C.A.S.U. [Em Revisão]

17 Primeira voz: Sol entre nuvens


Notas iniciais
Yo! Capítulo novo na área! Agradeço a: — Sherry e Naty97 por favoritarem ♥ — Nahu, SnowDay, Queen of the pain e Ilucida por colocarem nos acompanhamentos ♥ Música: Between Heaven and Hell - BoA - https://www.youtube.com/watch?v=YnTwUjgVLvg

“Deveria lhe odiar, porém quanto mais lhe abraço mais dói

Embora ao chegar a manhã lhe busque de novo.

Deveria esquecer este amor que já não serve para nada

Porque de alguma maneira o tempo nos deixará no esquecimento.

‘Deixe-me lhe amar um dia mais’ é a mentira que me digo outra vez

Porém ao vê-la, esqueço-me dela e lhe sorrio

E volto a me apaixonar por você.

Por sua culpa me encontro entre o céu e o inferno.”

O grafite do céu confundia a manhã com a noite, o ar deixara de exibir o odor característico do início da precipitação e agora inundava meus pulmões com uma avalanche de umidade. Há horas, eu olhava para o lago do quintal. Estava ali quando as gotas começaram a agitá-lo, continuei vendo-o ser pisoteado pela chuva que se tornava mais forte e agora o assistia se render à tempestade.

Eu havia perdido a conta das imagens que correram por trás de meus olhos enquanto as memórias iam e voltavam, recontando a história que teimava em não acreditar. Por que tudo se estilhaçava quando ia bem? Por que era tão fácil se quebrar quando parecia sólido?

As palavras de Kaoru ainda arranhavam meus ouvidos como se tivessem chegado a eles neste instante. Tão carregadas de mágoa quanto seu rosto que apesar de seco mostrava a dimensão do que sentia...

— Não dá para acreditar que ficou noivo da Aya... Você... a ignorava! Ou pelo menos fingia que fazia isso! Porque ninguém se mete num compromisso desses com uma pessoa que não gosta! E você ainda teve a coragem de vir a minha casa... — Segurou a boca e balançou a cabeça.

— Isso é passado. Aya terminou comigo.

— Passado? Não me venha com essa! É bem conveniente ela terminar assim que pisei em Konoha. De uma benevolência louvável! Preciso beijar as mãos dela em agradecimento!

— Eu não mentiria sobre isso.

— Nem a pessoa que me contou! Então fica muito difícil acreditar que de um dia para o outro essa merda de noivado virou lembrança!

Suspirei sob o olhar carregado dela que emanava raiva até as pontas do cabelo.

— Foi uma imposição do meu pai. Em nenhum momento concordei com a ideia.

— Você não é mais uma criança para acatar todas as ordens do seu pai! — vociferou, em seguida baixou a voz e continuou num tom que pesou o ambiente. — Teria se casado se Aya não tivesse terminado... — Um sorriso estranho nasceu no rosto dela. — Teria seguido o protocolo e sido um marido... literalmente. — Ele cresceu enquanto ela fechava os olhos, passando a dentes trincados e o lábio esticado em aversão. — Ah, eu preferia não ter ouvido a explicação! — Riu um minuto e me encarou com um olhar indecifrável. — Devo minha sorte ao fato de Fugaku nunca ter lhe pedido para se afastar de mim. Caso contrário, eu teria que me virar com meus sentimentos.

— Não misture as coisas.

— De forma alguma, apenas estou seguindo a lógica: se você aceitou um noivado imposto, aceitaria terminar um relacionamento. Obedecer ao seu pai é mais importante do que o resto. Eu não deveria me surpreender, mas... Dói de um jeito muito ruim porque eu sou a única disposta a enfrentar tudo por nós dois...

— Está tirando conclusões precipitadas, Ka-...

— Você não o enfrentou para se livrar de alguém tóxico como a Aya... Por que o enfrentaria por mim? Se não foi capaz de fazer algo por sua própria liberdade... — Balançou a cabeça em negação. — As coisas não mudaram mesmo com tantos anos...

— Kaoru, você está me negando o direito de explicar. Pare de jogar as palavras e me ouça.

— E ouvir outra explicação como aquela?! Não, Itachi! É melhor deixar como está.

