C.A.S.U. [Em Revisão]

3 Primeira voz: Missão mal-sucedida (revisado)


Notas iniciais
Yo! Agradeço imensamente a minha chuchu Isabella (The Epic) que fez meu coração de autora flutuar essa semana! E também a quem colocou a fic nos acompanhamentos e a AhriSenpai que a favoritou! Músicas: Rinne - Nightmare https://www.youtube.com/watch?v=j2UzB2MWyJI Apreciem a leitura!

“A vida é como um sopro, algumas vezes como as folhas

É como uma lanterna que arde e tem seu limite

É um ciclo que muitas vezes temos passado

Uma vez que começa, o tempo vai a grandes passos

Constante e indefinidamente se estende

Para compreendê-lo, temos que ir mais além.”

Os dias caminharam incrivelmente iguais com Sasuke cutucando minha paciência com todo o seu ímpeto em me tirar do sossego. Por vezes, senti vontade de fazê-lo comer a grama do quintal, em outras me senti grato pelos momentos em que ele me puxou da solidão antes que me afogasse nela.

Respirei aliviado quando percebi sua ausência em casa, mas o alívio se foi junto à brisa que varreu a poeira consigo. Lá estava eu me traindo como sempre. Por hábito, por prazer em autotortura, por um motivo inexistente que estava fincado ali feito uma estaca no solo. Uma estaca que parecia ter raízes.

Ainda me perdia em pensamentos quando recebi a mensagem de Minato. Certamente aquilo significava o fim do “castigo” e a promessa de me afastar de Konoha por alguns dias, ou semanas, caso a sorte estivesse disposta a me beijar o rosto. Entretanto, o azar sempre vinha a mim em grandes proporções e a prova disto se deu naquele mesmo dia quando a certeza de uma missão solo despencou da árvore da esperança direto para o fértil campo do infortúnio.

Nossa missão era interceptar e eliminar dois ninjas que possuíam o intuito de capturar Naruto. Eles aproveitariam o momento de seu retorno para sequestrá-lo e usá-lo como moeda de troca.

O ato de ordenar o assassinato sem o cuidado de decretar que fizéssemos uma inquirição significava que ele estava a par das intenções por trás do ardil e também da origem deste. Isto indicava que a vila possuía certa vantagem nesta situação. Porém, embora a incumbência fosse algo corriqueiro, saber que não estaria só me incomodava como se houvesse a possibilidade do fracasso devido a isto.

Evidentemente era pura estupidez minha. Conhecia bem o talento de meu irmão e sabia que ele não falharia, ainda mais estando ao meu lado. Sasuke jamais daria brecha para receber uma crítica minha. Isso seria o suficiente para eu refutar a apreensão, caso Sakura não fizesse parte do time. Eu não fazia ideia do que esperar dela no campo de batalha, além de sua habilidade médica.

O caminho percorrido até o local da emboscada foi feito em silêncio. Ao chegarmos, tomamos nossas posições para aguardar o alvo, que deveria passar por aquele ponto em no máximo um dia e meio, porém duas horas antes do previsto visualizei o motivo de estarmos ali.

Akasuna no Sasori detinha a fama de transformar o corpo daqueles que derrotava em seus fantoches quando via neles algum potencial, denominando o macabro hábito de arte. Os rumores sobre ele se iniciaram devido a este comportamento e aumentaram ao converter o terceiro Kazekage em um exemplar de sua coleção. De personalidade fria e meticulosa, ocultava sua aparência com a ajuda da marionete que rastejava. O exterior dela era tão real que poderia ser confundida com um humano caso não possuísse suas particularidades e, além de refúgio, Hiruko também servia como armadura.

Deidara possuía o elemento explosão como característica inerente a sua linhagem sanguínea e através dela produzia a argila que utilizava como bombas. A massa branca era expulsa de suas bocas, a principal e outras duas que se abriam em suas mãos, formando esculturas animais que agiam sob seu comando.

— Parece que Konoha mandou boas-vindas,... — Deidara exprimiu com um sorriso debochado. — mas eles não parecem grande coisa.

— Nunca subestime o inimigo. — A voz rouca advertiu com seriedade. — O Hokage não é um homem estúpido para enviar incompetentes. — Ele nos examinou por instantes antes de ordenar: — Vamos acabar logo com isso.

