CASTELLOBRUXO
1 CASTELLOBRUXO
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Nas profundezas da selva amazônica, nos territórios do Novo Mundo controlados por Sua Majestade Portuguesa, a Rainha “Maria, a Piedosa”, erguia-se a “Fortaleza Príncipe da Beira”. Para a maioria dos trouxas, trata-se de um forte militar que demarca as fronteiras entre os dois impérios mais poderosos da Terra, mas eu conheço a sua verdadeira intenção: é um local de onde partem e partirão diversas expedições em busca de “El Dorado”, uma cidade de ouro e riquezas inigualáveis que alguns exploradores europeus juram ter visto com os próprios olhos em distintos lugares desta selva inexpugnável.
Meu nome é “Cagliostro João de Bragança da Sousa Nassau, Conde de São Lorenço”, Grande Bruxo da Ordem de Hermes Trismegisto, e estou no Novo Mundo trabalhando para o trouxa Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, Capitão-General da Capitania de Mato Grosso — um posto que, no mundo trouxa, é demasiado baixo para alguém da minha estirpe. Por isso, tive de fingir, durante cerca de dois anos, uma vida de libertinagem e dissipação de grandes somas de dinheiro para que fosse credível a necessidade de me esconder nas profundezas dos domínios portugueses do Novo Mundo. Utilizei feitiços complexos, que deixam o “Obliviate” e o “Confundo” a léguas de distância, para implantar memórias em dezenas de trouxas em estalagens e tabernas dos principais portos europeus; memórias de grandes apostas de cartas, lutas, derrotas e esbanjamento; memórias inexistentes de leilões das donzelas mais atraentes trazidas do Novo Mundo para satisfazer os prazeres mais sombrios da nobreza europeia trouxa. O mundo mágico também tem os seus prazeres sombrios e, deixem-me que vos diga, acabam sendo sempre mais entrelaçados e obscuros do que os dos trouxas.
A realidade, como sempre, é muito mais complexa do que se apresenta diante dos olhos dos mortais, mágicos ou não mágicos. Há mil e cem anos, quando o Grande Merlin caminhava entre os homens e o Império Romano do Ocidente era, a cada dia, uma história mais distante, o mundo mágico estava isolado de si mesmo. As grandes Ordens do Extremo Oriente e do Médio Oriente mantinham-se ligeiramente organizadas; principalmente a Grande Casa de Salomão tentava guardar a história e o conhecimento que, durante séculos, tinha sido propagado e partilhado com bruxos de todo o mundo. Sim, de todo o mundo, pois a esfericidade do planeta não era desconhecida para o mundo mágico como o era para a maioria dos trouxas. No Ocidente, foram anos sombrios para o mundo mágico; muito do conhecimento que antes estava estabelecido, sistematizado e até protegido nas bibliotecas dos grandes centros de estudo mágico, tinha-se tornado, na melhor das hipóteses, lenda. A grande escola de Hogwarts, que nasceu com este milénio, deu-se à tarefa de reconstruir, sistematizar e preservar todo o conhecimento e história mágica. Assim, a grande bruxa Rowena Ravenclaw desenhou um plano para a sistematização de todo o conhecimento mágico, estabeleceu todos os procedimentos e protocolos há mais de 700 anos — e continuam a ser usados até hoje — e desenhou os encantamentos para catalogar a criação, viva ou inerte, que fervilhava com essência mágica. Não bastava um movimento de varinha e a palavra “rerutor”; o processo “Rerum Magisnaturalium Cognitor” exigia uma entrega sensorial total. O bruxo devia não apenas olhar, mas ver com a pele a humidade do ambiente, ouvir com os ossos o batimento da terra sob a criatura, aspirar com a alma o aroma que delatava a sua natureza, doce como o néctar corrupto ou acre como o óxido de estrelas velhas. Só então, com a mente aberta como um pergaminho em branco, o feitiço tecia a memória no caderno. Mas tinha um preço: a tinta não era simples carvão, mas uma fina essência da própria memória do bruxo; cada entrada, perfeita nos seus detalhes tridimensionais e nas suas anotações de propriedades etéreas, deixava no feiticeiro um leve esmorecimento da memória pessoal, um pequeno tributo de experiência humana trocado por conhecimento mágico puro. Era um encantamento sublime, mas também uma transação íntima com a própria magia; era um encantamento insuperável.
A Primeira Ministra da Magia, Artemisia Lufkin, recém-empossada, autorizou a minha viagem. Recebi a sua coruja há mais de dois anos e estou aqui, cumprindo as suas ordens. Uma daquelas lendas que se contavam nas tabernas dos portos europeus trouxe-me a esta profundidade verde e inóspita; apenas o calor insuportável faz com que as bestas sem magia, por mais formidáveis que sejam, sejam tomadas como fantásticas pelos trouxas, o que deu lugar a todo o tipo de fábulas. Mas, de todas, a que chamou a atenção das coroas europeias é a suposta existência de uma cidade de ouro. Nos arquivos da Grande Casa de Salomão, existem registos parciais de um templo — pelo menos foi assim que nasceu —, mas com o passar do tempo, há mais de 700 anos, converteu-se num centro de estudos mágicos cujas paredes refletem o brilho do sol; encontra-se nas profundezas da selva amazónica e os seus membros especializam-se em Herbologia, Magizoologia e Astronomia.
Partimos. No auge de uma tempestade no Atlântico, as pontas dos mastros coroaram-se de fogo azul silencioso; os marinheiros trouxas ajoelharam-se, rezando ao seu São Telmo, enquanto eu apenas observava o plasma a dançar, pensando que até a natureza trouxa, na sua fúria, sabe criar espetáculos que rivalizam com o “Lumos” mais brilhante. Após dois meses de travessia, há mais de meio ano, atracámos no Rio de Janeiro; de lá partimos numa nau de menor calado, navegando durante várias semanas por cabotagem até Belém do Pará, onde o maior rio do mundo irrompe no mar com uma força telúrica sem igual. Após alguns dias de descanso na cidade, embarcámos num bergantim e, fazendo o maior esforço, tal como os nossos remadores, empreendemos viagem pela grande via fluvial do Amazonas em direção ao coração da sua selva-mãe.
Após várias semanas, chegámos à união de um dos seus maiores afluentes, o rio que alguns nativos chamam de “Etenez” ou “Eteniz” e outros chamam de “Guabure” ou “Guaporé”, e continuámos rio acima com maior dificuldade. O capitão da embarcação empregou toda a sua habilidade na técnica do barlavento, da espia e do botador, mas o rio era tão insistente que, por várias vezes, tive de empregar feitiços como “Ventus” ou “Aquamenti” para impulsionar um pouco o bergantim rio acima. Saberão vossas mercês que manipular o clima ou os fenómenos meteorológicos é produto do esforço de vários bruxos trabalhando juntos e eu, pessoalmente, não via outro ser mágico há mais de cinco anos, bem, exceto “Zezé”, o meu elfo doméstico, e a minha mãe, a Condessa de São Lorenço e Calheta, Dona Luísa Casimira de Sousa Nassau, da família de sangue puro mais antiga da Europa continental, cuja estirpe nobiliária faz empalidecer os próprios Black ou os Malfoy da Grã-Bretanha, que solicitam constantemente os nossos favores.
A Fortaleza Príncipe da Beira
Depois de sete meses de ter zarpado do porto de Lisboa, chegamos à Fortaleza Príncipe da Beira, no próprio coração palpitante da selva amazônica do Brasil.
A fortaleza erguia-se não como um farol de civilização, mas como um dente cariado cravado nas gengivas vivas da selva-mãe. As suas muralhas de pedra plúmbea, extraída a sangue e chicote de pedreiras distantes, suavam um constante humor úmido contra o qual o musgo e os pequenos fetos travavam uma guerra silenciosa e vitoriosa. Do alto dos seus bastiões, a vista não era de domínio, mas de cerco: um mar verde e inquieto, ondulando com o vento, espreitando a fortaleza a cada pôr-do-sol, ameaçando engolir cada palmo da clareira desmatada ao seu redor. Essa mesma clareira era uma cicatriz fresca e dolorosa, onde os troncos gigantes não tinham sido abatidos, mas esquartejados por explosões de pólvora que, para os trouxas nativos, deve ter parecido o despertar de deuses antigos e desconhecidos.
A soberania portuguesa neste canto do mundo não se decretava em pergaminhos; impunha-se à machadada contra raízes monstruosas, a arroubos de febre que derretiam a mente e aos surdos silêncios da aterrorizante quietude da noite, quebrada apenas por gritos de animais que não tinham nome em nenhum bestiário da Europa. A fortaleza era um ovo no meio de uma mão imensa que podia esmagá-lo a qualquer momento. O seu propósito trouxa — demarcar a fronteira com o império espanhol e procurar El Dorado — era uma farsa infantil comparado com a sua verdadeira função: ser um ponto de pressão no corpo de um continente que não queria ser medido, um lugar onde a Coroa tentava, desajeitadamente, tomar o pulso de um território cujo coração batia com ritmos de águas bravas e sussurros de folhas que não eram apenas folhas. Era um enclave de ambição trouxa, frágil e suado, erguido sem esperança de vida; aqui, a história não era escrita pelos reis, mas pelas lianas que estrangulavam os canhões durante a noite, e pela chuva que, gota a gota, prometia inundar toda a terra circundante.
O trabalho que devo desempenhar para o trouxa Luís de Albuquerque é o de Naturalista Real, que consiste em identificar, quantificar e classificar o potencial econômico de todos os recursos naturais dos domínios de Sua Majestade a Rainha Piedosa, isto é, indicar a D. Luís como se tornará mais rico e ganhará o favor da Rainha. Mas o verdadeiro propósito da minha viagem a este canto especial do mundo, apenas a Primeira-Ministra Lufkin e este que vos fala conhecemos, embora eu também serei uma espécie de magisnaturalista, enquanto surgir a oportunidade de fazer tão digno trabalho. Talvez se atrevam a pensar que a minha viagem tem algo a ver com a Independência dos Estados Unidos da América, precisamente este ano; pois não, embora este fato tenha muito impacto no mundo trouxa, ou deveria dizer muggle para ser mais conforme ao que foi relatado, no mundo mágico tem muito pouco impacto. A organização formal dos bruxos nas antigas 13 colônias da América do Norte sempre esteve separada da influência do Ministério da Magia em Londres; aliás, a escola Ilvermorny, que já tem mais de cem anos de antiguidade, embora tenha influência e estilo educativo herdado de Hogwarts, desenhou o seu próprio currículo, muito orientado para o mundo e criaturas originárias da América do Norte. Não, a minha missão não tem a ver com o balanço geopolítico das nações trouxas, mas com algo muito mais fascinante.
— Senhor Conde — Era Bento quem interrompia a escrita das minhas memórias de viagem.
Fechei o meu caderno e tive o cuidado de Bento não ver a minha pena mágica, que pode transcrever os meus pensamentos diretamente para o meu caderno de viagem; pode escrever como se eu estivesse a ditar a um amanuense ou pode fazer uma gravura ou um retrato de algo que vi e que chamou a minha atenção; é uma pequena adaptação pessoal que fiz ao encantamento “rerutor” de Madame Ravenclaw.
— Diga-me o que deseja, Bento. — Perguntei, tentando interpretar a sua agitação e emoção.
— Os exploradores encontraram uma pegada, ou marca, ou caminho de alguma besta; não sei como explicar-lhe, Senhor Conde, seria melhor que viesse ver com os seus próprios olhos.
Caminhamos cerca de meia hora cortando a vegetação com facão em punho; todos os dias abria-se o mesmo trilho e no dia seguinte aparecia íntegro, como se ninguém tivesse feito um único corte nesta selva impertinente. Chegamos a uma pequena praia do Guaporé; havia um canal com cerca de 40 centímetros de profundidade na sua parte mais funda e cerca de um metro e meio de largura que se perdia no rio, por isso seguimos selva adentro, caminhando pelo próprio canal, que era mais fácil do que abrir caminho na selva. O único animal que poderia ter deixado um canal destas dimensões que me veio à mente era um basilisco, e um muito grande. Caminhámos durante três horas tensas; os homens, os trouxas, agarrados às suas espingardas; eu próprio segurava uma pistola na mão, para guardar as aparências.
A grande pegada levou-nos para dentro da selva; seguimos em semicírculo, apenas para chegar rio acima, também a outra praia, onde a marca se perdia. Tudo dava a entender que o animal misterioso saiu do rio, entrou na selva e voltou ao rio. Só posso imaginar o tamanho colossal desse animal, o seu peso; certamente é por isso que prefere o rio, devido ao seu peso. O rio é como nenhum rio que um europeu jamais tenha visto; não falo das suas fozes, mas no seu curso continental, os mansos rios europeus têm entre 100 e 600 passos de largura. Este rio, que é um afluente do rio Madeira, que por sua vez é um afluente do Amazonas, tem trechos com mais de 1000 passos de largura e, na época das cheias, chega a cobrir milhares de hectares de selva. Na verdade, no Novo Mundo, a natureza parece mágica.
Enquanto empreendíamos o regresso à fortaleza, embora a tensão por encontrar uma besta formidável no final da pegada tivesse desaparecido, cedo transformou-se numa tensão muito mais humana: encontrámos selvagens, vários homens de uma tribo, traziam mulheres de outra tribo, amarradas de pés e mãos; queriam comerciar com elas. Não estou aqui para me intrometer nos assuntos dos trouxas; no mundo mágico, também temos escravos — se não, o que é Zezé? — também tratamos tantas criaturas mágicas com uma sorte de desprezo, como aos centauros, gigantes ou trolls. Tal como entre os trouxas, no mundo mágico há vozes que desejam mudar isso, mas não é a minha tarefa, pelo menos não agora.