— Você é a única que pode errar e ser desculpada, somente as suas justificativas são válidas, apenas você merece ser compreendida... Perfeito, não?

— Julgue-me o quanto quiser. Talvez um dia você perceba o tamanho do absurdo que disse, mas por hora só o que conseguirá fazer é me julgar.

— Você não quer entender, prefere tomar suas conclusões como a verdade absoluta. Eu não esperava por isso... Imaginava que ficaria com raiva e xingaria, mas nunca pensei que seria tão intransigente. É decepcionante depois da conversa que tivemos.

— Você esperava que eu fechasse os olhos para sua covardia e se enganou ao projetar essa esperança em mim... — Calou-se cravando o olhar morno no meu. — Se quer tanto espaço para falar, responda: o que faria se Fugaku lhe pedisse para me deixar?

A pergunta me desestabilizou e a resposta para ela correu para o fundo da minha mente. Tentei ensaiar uma frase, porém fui impedido de iniciá-la.

— Tive medo dessa hipótese quando éramos crianças. Eu me preparei para ela e a vigiei até nos tornamos adultos. Esqueci-a depois disso, achei que a probabilidade era pequena demais para continuar a dar importância, mas eu estava me preocupando com a coisa errada... Se duas pessoas seguem pelo mesmo caminho e uma delas anda mais devagar, a chance de elas se separarem é grande. Da mesma forma, se num relacionamento a vontade de um estar ao lado do outro for menor que a do seu parceiro, os laços se afrouxam naturalmente... — Soltou um suspiro profundo. — Nossas vontades diferem. E eu quis esquecer isso para seguir em frente, ignorando que no fim dessa estrada me aguardava um abismo.

Em vão, eu mantinha os olhos fechados e tentava limpar os pensamentos enquanto as cenas se misturavam num antes e depois angustiante. Foi ingenuidade acreditar que poderíamos ter uma conversa sem que ela terminasse em atrito e tolice ter ultrapassado o limite que impus quando Kaoru regressou. Era evidente que as duas atitudes trariam péssimas consequências, no entanto eu insisti em causas perdidas e o resultado disso era a insônia e o desassossego que revolvia meu interior.

Tudo caminhava bem até cairmos numa brecha. Era impressionante como algo tão pequeno tomou proporções capazes de nos separar: uma faísca de mal-entendido que se tornou um incêndio e cobriu de cinzas o cenário de nossa aproximação.

Ignorei o som da madeira rangendo sob passos, talvez assim conseguisse permanecer sozinho, entretanto ele aumentou em minha direção confirmando que eu teria companhia quando menos precisava.

— Dormiu fora?

— Sim.

Esperei a crítica que não veio e me surpreendi ao notá-lo sentar ao meu lado.

— É um bom dia para refletir... — continuou a despeito do meu silêncio. — Vi quando chegou, estava menos abatido do que agora. Não deve ter sido uma boa noite e ficar aqui pensando sobre ela não foi uma boa escolha... — Tive a sensação de seu olhar sobre mim. — Ela deve valer muito à pena para você não resistir uma semana.

Levantei dando as costas, sabia onde aquele início levaria e não estava disposto a trilhar seu caminho, porém assim que dei o primeiro passo, ouvi meu nome.

— Eu o respeito, mas não vou admitir comentários sobre a minha vida, então se quiser manter o diálogo entre nós exclua dele qualquer menção a Kaoru.

— Foi sério para você ficar irritado dessa forma... Vai continuar andando enquanto seu pai fala?

Parei, reunindo a paciência que me escapava e o encarei.

— O que quer? Mais uma daquelas conversas onde impõe conselhos e aponta o quanto minhas escolhas foram erradas ou debochar por eu ter ido até ela mesmo depois do que aconteceu? Não pode me deixar em paz dessa vez?

Sem responder, ele se aproximou devagar até se colocar diante de mim. Fitou-me por um tempo que pareceu demasiado e ignorando o que eu dissera, expôs o que desejava:

— Embora me mostre a raiva, consigo ver aquele Itachi de anos atrás. É a mesma melancolia e introspecção, o olhar perdido no nada... Eu sabia que aconteceria.