— Okay. Será divertido brincar um pouco.

— Apenas se quiser morrer — rebateu num tom grave e posteriormente se dirigiu a mim. — Uchiha Itachi... Lembro-me de ter visto seu rosto em algum lugar. Talvez tenhamos nos cruzado pelo mundo.

Desconsiderei suas palavras e o ataquei com um jutsu de fogo que foi repelido por uma enorme cauda que se assemelhava a de um escorpião. Desviei de inúmeras investidas feitas com ela surpreendendo-me com sua velocidade e arremessei algumas kunais, rebatidas prontamente pela cauda. Aquele era seu principal instrumento de defesa, e eu o forçaria ao máximo enquanto procurava um ponto fraco, entretanto, minha estratégia foi minada por um contra-ataque.

Sasori exibiu os braços de Hiruko disparando, a partir do esquerdo, incontáveis agulhas. A boca do fantoche se abriu cuspindo outra infinidade que passava a milímetros de minha pele junto a diversos estilhaços envenenados. Disparei uma nova esfera de fogo que consumiu suas armas e se chocou contra o prolongamento de ferro, espalhando fagulhas pelo ar que se dissiparam antes de tocar o solo, porém uma centelha alcançou o tecido da máscara e iniciou uma combustão imediata, obrigando Sasori a agir para apagá-la. Aproveitando-me da distração ataquei com um projétil de água pressurizada provocando uma rachadura que se alastrou fragmentando parte do tórax de madeira.

— Você faz jus a sua reputação, prodígio Uchiha — disse-me ao sair da carapaça quebrada revelando sua verdadeira face.

A aparência de Sasori era juvenil. Cabelos ruivos e olhos castanhos que exibiam determinação e um traço de languidez, ao mesmo tempo em que pareciam vazios e sem vida. Ele não possuía qualquer característica que remetesse a sua idade aproximada, o que despertou minha suspeita. Era possível que aquele corpo também fosse uma marionete.

Se minha suspeita estivesse correta, restava-me o Amaterasu e o Susanoo caso desejasse fazer uso de meus olhos. Meditei por segundos sobre a necessidade de usar o último e decidi que deveria dar um ponto final àquela luta antes que ficasse em desvantagem outra vez. Não poderia correr o risco de perdê-la e deixar meu irmão e Sakura em um perigo maior.

Como reposta, Sasori invocou outra marionete. A boca desta se abriu soltando uma nuvem cinza que se espalhou pelo ambiente. Apesar disso, continuei me movendo em direção a ele com a Totsuka empunhada até notar os passos arrastados e o aumento de peso do Susanoo.

— Apresento-lhe a areia de ferro. Especialidade do terceiro Kazekage, minha obra favorita.

Senti o solo trepidar e tive a impressão de ser carregado. A velocidade do movimento aumentou bruscamente desequilibrando-me e uma nuvem roxa foi expelida contra mim. Desfiz o Susanoo, prendendo a respiração enquanto me afastava da fumaça tóxica. Ouvi um “clique” e do interior do gás uma foice surgiu. Contive o ataque com minha espada, porém várias outras surgiram advindas de “braços” que partiam de determinados pontos de um primeiro. Utilizei o vento para compor um gigante globo de fogo e lançá-lo contra os tentáculos de ferro. A alta temperatura não os derreteu por completo, mas provocou pequenas deformações no material forçando Sasori a moldá-los novamente.

Criei um clone e simultaneamente ataquei com uma esfera de fogo e um dragão de água. O vapor subiu exalando o cheiro do ferro e madeira. Quando a cortina de gotículas se dissipou, vi o fantoche destruído, mas ele logo foi substituído por um esquadrão de marionetes que escureceram o céu com suas carcaças.

Voltei ao Susanoo destruindo as criações de Sasori. A quantidade me tomou bastante tempo e ao derrotar a última, voltei-me ao seu mestre. Confirmando minha suposição, ele atacou com seu próprio corpo, contudo este não era páreo para minha habilidade e logo seguiu o mesmo destino dos demais restando apenas um cilindro que se tratava de seu coração. Ela se projetou velozmente para um fantoche que estava sob uma pilha de outros dando vida ao seu novo recipiente.

