – Um território gigante como o da Nação Rubra é muito difícil de controlar. Lei Xiang estava tendo um terrível problema com revoltas e insurreições nas partes mais distantes do seu reino, por isso ele pediu ajuda ao Deus-dragão.
— E depois? – Disse Arthur, demonstrando sua costumeira impaciência.
— Dizem que o Deus-dragão respondeu. O Imperador teve um sonho naquela noite que foi mais ou menos assim: duas serpentes nadavam em um rio de águas claras. Por onde quer que elas passassem, as águas se tornavam negras e poluídas, pois cada uma tinha um grande par de presas que expelia bastante veneno. A presença delas e das toxinas pouco a pouco matavam o rio.
Então chegou um caçador que mergulhou no rio e lutou contra as serpentes, saindo vitorioso. Só que ele não as matou. Ao invés disso, trancafiou as duas em uma jaula na beira do rio e deixou que ficassem presas.
Alguns dias se passaram, as águas tornaram-se limpas novamente... E as serpentes permaneciam enjauladas. O problema é que elas continuaram a crescer, ficando cada vez maiores e mais fortes. Sabendo disso, o caçador voltou e ordenou que as cobras lutassem uma contra a outra, dizendo que a vencedora estaria livre.
Sem hesitar, elas travaram uma luta extremamente violenta e uma findou matando a outra, perdendo suas presas no processo. Conforme fora prometido, o caçador libertou a vencedora. Ela nadou até o rio e foi embora, de modo que nunca mais se soube dela. Já que não tinha mais suas presas venenosas, era completamente inofensiva.
Obviamente, esse sonho é uma metáfora. Vocês conseguem compreender?
Progressivamente, cada pessoa falou o que entendeu. Bill respondeu primeiro.
— Você disse que Pu Jao é uma prisão para traidores, certo? Se é assim... Acho que os traidores são as serpentes e a jaula simboliza a prisão.
— É isso mesmo! – Exclamou Sortudo – O Imperador interpretou a jaula como uma ordem do Deus-Dragão: deveria construir uma prisão pra os traidores. E foi isso que ele fez, batizando-a de Pu Jao. Mais alguém?
— O rio. – Falou Akio – As serpentes viviam no rio... Acho que ele é uma metáfora para o país, a Nação Rubra.
— Concordo! – Opinou Arthur – E o veneno espalhado pelas serpentes é o mesmo que as “mentiras” que os “traidores” pregavam nas aldeias.
Depois, Selena concluiu.
— E o caçador que lutou contra as serpentes provavelmente é o Exército Vermelho.
— Todos estão corretos. – Disse Sortudo – O único ponto que falta explicar é a luta entre as cobras. Bem, isso foi interpretado como um sinal da divina misericórdia do Deus-Dragão. Ele permitiria que – a cada dez anos – uma única pessoa saísse da prisão. Mas para tal ela precisaria enfrentar e matar as outras pessoas que tivessem o mesmo objetivo.
— É o caso desse tal... Qual é o nome dele mesmo? – Perguntou Bill
— Victor. Sim, é o caso dele. – Respondeu o músico. – É muito compreensível que ele tenha fugido da Nação Rubra, mas aquilo que o motiva a competir justamente aqui continua sendo um mistério!
— É realmente muito estranho! – Falou Arthur – Principalmente porque ele parece não desejar realmente lutar. Só aceitou depois que a irmã insistiu.
— Verdade. – Completou Akio – Mas de uma coisa nós podemos ter certeza... O grandalhão vai ser um belo desafio. Aquela bola de metal é capaz de causar muitos danos. Olhem para a arena... Está totalmente destruída! A oitava batalha vai começar em poucos instantes... Será muito difícil lutar em um terreno acidentado como esse. Haverão seis buracos e muito sangue seco.
Selena sorriu ao ouvir essa afirmação, respondendo logo em seguida.
— Quando os outros só enxergarem desvantagens, o verdadeiro artista marcial verá oportunidades. Meu mestre sempre dizia isso... É só se adaptar ao que o cenário te oferece.
— Fácil falar... Difícil fazer. – Provocou Arthur – Estarei observando quando você tropeçar em um dos buracos. Espero que não quebre uma perna... Ou pior: uma unha!
A lutadora deu um soco no braço de Arthur e ele imediatamente fez uma careta, sufocando um grito. Todos riram. Selena a princípio ficou um pouco irritada, mas depois compreendeu que era apenas uma brincadeira.
— De qualquer forma... – Disse a mulher – Nada disso importa agora. Nem a luta, nem o estado da arena, nem as provocações do Senhor Normandut.
— Por que diz isso, Selena? – Perguntou Akio.
Ela sorriu enquanto respondia.
— Porque Ishida acordou.
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