Nas semanas seguintes, não aconteceu nada mais importante do que os preparativos para uma expedição a território inexplorado. Durante semanas tem-se acumulado água, rum, carne seca, munições, pederneiras, pólvora, lenha — sim, lenha, porque esta selva é tão úmida que é impossível acender um fogo que sustente a cozedura de qualquer presa que se cace ou pesque. Os peixes nestes rios são muito grandes; pescar um exemplar pequeno de uns 100 quilogramas é uma tarefa titânica que envolve muito esforço de pelo menos cinco homens, durante várias horas, até que o animal se canse.
A Expedição
Pela primeira vez, após quase dois meses desde que chegamos à fortaleza, partiremos em busca de El Dorado. A minha bagagem mais preciosa era um arsenal de poções, cada frasco um pequeno ecossistema de magia contida que serviria enquanto as coisas corressem bem. Tudo mudou com a “picada da sombra”, nome que os soldados deram à doença da mosca-da-areia. O inseto não era mágico, mas o seu parasita respondia a uma perversa lógica mágica: alimentava-se da energia vital, deixando úlceras que não eram feridas, mas, talvez, “janelas de ausência” na carne, por onde se filtrava o cansaço e a desesperança. As minhas poções curativas, desenhadas para males infecciosos europeus e malefícios conhecidos, eram inúteis perante isto. A que melhor funcionava, uma infusão de “Lágrimas de Mandrágora” estabilizadas com bílis de dragão dos Alpes, era escassa. Para o ungüento, não usei simples cera de favo; procurei na selva e, guiado por um leve zumbido mágico, encontrei um “Favo do Sono Diurno”, pendurado numa árvore venenosa, cujo mel era espesso e cinzento, e possuía a propriedade de induzir um letargo local. Misturá-lo com a poção foi um ato de alquimia desesperada: o mel retardava o parasita, a mandrágora reconstruía o espírito danificado e a bílis de dragão queimava a influência mórbida. O “Confundo” que impus no médico foi o de menos; o verdadeiro feitiço estava naquela amálgama viscosa que cheirava a terra úmida e metal velho. Mas as minhas poções estão a esgotar-se; sinto-me pouco preparado para enfrentar isto. Certamente poderia utilizar o feitiço “Vulnera Sanentur”, mas isso colocar-me-ia em evidência, não apenas perante a pessoa que pretendesse curar, mas perante qualquer trouxa que quisesse meter o nariz nos meus assuntos.
Partimos numa tarde de chuva gentil — e isso é muito dizer, pois a chuva neste lugar raramente é gentil; é uma verdadeira força da natureza, inunda grandes extensões de terra, faz transbordar os rios, afogando tudo; arrasta naufrágios, cadáveres envergonhados de trouxas e animais carcomidos por peixes e, especialmente, por jacarés, os verdadeiros donos destas terras, de acordo com relatos dos nativos e dos europeus. Alguns desses relatos falam do “fantasma negro”, um jacaré que facilmente supera os dez passos de comprimento, absolutamente invisível até que a última coisa que um vê são as suas fauces completamente abertas, capazes de morder toda a cabeça de um cavalo e introduzi-lo no rio sem o menor esforço. Se isso for verdade, seria digno de ver: um confronto entre o fantasma negro e um hipogrifo.
— É aqui, senhor Capitão. — Interrompeu o torpor da viagem com as suas palavras o bandeirante que nos guiaria até onde a sua boa-fé pudesse atestar; chamava-se João, tal como este servidor. O capitão do nosso bergantim era, na verdade, um jovem Alferes, Joaquim Tavares da Silva, de uma família brasileira de comerciantes abastados que nunca tinha estado na Europa nem tinha conexões, e apenas aspirava a fazer um nome que um dia o levasse à corte lusitana. O oficial encarregado da fortaleza chamava-se Simão Ribeiro de Ávila, provinha de uma família de nobreza rural, mais catalã do que portuguesa, e tinha decidido dar esta oportunidade a Tavares mais por comodidade do que por desprendimento. Apesar disso, estou certo de que Tavares foi instruído a não me perder de vista. Vejam bem, de todos os trouxas da fortaleza, o único que jamais acreditou por completo na história do nobre caído em desgraça foi Ribeiro. Pelo menos duas vezes entrou nos meus aposentos para revistar cuidadosamente os meus pertences enquanto eu estava ausente; sei-o porque utilizei “Revelio” e pude ver tudo o que fez e o cuidado que teve de colocar cada coisa no lugar exato de onde a levantou. Desde logo, a sua desconfiança é incômoda, mas inofensiva para os meus propósitos.
Na expedição acompanham-nos o Primeiro-Sargento Gaspar de Lemos, um lusitano curtido em batalha, António “Tonho” Costa, Francisco “Chico” dos Anjos, Baltazar Martins, José “Odé” Preto e Domingos Fernandes, todos soldados de ofício e portugueses, exceto Preto, um liberto de cor cuja mãe e avó eram sacerdotisas dos Orixás, e a sua divindade principal era Iemanjá, a Orixá do mar ou, para o nosso contexto, dos grandes rios; o seu sobrenome, “Odé”, significava “filho do caçador”, do Orixá Oxóssi, o “Caçador da Floresta”. O nosso guia, o bandeirante, chamava-se Bartolomeu Bueno da Veiga, um aventureiro português que apenas procurava riquezas para as poder dilapidar nos melhores bordéis da Europa.
Enquanto os soldados portugueses vêem uma selva hostil e perigosa da qual devem extrair riquezas para a Coroa e para si próprios, José Preto conseguia senti-la como um espaço sagrado e vivo, cheio de presenças sobrenaturais: Oxóssi nos animais, Ossaim nas plantas e Iemanjá no rio. Eu, pelo contrário, conseguia vê-la como um laboratório mágico cheio de grandes possibilidades.
— Detenham a nave — ordenou Tavares.
Perto do lugar assinalado por Bueno da Veiga, podiam ver-se os restos de uma pequena embarcação; estava destroçada por completo.
— Isso foi o seu fantasma negro? — Perguntou Gaspar de Lemos, com um tom desafiante e sarcástico.
— Não, meu Sargento — respondeu com falsa humildade Bueno da Veiga —, isso foi apenas uma forte correnteza que nos atirou contra uma árvore, como se fôssemos uma embarcação de papel. Estou certo de que o fantasma negro teria comido até a madeira do barco. Que Deus nunca permita que vossa mercê tenha de cruzar caminho com o fantasma negro.
— Procuremos um banco de terra, uma praia, para amarrar a nave e seguir a pé. — Instruiu Tavares, e assim fizeram os trouxas.
Empreendemos caminho abrindo caminho na espessa selva. Nenhum passo era seguro; parecia que nos deslocávamos num gigantesco lamaçal, mas, ainda assim, avançamos durante pelo menos três horas até que a noite caiu. Subimos às árvores mais fortes que encontrámos, amarrámos a nossa carga e a nós próprios; dois homens fariam guarda enquanto os outros dormiriam, embora dormir fosse um luxo que ninguém queria dar-se naquela noite, nem eu, pela minha curiosidade. Seria a primeira noite que estaria no meio da vitalidade desta selva-mãe; estava imensamente curioso pelo que poderia ver, ainda que não fosse mágico.
Num momento da noite, o bulício dos macacos e das aves deteve-se abruptamente. Foi um silêncio ensurdecedor, apenas para dar lugar a um tremor que todos sentimos no peito: era o rugido de um jaguar, o felino mais grande desta selva, mas não é o rei; aqui, este grande felino é também presa da anaconda e do jacaré. No entanto, o seu rugido fazia vibrar os nossos peitos e as copas das árvores por igual; lembrou-me o terrível som gutural que um dragão faz pouco antes de exalar fogo, pese embora, hoje em dia, a grande maioria dos dragões esteja em reservas mágicas protegidas, o seu som continua a causar aquele adormecimento associado ao medo. Há vários séculos, os dragões podiam estar facilmente em contato com trouxas, que, embora tivessem começado por venerá-los, acabaram por caçá-los e convertê-los em mitos.
Odé, dominando o seu tremor, esticou a mão para me apontar para baixo. Era uma pequena chama azul-violeta que dançava perto do solo, a mais de 50 passos das árvores que nos davam segurança. Os soldados trouxas olhavam-na fixamente com os rostos presas do pânico, um pânico que lhes impedia o movimento e só lhes permitia agarrar-se às cordas com as quais estavam amarrados aos ramos das suas árvores. Mas eu conheço este fenómeno: é o “fogo-fátuo”, trata-se da combustão espontânea de gases produzidos pela decomposição de matéria orgânica em ambientes úmidos e sem ar, exatamente como estes pântanos cobertos quase sempre de água. Mas por que sinto que agora se trata de algo mais? Talvez restos de magia antiga ou mesmo criaturas etéreas que se alimentam do medo dos trouxas. «Quão mais temerosos podem estar?», perguntei-me para soslayar a minha curiosidade; saquei a minha varinha e, sussurrando, disse “Revelio”; mas nada de mágico se revelou. O fogo-fátuo, como fenómeno natural que era, continuava ali, dançando ominosamente até se apagar, com total segurança, por se ter consumido todo o gás libertado. Alguns conciliamos o sono até ao amanhecer.
Depois de termos comido a ração de carne seca e bebido água com sumo de limão, começamos a caminhar abrindo caminho com o facão. Sentimos falta da chuva, pois o calor úmido era insuportável; até respirar era muito difícil. Os mosquitos fizeram presa de todos nós naquela manhã; se bem que os trouxas não o saibam, e no mundo mágico não se tenha certeza, há um mosquito em particular cuja picada produz as chamadas “febres terciárias”. O único tratamento conhecido é uma infusão da casca da árvore “cinchona”, chamada “quina”; a mais efetiva e dispendiosa é a “quina-calisaya”, trazida dos Andes nos domínios espanhóis. Na fortaleza há uma pequena dotação, guardada como ouro e apenas administrada em casos extremos aos oficiais. Temo que esta manhã todos tenhamos contraído essa doença; saberemo-lo em três ou quatro dias, quando vierem as primeiras febres.
Ao meio-dia decidimos descansar. Acendemos fogo com os ramos úmidos que encontrámos para que o fumo abundante afugentasse os mosquitos; foi uma tarefa muito difícil, no final tive de empregar “Igniculus” para acelerar o processo. Se tivesse empregado “Incendio”, de certo que os trouxas teriam reparado.
Descansamos debaixo de uma árvore singular que chamou a minha atenção de naturalista. Não era tão alta como as árvores gigantes que a rodeavam, mas a sua copa era um dossel perfeito de folhas de um verde esmeralda profundo. O que a tornava inconfundível eram os seus ramos jovens, cobertos de um veludo avermelhado que parecia pó de cobre à luz filtrada. Depois vi os frutos; não pendiam dos raminhos finos, mas brotavam, impertinentes e maravilhosos, diretamente do tronco e dos ramos grossos, como se a própria árvore estivesse a parir joias de dragão. Eram de um amarelo intenso, cobertos de protuberâncias como as do dorso dos crocodilos do Nilo, que lhes davam o aspeto de um objeto de outro mundo. Odé apontou-os com certa reverência, murmurando “biribá”.
Tinha visto frutos parecidos trazidos para a Europa dos domínios do Caribe espanhol, mas que parente mais soberbo e grotesco gerou a Amazônia; parece uma árvore de fábula, a que decoraria o jardim de um mago excêntrico. Tomei um e parti-o com o meu facão. A casca cedeu facilmente, revelando uma polpa roxa e gelatinosa que brilhava com sumo doce. O aroma que desprendeu era embriagador, uma mistura de cítricos e açúcar queimado. Um soldado, mais faminto do que precavido, tomou um pedaço e os seus olhos abriram-se de espanto. “Sabe a natas com mel, Senhor Conde!”, exclamou. Naquele momento, soube que tinha encontrado não apenas um recurso renovável, mas uma maravilha; este fruto era a prova de que a natureza, aqui, prefere a extravagância à modéstia, mas, por mais extravagante que fosse, não era mágica.
Apesar da minha recomendação, os homens comeram muitos, não até se saciarem, mas até ao extremo; apenas Odé e eu nos limitamos a um par. Quando empreendemos viagem, passada meia hora, começou o primeiro a libertar o seu estômago com violência em fezes líquidas. O avanço tornou-se lento e cansativo.
A noite encontrou-nos num sítio sem árvores grandes para passar a noite; removemos terra de vários lugares para criar quatro pequenos promontórios nos quais fizemos as fogueiras mais grandes que pudemos com todo o forragem úmida que encontrámos e parte da lenha seca que estávamos a transportar. No final, o fogo venceu a umidade e ergueram-se verdadeiras fogueiras que iluminavam a nossa escuridão e nos davam a proteção suficiente para passar a noite. Foi uma noite tranquila, sem ruídos espantosos e sem chuva. O medo veio no dia seguinte.
— Capitão Tavares, venha pronto ver isto! — Aulou Tonho, chamando a atenção de todos, que corremos a ver de que novidade se tratava, mas, quando a vimos…
Eram várias pegadas que vinham do profundo da selva e se detinham justo a uns passos de uma das fogueiras. Eram claramente as pegadas de um jacaré — sei-o porque tinha visto antes as pegadas dos seus parentes do Nilo —, mas estas eram enormes; facilmente cobriam o tamanho das costas de um homem, não a sua palma, as suas costas. As pegadas davam volta e regressavam na mesma direção de onde vinham.