Golpeei com a Totsuka todos os pedaços de marionetes espalhados, selando-os na jarra do genjutsu eterno. Rumei para Sasori, pronto para dar o último golpe quando uma agulha perfurou o solo debaixo de meus pés e veio em direção ao meu pescoço. Impedi-a com a kunai notando-a permanecer suspensa no ar mirando-me. Ela atacou novamente transformando o interior de meu jutsu num palco de uma nova luta. A velocidade dos ataques continuava impressionante, e eu escapava deles com esforço. Abandonei minha proteção desviando de suas investidas e numa delas por pouco não conheci a eficiência de seu veneno.

Uma lâmina cortou o ar sendo amparada por minha kunai. Sasori colocou toda sua força e peso num ataque aéreo que estava prestes a romper minha defesa. A agulha voou contra mim obrigando-me a deixar o corpo cair e lançar um Amaterasu que o atingiu me dando a chance de voltar ao Susanoo e usar a espada para, enfim, apagar sua existência.

O som de uma explosão chamou minha atenção. Olhei na direção de onde viera avistando uma nuvem de fumaça, encontrando Sasuke ileso para meu alívio. Minutos depois a cortina cor de chumbo se dispersou permitindo o vislumbre de um corpo no chão.

Uma estranha brisa soprou pela planície carregando um sentimento pesado, dando lugar a frias rajadas de vento que junto aos relâmpagos anunciaram a chuva que não demorou a cair. A imagem de Sakura ensanguentada paralisou-me por alguns segundos. Ela respirava com dificuldade e o sangue que fluía de seu corpo misturava-se à poeira e as gotas de chuva. Seu braço perdera a camada externa da pele exibindo, assim como parte de seu rosto e quase toda sua perna, o abdômen perdera uma porção de carne e dali partia uma hemorragia que dificilmente seria contida.

Pensei em palavras tranquilizadoras, porém não as proferi. Seria impossível dizer algo no qual pouco acreditava. Procurei por sua bolsa intentando encontrar algo que pudesse ajudá-la, mas ela havia sido destruída.

— Sakura, diga o que devo fazer.

Ela desviou os olhos e fitou o vazio. Sua respiração deu indícios de falha e a consciência de abandoná-la, contudo a morte não parecia assustá-la. Sua face exibia a serenidade e resignação próprias de quem havia aceitado o fim.

Senti-me num beco sem saída. Eu era considerado um gênio, no entanto todas as minhas habilidades serviam para tirar vidas e naquele momento tudo o que havia aprendido era inútil.

Ao nosso redor, as explosões continuavam.

A batalha de Sasuke lhe tomaria algum tempo, contudo mesmo que ele não estivesse envolvido nela seria incapaz de ajudar a reverter o quadro. Meu irmão compartilhava comigo a maldição de um poder que servia apenas para destruir.

Enquanto presenciava a agonia de Sakura, lembrei-me das súplicas de antigos companheiros para que eu os aliviasse de sua dor, de carregá-los em meus braços torcendo por sua recuperação observando o esforço que faziam para sobreviver, de perdê-los para o descanso eterno... E ela preencheria mais uma linha da longa lista de jovens ninjas que tiveram suas vidas ceifadas. Cruel ou não, todos nós sabíamos que enfrentaríamos este momento um dia.

— Eu deveria ter lhe protegido. Se tivesse prestado mais atenção, se não tivesse ignorado minha intuição, você não voltaria para Konoha como vítima dessa missão... — murmurei com amargura. — Eu a levarei para seus pais. É o mínimo que posso fazer.

Senti uma estranha agitação no ar que me alertou para a possibilidade de um novo inimigo. No entanto, as figuras que surgiram diante de mim eram mais do que conhecidas.

— Sakura... chan... — Naruto balbuciou com o olhar arregalado. — O que... — Balançou a cabeça como se colocasse os pensamentos em ordem. — Eu a levarei para Konoha.

— Ela não aguentará a viagem. — Shikamaru pontuou.

— Nem ficar aqui! — Ele rebateu nervoso. — Usarei o teletransporte e a deixarei nas mãos da Tsunade obaa-chan.

— Você ainda está aprendendo a técnica. É um grande risco. — Nara alertou-o seriamente.

— E por acaso alguém aqui pode curá-la? Não há tempo nem outra opção! — devolveu com firmeza provocando uma expressão de desagrado no outro. — Itachi! — Chamou-me, e eu lhe dei a afirmativa. Se era a única chance de salvar Sakura, teria minha anuência.

