C.D.T. - O homem que vive nas sombras
5 Capítulo 5 - Canção da batalha
Os sete lutadores que já estavam na arena se encontravam dispostos em formato de roda. O objetivo de cada um deles era manter seus adversários a uma distância segura.
Sortudo conhecia bem essa estratégia e poderia ter feito uso dela, mas preferiu não se dar ao trabalho. Caminhou despreocupadamente até o centro do campo de batalha e lá permaneceu de pé, cercado por inimigos.
Yuri Ziberman avisou que a luta logo iria começar, por isso todos os competidores prepararam as suas armas. O músico fechou seus olhos e segurou a flauta com as duas mãos para lentamente leva-la à boca. Akio não conseguia acreditar naquilo.
— Arthur... Por favor, me diga que ele não vai fazer o que eu estou pensando.
— Pode acreditar que vai.
— Isso é loucura!
— Muito pelo contrário... É genial.
O som produzido pela flauta ecoou por todo o estádio.
Aquela belíssima melodia silenciou de maneira instantânea todas as conversas que vinham da plateia. Akio provavelmente continuaria a discussão, mas não se sentia capaz de fazer isso. Era difícil para ele até mesmo organizar seus pensamentos, pois toda a sua atenção se voltava agora para as notas suaves e harmoniosas da música. A única pessoa que não estava sendo afetada por aquele efeito entorpecente era Arthur.
— Akio?
Nenhuma resposta. Arthur riu um pouco e passou a falar ligeiramente mais alto.
— Me escute, homem!
Akio teve um leve sobressalto ao sair daquela espécie de transe, se recuperando logo em seguida. Continuava ouvindo a bela música, mas já não se sentia completamente envolvido por ela.
— Isso foi estranho.
— Não se preocupe, é sempre assim na primeira vez. Você logo vai se acostumar. Mas e então, está gostando da melodia?
— Claro que sim, mas é difícil descrever o que eu realmente penso. É uma música muito bonita, sem dúvida. Mas também é um pouco...
— Assustadora?
— Exatamente. Só que de forma bastante sutil. Nunca ouvi nada igual. Sinto que esses sons possuem um significado mais profundo, algo que não consigo traduzir em palavras. Algo que eu apenas sinto.
— Você está certo. Sabe, Sortudo não está apenas fazendo barulho quando toca sua flauta. Ele está na verdade falando. Falando sobre sentimentos. E não somente isso... Está também os manipulando. Você consegue sentir, não é? A música é sobre um sentimento em particular... O medo.
— Você não pode estar falando sério.
— Ora, se não quer escutar a mim, continue escutando a música e tire suas próprias conclusões! E por favor, pare de me olhar com essa cara de confuso... Eu também não tenho a menor ideia de como ele consegue fazer isso.
— Mas você não gostaria de saber?
— Suspeito que nem o próprio Sortudo poderia nos explicar... Ele apenas toca. Não faço questão de conhecer os segredos dos outros, eles não me dizem respeito. Este mundo está repleto de coisas inexplicáveis, seus olhos prateados são exemplo disso.
— Meus olhos... Essa é uma longa história.
— Sério? Então pode ficar para outra ocasião. A luta já vai começar! Eu conheço essa melodia, ela já está perto do fim. Sortudo a toca para provocar tensão em seus oponentes, e acredite, ele já conseguiu fazer isso.
A canção se estendeu por apenas mais alguns segundos. O profundo silêncio que então tomou conta do ambiente só foi quebrado momentos depois pelo estridente soar do gongo.
A batalha já havia começado, mas ninguém se movia. Os oponentes de Sortudo tinham sido fortemente afetados por sua música: sentiam um estranho temor que se misturava com uma ansiedade paralisante. Só depois de muito tempo um dos homens finalmente falou. Sua voz ainda estava carregada de receio, mas ele possuía uma alma valente. Era um rapaz loiro que empunhava duas machadinhas.
— Que espécie de feitiço você jogou em nós, bruxo? Explique-se já.
Sortudo gargalhou.
— Bruxo? Não! Eu sou apenas um humilde artista. Um bardo, caso prefira essa expressão. Vou encarar a sua pergunta como um elogio, afinal você está dizendo que minha arte tocou seu coração. Não há honra maior do que essa!