— Dom Bartolomeu, para onde devemos seguir viagem? — perguntou Tavares.
Bueno da Veiga apontou a direção das pegadas e a todos os trouxas gelou-se o sangue.
— Vamos prosseguir — disse Tavares, fazendo acúmulo de toda a sua valentia e tentando dar segurança às suas palavras, talvez mais para si próprio do que para nós.
Estou certo de que ninguém teria obedecido à sua ordem; aliás, Tavares não a teria dado se alguém mais se tivesse apercebido do que eu me apercebi ao chegar ao lugar. Justo ao lado das pegadas da besta, havia umas marcas, como as que deixaria um cavaleiro ao descer da sua montaria e depois voltaria a ocupá-la. Não eram profundas, eram de um homem jovem ou de uma mulher, realmente superficiais e muito finas; não pertenciam a uma bota ou calçado europeu, nem eram descalças como se esperaria das pisadas de um nativo destas terras; eram lisas, completamente lisas e ligeiramente arredondadas nas pontas. Tenho sabido de trouxas que, desde há milhares de anos, têm montado bestas formidáveis, até nas suas guerras; têm montado elefantes ou rinocerontes conduzindo-os a sítios impensáveis; tenho sabido de bruxos que têm montado hipogrifos, abraxans, alcedragões, os terríveis uros alados nas distantes guerras mágicas e, os que conseguem vê-los, têm conseguido montar thestrals, mas algo como o que estou a entender destas pegadas, pelas barbas de Merlin, não me é familiar. Como não teria querido estar sozinho para usar “Revelio”, mas Tavares nunca se afastou do meu lado.
Não tivemos de caminhar muito até saber que nos adentrávamos em terras anegadas; seguro que se tratava do transbordamento de algum rio ao qual chegaríamos mais cedo ou mais tarde. O bandeirante Bueno da Veiga insistia que não tinha visto isto e que, a partir daquele momento, tudo era novo e desconhecido. Seguros de que cada passo nos levaria a terreno mais anegado, Tavares ordenou construir flutuadores improvisados para manter seca a pólvora; para os trouxas é vital ter armas de fogo, suponho que é exatamente o mesmo valor que lhes damos nós às nossas varinhas. Se essa besta aparece e, pior, se tem um cavaleiro hostil, decidi que apenas usarei a magia como último recurso, ainda que signifique revelar-me perante estes trouxas.
Seguíamos caminhando, quando de repente o nível da água começou a subir rapidamente; podia-se sentir o frio escalando pela nossa pele até que nos chegava à altura do peito. Senti algo roçar-me a perna e, antes de que pudesse tratar de identificar o que era, ouviu-se um grito afogado e um dos soldados desapareceu.
— Tonho, é o Tonho — Gritou Chico dos Anjos, desesperado e assustado.
Não reinava a escuridão e a água era clara, não era constantemente turva como a água dos rios desta terra; conseguia-se ver o solo por baixo da água. Submergi e tentei olhar em todas as direções, mas não havia rasto de Tonho; apenas alcancei a ver uma espécie de cauda, parecia o extremo de uma anaconda, mas não tinha a aparência descomunal dos relatos que estivemos a ouvir todas as noites na fogueira da fortaleza.
Todos os homens estavam a apontar com as suas armas, em todas as direções, sem saber sequer de onde vinha o perigo.
— Vamos, passo vivo — Ordenou Tavares e todos começamos a atravessar esforçadamente a água em direção a um setor no qual se levantavam várias árvores; todos entendemos que aí poderíamos estar seguros para passar a noite que, se bem que não tinha caído, estava muito próxima.
Terminamos correndo torpemente, resvalando, afundando-nos por completo, mas corremos até alcançar as árvores e trepamo-las como se realmente disso dependessem as nossas vidas.
O nosso silêncio, após a corrida, era quase tão aterrador como o grito afogado de Tonho. Arfávamos, empapados e tremendo, agarrados aos ramos como náufragos aos restos de um naufrágio. A água tinha subido até quase cobrir os ramos mais baixos, e a umidade envolvia-nos como um sudário.
Foi Odé quem os viu primeiro; não disse palavra alguma; apenas alçou ligeiramente o queixo, os seus olhos fixos numa mancha de sombras e folhas, um pouco mais acima e à esquerda de onde eu estava; segui o seu olhar, e então vi-os: um par de olhos entre amarelo e laranja, imóveis, brilhando com uma paciente frialdade que antecipava um desenlace sangrento. Pior, se isso não tivesse sido suficiente para aterrorizar a nossa espinha, um segundo par de olhos acendeu-se uns passos mais acima, noutro ramo apenas distinguível pela escuridão que já nos envolvia.
«Pelas barbas de Merlin!», pensei, contendo a respiração e agarrando a minha varinha; talvez o último recurso termine por ser o primeiro.
Os predadores não rugiram nem mostraram os dentes. Simplesmente observavam, donos do seu entorno, a uns intrusos trêmulos que tinham invadido os seus domínios.
A nossa precipitada corrida tinha feito um terrível dano aos trouxas, um que não tinham sopesado até este crucial momento: as suas espingardas tinham-se tornado pouco mais que pesados paus de madeira e metal, a sua pólvora, meticulosamente guardada em chifres e cartuchos de couro, estava empapada, um cheiro a mofo e salitre úmido misturava-se com o perfume úmido da selva. A sua principal segurança perante qualquer perigo, não mágico, tinha-se esfumado, mas, ainda assim, os soldados, pálidos, agarravam-se às suas armas inúteis.
Odé começou a cantarolar suavemente uma melodia gutural e repetitiva e pronunciava palavras trêmulas numa língua que só ele e os espíritos da floresta poderiam compreender; era uma invocação a Oxóssi, o caçador, mas também uma súplica à selva para que não nos convertesse em presa.
O jaguar mais próximo baixou lentamente a cabeça. O seu olhar pousou-se, não em mim, mas na minha bolsa de couro, que pendia de um ramo. Senti a necessidade de agarrar a minha varinha; um simples “Immobilus” paralisaria os felinos ou um “Stupefy” deixá-los-ia inconscientes. Mas Tavares estava justo debaixo de mim, e Gaspar de Lemos, com o seu olhar cético de lobo velho, estava à minha direita.
Revelar-me agora seria um desastre; a desconfiança do Capitão Ribeiro na fortaleza empalideceria perante o pânico e a superstição que desataria a magia aberta perante estes trouxas; poderiam tentar linchar-me ou, minimamente, apoderar-se da minha varinha, acreditando que era um artefacto do diabo.
O segundo jaguar esticou-se, mostrando uma boca rosada e uns caninos que pareciam adagas de marfim. Foi um movimento casual, de absoluta posse, que fez com que Baltazar Martins, que estava mais próximo do jaguar, começasse a soluçar afogadamente e Odé calava-se fechando os seus olhos; a sua oração tinha concluído.
Foi então quando o silêncio se quebrou de novo, mas não pelo rugido que esperávamos como prelúdio ao ataque. Do escuro e profundo da água que o dominava tudo, surgiu um som grave, um estalo surdo seguido de um só chapinhar poderoso, como se algo enorme estivesse a arrastar-se sobre o leito pantanoso. Os jaguares, ao mesmo tempo, aguçaram as orelhas. A sua atenção desviou-se de nós para as águas escuras. Um cheiro penetrante, como o de um pântano misturado com o da carne em decomposição, subiu com a brisa. Odé abriu os olhos e, em voz alta, sem se preocupar com os predadores, advertiu-nos:
— Eles podem ver — Os seus olhos cheios de um terror indescritível —. Ao Fantasma…
Ambos os felinos, guiados por um instinto de conservação mais profundo que qualquer fome, reagiram imediatamente, usando os ramos mais robustos, encolheram-se sobre si mesmos e, com um impulso poderoso e silencioso, abrindo caminho, moveram-se qual sombras pesadas e saltaram para uma árvore contígua e depois para outra, fazendo tremer poderosamente a folhagem. Odé e o bandeirante estavam no seu caminho.
Não houve tempo para um grito de advertência, nem sequer para um arfar. O corpo musculoso do primeiro jaguar golpeou em cheio o guia português, arrancando-o do seu precário agarre; um instante depois, mais curto que um piscar de olhos, a massa do segundo felino impactou contra Odé, que estava uns palmos mais acima. Vi-os desaparecer do ramo como se uma sombra incorpórea os tivesse varrido; apenas um estalar de ramos quebrados marcou a sua partida. Caíram.
Apenas o ominoso ruído dos seus corpos ao afundarem-se nas águas escuras nos advertiu do seu fatal destino.
O bandeirante, após o seu chapinhar pesado, começou a chapinhar e gritar.
— Aqui! Aqui, pelo amor de Deus! — nadando às cegas para onde acreditava que estava a nossa árvore, os seus braços batiam a água negra com desespero.
Odé, no entanto, caiu mais pesadamente, mais profundo, como se o pântano o tivesse aceitado sem resistência; apenas silêncio após a sua queda. Alguns já estavam a auxiliar o bandeirante quando a voz de Odé surgiu das trevas líquidas, transformada num grito que não era de medo, mas de um horror absoluto, que se partiu estrangulado por algo mais grande que os seus sentidos: “O FANT—!”
A palavra morreu, cortada por um som espantoso: um remoinho repentino, um estalo úmido e potente, como o de um chicote gigantesco sendo sacudido com violência debaixo da água. “Algo me roçou! Algo enorme!”, uivou Bueno da Veiga, que já se agarrava com todas as suas forças a um ramo. Algo — longo, áspero, de uma força inconcebível — tinha-se deslizado contra as suas costas, de cima para baixo, através da água e da sua própria roupa. Não foi um golpe, mas um roçar dominante, inexorável; podia-se ver todas as suas costas nuas, não existia a tela da camisa nem as bandoleiras de couro que sustentavam as suas armas e, sobre toda a pele das suas costas, viam-se marcas, como as que deixam as cordas dos barcos ao raspar as tuas mãos quando se escapam violentamente do teu agarrar.
O bandeirante não o viu; nenhum de nós o viu. Mas ninguém teve dúvida alguma de que foi O Fantasma, que afugentou os jaguares e se cobrou o inesperado favor na carne do nosso companheiro.
A noite teve de seguir de largo, atormentando os nossos corpos trêmulos; teve de continuar escutando soluços afogados dos trouxas e, talvez, o torvelinho de ideias bulliciosas que atormentavam a minha cabeça ao não ter feito nada para salvar Odé. Maldita sorte que não haja um feitiço para acelerar o tempo ou retardá-lo; talvez um dia, algum grande bruxo ou uma grande bruxa o desenvolvam, mas agora devo suportar o peso de cada segundo desta longa noite.
O amanhecer não chegou com o trinar das aves ou com um sol radiante; em seu lugar, trouxe uma neblina espessa que não fez nada para nos brindar qualquer sensação de segurança; ainda assim, havia que fazer algo.
Um a um descemos da árvore envolvidos na neblina que parecia iluminar tudo com uma pálida uniformidade que tornava impossível identificar a posição do sol para saber a hora. Tavares, o jovem crioulo a quem alguma vez tinha atravessado a ideia de conhecer a corte da Rainha Piedosa, agora tinha o rosto da desesperança pelo estrepitoso falhanço da missão que lhe foi encomendada.
— Temos de regressar, perdemos dois homens e o nosso guia perdeu a sanidade — disse, olhando para Bueno da Veiga, que tremia em silêncio e babava sem controlo. — A pólvora está perdida, as forças também. Não podemos seguir, temos de regressar à fortaleza.
Houve murmúrios e gestos de assentimento, mais de alívio do que de convicção. A selva, com as suas lendas e mais, com a sua realidade, tinha ganho.
Então, todos voltaram o olhar para mim. Eu tinha estado apartado, tentando distinguir onde a água se perdia entre a espessura, a possível rota que O Fantasma teria tomado.
— Eu fico — disse, de imediato, quando entendi que os homens esperavam a minha posição e, ao ouvi-la, todos se surpreenderam pela calma que tinha impresso nela; uma calma que não sentia.
Tavares empalideceu. — Perdeu a razão, Senhor Conde? Não há nada aqui, mais do que morte! — Disse quase eufórico, tanto que não pôde ocultar a sua verdadeira preocupação; tinha ordens precisas de não se afastar do meu lado.
— Tem razão Tavares, não encontramos mais do que morte; pode dizer ao Capitão Ribeiro que esse também foi o meu destino e, embora Vossa mercê não o tenha visto com os seus próprios olhos, seguro que será o meu final, mais cedo ou mais tarde.
— É suicídio, Senhor Conde!
— Pode ser — admiti, enquanto desajustava a correia da minha bolsa, onde as poções restantes tilintavam suavemente —. Se em algum de vós brotarem chagas pelas picadas, usem o ungüento dos frascos verdes e, se vos assaltarem as febres terciárias, um pequeno gole dos frascos com quina. Eu ficarei a encontrar o meu destino. Além disso —adicionei, baixando a voz para que só ele a ouvisse—, um homem… da minha linhagem, em desgraça, talvez encontre nesta selva um final mais digno do que numa corte que o despreza. Sigam vocês. E dê ao Capitão Ribeiro a explicação que veja conveniente, que pouco me importa. Só lhe peço que tenha a gentileza de fazer chegar todas as minhas poucas possessões à minha mãe, a Condessa de São Lorenço e Calheta em Portugal, por favor. Talvez, ela —adicionei, como anzol à sua vaidade— possa interpor palavra para que o senhor Tavares seja admitido na Corte de Sua Majestade Piedosa.
