C.D.T. - O homem que vive nas sombras
8 Capítulo 8 - O mensageiro
Notas iniciais
Um fato sobre aquele evento se tornava cada vez mais evidente. Banho de sangue era de fato um nome adequado para descrevê-lo.
Dez minutos se passaram antes que a arena estivesse limpa novamente. O excesso de sangue foi removido e os corpos dos três lutadores que haviam perecido no combate anterior foram carregados para fora do ginásio.
Quando Ziberman convocou o quinto grupo, oito guerreiros se levantaram de seus lugares na plateia e caminharam até a arena. Um deles, no entanto, foi interrompido por outra pessoa antes de chegar ao seu destino.
Era um jovem de pele branca, olhos puxados e cabelo curto que naquele momento estava sendo impedido de avançar por uma mulher negra que segurava firmemente o seu braço esquerdo. Era a mesma moça de cabelos cacheados que havia se manifestado a favor de Arthur quando ele decidiu poupar a vida de Jacob.
Enquanto o duelista permanecia dormindo, Akio e Sortudo ouviram a conversa que se iniciou entre os dois estranhos.
— Ishida! Aonde pensa que está indo?
— Que pergunta idiota, Selena! Você sabe que vou lutar. Não estaria me segurando se acreditasse que vou ao banheiro.
— Pelo visto nem o velho Toshi foi capaz de colocar juízo nessa sua cabeça dura.
A expressão do adolescente ficou séria quando aquele nome foi mencionado.
— Precisamos conversar sobre isso depois. Trago uma mensagem dele para você.
A mulher ficou calada e soltou o braço do jovem. Sua completa falta de reação apenas comprovou que aquela afirmação a tinha afetado de maneira profunda.
— Quer dizer que depois de dois anos, meu mestre finalmente decide me procurar? O que ele quer? Conte logo!
Ishida sorriu maliciosamente.
— Só depois da minha luta.
— Você não vai lutar!
Aquele grito foi alto o bastante para arrancar Arthur de seu sono. Ele não ficou feliz por ter sido acordado daquela maneira.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo?
— É apenas uma discussão. – falou Sortudo – Aquela mulher se recusa a permitir que o garoto lute.
— Ora, quanto drama! Não vale a pena criar um escândalo por causa disso!
Akio respondeu ironicamente.
— Assim falou o super discreto.
Sortudo desatou a gargalhar. Arthur não falou nada num primeiro momento, mas respondeu logo em seguida.
— Não sabia que você tinha um lado cômico, Akio!
— Todos tem. Alguns apenas não possuem muitos motivos para demonstrar.
Sortudo ficou um pouco mais sério, porém não perdeu o bom humor.
— Isso é verdade. Acredito que as coisas que você contou a respeito de si mesmo só não são mais tristes do que aquelas que ainda guarda para si. Fico imaginando que tipo de história você viveu.
— Vocês querem mesmo ouvir?
— Depende. Só se quiser contar. – Disse Arthur.
Em resposta ao silêncio que se seguiu, o homem de cabelos castanhos se levantou. Esticou os braços preguiçosamente para afastar o sono que ainda sentia e começou a andar na direção da dupla que continuava discutindo. A mulher negra tinha a palavra.
— Vou falar só mais uma vez, Ishida. Você não treinou o bastante!
— Cinco anos não são o bastante?
— Claro que não! O caminho das artes marciais é muito mais longo e tortuoso do que você pode imaginar. É preciso desenvolver disciplina e paciência, duas coisas que você ainda não possui! Confie em mim... Isso pode evitar muita dor.
— Toshi, o nosso mestre, não me mandaria até aqui se não acreditasse plenamente em minhas capacidades.
Selena pensou um pouco. Arthur se aproximou, porém decidiu não interromper a conversa naquele momento.
— Ele te enviou para competir?
— Sim. Quer dizer... Não. Não exatamente.
Foi então que Arthur se manifestou.
— Peço desculpas pela intromissão, mas não pude deixar de ouvir a conversa entre vocês. Afinal, o que há de errado com a situação?
A mulher respondeu rispidamente.
— Não é da sua conta.
— É aí que a senhora se engana. Qualquer debate passa a ser da minha conta quando atrapalha meu sono tão merecido. Gostaria de pedir educadamente pelo fim desta peleja.
— E eu gostaria de pedir educadamente que você cuide da própria vida. – Retrucou.
Arthur não respondeu. Seria natural imaginar que aquela resposta o tinha irritado, porém na realidade ele apenas se sentia confuso. Decidiu expressar sua opinião com sinceridade.