O rapaz continuou acreditando que estava diante de um feiticeiro.
— Um artista e um louco, pelo que vejo! Onde estão as suas armas?
— Todo artista é um louco, isso é um fato do qual muito me orgulho! Quanto ás minhas armas.... A paixão é minha espada e a inspiração o meu escudo. É disso que vocês precisam... É disso que o mundo precisa! Inspiração! Apurem os ouvidos... Esta é a minha canção da batalha.
A música que Sortudo começou a tocar era completamente diferente da outra: falava sobre aquele sentimento de alegria feroz e determinação que os guerreiros sentem ao lutar por algo em que acreditam. Tinha um ritmo enérgico e rápido que afetou os competidores de maneira tão profunda quanto a melodia anterior. Se sentindo agora mais destemidos do que nunca, iniciaram o confronto.
Podia-se perceber com facilidade que existia uma diferença muito grande entre os lutadores do primeiro e do segundo grupo. Os homens que agora estavam na arena, em sua maioria, demonstravam muito mais honra do que aqueles que Harry havia derrotado. Se enfrentavam em duelos de um contra um – havendo somente uma exceção – e evitavam atacar uns aos outros pelas costas.
O mais surpreendente de tudo, entretanto, era o fato de que apenas sete pessoas estavam de fato batalhando. Sortudo continuava tocando calmamente a sua flauta no centro da arena, sem ser afetado pelos conflitos ao seu redor.
— Arthur, estou começando a acreditar no que o homem falou.
— O que quer dizer com isso, Akio?
— Sortudo não está sendo atacado por ninguém! Isso definitivamente não é natural.
— Eu diria apenas que não é muito comum, nem sempre o truque dele funciona tão bem! Fique tranquilo, nosso amigo não é um mágico... Eu acho.
— Então como explicar isso?
— É complicado. Veja bem, cada um dos sete homens pode ter uma razão diferente para manter distância dele. Posso imaginar alguns desses motivos. Talvez eles pensem que nosso amigo não é uma ameaça tão urgente... Ele realmente não está armado. Pode ser que estejam temendo uma armadilha, afinal alguém que parece tão fraco mas que ao mesmo tempo é tão tranquilo e seguro provavelmente esconde algo. Ou ainda: Sortudo é uma presa tão fácil que eles podem estar simplesmente esperando que outra pessoa acabe com ele. “Não precisa ser eu”, devem estar pensando.
— Entendo. Isso tem muito mais a ver com psicologia do que com magia, certo?
Arthur acenou positivamente com a cabeça.
— Mas você falou que esse truque nem sempre funciona. Então ele faz isso sempre?
— Só quando acha que precisa, e não necessariamente ao lutar. Quando quer obter alguma informação ou ao negociar com um comerciante, por exemplo, ele faz algo parecido. Sortudo conhece os sentimentos das pessoas e sabe jogar com isso. Ele é o meu oposto, pois eu simplesmente faço o que me vem à mente! Talvez por isso sejamos tão amigos... Ele precisa da minha impetuosidade e eu de sua paciência.
— Esse poder é um pouco intimidador.
— Ah, não se preocupe com isso. Bons homens como ele não manipulam os aliados.
— Claro. Não sei dizer qual é o motivo, mas sinto que posso confiar em vocês dois! Mas voltando ao assunto... Se as coisas continuarem nesse ritmo, eventualmente vai sobrar só um adversário. Sortudo vai ser atacado.
— Sim. Ele sabe se virar, vamos aproveitar a luta enquanto não chega a nossa vez...
Fora da arena estavam os quatro competidores que haviam sido eliminados: exaustos e um pouco feridos, mas ainda vivos. A batalha entre os lutadores remanescentes continuava de maneira ainda mais intensa.
Com um golpe ágil de sua machadinha, o guerreiro loiro conseguiu jogar para longe a espada de seu oponente, acertando logo em seguida uma joelhada em seu estômago e fazendo o homem despencar da arena. Sortudo estava se aproximando, caminhando de costas, enquanto desviava habilmente das investidas de um inimigo que o atacava com um sabre. Ele ainda tocava a sua música. Poucos segundos depois, os três homens ficaram bem próximos.