Tavares olhou-me por largo tempo, e nos seus olhos vi que não acreditava nem numa palavra da minha fachada de nobre arruinado, mas o seu medo e as minhas últimas palavras surtiram efeito: assentiu.
— Que a graça da nossa Majestade Piedosa e o favor de Deus acompanhem a Vossa mercê.
Enquanto a maltrapilha expedição se reorganizava para o penoso regresso, eu voltei-me para a direção que calculava que O Fantasma tinha tomado. Comecei a caminhar com dificuldade, a água chegava-me à cintura; saquei a minha varinha quando estive prudentemente longe: “Salvio Hexia”, “Repello Trouxatum”, “Cave Inimicum”. A partir daquele momento, ainda que os meus camaradas de exploração tivessem querido ver-me, já não lhes teria sido possível.
Conjurar matéria ex nihilo é uma magia muito complexa e avançada, inclusive para um Grande Bruxo da Ordem de Hermes Trismegisto, mas transfigurar a matéria existente, isso é outra coisa muito diferente e na qual este servidor tem vasta experiência. Com “Accio Troncos” juntei madeira, descartei os ramos mais delgados; com “Reparo” fundi os troncos uns aos outros em diferentes lugares; a seguir, “Herbivicus” para que as trepadeiras de uma árvore próxima se tecessem fortemente entre os troncos da minha futura jangada e, finalmente, “Inflatus” muito controlado para que os troncos se inflassem para maior flutuabilidade. Abordei a minha jangada improvisada e, com uma vara longa, comecei a dirigi-la para onde, com segurança, O Fantasma se dirigiu, levando Odé.
A poderosa confluência de dois rios
A jangada de troncos inflados avançava com torpeza através da água quieta e opaca. O silêncio que me rodeava era denso, como o que se escuta atrás dos tampões de pano com cera que os artilheiros colocam nos galeões para evitar que os disparos de canhão os deixem surdos. Os encantamentos defensivos que tinha lançado, Salvio Hexia, Repello Trouxatum, Cave Inimicum, formavam uma bolha de isolamento mágico ao meu redor; não só me ocultava de possíveis olhares trouxas ou perigos, como também amortecia os sons do exterior, submergindo-me numa paz, lamentavelmente, demasiado artificial.
A selva amazónica não é um inimigo que se enfrenta apenas com magia direta; comparo-a ao bebé dos gigantes: nascem com o tamanho de um humano adulto e a força de três homens, e um só movimento infantil de alegria pode acabar com a vida de alguém tolamente não precavido. Esta selva é uma entidade infantil, paciente, persistente, que erosiona com humidade, calor e vida voraz.
O meu primeiro problema surgiu apenas uma hora após a partida; o Herbivicus que tinha utilizado para fixar as trepadeiras aos troncos tinha funcionado demasiado bem. As plantas, imbuídas da energia mágica, não só se tinham aferrado fortemente aos troncos inflados, como tinham começado a crescer com uma velocidade antinatural, brotando ramos novos e talos secundários que enredavam a vara e ameaçavam desestabilizar a frágil embarcação.
— Finito incantatem — sussurrei, apontando para os talos mais rebeldes e, naturalmente, o crescimento desenfreado deteve-se, mas as trepadeiras já lá estavam, grossas e fortes; tive de fazer uso do facão e cortá-las manualmente: uma recordação esmagadora de que a magia, neste ambiente, podia ser tão volúvel como o próprio rio.
O segundo desafio foi a corrente; a terrível aparência da sua inexistência. A minha jangada flutuava e, ainda que pela referência de objetos estáticos que sobressaiam pudesse determinar que me estava a deslocar, a água parecia parada. Contudo, sob a superfície, movimentos poderosos de correntes imprecisas puxavam a jangada em direções imprevistas; não era o empurrão previsível de um rio, parecia mais uma pulsação caprichosa do pântano. Para manter o rumo que intuía, aquele que aquele colosso, o Fantasma, deveria ter tomado, tive de recorrer a pequenos e discretos encantamentos de propulsão.
— Aqua Propulsor — disse, movendo a varinha num círculo debaixo de água. Um pequeno redemoinho formou-se atrás da jangada, empurrando-a para a frente com um suave impulso. Era um feitiço menor, daqueles que se poderiam ensinar aos estudantes do quarto ano para navegar barcos no lago de Hogwarts, mas aqui, na vastidão silenciosa, cada gasto de energia devia ser medido. Sentia a fadiga a acumular-se nos meus ossos, uma pesadez que não era apenas física. A magia aqui parecia diluir-se, absorvida pela exuberância vital do próprio pântano.
A névoa, que pela manhã era omnipresente, tinha-se dissipado, dando lugar a um calor húmido e opressivo que se colava à pele como um segundo sudário, um autêntico e sufocante abafamento. Avancei durante algumas horas, guiado por um instinto que bem poderia ter sido próprio de um mago ou de um autêntico náufrago. A paisagem, a princípio, mudava imperceptivelmente; nas margens, as árvores espaçavam-se, a água perdeu gradualmente a ligeira transparência que tinha e começou a tornar-se totalmente turva, e uma corrente subtil, mas já definida, começou a guiar a minha jangada. Notei restos de vegetação flutuante movendo-se com o mesmo propósito que a minha frágil embarcação; tinha acabado de entrar no curso de um rio que rapidamente se evidenciou muito largo, talvez 500 ou 600 passos, e que cada vez se ia alargando ainda mais.
Um rumor longínquo alcançou-me, como o ruído que fazem as ondas ao bater contra a madeira dos barcos em alto-mar; depois, a água ao meu redor começou a vibrar, a corrente tornou-se mais forte, puxando a jangada com uma insistência que já não era caprichosa, mas decidida. Espreitei por cima do dossel de árvores mais baixas e o coração deu um salto. Encontrava-me no rio que os nativos conhecem como Abuná, intuí-o ao instante, e pela direita, um rio de águas mais escuras e rápidas, o Madeira, precipitava-se num abraço embravecido com a sua colossal massa de água. A confluência não era uma união pacífica, era um campo de batalha aquático; as correntes chocavam, enrolavam-se, retrocediam e voltavam a avançar, criando redemoinhos enormes que giravam com voracidade silenciosa, fossas circulares na superfície que absorviam troncos e espuma para depois os cuspir alguns passos mais à frente. O rugido era agora ensurdecedor, um trovão líquido e constante.
A minha frágil jangada, ainda que fortalecida pela magia, era uma casca de noz perante semelhante força. Um redemoinho menor, de uns três passos de largura, formou-se a apenas dez braças a estibordo e começou a atraí-la. Por mais que me esforçasse com a vara e lançasse um “Ventus” contra a água para contrariar, a jangada girou sobre si mesma, aproximando-se do bordo do vórtice.
Foi então que a vi. Emergiu das escuras águas do Madeira como uma ilha que despertasse; não foi um salto, nem um movimento brusco; simplesmente, uma vasta extensão de escamas de um verde escuro quase negro, manchadas com padrões de ferrugem e ocre que se confundiam com o lodo que escorria pela sua superfície. O corpo era tão largo quanto o tronco do biribá sob o qual tínhamos descansado, e o comprimento… pelas barbas de Merlin, perdia-se na turbulência da confluência. Não era o Fantasma, era o animal cuja profunda pegada encontrámos nos primeiros dias perto da fortaleza; tinha de ser um basilisco, tinha de tratar-se da maior perversão de Herpo o Oco.
Os seus olhos, do tamanho de toda a cabeça de um boi, eram de um âmbar profundo, sem a característica pupila vertical de réptil, mas redondos e cheios de uma inteligência antiga, inescrutável. Não compreendi se me olhou com fome; aliás, durante um instante, poderia jurar que até me senti observado. Mas de repente, com um movimento titânico e majestoso, começou a avançar em minha direção, não com a velocidade de uma carga, mas com a aterrorizante inevitabilidade de um glaciar.
O puro instinto de conservação apoderou-se de mim. Esta besta poderia facilmente acabar com a que tinha levado Odé, "o Fantasma"; não esperaria que as suas fauces, que seguramente poderiam triturar um hipogrifo sem esforço, me engolissem.
— Immobilus! — gritei, segurando a minha varinha com todas as minhas forças.
O feitiço, que teria podido paralisar um dragão por uns segundos, impactou na sua cabeça; as escamas ao redor do ponto de impacto brilharam com um tom azulado por um instante… e nada mais; a serpente nem sequer pestanejou; continuou a sua aproximação, agora a apenas vinte passos.
— Stupefy! — Um jato de luz vermelha atingiu justo debaixo do seu olho. Ressaltou, dispersando-se no ar como faíscas inofensivas e a besta ladeou ligeiramente a cabeça… e nada mais.
O pânico, frio e metálico, começou a subir pela minha garganta. Lancei “Petrificus Totalus”, “Expelliarmus” — absurdo contra uma besta sem armas —, inclusive um “Rictusempra”, desesperado. Cada feitiço chocava contra a sua pele escamosa e dissipava-se sem efeito; era como lançar pedras a uma montanha. Agora sim estava certo de que se tratava de um basilisco; a sua magia natural era uma barreira inultrapassável para as minhas artes.
A jangada foi apanhada pelo bordo do redemoinho. Comecei a girar em círculos cada vez mais fechados; o mundo convertia-se num torvelinho de água, céu verde e aquele colosso que se aproximava. O basilisco estava já a dez passos. Levantou uma parte do seu corpo, formando uma curva sobre a superfície, um arco de pesadelo que bloqueava a luz.
Então, em meio ao rugido da água e ao batimento frenético do meu coração, tive uma impressão descabida; não foi som propriamente, era como uma pressão entre as minhas têmporas, um eco de intenção que ressoou nos meus próprios pensamentos, como se alguém tentasse formar palavras com trovões; talvez não fossem palavras, talvez fossem emoções ou sensações: "PERIGO", "ÁGUAS MÁS", "VEM SALVO".
Absurdo! Salvar-me? De certeza que o meu medo e a sua poderosa magia natural estavam a ofuscar os meus sentidos. A sua boca abriu-se ligeiramente; não pude identificar claramente se era um gesto de ataque, mas os seus olhos estavam cravados no redemoinho que me sugava, não em mim. Contudo, já era demasiado tarde para identificar qualquer gesto; a jangada inclinou-se perigosamente. Vi-a aproximar-se, o seu corpo imenso rodeando-me, preparando-se para me esmagar num fatal abraço.
Ia morrer, e se ia morrer, não seria triturado e afogado sem lutar; apontei com a minha varinha diretamente ao ponto mole debaixo da sua mandíbula, só um feitiço poderia detê-la, mais do que isso, um malefício; respirei fundo, carregando a varinha com toda a minha energia restante e uma desesperação letal.
— AVADA KE...
A palavra maldita morreu nos meus lábios. Um lampejo prateado, rápido como o pensamento, que teria de ter saído da margem boscosa do Abuná, não impactou na serpente; atingiu a minha mão com a precisão de um lanceiro. Uma dor aguda e elétrica percorreu o meu braço, os meus dedos abriram-se involuntariamente; vi a minha varinha, a minha prestável ferramenta e a minha nobre arma, descrever um arco lento e terrível, afastando-se de mim para cair nas águas turbulentas da confluência. Fiquei imóvel, olhando para a minha mão vazia, a impotência absoluta lavando-me como um suor frio; alcei a vista para a margem; entre a espessura, apenas visível, havia uma figura, alta, envolta em roupas que pareciam refletir as mesmas cores da selva, só que com a tonalidade de um metal brunido. Não pude distinguir o seu rosto, só a silhueta e o brilho ténue do que pôde ser uma varinha ou um báculo mágico.
Nesse instante de distração, o basilisco completou o seu movimento; apesar da enormidade do seu corpo, com uma delicadeza impossível, rodeou completamente a minha jangada; não houve pressão, não houve o, aterrorizantemente antecipado, ranger de costelas; só uma parede de escamas poderosas que me isolou da turbulência do redemoinho das águas; a seguir, senti um movimento poderoso, um impulso que me lançou para a margem mais próxima, sobre as margens do Abuná, muito perto de onde tinha visto a silhueta misteriosa.
O basilisco olhou-me mais uma vez; os seus olhos âmbar pareceram conter algo que poderia ou teria de ter interpretado como: paciência. Depois, sem maior som do que o do seu próprio deslocamento, deslizou-se para trás, para se afundar nas águas da confluência até desaparecer.
Deixei a minha jangada e caminhei uns passos afastando-me da margem, tremendo, empapado e desarmado, grato por continuar neste mundo que de repente tinha voltado a tornar-se incompreensível; tinha perdido a minha varinha justo quando estava prestes a matar uma besta que tentava auxiliar-me, e algo ou alguém tinha-me desarmado no momento preciso.
Ofidioglota
O ar entalava nos meus pulmões em golfadas curtas e húmidas; as minhas roupas, encharcadas pelo rio e pelo suor, pesavam como uma armadura de ferro. Incorporei-me com dificuldade, a lama da margem do Abuná tentava ficar com as minhas botas a cada passo. A sensação de perda da minha varinha era física, não exagero, mas para um trouxa poderia assemelhar-se à perda de uma extremidade e ainda acreditar que envia sinais da sua existência ao cérebro. Tinha-a desde os onze anos, uma extensão do meu ser, e agora jazia no leito turbulento da confluência, levada pelas mesmas águas que quase me afogaram.