Segundos depois, Naruto desapareceu levando-a consigo. Shikamaru me questionou sobre a necessidade de sua permanência, e eu a recusei. Não queria arriscar a integridade deles.

Voltei-me para a luta de meu irmão, notando que o objetivo de Deidara era encurralá-lo. Ele enviava uma enorme quantidade de seus animais por terra e ar forçando Sasuke a usar ao máximo sua agilidade e reflexos para não perder uma parte do corpo.

Do alto de seu grande pássaro de argila, Deidara olhou para baixo gesticulando e gritando provocações, contudo Sasuke se manteve impassível. Antes que seu adversário terminasse, ele lançou duas kunais que foram pulverizadas por morcegos explosivos. Deidara riu em deboche, mas a postura relaxada foi abandonada ao perceber que seria incapaz de evitar o golpe que acabou por destruir seu braço esquerdo. Seu rosto se contorceu de ódio e dor. Os ossos e tecidos se espalharam junto com o sangue que pintou a argila de vermelho e o odor de ferro se alastrou devido a uma forte rajada que carregou os restos do membro. Ele voou rapidamente tendo Sasuke em seu encalço, o desespero se mostrando na forma como conduzia o pássaro e nos ataques com os quais tentava manter meu irmão longe.

Uma enorme esfera de fogo cruzou o céu de encontro a inúmeras miniaturas em formato de ave, provocando pequenas explosões sequenciais que diminuíam a velocidade das chamas. Sasuke desapareceu aturdindo seu adversário. Foram dois minutos de hiato até sua espada ser lançada contra Deidara e atingir uma árvore devido à rapidez deste em desviar. Seu sangue ainda pingava, agora mais espesso devido a um torniquete feito as pressas.

Com um braço a menos, ele revelou a asquerosa boca que possuía no lado esquerdo do peito. Uma grande quantidade de massa foi produzida por ela e cuspida no formato de uma tarântula gigantesca que expeliu diversos ovos que eclodiram liberando pássaros e insetos. Em segundos, as chamas do Amaterasu engoliram dezenas deles e atingiram a principal causando uma grande explosão. Um Chidori alcançou Deidara pelo ar enquanto outro vindo de debaixo da terra destruiu a ave em que ele estava.

A densa cortina de fumaça dificultou a visão forçando Sasuke a se afastar. Ele saltou para trás observando com atenção o núcleo dela esperando o primeiro sinal de movimento de seu adversário e com isto não percebeu a minúscula vespa que se aproximou explodindo ao seu lado. Apesar do tamanho, a dimensão da explosão fora muito maior que as outras.

Senti meu peito apertar. Nenhum vestígio de sua presença se apresentava diante de mim e a cena do ataque presa a minha mente me doava pensamentos negativos.

Deidara surgiu demonstrando sinais de cansaço e queimaduras pelo corpo, ainda assim abriu um sorriso de vitória e exclamou idiotices sobre arte e sua superioridade em relação a Sasuke, em seguida, apontou para mim desafiando-me.

Um raio atingiu a árvore próxima partindo-a ao meio e anunciando a vinda de uma tempestade do gênero. O desafio se sustentava através do olhar do mercenário que não possuía ideia da estupidez que cometia. Fiz os selos, pronto para atacá-lo com um jutsu de água quando uma shuriken foi arremessada em sua direção. Ele devolveu o golpe com um de seus explosivos sendo surpreendido pelo fio da espada de Sasuke cortando seu calcanhar direito ao emergir do solo. Deidara se apoiou na perna esquerda, saltando debilmente logo depois.

Ele moldou mais argila, porém ela foi atingida por uma esfera de fogo antes que pudesse dispensá-la, causando uma explosão que destruiu sua mão. Desequilibrado, esforçou-se para se manter de pé e, apesar da morte quase tê-lo em seus braços, resistia à luta como se tivesse chance de vencê-la. Num rápido movimento, Sasuke cravou a espada em seu diafragma descarregando o Chidori através dela para seu corpo. Com a eletricidade, a argila contida no interior dele foi detonada. Apesar de ter se retirado segundos antes, meu irmão não conseguiu manter uma distância segura e foi arremessado com o impacto.