O bardo estava exatamente entre os dois guerreiros. O espadachim preparou-se para desferir uma última estocada que seria na altura da barriga do músico e do outro lado o homem loiro ergueu as duas machadinhas com a intenção de golpeá-lo nos ombros. Porém, no último instante, quando os dois ataques já estavam vindo em sua direção, Sortudo parou de tocar seu instrumento e deu um salto para o lado.
O resultado foi que os dois agressores se feriram um ao outro.
Não se tratavam cortes mortais, mas eram feridas que iriam necessitar de cuidados urgentes. Os dois eram experientes o suficiente para saber que não tinham mais condições de lutar e humildes o bastante para reconhecer que aquele músico era ágil demais para ser derrotado em tempo hábil. Sem dizer palavra, se retiraram do campo. Felizmente havia uma pequena equipe de curadores que estava capacitada para ajuda-los.
Yuri chegou perto do bardo e perguntou em voz alta se ele gostaria de continuar na competição. Sortudo guardou sua flauta e respondeu logo depois.
— Mas é claro! Ou você sugere que eu fique assistindo? Uma aventura vivida é muito mais emocionante, muito mais inspiradora do que aquela simplesmente observada.
E assim se retirou. Enquanto caminhava na direção de Akio e Arthur, este último fez um comentário.
— Agora você entende, Akio? A agilidade do nosso amigo é simplesmente absurda, por isso aonde quer que passemos as pessoas o chamam de Sortudo. É praticamente impossível lhe acertar um golpe... Até onde me recordo nunca vi ninguém conseguindo. A grande verdade é que isso não tem nada a ver com sorte. Ele é um verdadeiro gênio do combate... E seria um lutador fenomenal se não odiasse tanto machucar pessoas.
— É impressionante.
— Impressionante? Espere pela minha luta!
Os dois riram bastante até Sortudo chegar. Com um sorriso no rosto, ele pediu desculpas a Arthur por ter demorado tanto para encerrar a batalha. Os três se sentaram e começaram a conversar um pouco. Arthur estava particularmente entretido contando a história de como eles tinham expulsado uma gangue de vândalos da Aldeia dos Gansos.
— Mas isso foi há meses! Infelizmente, Sortudo ouviu falar que eles voltaram a fazer badernas na aldeia, é por isso estamos indo para lá. Afinal, nós somos heróis!
Yuri Ziberman chamou os oito competidores do terceiro grupo e eles prontamente se apresentaram à arena. Por algum motivo, Sortudo ficou sério ao observá-los.
— Hum... Arthur? Por favor, não se exalte, ok? Mas se você olhar para a arena...
Ele olhou. E se exaltou.
— Roderick! Pelas barbas de meu pai, o que você faz aqui?
Mesmo com todas as pessoas olhando para o trio – pois estavam se questionado qual seria o motivo daquele grito tão repentino — não era difícil para Akio descobrir a quem Arthur se referia.
Um dos competidores os observava de maneira fria e calma, quase como se estivesse esperando por aquilo. Seus olhos eram verdes e o cabelo castanho, tal qual o de Arthur. Os dois eram na verdade bastante parecidos, com a diferença de que Roderick não tinha barba e parecia ser cerca de dez anos mais velho, o que significava que ele deveria ter pouco mais de trinta e cinco anos.
O homem estava vestido com roupas justas, muito bonitas e novas, à moda dos guerreiros da aristocracia imperial. Os tons que predominavam eram os de verde e azul. Calçava um par de botas negras e segurava uma rapieira idêntica à de Arthur, com a diferença de que esta tinha duas joias azuis encrustadas em seu punho ao invés de três.
Sua expressão demonstrava uma grande serenidade, exatamente o oposto da ousadia de Arthur. Sem alterar a voz, respondeu para que todos pudessem ouvi-lo.
— O que eu estou fazendo aqui? Ora, isso é um torneio de lutas. Eu sou um lutador. Acredito que até mesmo alguém como você pode compreender a ligação entre as duas coisas.
Arthur respondeu com ironia.
— Sempre te considerei uma pessoa muito engraçada.
O homem abaixou a cabeça e esboçou um leve sorriso antes de falar.
— De qualquer maneira, é um prazer reencontra-lo depois de tanto tempo. Estava quase ficando com saudade... Irmão.
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