C.D.T. - O homem que vive nas sombras
7 Capítulo 7 - Cicatrizes
A resposta dada por Arthur gerou uma enorme comoção na plateia. Encerrar um confronto como aquele em apenas dois minutos parecia uma tarefa impossível.
Akio percebeu que a opinião do público a respeito do seu amigo estava bastante dividida. Alguns o viam como um tolo arrogante. Outros, como um herói destemido. Existiam aqueles que acreditavam na vitória de Arthur, porém a maioria apenas tentava estimar em quanto tempo ele morreria.
— Pelo que vejo, as múmias estão se divertindo! — comentou Sortudo.
— Múmias? Por acaso você se refere aos...
— Sim, os apostadores. Olhe bem para eles e veja que debate intenso!
Era verdade. Os quinze membros daquele seleto grupo estavam conversando de maneira animada e gesticulando freneticamente. Um deles, um idoso magro e careca, em dado momento ergueu a mão direita com quatro dedos levantados. Aquele gesto chamou a atenção de Akio.
— Sortudo, você viu aquele sinal? O que ele significa?
— Um lance. Ele está apostando... Dê-me um segundo, faz um bom tempo que não pratico leitura labial, estou um pouco enferrujado. Deixe-me ver... “Quarenta mil moedas na vitória do barbado atrevido”.
— Quarenta mil? – exclamou Akio, surpreso.
— Na verdade, cinquenta. O homem gordo que falou com Arthur agora a pouco acabou de cobrir a aposta. Ele acha que o arqueiro vence.
— E pensar que o prêmio para o campeão é de apenas quatrocentas moedas!
— Essa é a grande ironia da situação, amigo. Uma ironia muito apreciada pelos apostadores! Estamos competindo por simples migalhas. Nos matando em troca de restos.
— Talvez a maioria. Não acredito que seja nosso caso.
— Isso é bem verdade! Eu por exemplo não tenho a intenção de matar ninguém. Acho que não conseguiria fazer isso nem mesmo se quisesse.
Akio pensou um pouco.
— Também desejo evitar sacrifícios desnecessários. Estou aqui porque preciso do dinheiro para financiar a minha viagem, mas não me sinto disposto a fazer absolutamente qualquer coisa para obtê-lo. Sou fiel aos meus princípios.
— É, eu já sabia disso.
A resposta pegou Akio de surpresa.
— Você... Já sabia?
— Mas é claro! Não é algo muito difícil de perceber quando você olha com atenção. Desde a sua maneira de falar até o modo como caminha, cada atitude sua revela uma série de coisas a seu respeito.
— Se é assim, me diga o que você vê.
Sortudo refletiu profundamente enquanto observava o seu amigo. Passados alguns segundos, finalmente respondeu.
— Vejo um homem sério e honrado, porém triste. Sinto que algo o incomoda, alguma coisa importante. Akio, que tipo de fardo você carrega?
— Você não acreditaria se eu contasse.
Sortudo riu.
— Também não acreditaria na existência de um homem cujos olhos são prateados. Vamos lá, experimente!
— Se é assim, muito bem. Eu preciso salvar o mundo.
O homem negro não disse nada. Aquele silêncio começava a incomodar Akio, pois ele ainda se lembrava de como Bill e Sofia haviam reagido àquela mesma afirmação. Porém, para sua surpresa, Sortudo respondeu de uma maneira inusitada.
— Como nós podemos te ajudar?
Akio não estava preparado para uma pergunta tão franca.
— O que você disse?
— Perguntei como podemos te ajudar.
— Sortudo, você está falando sério?
— Obviamente. Nós também vivemos neste mundo, sabia? Salvá-lo nos interessa.
— Mas que garantia você tem de que eu não estou mentindo?
— Se fosse mentira eu saberia. Agora me diga, qual é o plano?
— Hum... Encontrar um homem.
— Que homem?
— Não tenho a menor ideia de quem ele é ou onde está. Apenas sei que devo encontra-lo: o homem que vive nas sombras.
— Que título poético, hein? Pena que é tão vago.
— De fato.
Sortudo notou que Akio estava se sentindo desconfortável. Não era difícil para ele imaginar o motivo. Uma responsabilidade daquele porte poderia facilmente enlouquecer uma pessoa comum. Felizmente, Akio era um homem extraordinário.
Era evidente que os principais fatos a respeito daquela história estavam sendo omitidos, mas Sortudo decidiu confiar em seu amigo. Aquele não era o melhor momento para exigir explicações.