Olhei para o rio. O redemoinho que me tinha apanhado dissipava-se, deixando apenas uma superfície agitada e espumosa. Do basilisco não restava rasto. Apenas o rugido constante do Madeira e do Abuná abraçando-se na sua batalha eterna. E depois, a margem. O lugar de onde tinha partido o lampejo prateado que me tinha desarmado. A figura tinha desaparecido.
Um calafrio que não tinha a ver com a humidade percorreu a minha espinha dorsal. Quem era? Um mago indígena? Um eremita? Ou algo mais? Tinha agido com uma precisão aterrorizante, não para matar, mas para desarmar, para impedir que cometesse um erro fatal. «PERIGO». «ÁGUAS MÁS». «VEM SALVO». As palavras que não tinha ouvido, mas que tinha sentido, as sensações que tinha percebido entre o rugido da água e o pânico, ressoavam de novo no meu crânio; não tinha sido a minha imaginação, foram reais e tinham vindo de… da serpente?
Abanei a cabeça, tentando aclarar os meus pensamentos. Estava sozinho, desprovido da minha principal ferramenta, no coração da selva mais hostil do mundo. Os encantamentos defensivos que tinha lançado ao redor da jangada tinham-se dissipado com a perda da minha varinha, agora era visível, vulnerável, para qualquer trouxa com quem me cruzasse, ainda que improvável, para qualquer besta mágica ou não mágica, o mais certo, mas o pior era a minha vulnerabilidade perante aquele desconhecido que, certamente, me vigiava.
Não podia ficar ali. Após um último olhar para o rio que tinha levado tudo, Odé, a minha varinha e o meu sentido de segurança, embrenhei-me na muralha verde. Caminhar sem varinha era como caminhar cego; durante décadas, tinha dependido dela para o mais mundano e o mais sublime, para sentir a textura mágica do mundo e maravilhar-me e também para me defender; agora, só tinha as minhas mãos, o meu facão, os meus sentidos trouxa atrofiados e uma sensação de descontrole que jamais tinha experimentado na vida.
A selva, antes um laboratório de possibilidades, transformou-se numa prisão de inseguranças; cada ramo era um obstáculo que devia cortar com força bruta, deixando-me os braços cheios de arranhões. O calor húmido, já de si opressivo, converteu o respirar numa tortura; os insetos, livres de qualquer “repello insectum” menor, abalavam sobre mim em pequenos enxames nublados, podia sentir as suas picadas que certamente portavam as febres terciárias, e não tinha nem um frasco de poções curativas, nem sequer a quina, remédio dos trouxas. O que era eu sem a minha varinha? Um nobre trouxa arruinado, uma fachada que de repente se tinha tornado demasiado real. A missão que me tinha encarregado a Ministra Lufkin e a busca do templo dourado, El Dorado mágico… tudo parecia uma distante fantasia, uma tarefa inconclusa imposta a um mago que, mais cedo ou mais tarde, seria apenas ossos branqueados ao sol, perdidos na folhagem.
Passei horas, tropeçando mais do que caminhando. Interna-me na selva, afastando-me da confluência, guiado por um instinto básico de colocar distância para com o lugar da minha humilhação; a paisagem era uma omnipresente combinação de verde e castanho, que se salpicava com a lama dos meus fortes tropeços e zumbia com todos os pequenos ruídos somados entre si, matizado apenas pelos guinchos de macacos invisíveis ou o seu repentino silêncio, certamente ao perceber a proximidade de algum jaguar.
Foi o olfato trouxa, atrofiado, mas ainda funcional, o que me presenteou com a primeira luz de esperança; um aroma doce e terroso, familiar; procurei isolar o aroma entre a espessura e encontrei-o: um pequeno cacho de folhas largas e aveludadas. “Menta de pântano”, uma planta comum nos humedais mágicos da Europa, com propriedades calmantes menores. Aqui, crescia com um vigor selvagem; sem pensar, arranquei um punhado de folhas e esfreguei-as sobre as picadas mais dolorosas dos meus braços. Um frescor leve, apenas um vislumbre de alívio, estendeu-se pela minha pele; pelo menos, o conhecimento não me tinha abandonado.
Mas o alívio epitelial não me deu paz. O sol começava a declinar rapidamente; a noite na selva, sem fogo, sem proteção… seria o meu final; recordei os jaguares, o Fantasma, recordei os olhos âmbar da serpente que, apesar de me ter salvo a vida, ficaram impressos no meu cérebro como algo fatal.
Encontrei um refúgio medíocre: o buraco formado pelas raízes tubulares de uma árvore gigante, parcialmente oculto por um cortinado de lianas; arrastei-me para dentro, encolhendo-me como um animal ferido; o espaço era estreito, cheirava a terra húmida e a decomposição, mas pelo menos ocultava-me da vista imediata; desde dentro podia ver-se que a abertura era demasiado grande; saí para cortar ramos grossos com o meu facão para os acomodar a maneira de paliçada improvisada; a temperatura tinha descido, mas ainda fazia um forte calor.
Ali, na escuridão que se intensificava, assaltaram-me as recordações; o olhar aterrorizado de Odé antes de ser arrancado do ramo, o som húmido e brutal do seu grito debaixo de água: «O FANT—!» e depois, a minha própria incompetência; poderia ter agido, um “arresto momentum” para atrasar a sua queda, um “wingardium leviosa” para puxar por ele para o ramo. Mas, escravo do meu segredo, tinha-me contido, apenas para estar seguro agora, de que não tinha valido a pena.
Um ruído fez-me suster a respiração; não era o ranger de um ramo nem o bater de asas de uma ave; era um suave deslizamento, como de pele ou escamas sobre terra húmida. Aproximava-se do lado do rio; encolhi-me ainda mais dentro do meu esconderijo, tentei acalmar a minha respiração que começava a agitar-se, mas os fortes batimentos do meu coração impediam-mo. O que quer que se deslizasse deteve-se mesmo em frente ao cortinado de lianas. Os meus sentidos mágicos despertaram de repente; não era uma presença agressiva ou perigosa, era… expectante.
—Sai, Conde de São Lorenço —disse uma voz em língua lusitana. Era masculina, grave, com um sotaque que não consegui localizar; não soava a português ou espanhol, não soava a alguma língua nativa que tivesse ouvido. As suas palavras eram claras e transmitiam uma calma que contrastava brutalmente com o meu estado. —Não te farei mal. Trago algo que te pertence.
A minha mente, atordoada por tudo o que tinha sofrido, demorou um momento a processar as palavras. Chamou-me Conde, o meu título? Aqui? E depois, a última frase. Um lampejo de esperança irracional animou-me. Arrastei-me para fora, desafiando o agarre da lama.
Ali, sob um feixe de luz mortiça da lua que tinha conseguido passar entre as copas das árvores, estava ele. A figura da margem. Era bastante alto; o seu porte era erguido e altivo; vestia uma túnica tecida com algum tipo de fibra de cores mutáveis, como um tornassol de verdes musgo, ocres terrosos, pretos azeviche, que pareciam fundir-se com a penumbra do bosque. Nas suas mãos, longas e finas, segurava dois objetos: na esquerda, um báculo de madeira escura, rematado com o que parecia uma bruta pedra preciosa esverdeada que capturava a pouca luz e a devolvia num brilho leitoso; e na direita, estendida para mim como uma oferenda, estava a minha varinha. Aclarei a garganta, estendi a mão e os meus dedos fecharam-se ao redor da familiar madeira. Um frescor, uma corrente de reconhecimento, fluiu da varinha para a minha palma, subindo pelo meu braço e inundando o meu peito com uma sensação de segurança recuperada. A varinha de um mago não é apenas uma ferramenta, é uma parte indivisível; apertei-a contra o meu coração, olhei o misterioso homem nos olhos e fiz uma pequena vénia de respeito.
O mago observou em silêncio, os seus olhos —de um cinzento claro como a cinza— estudando-me sem pressa. O seu rosto era anguloso, de pele bronzeada e sulcada por rugas finas que falavam de anos nesta terra, mas não de velhice decrépita; havia uma vitalidade quieta nele, uma paciência de rio milenário que, com o tempo, fura a rocha mais sólida.
—O meu nome é Aruã Katari —disse finalmente, quando a minha respiração já estava sossegada. —Sou mestre do Templo de Tia Huan Anke, vivo e conheço esta selva mãe há mais de 60 anos e tenho a certeza de a ter percorrido sempre com prudência; mas tu, Cagliostro João, na tua primeira viagem, quase mataste o maior ancião desta selva, que só tentava salvar-te a vida.
—Ancião? —As suas palavras sobressaltaram-me como um balde de água fria; pestanejei, desconcertado. —O basilisco, a sua magia natural e o seu tamanho… Os meus feitiços não lhe fizeram nada!
—Não é um basilisco. Os basiliscos são criações perversas, torcidas pela magia de mentes doentes, como a de Herpo o Oco; certamente o terror do momento bloqueou o teu raciocínio; qualquer pessoa com conhecimento do mundo mágico sabe que, se olhares para os olhos de um basilisco, morres. O que viste, o que te falou, é algo muito mais antigo, mais puro e mais singular. É Jatun Sicuri, a última titanoboa neste mundo. —Aruã esboçou um sorriso leve, quase triste.
Tinha toda a razão sobre o destino fatal de qualquer um que olhasse para os olhos de um basilisco; que torpeza mais grande, a minha, mas agora o meu raciocínio estava mais claro do que no rio arremolinado; Titanoboa, o nome ressoou na minha memória de maginaturalista; uma besta pré-histórica, uma serpente que rivalizava em tamanho até com as grandes baleias, que reinou nos pântanos pré-históricos há milhões de anos; para o conhecimento mágico nem sequer é um fóssil, é, poder-se-ia dizer, até um mito.
—Impossível —murmurei, mas a minha voz carecia de convicção. Tinha visto o seu tamanho, tinha sentido a sua presença. —¿Como…?
—Como sobreviveu? —Aruã completou a minha pergunta. —Suponho que magia, Conde, mas não a das nossas varinhas e feitiços; mas a que está no sangue da terra, no batimento do rio, na respiração da selva. Jatun Sicuri nasceu numa época em que a fronteira entre o mágico e o mundano era… diferente. A sua espécie aprendeu a canalizar essa magia telúrica, a hibernar abrigada pela selva durante tanto tempo que a selva que os cobria, cobrou-os para si e com muito mais tempo converteu-os em pedra ou sugou-os até ao seu seio durante éons de sono; Jatun Sicuri também não o sabe explicar, mas sabe que é o último e sabe que em breve já não estará mais entre nós, ainda que para um ser dos seus anos, em breve, é muito difícil de precisar.
—Falou… comigo —confessei, a voz ainda tremeluzente. —Senti palavras na minha cabeça. ‘Perigo’. ‘Águas más’. ‘Vem salvo’.
—Jatun Sicuri fala a linguagem mais antiga, a das serpentes. O ofidioglota que alguns magos afortunados ou amaldiçoados podem falar, mas o seu poder, a sua idade, a sua ligação com o mundo… é tão profunda que inclusive quem não é ofidioglota pode, quando ele o deseja, perceber os ecos dos seus pensamentos, inclusive os muggles. Não eram palavras articuladas como as minhas, eram conceitos puros, emoções, sentimentos; estava a tentar guiar-te para longe do redemoinho, da fúria da confluência que teria sido o teu fim, e tu, na tua desesperação, apontaste um malefício ao seu coração.
A vergonha queimou-me a cara; tinha estado a ponto de lançar o malefício assassino contra um ser que tentava salvar-me. Um ser único, um tesouro vivente.
—Eu… não sabia, tudo indicava que era um monstro, um basilisco.
—A ignorância costuma ser a mãe da violência —disse Aruã, sem reproche, só com tristeza. —Por isso te desarmar, não podia permitir que assassinasses um ancião do nosso mundo por um mal-entendido.
—Como… como recuperaste a minha varinha? —perguntei, olhando o báculo que segurava.
—Um simples “accio” enquanto Jatun Sicuri te impulsionava para a margem —explicou. —Jamais teria permitido que a tua varinha se perdesse na lama do Abuná.
—Obrigado —disse, ainda que a palavra pesasse pouco—. Pela varinha e por… impedir que cometesse um erro imperdoável. —Acrescentei para sentir que agora as minhas palavras pesavam mais.
—Vem, faltam umas horas para que amanheça —Aruã fez um gesto de assentimento—. Nenhum dos dois está confortável aqui e de certeza tens perguntas; sobre o Fantasma e sobre o teu homem, Odé.
O nome de Odé, nos seus lábios, eletrizou-me. —Sabe dele? Está vivo?
—Vem —repetiu, e após dar um pequeno golpe na terra com o seu báculo, começou a caminhar com uma segurança absoluta entre as árvores, como se a espessura se apartasse para ele.
Segui-o; caminhámos em silêncio durante um bocado, avançando por um trilho, para mim: indistinguível. Aruã movia-se sem fazer muito ruído, mais do que caminhar, deslizava-se; eu tentava imitá-lo, sabendo-me torpe mas determinado. Finalmente, chegámos a uma clareira junto a um pequeno riacho de águas cristalinas. Ali, semioculta pelos fetos e totalmente oculta por magia protetora, havia uma choça simples, construída com madeira e coberta com folhas de bananeira, que parecia surgir do solo mesmo.