Amparei sua queda, notando os ferimentos causados pela chamas, nenhum grave. Respirei aliviado vendo-o sacudir a cabeça de leve, provavelmente ganhara uma surdez temporária. Sua expressão não era das melhores, entretanto não o questionei, apenas queria levá-lo para casa em segurança.

Em Konoha, acompanhei Sasuke até o hospital e acabei ganhando um check-up forçado junto a uma vaga na enfermaria. Da janela eu olhava a movimentação perdido em lembranças, desde a minha chegada as únicas palavras que proferi foram para responder aos questionamentos médicos e mesmo em plena saúde não tinha recebido alta. Imaginei se o uso do Susanoo tivesse trazido alguma consequência grave, mas se fosse o caso eu já teria sentido. Se não era qual o motivo de ainda estar ali?

De todos os pensamentos que não conseguia me livrar, o da missão ter sido um fracasso era o mais constante. Mesmo que tivesse cumprido o ordenado, este era o resumo dela para mim: um completo, amargo e inadmissível fracasso! Como capitão e ninja, eu falhara como nunca havia experimentado antes.

Ouvi o ranger da porta e me virei sem vontade esperando que fosse um médico para me dar o aval para sair daquela prisão, porém eu me enganara.

— Yondaime?

— Sem formalidades, Itachi — disse ele, ocupando o lugar ao meu lado. — Sakura está bem, ficará algum tempo em observação, mas não precisa se preocupar. — Fitou-me de soslaio e voltou a olhar para o horizonte. — E você?

— Bem... — murmurei a contragosto. Aquela palavra não me definia de modo algum.

— Tem algo a dizer sobre a missão?

— A culpa é minha. Da estratégia a execução dela, passando pelo cuidado em prever contratempos e fatores externos, incluindo a coordenação da equipe e o estudo das habilidades dos integrantes a fim de usá-las da melhor forma.

— Não vim atrás de uma declaração de culpa... — rebateu tranquilamente. — Porque se eu fosse apostar nos elementos que ocasionaram a falha parcial, não o incluiria em meu palpite. O que me leva a pensar: qual fator desequilibrou o time?... — deixou a pergunta no ar como se esperasse que eu respondesse. — Você e Sasuke sempre se saíram bem juntos, logo, o desequilíbrio ocorreu devido...

— A minha incapacidade de gerir o time.

— A minha incapacidade de escolher os integrantes corretamente.

— Minato, você não tem culpa alguma. Peço que perdoe meu erro e por envolver Naruto na missão — expressei com amargura.

Ele assentiu e permaneceu fitando a paisagem.

— O que está achando da estadia?

— Esse ambiente monocromático me irrita.

— Suas justificativas para o medo de hospitais sempre foram ótimas! Infelizmente, para as enfermeiras, você já pode ir. — Sorriu zombeteiro.

Pensei em visitar Sakura, mas achei por bem fazer isso com Sasuke. Não me sentiria a vontade indo sozinho e também não havia muita coisa que eu pudesse dizer a ela. Para minha surpresa, meu irmão já se encontrava em casa remexendo a geladeira em busca de comida. Sua expressão não me dizia nada e ele mal se mexeu ao perceber minha presença.

— Você a visitou? — indaguei sendo ignorado. — Não se importa com o que aconteceu?

— O que espera que eu diga? — rebateu rispidamente me encarando. Soltou um suspiro pesado e continuou: — Não consegui evitar que ela fosse atingida. Foi tão rápido... Eu sei, é uma péssima desculpa! Mas minha atenção estava focada na luta. Eu me preparava para receber vários ataques de diferentes ângulos quando Sakura se jogou na frente de um deles. Provavelmente para cobrir meu ponto cego...

— Deveria vê-la depois disso. Ela se arriscou por você.

— Por que se importa? Você não tem nada a ver com isso! — Elevou o tom. — Se passasse mais tempo em casa saberia que eu faço de tudo para não dar falsas esperanças a ela, mas é inútil! Eu não queria que ela se arriscasse por mim. Acha que estou satisfeito com isso? Que me sinto lisonjeado com a prova de amor recebida? — Um riso nervoso escapou de seus lábios. — Se estivesse aqui nos últimos meses saberia que tenho feito o que posso para não magoá-la, mas a cada dia se torna mais difícil. Palavras, gestos, qualquer coisa é facilmente interpretada de forma errada! — Suspirou retomando seu tom habitual. — Não visitá-la é um jeito de dizer que não concordo com sua atitude. Pode não ser o jeito certo, mas não quero alimentar essa... essa coisa! Droga, ela poderia ter morrido por minha causa! E eu não valho tanto assim...