— Selena, certo? Sim, eu ouvi seu nome. O estádio inteiro ouviu. Devo dizer que o seu comportamento é bastante contraditório. Quando eu estava lutando e o grande público pedia sangue, você foi uma das poucas pessoas que demonstrou ser contra a matança. Mais do que isso... Você ergueu a voz e calou a boca de todos! Eu vi em você naquele momento um grande brilho de autoridade e também uma imensa bondade!
Apesar disso, quando te questionei com educação você respondeu sendo rude ao extremo. É simplesmente incompreensível! Perdoe-me se estou sendo indelicado, mas não consigo entender como aquela forte mulher que vi mais cedo pode agora se comportar como uma megera rabugenta.
A negra avançou um passo da direção de Arthur. Ficou muito próxima a ele e o encarou fundo nos olhos.
— Do que você me chamou?
— Parem!
Era o jovem Ishida que falava. Ele presentiu corretamente que uma briga iria se iniciar, por isso rapidamente se posicionou entre os dois, separando ambos.
— Não entenda mal, certo? Selena só está preocupada comigo.
— Preocupação é algo perfeitamente compreensível. Superproteção, por outro lado, é um pouco mais difícil de engolir. Quantos anos você tem, afinal?
— Dezessete.
— Dezessete! Pelas calças do meu avô, você já é praticamente um homem! Qual é o seu grau de experiência em combate?
— Nenhum – Interrompeu Selena.
— Eu treinei arduamente durante meia década! Sei que estou pronto!
Selena retrucou.
— Que bobagem... Você nem deveria estar aqui. Se Toshi o enviou como um mensageiro, entregue logo seu recado e volte para casa!
— Pode ser que exista alguma lógica nesse seu raciocício. Mas se já estou aqui, não há motivo para desperdiçar essa oportunidade de ouro! Por acaso está com medo que eu tome o seu título?
— Como você é atrevido, Ishida!
— Título? – Indagou Arthur.
— Sim. Títulos, na verdade. Selena venceu as duas últimas edições do campeonato.
Arthur e a mulher ficaram se encarando por algum tempo. O duelista não se sentia nem um pouco intimidado com aquela nova informação. Muito pelo contrário, sentia um respeito redobrado pela lutadora e em seu íntimo crescia um forte desejo de enfrentá-la num combate justo.
— Escute aqui, Normandut. – A moça pronunciou o sobrenome de Arthur com um leve toque de desprezo na voz. – Confie em mim, eu sei bem como esses homens podem ser perigosos. Tanto aqueles – falou, apontando para os competidores na arena – quanto aqueles. – completou, dessa vez indicando os apostadores.
Ponderando por alguns segundos, Arthur começou a entender o dilema de Selena. Ela estava verdadeiramente preocupada com a segurança de Ishida. Preocupada demais.
— Selena, percebo que as suas intenções são nobres, como também foram as minhas ao me intrometer nessa discussão. Veja bem... Se você foi a campeã durante dois anos seguidos e Ishida treinou com o mesmo mestre que te instruiu, suponho que ele tenha a mínima capacidade de sobreviver a este pequeno desafio, não?
Antes que a negra pudesse responder qualquer coisa, Arthur continuou.
— Ishida, eu fui criado em uma família muito rica e muito burocrática! Sei como é a sensação de treinar exaustivamente repetindo as mesmas simulações centenas de vezes e nunca ter a oportunidade de colocar os conhecimentos em prática. Um homem precisa testar os limites da própria força de tempos em tempos! Sou a favor da sua luta, confio em sua competência!
Houve uma pequena pausa antes que Arthur voltasse a falar.
— E você, Selena? Confia em Ishida?
Ela não respondeu de imediato. Quando o fez, dirigiu sua fala a Arthur.
— Façamos o seguinte, Normandut. Se ele morrer, eu te mato.
— Feito.
Arthur concordou com aquele acordo de maneira imediata e sem rodeios. Aquela única palavra que pronunciou com tanta tranquilidade revelou a grande extensão da confiança que depositava em Ishida. Era como se a ideia da morte do garoto nem passasse pela sua cabeça. Selena achou tal atitude realmente muito estranha, mas secretamente admirou tamanha sinceridade e ousadia.
— Sério? Você realmente é capaz de apostar a sua vida nisso? – Perguntou a moça.
— Claro, ele parece ser um bom garoto.
— Você mal o conhece!
— Fazer o que? Sou um otimista!