Dentro, o ar era fresco e cheirava a ervas secas e incenso. Aruã indicou-me que me sentasse numa poltrona que tinha umas almofadas fofas recheadas de penas, enquanto ele acendia uma pequena lâmpada de óleo que desprendia um fumo aromático esbranquiçado e servia dois copos de licor feito de alguma magnífica fruta da selva. Caí de imediato num profundo sono; dormi até me saciar.
No dia seguinte, despertou-me uma briga de macacos quase ensurdecedora. Nem bem abri os olhos Aruã falou-me enquanto me convidava com gestos a comer o pequeno-almoço que já estava disposto na mesa, porque ao que parece era mais de meio da manhã; estava tão cansado pela travessia de ontem, mas Aruã parecia urgido.
—O Fantasma —começou, sem preâmbulos— não é uma criatura mágica, é um caimão negro, o maior que já vi, mede mais de doze passos. O que o faz… mais especial, é a sua idade e a sua inteligência. Vive nestes rios já, há mais de dois séculos, e tem sido… domesticado, à falta de uma palavra melhor, por nós.
—Nós? —perguntei, interessando-me pelo que certamente lhe resultava evidente.
—Sim, nós, herdeiros de Tiahuanaco, um povo especial que viveu inicialmente entre as grandes montanhas deste continente, no meio dos apus Illimani, Illampu ou Mururata, muito, mas muito longe daqui, nos atuais domínios cordilheiranos do Império Espanhol; e esse povo era especial porque da última geração deles que viveu nas suas magníficas cidades de pedra, nasceram, surpreendentemente, mais de metade dos seus filhos, com magia no sangue. Desde logo, sempre houve magos e feiticeiras nesse povo e não o mantinham em segredo, eram muito respeitados e apreciados, mas, eram muito poucos, como em qualquer outro povo do mundo, exceto a última geração da sua estirpe; mas já haverá tempo para que conheças essa história. Nós domesticámos o Fantasma, chamamo-lo Iwi Yacaré; guarda as águas profundas, patrulha os rios, mantém o equilíbrio; nesta selva mãe, ele também é uma força da natureza, afugenta os intrusos destrutivos, por vezes alimenta-se deles e, por vezes, resgata-os.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!—Resgatar… o Odé?
Aruã assentiu lentamente.
—O teu homem, José Preto, o seu espírito é forte, aberto, podia sentir a selva, falava com os Orixás, que são apenas outro nome para as forças que nós também conhecemos. Quando caiu à água, Iwi Yacaré tomou-o, não para o devorar, mas para o resgatar, de vocês, dos muggles, dos trouxas.
—Trouxas? —Perguntei tocando no meu peito, desde logo com alguma indignação.
—Verás, Cagliostro João, no nosso templo ou escola, não sei como te referes a ela, temos um Venerável Past Master, que desenvolveu um artifício surpreendentemente especial; indica-nos quando um ser sensivelmente mágico está dentro de um raio de quase 150 léguas.
Cento e cinquenta léguas, não era uma distância difícil de compreender, mas era vasta; é mais do dobro da distância entre Lisboa e Madrid ou mais do triplo da distância entre Londres e Paris.
—Assim souberam da minha chegada, suponho? —Perguntei com a maior naturalidade.
—Não precisamente… —respondeu encontrando-se com os meus olhos cheios de surpresa—. Sabes, Cagliostro João, fomos alertados da presença de um ser com magia, mas nem Iwi Yacaré, nem a sua acompanhante bruxa, te identificaram como a pessoa que estávamos à procura; identificaram o Odé e por isso decidiram separá-lo do resto do teu grupo a quem consideraram muggles ou trouxas, como tu lhes dizes.
Apesar de a poltrona ser incrivelmente confortável, acomodei-me, talvez obrigado pela incomodidade de me ver novamente incluído entre os trouxas.
—Partimos quatro exploradores, a encontrar a pessoa sensível à magia; quando o Odé foi recuperado mandaram corujas avisando do achado e já estávamos todos de regresso; de facto, o que eu te tenha encontrado, não foi casualidade, mas não te procurava; senti a desesperação de Jatun Sicuri e por isso aproximei-me para ver do que se tratava; entenderás a minha surpresa ao ver-te e mais quando recuperei a tua varinha e fiz com que revelasse a sua proveniência; estamos no meio da selva mais ignorada do mundo, mas conhecemos a família Sousa Nassau.
O ouvir o apelido da minha mãe, em lábios de um mago no lugar mais inesperado, além de um alívio, foi um pequeno impulso para o meu maltratado ego de mago de berço nobre.
—E o Odé? Está a salvo? —Perguntei com honesto interesse.
—Não sei —respondeu com honesta franqueza— vamos averiguá-lo.
—Onde?
—A El Dorado, claro está —Respondeu com jocosidade—. Embora na realidade se chame Antesala del Hanan Pacha e seja conhecido como…
—Castellobruxo—adiantei-me.
—Assim é, Cagliostro João, ataste os cabos corretamente, Castellobruxo.
Levantou cuidadosamente uma espécie de almofariz de quase cinquenta centímetros, colocou-o no centro da estadia, deu um golpe com o seu báculo mágico no chão e pronunciou um par de palavras ininteligíveis, olhou-me e convidou-me a aproximar.
—Confio que não é a tua primeira vez com uma Chave de Portal.
Sorri com certa complacência, “pelas barbas de Merlin”, por favor, as Chaves de Portal foram inventadas na Ordem Hermes Trimegisto “se soubesse que iríamos por Chave de Portal, não teria tomado o pequeno-almoço”. Incorporei-me com decisão e ambos tocámos o artifício mágico.
Castellobruxo
O mundo espremeu-se e alongou-se num turbilhão de sombras e sensações sufocadas. A Chave de Portal, um almofariz de madeira, da mais comum, que se conhecia pelo nome de tacú, não causava o mesmo efeito que aqueles que eu recordava da Ordem de Hermes Trimegisto. Não havia aquela brusquidão característica, aquele puxão atrás do umbigo que costumava deixar um homem enjoado e com vontade de vomitar. Em vez disso, foi como ser absorvido pela corrente de um rio subterrâneo: suave, envolvente, mas igualmente irrevogável. Cores indefinidas, verdes profundos, ocres terrosos, lampejos dourados, passaram diante dos meus olhos fechados, misturados com o cheiro de terra molhada, de ervas frescas e de um incenso longínquo e amadeirado.
Quando a distorção cessou, não aterrei com um tropeço, mas encontrei-me de pé, firme, como se o próprio solo me tivesse recebido. Aruã Katari estava ao meu lado, imperturbável, o seu báculo mágico agora apagado. Tínhamos chegado.
O ar foi a primeira coisa que notei; não era o bafo opressivo e carregado de humidade da selva baixa, era fresco, quase frio, e tão límpido que cada inspiração limpava os meus pulmões de qualquer vestígio que me estivesse a agoniar; cheirava a flores desconhecidas e, subtilmente, àquela energia que impregna os lugares onde se pratica muita magia antiga.
Abri os olhos por completo e contive a respiração.
Estávamos numa vasta abóbada, tão imensa que o seu teto de transparência vidrosa, apenas perceptível, perdia-se na penumbra a centenas de passos acima. Diante de mim, erguia-se e estendia-se Castellobruxo.
Não era uma fortaleza ao estilo de Durmstrang, com o seu isolamento rochoso de torres líticas inexpugnáveis, nem tinha a harmonia terrosa de Uagadou. Este lugar parecia ter sido cultivado, não construído. Grandes árvores de troncos prateados, cujas raízes formavam arcos e abóbadas naturais, sustentavam estruturas de madeira viva. Edifícios circulares, como colmeias, aderiam-se às paredes da caverna, conectados por pontes serpentinas de lianas vivas e madeira. Cascatas de água cristalina caíam do alto, alimentando um rio que serpenteava pela base das estruturas e passava sob os alicerces do complexo principal, um grande templo escalonado que recordava vagamente as pirâmides que eu tinha visto em gravuras espanholas das civilizações andinas, mas coberto de uma trepadeira de flores luminescentes que piscavam suavemente, dando os contra-tons à luz natural que se deslizava, como se fosse um rio de luz envolvendo os troncos das árvores mais grossas. Era uma fusão impossível e bela: a arquitetura sublime de um povo alto montanhês adaptada ao coração húmido e vital da Amazónia.
— A Antesala del Hanan Pacha — disse Aruã, seguindo o meu olhar. A sua voz tinha um tom de reverência. — Levamos mais de um par de séculos aqui, desde que os primeiros abandonaram Tiahuanaco. A selva acolheu-os e eles aprenderam a escutá-la, transmitindo às futuras gerações a forma de abrir os sentidos e escutar os seus ensinamentos, não só os mágicos, mas os naturais. Aqui, a magia não se impõe à selva, entrança-se com ela.
— É… imponente — consegui articular. A escala era avassaladora, não só em tamanho, mas na harmonia que transmitia. Não havia linhas retas puras nem ângulos agressivos; tudo fluía, curvava-se, integrava-se. Senti uma pontada de humildade; os meus preconceitos europeus, o meu orgulho de mago da velha Ordem de Hermes Trimegisto, apequenavam-se diante desta obra-prima de magia e urdidura telúrica.
— Vem — indicou Aruã, começando a caminhar por um caminho de gravilha branca que serpenteava até aos níveis inferiores—. Vamos, o teu homem espera por ti, embora não creia que esteja tão ansioso por ver-te como tu por confirmar o seu estado.
Enquanto descíamos, pude ver alunos, alguns com traços indígenas diversos, outros com aspeto mestiço, uns poucos com feições europeias; vestiam túnicas simples de um cor de verde musgo, muitos deles levavam adornos: colares de sementes, braceletes de couro com inscrições, penas entrelaçadas no cabelo. Outros, mais adultos, com rostos talhados pelo tempo e pela sabedoria, todos partilhavam uma característica: uma calma nos movimentos, uma conexão palpável com o ambiente. Alguns estudantes, sentados em círculos sob árvores prateadas, perto dos jardins, usavam varinhas de madeira escura, mais parecidas com o báculo de Aruã do que com as varinhas polidas europeias, para guiar o crescimento de plantas extraordinárias.
E então notei. Um murmúrio baixo, um sibilar musical que flutuava no ar. Não era ameaçador, mas parte do ambiente, como o de um suave riacho ou o rumor do vento nos campos: Parsel. Não o falavam todos abertamente, mas percebia-se nos ritmos dos seus sons; pareciam concentrados em sussurrar coisas, ininteligíveis para mim, a serpentes pequenas e multicoloridas que se enroscavam nos seus braços.
— Todos falam a língua das serpentes — murmurei, mais para mim do que para Aruã.
— Compreendem-na — corrigiu-me ele com suavidade—. Nem todos podem falá-la e muito menos com a fluidez de um verdadeiro Amaru Rimay, que vem a ser algo mais do que um Ofidioglota. — Esclareceu—. A influência de Jatun Sicuri é profunda — explicou mais, notando o meu espanto—. Durante séculos, o seu sono telúrico tem impregnado esta região. Os que nascem e se formam aqui desenvolvem uma afinidade natural com a linguagem das serpentes. Aqui, entender o Parsel é como entender a linguagem do vento ou da água, é parte da educação.
A revelação era arrepiantemente contraditória; na Europa, o Parsel era um tabu, associado às artes das trevas e à perversão mágica. Aqui, seria um pilar educativo?
Entrámos no edifício principal através de um arco formado pelas fauces abertas de uma serpente esculpida no tronco colossal de uma grande árvore. No interior, a luz provinha do sol, mas estava difuminada, sem brilhos ou resplandores; estendia-se como um manto luminoso desde as árvores pelas quais fluía. O ambiente era de estudo tranquilo e respeito. Passámos por uma biblioteca cujas estantes não eram de madeira, mas de barro cozido e vivo, com trepadeiras que sustentavam os pergaminhos. Por fim, Aruã conduziu-me a uma sala circular com assentos baixos de madeira revestidos de algum tipo de tecido multicolorido, onde já nos esperavam duas pessoas.
Um jovem mago, de rosto severo, que me observava com curiosidade contida, e ao seu lado, sentado, com os ombros encolhidos e os olhos abertos, enormes de desconcerto e temor, estava Odé.
José Preto parecia pálido, com ligaduras limpas a envolver o seu torso e braço esquerdo. Mas estava vivo, e os seus olhos, antes cheios de reverência pelos Orixás e de terror pelo Fantasma, agora estavam transbordantes de uma confusão absoluta; ao ver-me, pôs-se de pé num salto, e espelhava uma mistura de alívio e profunda perplexidade no rosto.
— Senhor Conde! — exclamou, com a voz quebrantada—. Que… que é este lugar? O que me aconteceu? Tiraram-me da água, trouxeram-me aqui galopando no dorso do… do… Fantasma! Estas… estas pessoas falam-me, mas não entendo, dizem-me coisas… coisas impossíveis.
Peguei nas suas mãos, sentei-me e fiz com que ele se sentasse novamente.
— Estás a salvo, Odé. Este é um lugar especial, longe da fortaleza, longe da selva que conhecemos.
— Mas Senhor Conde, estas pessoas falam-me de magia — sussurrou, o terror espreitando por detrás da confusão—. Dizem que o Fantasma tem nome, que me trouxe aqui. Que não queria comer-me. Que sou… — engoliu em seco, negando com a cabeça com força—. Dizem que tenho magia no sangue. É uma ofensa aos Orixás! Os deuses da minha mãe e da minha avó, a minha fé é o candomblé, não é… isto.