Duas frases de sua fala me prenderam a atenção. Elas continham a mesma ideia expressa de modos diferentes: minha ausência. Em meio ao assunto que remetia a Sakura, Sasuke fizera suas acusações sutilmente mostrando que o tempo em que estive distante o incomodara.

Sasuke desistiu da comida e resolveu ir ao hospital, só não contava que seu ato sofreria uma “suave” intromissão de nossa mãe. Ele me olhou quase com desespero quando ela lhe empurrou um enorme buquê de flores e sua expressão implorou para que eu o acompanhasse. Durante o caminho, fitou o ramo como se fosse um objeto de outro mundo e me perguntou de que jeito deveria entregá-lo. “Esticando as mãos”, foi a resposta objetiva que saiu da minha boca a qual ele replicou ironicamente: “Não havia pensado nisso! Itachi, você é um gênio!”, antes de reclamar que minha ajuda não valia de nada e que até Naruto conseguiria dar uma sugestão melhor.

A forma que Sakura olhou para Sasuke quando ele estendeu as flores mecanicamente revolveu a amargura de meu interior preenchendo-o por completo. Era como se a simples presença dele fosse uma bênção que os céus derramavam sobre ela.

Pouco tempo depois, algumas imagens empoeiradas, outras limpas e frescas contornaram minha consciência tocando as paredes dos corredores das memórias, correndo por eles como crianças travessas, pintando-os com as cores das emoções que se remexiam e faiscavam como se quisessem retomar o lugar que um dia lhes pertenceu. Era incômodo forçar a deglutição daquilo, pois arranhava a garganta e arrastava suas unhas até meu estômago, às vezes, tentava subir até meu coração e se aninhar nele, mas isto era coisa do passado. Nada mais se aconchegaria nem mesmo se aproximaria do músculo que bombeava meu sangue e pulsava no ritmo ditado por sentimentos envelhecidos na minha carne. Eles eram obsoletos e se atrofiaram ao longo do tempo, resultando em sensações vestigiais que se inflamavam igual uma centelha a qual o vento insistia em reacender ao passo que eu despejava mais terra para frustrar seus planos.

Há muito deixara de acreditar que existia alguém capaz de me completar. Algumas pessoas simplesmente nasceram para ser somente metade. Era o destino e desse modo a natureza equilibrava o mundo, dando-as uma importância dentro do enorme ecossistema da vida. Elas (eu) poderiam se sacrificar sem hesitar pelos outros, da forma que fosse necessária, oferecendo sua existência como amparo ou em troca de outra que estivesse prestes a se perder. Havia nobreza nisso. Autossacrifício também. No entanto, acima de tudo havia amor. O verdadeiro amor que se verte em compaixão e irmandade, não aquela estupidez que denominamos quando sentimos o íntimo tremer diante de alguém. Este não passava de um golpe de sorte, algo com o qual poucos eram abençoados. E eu não estava incluso no rol dos afortunados.

Tentei mudar o foco dos pensamentos, porém desisti. Já transpassara a cerca que delimitava meu sossego e não a cruzaria de volta tão cedo.

— Não vou permitir que você seja o meu fantasma para sempre — murmurei ao vento como se as palavras o pertencessem. — Esse vai e vem de memórias, essas emoções que insistem em me alcançar... Eu as enterrarei... eu as destruirei... todas de uma só vez...

Era definitivo. Não uma promessa que seria protelada na manhã seguinte. Era a minha decisão de queimar as páginas daquela história e jogar suas cinzas ao vento.

Notas finais
Eu amei escrever a parte que o Ita fala sobre o outro tipo de amor. Acho que ficou bem interessante ver essa ótica dele de se sacrificar pelos outros sem problema. Ficou lindo demais! Amei escrever as lutas, fiquei muito feliz com o resultado delas! Sasuke é o chato mais fofo do mundo, quero mordê-lo. Bom, é isso! Quem quiser opinar, sinta-se a vontade! Bjs!!!