E começou a gargalhar. Um leve sorriso apareceu nos lábios de Selena, mas ela rapidamente disfarçou. Olhou para Ishida – que também dava risadas contidas – e falou com ele seriamente.
— Bem, você ouviu. Vá logo! Saia da minha frente antes que eu mude de ideia!
O adolescente virou as costas e iniciou uma corrida em direção à arena, mas logo se interrompeu. Parou rapidamente no meio do caminho e voltou-se para os dois.
— Selena, você irá se supreender com os resultados do meu treinamento! Não vou te decepcionar, Senhor Normandut!
Como ainda se sentia preocupada, a mulher permaneceu séria. Arthur, por outro lado, estava rindo.
— Senhor Normandut é o meu pai! Me chame de Arthur!
O garoto concordou com a cabeça e voltou a seguir seu caminho. Selena resolveu quebrar o silêncio.
— Eu falei a verdade sobre te matar se ele morrer.
Arthur respondeu sem rir. Ele sabia que aquela hora pedia seriedade.
— Sim, eu sei.
— Você é louco.
— Sim, eu sei disso também.
Selena balançou a cabeça e esboçou um leve sorriso.
— Eu gosto disso.
— Então você vai adorar os meus amigos! Venha, sente-se conosco.
— Certo, aceitarei o convite.
Rápidas apresentações foram feitas e os quatro se acomodaram em seus lugares na arquibancada. Akio olhou para Ishida que estava se preparando para o inicio da luta, e ao fazer isso, um questionamento lhe ocorreu.
— Selena, seu amigo realmente vai lutar usando apenas os punhos?
— Não. Acredito que vai usar os pés também.
Sortudo e Arthur começaram a rir. Akio insistiu na pergunta.
— Já que estamos falando sobre isso, onde estão as suas armas?
— Meu corpo inteiro é uma arma. – disse a mulher – Eu e Ishida somos praticantes da arte marcial Rygouka-santon das Montanhas Azuis. Sou uma das alunas mais antigas do Mestre Toshi, e Ishida é para mim praticamente um irmão mais novo.
— Não estou querendo duvidar da capacidade de vocês, porém é necessário admitir que lutar sem usar qualquer arma é em uma enorme desvantagem!
Selena sorriu.
— No nosso caso não é assim. Rygouka-santon significa o punho que quebra a espada. É um método de combate criado justamente para enfrentar inimigos armados.
Como Akio permanecia cético, Selena explicou melhor.
— Tudo começou cerca de quinhentos anos atrás, quando o primeiro Imperador Vermelho conquistou a área que atualmente equivale ao distrito de Doroma. Durante aquele período de sofrimento e opressão, uma resistência se formou, mas havia um pequeno problema: a população não possuía nenhuma espécie de arma. A Nação Rubra tinha uma política extremamente rígida de controle.
— Trabalhadores do campo desarmados contra um exército de guerreiros? Essa revolta jamais poderia ser vitoriosa! – Disse Akio.
— Concordo. Felizmente, aconteceu algo que virou o jogo a favor do povo.
— Se é assim, me diga o que houve!
— Dizem as histórias que o lendário samurai Miamoto, um renegado, abriu mão de suas katanas e trabalhou arduamente para criar um estilo de luta que pudesse ser utilizado pelos camponeses comuns. Como ele conhecia perfeitamente a arte da esgrima, soube explorar cada uma de suas falhas, até mesmo as mais sutis. Ensinou a população a fazer o mesmo, e foi dessa maneira que nasceu o Rygouka-santon.
Sortudo ouvia tudo com atenção, ansioso por aprender coisas novas. Akio estava perplexo. Não apenas pelo elevado grau de conhecimento que Selena demonstrava, mas principalmente devido a uma expressão que ela utilizou.
— Esse samurai que criou o Rygouka-santon... Miamoto, certo? Você disse que ele era um... Renegado?
— Exatamente.
— Droga, minha cabeça começou a doer. Essa palavra é muito familiar! Qual é o seu significado? Simplesmente não consigo lembrar!
Selena estava prestes a responder, porém o gongo soou naquele exato momento. Não seria mais possível discutir sobre qualquer outro assunto, por isso ela apressadamente começou a se desculpar.
— Lamento, Ishida está lutando pela própria vida agora. Vou contar mais a respeito dos renegados em outra ocasião, certo?
— Sim... Claro. – Respondeu a contragosto.