— Teremos tempo para conversar sobre isso mais tarde. Por enquanto, apenas saiba que você não está sozinho. Vamos torcer por Arthur, a luta dele vai começar em instantes!
O silêncio pouco a pouco estava começando a tomar conta do ambiente. Na arena, os oito lutadores se concentravam. Arthur segurava sua rapieira na mão direita e a cimitarra permanecia embainhada em sua cintura. A demora começava a deixa-lo irritado, mas ele sabia que a espera não duraria muito mais. Sentindo que o momento da batalha estava cada vez mais próximo, encheu os pulmões de ar e falou as seguintes palavras.
— Estejam cientes, nobres senhores, que eu não tenho tempo a perder! Venham todos de uma vez! Irei despacha-los de volta para casa na velocidade de um pensamento!
O gongo soou antes que qualquer um tivesse chance de responder. O objetivo de Arthur não era assustar seus oponentes, mas simplesmente provocá-los. Ao que parecia, ele tinha feito isso bem demais. Sem hesitação, os guerreiros iniciaram o combate.
O duelista sentiu-se um pouco desapontado quando viu somente dois lutadores avançando em sua direção. Ambos empunhavam gigantescos machados de guerra. Ficou feliz, entretanto, ao perceber que aqueles homens era os maiores e fisicamente mais fortes do grupo. Ele esperava mais do que aquilo, mas talvez aquela dupla pudesse oferecer um desafio digno. Talvez.
Do outro lado, os lanceiros se uniram para enfrentar o lutador com tatuagem de caveira. Os ataques combinados das três lanças eram uma força considerável, mas a foice do homem misterioso, mesmo sozinha, conseguia ser superior. O trio lutava de maneira completamente desordenada e só estava resistindo na batalha durante tanto tempo por causa da vantagem numérica.
O arqueiro estava entre as duas frentes de batalha. Era um estrategista talentoso, por isso se posicionou no lugar que lhe conferia uma maior segurança no combate. Observando os dois conflitos que se desenrolavam ao mesmo tempo, concluiu que os lanceiros poderiam oferecer um perigo maior.
Mirou rapidamente em um deles e disparou sua flecha com destreza, mas uma gargalhada muito alta o distraiu, por isso ele errou o seu alvo por pouco.
Olhou na direção da plateia para tentar identificar de onde aquele barulho havia saído, mas nada encontrou. Mais uma gargalhada foi ouvida, e grande foi sua surpresa quando ele notou que na verdade ela vinha de dentro da arena.
Era Arthur. Com um sorriso no rosto, ele enfrentava o único inimigo que havia sobrado em seu lado da luta, já que o outro se encontrava nocauteado no chão. O arqueiro torceu para que aquele duelo se estendesse um pouco mais. Ele precisava eliminar pelo menos um dos lanceiros para que o seu plano de vitória não ficasse em perigo.
Colocou a mão atrás das costas e tateou à procura de uma flecha em sua aljava. Encontrando-a, preparou rapidamente o arco e o apontou para seus alvos.
Mas já estavam todos mortos. Só o homem de vestes negras permanecia de pé.
O arqueiro não atirou na mesma hora porque se sentia estranhamente intimidado. Suas mãos suavam e tremiam, seria muito difícil fazer mira naquele estado. Enquanto agradecia silenciosamente por não ter sido notado pelo ceifador, mudou o seu alvo para Arthur. Porém a cena que viu naquele lado da arena não foi nem um pouco tranquilizante.
O lutador de cabelos castanhos agora também estava sozinho. Inconscientes, os adversários jaziam sob seus pés.
“Não pode ser... A batalha começou a poucos instantes!” – pensou o arqueiro – “Quem são esses homens? Será que são mesmo humanos?”
Suas reflexões logo foram interrompidas pelos oponentes que se aproximavam. Ele começou a recuar involuntariamente. Ao falar, se esforçou muito para que sua voz não soasse trêmula, mas teve pouco sucesso em disfarçar o terror que sentia.
— P-p-para trás, monstros! Eu vou atirar! Estou avisando! Eu vou...
Recuando um pouco mais, acabou dando um passo em falso e como consequência caiu da arena. Ele quase se sentiu feliz por ter sido eliminado. Já não tinha mais coragem sequer para ficar de pé. Agora só restavam dois competidores: Arthur e o ceifador.
— Sortudo! Quanto tempo eu ainda tenho?
Do seu lugar na plateia, o músico respondeu.