A sua angústia era palpável. Para um homem cuja vida tinha sido demarcada pela escravidão dos seus pais e avós, a liberdade duramente ganha e uma espiritualidade profundamente enraizada nas tradições do seu povo, a ideia de um mundo mágico organizado, com escolas e varinhas, devia soar tão absurda e aterradora como a corte da Rainha Piedosa para um indígena da Amazónia.
— Odé — disse, escolhendo as minhas palavras com cuidado—. Os Orixás são reais. A tua conexão com eles e com a natureza é real. O que estes magos te dizem… é outra denominação para que entendas e pratiques essa tua conexão com mais força e mais pureza. A essa forte conexão, neste lugar e noutros lugares como este por todo o mundo, deu-se forma, estuda-se, compreende-se de outra maneira e chama-se: magia.
— E por que eu? — perguntou, com um lampejo da firmeza que o caracterizava—. Por que não a minha mãe, ou a minha avó, que são sacerdotisas poderosas? É porque eram escravas?
— Não, essa não é a razão. Às vezes a magia escolhe de maneiras que não entendemos — interveio Aruã, com voz calma e harmoniosa—. O teu espírito é forte, José Preto, Iwi Yacaré sentiu-o. Não és o primeiro com as tuas raízes que descobre este caminho. Há espaço aqui para o candomblé e para a magia que pulsa no teu sangue. Não são inimigas.
Odé olhou fixamente para o mago tiahuanacota, depois para mim. Vi a luta interna nos seus olhos: o desejo de rejeitar tudo, de taxá-lo de bruxaria europeia ou loucura, contra a evidência inegável do lugar em que estava, da sua salvação impossível, da serenidade de Aruã.
— José Preto — falou Aruã—. O teu espírito está agitado, e com razão. Despertaste para uma verdade que sempre carregaste dentro de ti.
— Verdade? — balbuciou Odé, acomodando-se, como se as pernas lhe falhassem—. Só sei que sempre pude… sentir algumas coisas, como se o rio me falasse ou o vento entre as árvores sussurrasse algo. A minha avó dizia que era um dom de Iemanjá e Oxóssi. Mas isto…? — Fez um gesto amplo que abrangia a sala—. Isto é outra coisa. Isto é… como a bruxaria das histórias que os padres portugueses dizem que são do diabo.
— Não é do diabo, Odé — intervi, imprimindo alguma autoridade na minha voz—. É magia. A mesma força que jaz na natureza que tu sempre respeitaste e, como já te disse, aqui, estuda-se, compreende-se.
— E o senhor, senhor Conde? — Os seus olhos cravaram-se nos meus, procurando uma âncora no caos—. Também é… um deles?
— Sou um mago, sim — admiti, sem rodeios—. Da Europa, vim aqui com outro propósito, mas não sabia que te encontraria… ou que tu eras um dos nossos.
A palavra "nossos" pareceu golpeá-lo. Retrocedeu no seu assento, negando com a cabeça.
— Não. Eu não sou um de vocês, o meu lugar é com o meu povo, com a minha mãe. Ela precisa de mim, quero ir-me embora.
— Ninguém te obrigará a ficar, José — disse Aruã com calma—. Mas o dom que tens é real. Ignorá-lo não o fará desaparecer. Pode manifestar-se de formas incontroladas e perigosas, ou pode converter-se numa ferramenta para proteger os que amas, para entender o mundo de uma maneira mais profunda.
Odé sacudiu a cabeça, as lágrimas silenciosas sulcando as suas faces. Não era uma rejeição por orgulho, mas pela sobrecarga esmagadora desta nova realidade que se lhe apresentava sem o adormecimento do láudano. O seu mundo, já de si complexo e doloroso, acabava de expandir-se para além do imaginável, e os alicerces estavam a desmoronar sê-lhe.
— Já deixem descansar o Odé.
Escutou-se a dulcíssima voz de uma mulher madura; era negra, esbelta e formosa; com a sua só presença impregnou no Odé uma sensação de paz e complacência. O seu cabelo longo e ondulado estava adornado com penas de beija-flor, vestia uma túnica semelhante à de Aruã, mas com muitos mais padrões geométricos. O seu olhar era sábio e muito mais antigo do que a idade dos seus olhos enormes. Tanto o jovem mago que cuidava do Odé, como Aruã, fizeram uma pequena vénia enquanto diziam o seu nome: “Mestra Ima Sumac”.
— Descansa, o teu corpo passou por uma prova terrível. — Disse tocando na cabeça do Odé, com o tom de uma mulher que se sabe admirada e não lhe desgosta—. É hora do almoço, leva-o para que coma até se saciar e depois descanse, nada de magia — indicou ao jovem mago—. Depois falaremos do teu futuro — disse ela ao Odé, sorrindo, enquanto ele se incorporava obedecendo às suas palavras que comandavam obediência pela sua gentileza.
Enquanto Odé e o jovem mago se afastavam em silêncio, Ima Sumac e Aruã voltaram-se para mim.
— Agora, Cagliostro João de Bragança da Sousa Nassau — disse Ima Sumac, e o seu tom já não era hospitaleiro. Havia uma expectativa aguda nos seus profundos e formosos olhos que se acenderam ainda mais quando pronunciou os apelidos da família da minha mãe—. A Ministra Lufkin enviou-te muito longe de casa. Não foi só para brincar ao naturalista de um capitão trouxa, pois não? Nem sequer para confirmar a lenda de El Dorado. Não, Grande Bruxo da Ordem de Hermes Trimegisto. Estás aqui pelo códice.
Guardei silêncio. Ela conhecia o meu título real dentro da Ordem, o meu título nobiliárquico no mundo trouxa, sabia que tinha sido enviado pela Ministra Britânica de Magia. O jogo de disfarces tinha terminado antes mesmo de começar. Embora a sua suposição final fosse incorreta.
— Assim é, Mestra Ima Sumac, posso ver que a informação viaja sobre o Atlântico desde a Europa até aqui, mas não faz o caminho contrário.
— Digamos que as potências mágicas mundiais… respeitam a nossa privacidade, inclusive Ilvermorny; por isso, chama-nos, chama-me — enfatizou com um olhar direto—, muito a atenção que a Grã-Bretanha, justo quando a sua potência muggle perdeu as suas colónias, mande um emissário de tão alto nível. Espero que os interesses mágicos e muggles não se estejam a entrelaçar muito intimamente.
— Não saberia comentar a esse respeito de maneira informada; sou irrevogavelmente português, Mestra, mas, fique segura de que o interesse da Primeira-Ministra Lufkin é meramente académico.
— Vamos deixar isso como certo — disse com um ar de dúvida—. Conduza-o ao observatório, por favor — dirigiu-se a Aruã, que assentiu com uma vénia e convidou-me a segui-lo com um gesto.
— Venerável Mestra Ima Sumac. Agradeço a sua hospitalidade.
Fiz uma curta vénia e Ima Sumac correspondeu-me da mesma maneira, com uma vénia, a que se deve a um Mestre Mago, não a um nobre.
O Códice
Caminhámos em direção ao tronco de uma imensa árvore cuja copa se perdia de vista nas alturas; parámos num setor onde havia vários discos de madeira maciça flutuando a pouca distância do solo. Colocámo-nos em discos individuais e, nesse momento, uma pequena vedação circular, até à altura da cintura, materializou-se, e ambos os discos começaram a elevar-se. Simplesmente subiram verticalmente durante um par de minutos e deixaram-nos a um passo de alcance de uma plataforma que se estendia entre os ramos superiores da grande árvore. A plataforma conduzia ao observatório, mas antes, tínhamos de atravessar uma porta ou um arco; era uma estrutura megalítica de andesito, uma rocha extraída de pedreiras nas cordilheiras deste continente, a muitíssimas léguas daqui. O seu tamanho era colossal e o seu peso, seguramente formidável.
— É uma réplica exata da Porta do Sol — disse Aruã, lendo o meu fascínio.
Entrámos.
Lá dentro, não havia o telescópio de latão e lentes que eu esperava encontrar num observatório da Europa de 1783. Em seu lugar, havia uma série de anéis concêntricos de pedra negra polida como um espelho, que levitavam alinhados com estranha precisão. Nas paredes de madeira, talhos que não eram meras decorações: eram mapas estelares de uma exatidão arrepiante, com constelações que nenhum astrónomo trouxa, ou a maioria dos magos europeus, reconheceria. Vi representações do Sol, da Lua, dos planetas, dos anéis de asteroides interno e externo, mas também trilhos de rotas entre pontos brilhantes… era como olhar para um mapa de navegação, mas para viagens que transcendiam os oceanos.
No centro da sala, de costas para nós, contemplando o céu da tarde através de uma abertura circular, havia uma figura. Alto, de ombros largos, com uma túnica cinzenta que parecia tecida com fios de nuvens ligeiramente carregadas. Quando se virou, vi um rosto antigo. Não velho, mas antigo, pétreo, como o andesito da Porta do Sol. Os seus olhos eram negros e profundos, e no seu brilho pareciam refletir-se as estrelas, mesmo em plena luz do dia.
— Cagliostro João de Bragança da Sousa Nassau — disse ele, e a sua voz era o ranger da terra, o rumor das placas tectónicas—. A Ordem de Hermes Trimegisto envia os seus melhores emissários, mesmo aqueles que se devem esconder atrás de máscaras de nobreza em desgraça. Bem-vindo.
Todos faziam questão de me conhecer de antemão, de me conhecer bem e de saber as minhas intenções.
— Obrigado por me permitir entrar no seu estúdio, Mestre…
— Huyustus.
— Mestre Huyustus.
— Apenas Huyustus, está bem, João?
— Claro, agradeço-lhe.
— Então, já podes riscar "encontrar El Dorado" da tua lista de tarefas no Novo Mundo. O que falta? Sim. O códice. — Disse, olhando-me de forma expectante.
Ima Sumac tinha feito a mesma presunção e, desde que a ouvi, não consegui identificar, por mais que me esforçasse, a que se podiam estar a referir.
— Não o trago comigo, por razões de segurança; estou certo de que me compreendem.
— Compreendo, compreendemos, não é verdade? — disse, olhando para Aruã, que, obviamente, se sentiu interpelado.
— Sinto muito, Huyustus, entenderás que depois de lhes enviar a notícia de ter desarmado o João, com o Peteté — o meu coburé — acrescentou, dirigindo-se a mim para me esclarecer o nome da sua coruja-pigmeia, as aves que levam a correspondência neste canto do mundo. — Estive a procurá-lo, depois a segui-lo e, finalmente, a fazer contacto com ele da maneira mais suportável possível. Não tive tempo, como vocês, para conhecer tudo sobre o nosso visitante e, ainda mais, para determinar o propósito da sua visita, por isso não, não entendo que ele não tenha trazido o códice, porque não sei a que te referes.
Graças à impaciência, até então desconhecida, de Aruã, eu estava prestes a saber a que se referiam.
— O códice! — gritou Huyustus—. O único que nos importaria agora, o manuscrito!
Os olhos de Aruã abriram-se, cheios de surpresa, e, exultante, interrompeu Huyustus:
— O manuscrito perdido há mais de 300 anos!
— Sim!
Ambos estavam eufóricos. Eu, pelo contrário, estava desesperado. A que manuscrito se referiam? Tinham perdido um códice importante há mais de 300 anos e acreditam que essa é a razão da minha viagem? "Pelas barbas de Merlin", sobre o que pode tratar esse códice?
— É totalmente compreensível que não o tenhas trazido contigo — disse-me Aruã—. Mas, onde estava?
— No Colégio Romano — interveio Huyustus, salvando-me—. Vê, Aruã, pouco tempo antes de zarpar, o nosso amigo João visitou o Colégio Romano…
Assim foi. Visitei o Colégio Romano em Roma; iam selar os bens de Athanasius Kircher, um padre jesuíta que, essencialmente, era mago. Tinha falecido em 1680 e todas as suas posses estavam resguardadas na Biblioteca do Colégio Jesuíta. Mas em 1773, quando o Papa Clemente XIV dissolveu a Companhia de Jesus, a sua Biblioteca e todo o Colégio passaram a ser administrados pela Congregação de Propaganda Fide, que se dedicou a suprimir livros de diferentes autores; grandes tomos naturalistas trouxas, de matemática, física, filosofia, terminaram na fogueira. Naturalmente, as posses de Athanasius estavam resguardadas por magia; a sua localização era desconhecida para os censores da Congregação de Propaganda Fide. Três meses antes de partir, como um favor pessoal para a minha mãe, visitei o Colégio Romano, apenas para me certificar de que os bens de Athanasius continuavam protegidos por magia, já que, de momento, não há forma de mover as suas posses, nem o que imprimiu magia, nem os engenhos mágicos que concebeu e construiu. Mas, agora, estou a entender o que foi que levou os magos de Castellobruxo a chegar a essa conclusão: fui ao Colégio Romano diretamente após a minha última visita à Ministra Lufkin, precisamente no dia em que ela me encarregou da missão. Seja como for, qualquer códice que tenha pertencido a Athanasius estava cheio de magia e conhecimento, principalmente o indecifrável, um volume manuscrito cuja codificação mágica era inquebrável e que, além disso, possuía a sua codificação natural, à prova de qualquer mente mágica ou trouxa que quisesse desvendar os seus segredos. Estou certo de que se trata desse volume; embora eu próprio nunca o tenha tido entre as mãos, sei que o meu bisavô materno dedicou grande parte da sua juventude a tentar decifrar o seu conteúdo. Claro que sim, tem de ser esse o códice a que se referem.