Akio desejava ardentemente saber mais a respeito de si mesmo e tinha a estranha sensação de que a história dos renegados estava intimamente ligada ao seu passado. Apesar disso, sabia que a luta de Ishida era a única prioridade para Selena. Contentou-se com a espera e os quatro assistiram ao combate que começou.
O adolescente lutou mal durante os trinta primeiros segundos. Estava nervoso e muito inseguro, por isso tinha dificuldade em responder aos ataques que recebia. Somente com um grande esforço ele conseguia se esquivar das investidas do espadachim que o enfrentava naquele momento. Aquele frágil equilíbrio de forças se sustentou por pouco tempo, pois Ishida se descuidou por um breve instante e por causa disso sofreu um corte superficial no braço direto.
Ser ferido daquela forma despertou um feroz instinto de luta no rapaz, de modo que ele finalmente começou a reagir. Seu olhar estava atento e ele começou a notar que a espada de seu oponente se movia seguindo um padrão. A partir dessa percepção, prever a direção dos ataques se tornou algo muito mais fácil.
A chance que Ishida esperava para contra-atacar não tardou a aparecer. Quando a lâmina estava vindo em direção ao seu pescoço ele rapidamente se abaixou, flexionando as pernas, e em seguida impulsionou seu corpo para cima, acertando um poderoso soco ascendente bem no queixo de seu adversário, que desmaiou na mesma hora.
O coração do adolescente se encheu de confiança e coragem. Ele correu na direção de um oponente que estava no outro lado da arena: um homem extremamente gordo que segurava uma maça. Se esquivou habilmente de um golpe de lança que quase o atingiu no caminho e, aproveitando o impulso da corrida desferiu um potente chute na barriga do seu alvo com a perna que estava esticada. O obeso largou sua arma enquanto despencava para fora do campo de batalha. Ishida, por outro lado, pousou equilibrado dentro da arena.
Sentindo-se agora verdadeiramente invencível, olhou ao seu redor à procura de mais oponentes. Ao fazer isso, viu somente um adversário de pé — também desarmado — com quatro homens inconscientes à sua volta.
Era um lutador muito mais musculoso do que qualquer outro que havia competido até então. Sua pele era bronzeada e ele tinha mais de dois metros de altura. Um grande bigode negro muito bem aparado enfeitava seu rosto e os cabelos lisos e curtos estavam cuidadosamente penteados para trás. Como não usava nenhuma camisa, deixava exposto seu peitoral largo e coberto de pelos.
A simples visão daquele colosso seria capaz inspirar cautela e até mesmo um certo temor em muitos guerreiros, mas não em Ishida. O adolescente não considerava nenhuma hipótese de derrota, por isso avançou de maneira irrefréavel com desmedida confiança e uma coragem irresponsável.
Acertou um forte soco no rosto de seu oponente, porém só conseguiu fazer isso porque ele na verdade não estava tentando se defender. Percebendo que o golpe foi completamente ineficaz, o garoto desferiu um segundo ataque na direção da barriga e uma joelhada lateral nas costelas. Como novamente não houve nenhum resultado, Ishida deu um salto para trás. Ele percebeu que seria inútil continuar atacando daquela forma.
— Você é feito de aço, grandalhão? Porque não se defende?
— Porque é desnecessário. — Respondeu com desdém. — Você é fraco demais.
A raiva tomou conta do garoto. Ele se aproximou do gigante mais um vez e iniciou uma sequencia de socos tão veloz que era quase impossível enxergar seus movimentos. Cada um dos ataques tinha força o bastante para quebrar ossos e partir a carne, mas não provocavam nenhum dano no corpo daquele homem. O grau de resistência demonstrado por ele estava muito acima dos padrões humanos.
Durante os dez segundos que se passaram, cerca de trinta socos foram desferidos. Com suas forças exauridas, Ishida se afastou de seu oponente e falou com ele enquanto se esforçava para respirar.
— Vamos, me ataque também! O que está fazendo aí parado?
— Medindo sua força.
Ishida não soube o que responder. Ele sabia que sua vitória era pouquíssimo próvavel e que seu oponente não o encarava como uma verdadeira ameaça. Sentia-se fraco e humilhado, mas não iria desistir jamais.
— Nesse caso... Eu vou te dar algo para medir.
Girou em torno do eixo vertical do seu próprio corpo — adquirindo assim grande impulsão — e desferiu um desvastador chute lateral na direção da cabeça do seu oponente. Um golpe com aquele nível de força seria capaz de esmagar o crânio de uma pessoa comum, porém o lutador musculoso facilmente segurou a perna de Ishida, interceptando o ataque e imobilizando o garoto. Ao falar, ele pareceu não estar impressionado.