— Não estou disposto a-... — Ele me interrompeu com um gesto.

— Eu sempre soube... Nenhuma menina chamou sua atenção antes de ela aparecer, por isso quando vocês começaram a passar muito tempo juntos, percebi que era diferente. Claro que devido a sua pouca idade pensei que poderia ser uma relação infantil que se dissolve rapidamente, porém algo me dizia que este pensamento estava errado. — Ele deu uma pausa enquanto observava o lago. — Nós nunca conversamos direito sobre isso...

— Porque você sempre a olhou como se fosse um problema.

Ele me encarou parecendo hesitar.

— É tarde?

— Por que agora?

— Estou cansado de carregar esse peso... Eu fiz você passar por dias ruins e forcei-o a se dividir entre nós e Kaoru por culpa da minha intolerância. Um erro que se arrastou por anos e o afastou de mim... E como bom cego que sou, só enxerguei depois que estraguei nossa relação, não só com isso mas também com o noivado e outras coisas que você deve lembrar melhor do que eu porque a memória mais viva é a da mágoa... — Fitou-me longos minutos e expirou com força, pondo a mão dentro da yukata e desviando o olhar para o lago. — Não vou mais controlar sua vida. O clã,... seu irmão pode assumir se você não quiser e Konoha é grande, há muitos lugares para morar além do distrito, além disso,... não há mal em formar laços com quem não tem sangue Uchiha.

Observei sua expressão enquanto meus ouvidos se enchiam com o som da chuva e meu cérebro assimilava cada frase com uma lentidão incomum. Precisei me esforçar para aceitar que as últimas eram reais e mais um pouco para formar uma resposta àquilo.

— Espero que não seja outra mentira.

— Estamos por um fio há um bom tempo, não correria o risco de rompê-lo mentindo para você.

Deixei-o sozinho antes que minha confusão se tornasse evidente, entretanto consegui escutar o pedido de desculpas que me paralisou. Forcei meus pés a continuarem embora quisesse voltar e ouvir o resto, arrastando-os pelo assoalho enquanto algo me pedia para dizer o que me arranhava por dentro.

— Está atrasado. Com as desculpas, a compreensão e o lado paternal; na dissolução do seu preconceito e da concepção que pode me controlar.

Não havia despejado a metade. A lista de mágoas queimava em mim pedindo para sair, contudo eu a manteria em seu lugar. Não me mostraria frágil diante das atitudes tomadas por meu pai no passado.

— Sua sinceridade é tão seca que beira à grosseria — disse com um sorriso de um segundo. — É desagradável recebê-la numa situação como essa, mas parece que só consigo tê-la quando o provoco, infelizmente isso sempre termina com você desapontado comigo... Eu perdi o tato com você e creio que não irei retomá-lo tão cedo, mas posso lidar com isso se estiver bem, então como uma forma de conforto, viva como sempre quis. Apenas me deixe assistir...

Nenhum lugar me abrigava. Sentia que nada estava certo e misturava o ontem e o hoje numa sequência torta de acontecimentos, pensando no quão absurdo era a inversão de papéis contida neles.

Era tão irônico quanto a minha incapacidade de responder à pergunta que nos estilhaçou em mágoa e a irritação que me consumiu após ela ser proferida. Perceber que meus sentimentos viraram alvo de dúvida soprara a paciência para longe, porém somente quando assimilei as palavras de Kaoru pude compreender o receio por trás delas. Estávamos de volta ao zero. Ela sem a certeza que precisava, eu sem saber como dá-la.

Estava enferrujado e receoso. Tinha perdido o jeito de me relacionar a dois e não sabia se queria reaprendê-lo, se estava disposto a enfrentar o que havia além dos beijos e sexo, abrir-me novamente e mergulhar em emoções que não podia controlar, deixar o passado em seu lugar, voltar a confiar,... arriscar.

Fitei o céu cinza se abrir em cores e o vento empurrar as nuvens para o horizonte. O sol devolvia ao dia os traços que a chuva havia ocultado, ilustrando a bonança após a tempestade. Era uma imagem distante de mim em muitos sentidos e por isso sua harmonia que tanto me agradava, arrastou suas unhas em meu interior

— Esperando uma serenata? — Shisui gritou da rua.