— Trinta segundos!
Arthur suspirou.
— Lamento, amigo. Parece que eu não posso mais ser gentil.
Dizendo isso, tirou a cimitarra da bainha. Agora a empunhava na mão esquerda enquanto rapieira permanecia na direita. O homem de vestes negras flexionou um pouco os joelhos e ergueu a foice ligeiramente acima da cabeça, preparando-se para o combate.
Os dois tinham perfeita consciência do confronto mortal que se seguiria. O olhar do ceifador era tão vazio quanto o de uma legítima caveira, mas aquilo não era capaz de amedrontar Arthur. Ele esboçou um leve sorriso e provocou o seu inimigo.
— Vamos dançar.
O barulho de metal colidindo contra metal rapidamente tomou conta da arena. Aqueles combatentes se movimentavam no campo de batalha com grande velocidade e destreza enquanto suas armas se chocavam de maneira ininterrupta. Os espectadores apenas observavam em silêncio aquela magnífica e terrível demonstração de habilidade.
O ceifador conseguiu se manter a uma distância segura das espadas de Arthur durante os dez primeiros segundos, porém as investidas do duelista se tornavam cada vez mais repentinas e imprevisíveis. Logo uma abertura surgiu em sua guarda e ele foi ferido no ombro direito por um golpe preciso da cimitarra. Apesar do corte ser superficial, a proximidade obtida naquele momento seria uma grande vantagem para Arthur.
Com o objetivo de obrigar o seu oponente a recuar, o homem de vestes negras desferiu um amplo corte giratório no sentido horizontal. O espadachim tinha a opção de dar um salto para trás, mas aquilo não combinaria com a sua personalidade ousada e irrefreável. Permanecendo no lugar em que estava, se abaixou com rapidez. A lâmina prateada da foice passou um pouco acima da sua cabeça, sem feri-lo.
Porém aquele movimento deixou seu rosto completamente exposto e ele foi atingido por um potente chute lateral que quase lhe arrancou a mandíbula. Guiado pelo instinto e sentindo uma explosão de dor em sua face, Arthur projetou a sua rapieira para frente e conseguiu atingir em cheio a perna do seu agressor, que ainda estava esticada. Agora o ceifador teria que mancar pelo resto da luta.
Eles se afastaram um do outro praticamente tropeçando nos próprios pés. Se a luta contra os demais adversários já havia drenado parte de suas energias, aquele intenso duelo tinha esgotado o que restava. Ofegante e ainda sofrendo com a dor na mandíbula, Arthur falou.
— Certo, talvez eu tenha te subestimado. Só um pouquinho.
O homem misterioso respondeu com uma voz sinistra e gutural.
— Você é tolo. Arrogante. E o seu tempo já acabou.
— Realmente... Devo reconhecer que você é mais forte do que eu poderia imaginar. Se fosse contra qualquer outro, a luta teria acabado em muito menos do que dois minutos.
— Dois minutos? Oh sim... O desafio. Você entendeu errado, os seus joguinhos infantis não significam nada para mim. Eu estava querendo dizer que a sua vida chegou ao fim.
Dizendo isso, avançou mais uma vez.
Seria impossível descrever a sequência de golpes que se seguiu. A velocidade combinada das duas espadas de Arthur era superior, mas a foice tinha um alcance muito maior e o ceifador estava sendo mais cauteloso do que nunca. Ele tinha aprendido com seus erros e agora era quase impossível encontrar qualquer brecha em sua guarda.
A batalha se estendeu por vários minutos sem que ninguém abrisse vantagem, até que por fim, novamente, o cansaço venceu a ambos. Arthur sentia uma considerável dificuldade para respirar, mas a despeito disso, insistiu em conversar com o seu oponente. Ele realmente era muito teimoso.
— Diga-me rapaz, qual é o seu nome?
O homem hesitou.
— Houve uma época em que eu tinha um nome. Já faz muito tempo.
— Isso que estou detectando em sua voz é um sentimento de tristeza? Você sente saudades dessa época, não é?
— Não!
— Ora, não minta para mim. Pode desabafar, o que aconteceu com você?
— Eu sou um servo de Kormagg! Não preciso de um nome!
— Kormagg? Perdoe minha grosseria, mas... Quem é esse cara?
Aquela pergunta ofendeu profundamente o ceifador. Ele ergueu sua foice e saltou na direção de Arthur para atingi-lo com um golpe vertical, mas como estava cansado e tinha uma perna machucada, o ataque foi evitado com relativa facilidade.