— Já vi o bastante. Foi necessário avaliar a sua força para que eu pudesse controlar a minha própria. Acredito que trinta por cento será o bastante.
E aplicou-lhe um soco no estômago.
Não conseguindo mais respirar, Ishida foi ao chão. O colosso apenas observou o garoto caído, já que não desejava machucá-lo mais do que o necessário. Ficou de pé junto ao adolescente por cerca de quinze segundos, até que por fim se convenceu que a luta já havia acabado. Virou-se para ir embora, mas quando preparou-se para dar o primeiro passo, uma reação inesperada o surpreendeu: ainda deitado no chão e se contorcendo de dor, Ishida segurava sua perna.
— Vai mesmo fugir, grandalhão? Eu enten... – Sua frase foi interrompida por uma tosse repentina.
O homem puxou a perna para si e Ishida foi obrigado a soltá-la. Ele começou a caminhar novamente, porém depois de poucos passos, sentiu um chute sendo aplicado em suas costas. Não sofreu nenhuma dor, mas estava verdadeiramente supreendido. Quando se virou para encarar o garoto, ele ainda estava de pé.
— Que insistente.
— É. Meu mestre sempre disse que eu sou um cara irritante.
O homem riu.
— Quem é o seu mestre?
— Toshi Kobayashi.
Repentinamente, o gigante voltou a ficar sério.
— Toshi Kobayashi? Do estilo rygouka-santon?
— Esse mesmo.
Seguiu-se um curto momento de silêncio. O olhar do guerreiro musculoso tornou-se profundo e pensativo. Era como se estivesse recordando de coisas há muito esquecidas. Memórias antigas, boas e ruins. Lembranças de um tempo em que a vida era mais simples.
— Toshi era meu amigo. Não quero agredir um aluno dele, mas não aceitarei perder essa luta. Acabarei com você agora.
— Não se eu fizer isso antes! — E deu-lhe um soco no rosto com todas as forças que ainda tinha. Foi como socar uma parede.
Em resposta, o gigante ergueu sua mão direta e lentamente fechou seu punho.
— Muito bem, aprendiz de Toshi. Usarei metade da força.
O gigantesco punho do homem atingiu com velocidade o rosto de Ishida, fazendo com que ele cuspisse sangue no momento do impacto. Ele cambaleou para trás, recuando três metros enquanto tentava inutilmente permanecer de pé. Apesar dos seus esforços, não aguentou o peso do próprio corpo e caiu ao chão, derrotado.
— Não me orgulho disso, garoto.
Enquanto assistia a luta, Selena se esforçou muito para controlar a sua vontade de invadir a arena e espancar o homem. Agora que tudo finalmente havia acabado, a negra se levantou para socorrer o amigo. Yuri Ziberman também se aproximava com o objetivo de saudar o vencedor.
Grande foi a surpresa de todos ao descobrir que batalha ainda não havia acabado, pois lentamente e gemendo de dor, Ishida se levantou uma vez mais.
— Eu já disse... Que sou teimoso!
Levantou as mãos novamente e assumiu posição de guarda, preparando-se para a batalha. O público presente na Casa dos Jogos estava dividido entre a incredulidade e a admiração. A vontade daquele jovem era simplesmente inacreditável. Repentinamente, ouviu-se o grito de Arthur vindo das arquibancadas.
— Vamos lá, Ishida! Nós acreditamos em você!
Muitos outros gritos de motivação se seguiram ao dele, e em poucos instantes o ginásio estava tomado pelas exclamações da torcida. As pessoas sabiam que Ishida não tinha chance alguma de vencer, mas estavam ao seu lado mesmo assim. Era como se a força de seu espírito inspirasse os outros a segui-lo mesmo contrariando toda a lógica. No entanto, o adolescente não fazia isso propositalmente. Estava tão surpreso quanto seu adversário, que disse as seguintes palavras.
— Quer dizer que o seu nome é Ishida?
— Ishida Suguyama.
— Certo. Irei me lembrar desse nome.
O homem falou isso enquanto se aproximava, pronto para acabar definitivamente com a luta. Parou a poucos centímetros do garoto e estalou os dedos das mãos.
— Está pronto, Ishida?
O adolescente contemplou o olhar implacável do lutador. Ele parecia ainda maior e mais assustador do que outrora. A pele dele permanecia intocada, sem nenhuma lesão ou corte, enquanto a sua estava coberta de hematomas e feridas. Ele estava de pé, firme como um carvalho ancião, enquanto Ishida tinha as costas curvadas pelo peso da dor e as pernas tremiam para sustentar o próprio corpo. Lutar era inútil. Lutar não fazia sentido. Ishida abaixou os braços.