Demorei a decidir se deveria me juntar a ele. Não era uma boa companhia no momento e não queria converter sua expressão serena em traços de preocupação, menos ainda encher seus ouvidos com minha vida. Mas por fim cedi à vontade de dividir algum tempo com meu amigo.

— Foi um belo aguaceiro, não acha? Dormi como uma criança! — Soltou enquanto caminhávamos. — Gosto desse clima, me deixa relaxado. Umidade, cobertor, bebidas quentes, manhãs com névoa... Gosto também do sol aparecendo assim de repente para esquentar um pouco. — Olhou-me de esguelha. — Acho que sou o único animado aqui.

— Não vejo motivo para ficar animado com o clima.

— Ah, eu vejo vários motivos para me animar! — O suspense durou uma respiração. — Akane aceitou meu pedido de casamento.

— Hum...

Caminhei em silêncio ouvindo a alegria se derramar na voz dele. Seu som agudo e claro invadia meus tímpanos escrevendo linhas angulosas que me alfinetavam

— O que aconteceu? — Shisui perguntou após terminar um devaneio.

— Nada.

— Precisa ser melhor do que isso se quiser me enganar, Itachi.

— Não quero. — Suspirei tentando achar a saída para não estender a conversa. — Vá contar aos outros, tenho certeza que irão gostar da novidade.

A intenção de Shisui retrucar foi interrompida por uma mensagem vinda de Minato, e eu me senti aliviado por não entrar em uma discussão sobre meu comportamento.

Não demorei na sala do Hokage e voltei a perambular pela vila enquanto o dia gotejava suas horas. Para minha sorte, a noite me abraçou no sono que não havia me alcançado anteriormente, levando-me a acordar ao meio-dia.

Abri os olhos pensando no quanto faltava para a próxima missão. Por algum motivo, deixar Konoha não possuía a neutralidade a que estava acostumado, e sim, uma leve perturbação digna dos sintomas do não querer. Levantei pressentindo a onda de pensamentos e me coloquei embaixo do chuveiro para anulá-los, sendo obrigado a desistir do paliativo quando Sasuke reclamou que o banheiro não me pertencia.

Por força da fome, desci à cozinha e praguejei mentalmente ao ver Aya.

— Olá, Itachi — cumprimentou com indiferença.

— Esqueci que você frequentava esta casa.

— Vim visitar meu mestre sem nenhum interesse em você. Podemos voltar a nosso antigo tratamento caso não tenha ressentimentos quanto a algo que eu disse.

— Ótimo.

Notei seu olhar me acompanhar, porém ignorei enquanto respondia às preocupações de minha mãe.

— Não vou deixar você sumir pelo terceiro dia seguido sem ter certeza que está se alimentando — sentenciou ao perder a paciência com minhas negativas.

— Não tenho fome — respondi, sentindo meu estômago protestar.

— Com ela ou sem, você irá comer. — Apontou um lugar na mesa até eu ceder. — Deve estar envolvido em algo muito interessante...

— Nada que a senhora não saiba ou desconfie.

— Espero estar errada — retrucou num tom pesado.

— Não está.

Ela estreitou os olhos, mas logo relaxou a expressão. Ainda assim, continuou a me vigiar como se pudesse extrair de minha postura o que não poderia através de palavras.

Não sustentei a situação por muito tempo. Comi o suficiente para não dar brecha a comentários e saí sem saber meu destino, pronto para começar outro dia de andarilho. Nas ruas úmidas e quentes que sofriam com a alternância do clima, a silhueta que eu desejava cruzou minha visão com passos firmes, perdendo-se em meio a outros corpos.

Notas finais
Ah, esse capítulo... Complicado trabalhar algumas coisas nele, a principal foi a mudança suave do Itachi de alguém que está deixando sua passividade e inércia para trás. Foi dolorido em alguns momentos, apesar de eu ter gostado dos vários "tapas na cara" que o Ita levou. Amei fazer a discussão entre o a Ka e o Ita e também o diálogo dele com o pai. Para quem lê GG há uma pequena referência aí. Quero ver quem descobre. Bjs e até o próximo!♥