— Lorde Kormagg é o senhor supremo de todas as coisas vivas, e eu sou um de seus profetas! Ele representa o abraço das trevas, o destino final de tudo aquilo que respira! E ele trará dor e sofrimento para cães infiéis como você! Quando todo calor abandonar o seu corpo e você sentir o gélido toque da morte se aproximando, saberás que eu falo a verdade! Ninguém pode escapar de suas garras!
Depois dos gritos e da exaltação, o homem com rosto de caveira parou de falar, ofegante. Arthur soltou um longo e preguiçoso bocejo.
— Já acabou? Ótimo, estava ficando entediado. Permita que eu me apresente. Meu nome é Arthur Normandut Max...
— Não interessa.
— Nossa! Se você fosse um pouco mais educado, pelo menos esperaria eu terminar.
— Para mim você não passa de comida de verme. É assim que te chamarei.
— Está bem, faça o que quiser. Sabe, esse tal Lorde Kormagg não parece ser um cara muito simpático.
— Meu senhor não deve satisfações a meros mortais.
— Mas você também é um mero mortal, não? Porque ele se importaria com você?
O homem não disse nada. Ele parecia estar confuso.
— Lorde Kormagg é o senhor supremo de todas as coisas vivas, e eu sou um de seus profetas! Ele representa abraço das trevas, o destino final de tudo...
— Sim, sim, eu já ouvi essa parte! Você acabou de confirmar minha suspeita. Não é como se você estivesse realmente pensando sobre o que está dizendo. Está apenas repetindo um discurso que alguém te disse. Agora responda: se você é um de seus profetas, quer dizer que existem outros?
Ele sorriu.
— Sim. Muitos mais.
— Hum... Entendo. Isso é um pouco preocupante.
— Comida de verme, voce fala demais. Juro por Kormagg que irei te silenciar!
Relutantemente, ergueu a foice. Seu corpo já estava completamente exausto, mas ele continuaria lutando pelo tempo que fosse necessário para defender a honra do seu deus. Arthur também se preparou, lentamente assumindo a posição de batalha. Não estava em condições muito melhores.
— Se é assim... Que nossas armas falem por nós!
Aquela foi a investida final de ambos. Livrando-se de qualquer sentimento de dor ou medo, eles lutaram. Aplicaram toda a vontade que tinham e usaram cada mínima reserva de energia ainda disponível em seus corpos.
Os dois preferiam morrer do que desistir.
Depois de muitos segundos de batalha feroz, Arthur conseguiu aparar um golpe da foice utilizando as duas espadas cruzadas. Com isso, ele manteve o ceifador imóvel por tempo suficiente para aplicar-lhe um potente chute na perna machucada.
Sem nenhuma base de sustentação, seu adversário caiu. Arhur colocou o pé direito sobre o peito do seu oponente e encostou a ponta da rapieira em seu pescoço. A vitória lhe pertencia. Não suportando aquela humilhação, o homem misterioso fez um pedido.
— Me mate.
Arthur precisou encher os pulmões de ar três vezes para recuperar o fólego e ter condições de respoder.
— Eu não posso fazer isso.
O ceifador gargalhou.
— Porque não? Por acaso é honrado demais? Ou apenas é muito covarde?
Ainda ofegando, Arthur respondeu.
— Eu não posso te matar... Porque você já está morto.
— O que disse?
— Eu não tenho certeza, ok? É só um palpite. Acho que na verdade você já morreu a muito tempo atrás. Por dentro.
— Não seja imbecil, comida de verme!
— Será que você pode por favor parar de me chamar assim? Quando grita dessa maneira, sei que na verdade você está tentando convencer a si mesmo! Você realmente quer acreditar que não se sente vazio, porém eu sei que é esse o caso. Quando me disse que não sentia falta da época em que tinha um nome, eu não acreditei nem um pouco. Então... Vou perguntar mais uma vez. Qual é o seu nome?
O ceifador estava quase em estado de choque. Arthur insistiu.
— Vamos, rapaz! Lembre-se! Não deixe que a sua mente te bloqueie! Antes de usar essas roupas negras! Antes de empunhar um foice! Antes de tatuar uma caveira em seu rosto e antes de servir a Kormagg! Você tinha um nome! Você tem um nome! Lembre-se de quem você é!
Lentamente, como se não estivesse acreditando em suas próprias palavras, ele deu uma resposta.
— Meu nome...
Lágrimas discretas começaram a rolar em seu rosto.