— Sim... Estou pronto.
O gigante musculoso ergueu o punho acima da cabeça. Não golpearia para matar, porém queria ter certeza de que o jovem iria dormir por um bom tempo. Quando estava prestes a atacar, sentiu um punho atingindo seu rosto. Sim, ele primeiramente sentiu para só então enxergar o que estava acontecendo.
— Estou pronto para socar sua cara, mamute.
A plateia foi ao delírio. Ishida havia jogado seu corpo inteiro para frente junto com o golpe, de modo que agora se esforçava para recuperar o equilíbrio e permanecer de pé. Seu oponente recuou um passo para trás, dessa vez sentindo uma leve dor no nariz. Ele sorriu enquanto falava.
— Faz muito tempo desde a última vez que alguém me pegou desprevenido!
— Pois é melhor se acostumar! Eu tenho muito mais de onde veio esse.
— É mesmo? Então porque não vem me pegar?
Obviamente, Ishida estava mentindo. Aquele golpe tinha sido a sua última chance de vitória. Ele usou toda a força que tinha e agora se encontrava completamente exaurido. Sabia que dar um único passo significaria perder o equilíbrio e cair ao chão para não mais se levantar. O gigante sorriu com satisfação.
— Foi o que pensei.
Aproximou-se mais uma vez. Ishida tentou reagir com mais um soco, porém dessa vez seu golpe foi completamente lento e sem energia. O homem segurou sua mão e o encarou direto nos olhos. Percebeu que Ishida não estava com medo ou envergonhado. Tudo que havia em seu olhar era orgulho e determinação.
— Ishida Suguyama, irei te contar um segredo. Espero que lembre ao acordar. Os quatro guerreiros que derrotei antes de enfrentá-lo... Contra eles eu usei somente dez por cento da minha força. Contra você, precisei de cinquenta.
E sem esforço algum, arremessou o adolescente para fora da arena. Agora a vitória lhe pertencia e não havia qualquer dúvida quanto a isso. Yuri Ziberman chegou perto do campo de batalha e abriu a boca para falar, no entanto o vencedor falou primeiro sem dar oportunidade ao anfitrião.
— Meu nome é Brock Punho de Ferro. E sim, estarei presente da segunda fase da competição. Precisa saber mais alguma coisa, Ziberman?
Yuri sentiu toda a antipatia que existia na voz de Brock. Entendeu o recado.
— Isso basta. Nós te parabenizamos pela merecida vitória e desejamos uma boa sorte na segunda etapa da competição.
— Não preciso de sorte ou de reconhecimento. Apenas pare de ser hipócrita. – Disse ele enquanto se retirava.
Arthur, Sortudo, Selena e Akio estavam removendo Ishida do lugar em que ele havia pousado. Brock chegou perto do quarteto para averiguar a situação, pois respeitava Ishida muito mais agora que realmente o conhecia.
— Ele está bem?
— Não. Mais vai ficar. – Respondeu Selena – Está apenas desacordado.
— Certo. Peço desculpas pelo inconveniente, tentei controlar minha força da melhor maneira possível.
A mulher respondeu com impaciência.
— Eu deveria agradecer a gentileza, Mestre Brock?
— Então você sabe quem eu sou.
— Sim. Você é o mestre do Higuma-Yupou. O estilo da camisa de aço.
— É o que dizem. E você, quem é?
— A mulher que vai chutar seu traseiro.
Carregando Ishida nas costas, Selena passou direto por Brock. O mestre sentiu um incomodo no nariz, uma pequena coçeira, e por isso levou a mão até as narinas. Olhou para o seu dedo e viu que nele havia uma minúscula mancha de sangue. Imediatamente ele percebeu que aquilo se devia ao último soco que Ishida havia lhe acertado.
— Moça!
Selena se virou.
— O que é agora?
— Diga a Ishida que eu retiro o que disse. Ele não é fraco.
Selena pensou um pouco antes de responder.
— Está bem, eu direi.
Enquanto caminhava ao lado da mulher, Akio fez uma pergunta.
— Mestre Brock? Estilo camisa de aço? O que isso significa?
A lutadora gentilmente colocou seu amigo ferido em uma das camas que fora instalada no ginásio pelo grupo de curadores. Só depois respondeu a pergunta.
— Problemas, Akio. Significa que teremos problemas.
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