— Meu nome era Jacob.
— Seu nome é Jacob, nobre amigo.
Arthur colocou as espadas de volta nas bainhas e se sentou ao lado de seu mais novo amigo, que permanecia deitado.
— Agora me conte o que aconteceu.
Grande parte do público não gostou nem um pouco da atitude de Arthur. Assim que ele sentou na arena, muitos começaram a vaiar e a gritar palavras de ódio. Eles queriam ver morte e sangue imediatamente.
Entre os berros e as reclamações, uma voz se sobressaiu em meio a todas as outras. Era uma voz feminina que transmitia grande força e autoridade.
— Apenas calem a maldita boca!
Fez-se o mais absoluto silêncio. Akio e Sortudo olharam na direção de onde a voz tinha saído e viram uma linda mulher negra de pé. Seus cabelos cacheados caíam até os ombros e os olhos eram marrons. Seu corpo não era grande, mas os músculos pareciam ser fortes. Eram muito bem definidos. Estava vestindo uma camisa sem mangas e uma calça igualmente simples, ambas na cor amarela.
— Vocês, palermas, já viram bastante sangue, e tem muito mais por vir! Por hora, deixem os dois conversarem. A luta não tem limite de tempo, esqueceram?
Á medida que todos se calavam, o ceifador foi tomando coragem para contar a sua história.
— Meus pais morreram quando eu tinha cinco anos. Eles eram refugiados da Nação Rubra que viviam em Valken, por isso eu não tinha nenhum parente que pudesse cuidar de mim. Sobrevivi nas ruas da cidade até os sete anos de idade, dependendo da piedade das pessoas. Mas aquilo ás vezes não era o sufiente... Eu tinha medo e tinha muita fome. Precisei roubar em mais de uma ocasião para não morrer.
Além do mais, nem sempre as pessoas eram gentis. Eu era maltratado o tempo inteiro, ameaçado com certa frequência e fui espancado pelo menos meia dúzia de vezes. Eu era só uma criança! Não ia suportar muito tempo! Foi então que eles apareceram.
— Eles quem?
— A Ordem da Rosa Negra. Lá eu fui acolhido, alimentado, treinado e educado.
Arthur engoliu em seco.
— Eles... Te educaram?
— Sim! Eu fui iniciado no culto à Lorde Kormagg, o anjo da noite.
— Na minha terra, isso se chama lavagem cerebral!
— Você não entende, eles me salvaram!
O duelista pensou um pouco.
— Talvez isso seja verdade, mas não fizeram isso pensando no seu bem estar. Essa tal Ordem tinha seus próprios interesses, e acredito que está te usando desde então como um instrumento. Uma mera ferramenta.
— Não! Você está mentindo!
— Se vasculhar sua memória com cuidado, saberá que falo a verdade.
O ceifador fechou os olhos. Parecia estar perdido em suas próprias reflexões.
— Quer dizer que Lorde Kormagg me usou durante todo esse tempo?
— Acredito que esse deus nem mesmo existe, quem te manipulou foram as pessoas da Ordem. Mas não pense que a culpa é sua, eles se aproveitaram de sua vulnerabilidade.
Lágrimas caíam dos olhos do homem em grande quantidade. Ele começava a enxergar a verdade.
— O que eu faço agora?
Sacudindo a poeira das roupas, Arthur se levantou. Respondeu enquanto sorria.
— Faça o que quiser! Agora você é o senhor de sua própria vida! Espero que nossos caminhos se encontrem novamente, Jacob.
Dizendo isso, caminhou para fora da arena. Só quando estava a uma certa distância o homem se levantou e falou em voz alta.
— Arthur!
Ele se virou.
— Que bom que está me chamando pelo nome! Comida de verme não soava bem. Pode falar, amigo.
Ele hesitou. Abaixou um pouco a cabeça e secou as lágrimas do rosto para só então responder.
— Muito obrigado!
Arthur esboçou um leve sorriso e acenou em despedida, virando as costas. Como havia falado o próprio nome durante a luta, Yuri Ziberman não se deu ao trabalho de conversar com ele como havia feito com os outros vencedores.
Quando voltou a sentar-se em seu lugar na plateia, falou em voz baixa — para si mesmo — as seguintes palavras.
— Liberdade é a maior riqueza que alguem pode desejar. Estou feliz... Muito feliz. Finalmente Jacob é um homem livre.
Após isso, Arthur dormiu profundamente ao lado dos amigos. Ele estava exausto.
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