— E agora, onde está? — perguntou-me Huyustus, e tanto ele como Aruã olharam-me, expectantes.
Confio que se trate desse códice e, embora não saiba nada do seu conteúdo, conheço a sua história.
— Há muitos anos, realmente muitos, um mago que vinha do Extremo Oriente, de uma ilha-nação chamada Cipango, trazia consigo um códice que devia entregar ao Grande Mestre da Casa de Salomão. Mas a região onde se encontra a Casa de Salomão estava sob o governo dos Mamelucos, que tinham ao seu serviço magos das trevas, de modo que a Casa de Salomão estava magicamente cercada. Foram anos muito duros para eles, pelo que o mago oriental se dirigiu ao Templo da Ordem de Hermes Trimegisto, sem saber que o Egito, naquela época, era o coração do Sultanato Mameluco. Constantinopla estava a ser cercada pelo Império Otomano, por isso não tinha mais alternativas; quase sem recursos, sem forças, sem descanso, pois estava a ser perseguido por uma patrulha de mamelucos e magos das trevas — já que teve de se defender com magia de um ataque e isso chamou a atenção dos magos das trevas que decidiram caçá-lo. Não teve outro remédio senão entregar o livro a um príncipe etíope, que, embora fosse trouxa, tinha uma alma nobre e pura e comprometeu-se a levá-lo a um lugar seguro, entregando-o na Europa, nas terras altas da ilha da Britânia, conhecidas como Scotia. A quem recebesse o tomo, deveria informar que, originalmente, o códice tinha sido confiado ao mago oriental Hatsumoto por um mago moribundo das terras altas, para além das grandes águas.
Quando pronunciei essas últimas palavras, os rostos de Huyustus e Aruã encheram-se de tristeza, mas, ao mesmo tempo, de um grande consolo, como se estivessem a fechar uma dolorosa página das suas vidas, séculos depois, neste dia cujo entardecer iniciava.
— O príncipe etíope e a sua guarda pessoal, cerca de 500 homens, cruzaram o mar Mediterrâneo e, por causa de uma grande tempestade, perderam três das suas cinco embarcações. Ainda assim, com 200 homens, chegou à região que antes se conhecia como Reino de Granada, dominada por muçulmanos; os seus governantes simpatizaram com ele e forneceram-lhe recursos e um pequeno contingente militar, o que lhe jogou contra, pois os Reinos de Castela e Aragão eram inimigos poderosos do Reino de Granada, o que significou confrontos com senhores regionais e precipitou a sua fuga para o norte. Quando atravessava os Pirenéus, com uma escolta muito reduzida — os seus homens mais fiéis que o tinham seguido desde a Etiópia —, chamou a atenção de um jovem mago que trabalhava para Nicolas Flamel, que nessa altura já tinha mais de 130 anos. Foi conduzido a Beauxbatons que, para essas datas, já tinha quase 200 anos de trajetória. Ali, após entrevistar-se com o Diretor da escola e contar-lhe a sua história, foi recompensado com um "Apontador Secreto" miniaturizado, que podia encastrar-se num anel e era igualmente preciso como um de tamanho normal; apontava sempre na direção da pessoa que estivesse a mentir. O Príncipe retornou ao seu reino e diz-se que se tornou um sábio governante. Quanto ao códice, era evidente que se tratava de um objeto mágico, misterioso e indecifrável. Muitos magos, ao longo de muitos anos, tentaram decifrá-lo, mas não o conseguiram. O último a tentar decifrá-lo foi o Mestre Mago Athanasius Kircher, e o livro está, atualmente, resguardado e selado magicamente com o resto dos seus bens no Colégio Romano.
A minha intuição e o meu conhecimento tinham-me servido bem; o misterioso códice de Athanasius era o códice a que se referiam. Estou certo de que não tem nada a ver com a minha missão, mas eles acreditam que sim. Devo entender qual é a conexão, o mais depressa possível.
— É a tua vez, Huyustus; fala-me do códice.
Para além das estrelas
Huyustus, após o jantar, deu um longo gole na sua tutuma de chicha de milho roxo; Aruã e João fizeram o mesmo, e João maravilhou-se com o seu sabor. Assim, o mago de rosto pétreo, antes de falar, olhou fixamente para uma parede do observatório, mas os seus olhos pareciam perder-se no tempo, para além de ontem ou anteontem, para além dos séculos.
— O códice de que falamos, Cagliostro João, não é simplesmente um livro. É uma advertência escrita nas estrelas e, além disso, é uma estratégia para lhe fazer frente. Para o entender, deves entender primeiro como tudo começou, nas alturas onde o ar é tão rarefeito que parece que podes tocar o céu com os dedos.
Levantou-se e caminhou em direção a outros anéis de pedra que flutuavam no ambiente do observatório, mas não apontavam para o espaço, e sim para uma das paredes internas da sala. Com um movimento da sua varinha, os anéis começaram a girar lentamente e a gerar uma torrente de luz que se projetou na parede, e apareceram figuras que começaram a mover-se.
Nunca tinha visto esta magia; o mais próximo que um servidor pode estar de a explicar é comparando-a com uma "Penseira". Claro que, aí, um faz parte das memórias que se reproduzem, mas é uma experiência individual. Neste caso, não fazes parte, és um espectador; várias pessoas podem ver o mesmo, todos são espectadores. Senti pena dos trouxas, jamais poderiam ver esta classe de magia.
— Nos tempos em que os impérios trouxas de Roma e da Pérsia eram apenas sonhos na mente dos homens — começou Huyustus, colocando gravidade na sua voz —, o nosso povo, os Tiahuanaco, já tinha erguido cidades de pedra que, até agora, desafiam o tempo. Mas éramos mais do que arquitetos e agricultores; éramos astrónomos, os maiores que o mundo mágico já conheceu.
Aruã assentiu solenemente, assumindo o relato, enquanto as imagens na projeção mostravam algo como gravuras em movimento.
— Durante gerações, os nossos antepassados estudaram os céus a partir do altiplano, essa imensa meseta nas alturas entre as altas cordilheiras do continente, onde as estrelas brilham com uma claridade que não se consegue em nenhum outro lugar da Terra, nem em Shangri-La. Não só observavam os movimentos dos astros, mas escutavam os seus sinais, que era música mágica para os nossos ouvidos, que entendíamos graças à interpretação de artifícios mágicos fascinantes. Há aproximadamente mil e duzentos anos, começaram a receber uma mensagem perturbadora.
Huyustus fez girar os anéis mais depressa e a projeção, que mostrava estrelas no firmamento, começou a aproximar-se de um grupo delas.
— Num ciclo que se repete a cada 2.160 anos, aproximadamente, o que os nossos primeiros astrónomos chamaram de "era astrológica", os alinhamentos estelares criam uma espécie de... janela, uma abertura nas defesas naturais do nosso mundo. Durante a última destas janelas, os nossos astrónomos-magos detectaram algo que se aproximava, não uma ameaça iminente, mas uma presença que viajava entre as estrelas, movendo-se a velocidades inimagináveis e, a esse ritmo, chegaria aqui em aproximadamente... mil anos.
— Uma ameaça vinda dos astros? — Perguntei, com total ceticismo.
— Extraterrestre, já que o nosso planeta se chama Terra, pois o que está fora da Terra é extraterrestre; é algo para o qual não temos nome, estamos a trabalhar nisso — confirmou Huyustus. — Independentemente disso, a presença chegaria ao nosso planeta na janela seguinte; desde já, isso tem de ser planeado. A interpretação indicava que esta presença não é necessariamente hostil por natureza, mas é incompatível com a vida tal como a conhecemos. A sua mera proximidade alteraria as leis da natureza, faria com que a magia se tornasse errática, que as plantas e animais mutassem de formas monstruosas ou de formas inúteis. E os trouxas... bem, os trouxas não sobreviveriam; os seus corpos e mentes não têm as defesas mágicas para resistir a tal influência.
Aruã aproximou-se da parede, na qual se projetava um mapa estelar detalhado, e devo dizer que nem na Casa de Salomão, nem na de Hermes Trimegisto, que são especializadas, muito menos em qualquer instituto de magia, se tem este conhecimento.
— Foi então que aconteceu o esperado, não por isso bom. Enquanto os astrónomos-magos e trouxas de Tiahuanaco registavam as suas descobertas no que se tornaria o códice, alguns deles, inspirados pela urgência e pelo medo, desenvolveram um composto que altera a verdadeira essência da vida, trouxa e mágica. Verás, toda a matéria é composta por partes muito, muito pequenas...
— Sim, na Ordem Hermes Trimegisto estamos na vanguarda do seu estudo — interrompi sem má intenção, mas para lhes fazer saber que entendia muito bem o tema —, são partes invisíveis para o olho trouxa ou mágico, sem a ajuda de artifícios que ampliam a nossa capacidade de ver até duas mil vezes as coisas mais pequenas. Neste momento, esses componentes que formam parte da tua varinha ou da madeira estão a interagir com os componentes que formam parte do ar e da minha própria carne.
— Muito bem, João — continuou Huyustus, fazendo-me uma vénia desnecessária —, como dizia Aruã, estes magos criaram um elixir e, além disso, um procedimento de cirurgia, que era administrado às mulheres trouxas para que, durante a conceção, os nascituros fossem receptáculos das energias mágicas.
— Fizeram-no em segredo — interrompeu Aruã —, nunca consultaram os Magos Veneráveis, nem as autoridades trouxas, nem sequer o comunicaram até que o resultado fosse evidente.
— Sim, em segredo e sem permissão de ninguém — confirmou Huyustus —, levaram cerca de dois anos a escrever e codificar o códice, que tem dupla encriptação, uma mágica e outra trouxa, ambas incrivelmente difíceis de decifrar, desenhadas apenas para serem resolvidas pelas mentes mais privilegiadas de ambos os mundos ou apenas do mundo mágico; para um trouxa, sem assistência mágica, seria impossível.
— E enquanto os seus veneráveis magos se vangloriavam do seu feito de encriptação, o resultado da alteração das mulheres já começava a dar-se a conhecer — concluí.
— A princípio — aceitou Aruã, com voz sóbria e algo envergonhada —, ninguém sabia nada sobre a alteração e menos ainda sobre o facto de a "receita" do elixir e a descrição do procedimento terem também ficado registadas no códice; de facto, continuavam a escrevê-lo, nem a meio iam. A princípio, surgiu a teoria de que a proximidade desta ameaça cósmica, ainda a séculos de distância, já estava a afetar as correntes mágicas da Terra. O planeta, num ato de defesa instintiva, estava a gerar mais magos, como um corpo que se defende de uma doença que o invade.
— Foi um tempo grandioso — continuou Huyustus —, de repente, havia centenas de crianças com talento mágico que precisavam de treino. A sociedade Tiahuanaco, que sempre tinha integrado os seus poucos magos como conselheiros e curandeiros, agora enfrentava uma situação sem precedentes. E perante esta proposta sem precedentes, surgiu uma resposta igualmente grandiosa.
Huyustus estendeu os braços, abrangendo todo o observatório.
— Se a ameaça vinha das estrelas, teríamos de ir às estrelas para a enfrentar. Ou, pelo menos, para a entender, ou, em último caso, para fugir dela. Assim nasceu o Programa Quilla Inti (Sol-Lunarum).
Fiquei sem palavras. A audácia da ideia era avassaladora. Tinham acabado de revelar, sem que eu o tivesse perguntado, sem que eu o tivesse tido de investigar, o rumor que a Ministra Lufkin tinha ouvido, a possibilidade de que em Castellobruxo se tinha desenvolvido a capacidade de viajar para fora do nosso planeta, em direção às estrelas: a minha verdadeira missão.
— Astronáutica mágica — murmurei.
— Exatamente — assentiu Huyustus, os seus olhos brilhando com um fogo ancestral. — Os veneráveis Magos de Tiahuanaco desenvolveram toda a ideia, conceptualizando todo o nível de detalhe que lhes era possível; não se tratava simplesmente de voar em vassouras ou viajar por floo ou Chave de Portal; tratava-se de romper as forças naturais, como a gravidade, que já o fazemos em pequena escala, de sobreviver no vazio — temos feitiços para estar debaixo de água por espaços prolongados —, de viajar entre mundos; para isto, nada. Assim nasceu o projeto mais ambicioso na história da magia. Ninguém o sabia com certeza, mas todos sabiam que seria arduamente difícil.
Que fascinante! Claro que fiz tudo para me controlar e não mostrar a minha emoção. Aruã guiou o meu olhar para certos símbolos nos mapas estelares.
— Desenvolveram teorias mágicas que os europeus nem sequer sonharam. A Gravitomancia — o controlo mágico da gravidade —, a Vacuitas, toda uma família de feitiços para criar e manter atmosferas no vazio, a Astrolocomotorus, toda uma outra família de feitiços e métodos para viajar entre as estrelas sem perder a sanidade nem o corpo e todos, claro, acompanhados pelos mais complexos artifícios mágicos que se teriam de inventar alguma vez. Claro, tudo na teoria, uma teoria tão interconectada e vanguardista que cada vez tornava mais evidente que os nossos Veneráveis Magos Ancestrais não a poderiam completar.
Aruã guardou silêncio, bebeu um gole da sua chicha roxa, e Huyustus bufou com força e resignação; o grande mago fechou os olhos e, pela primeira vez, vi uma fenda na sua fachada impassível. Dor. Dor antiga e profunda.
— Enquanto a maioria dos nossos antepassados via o Programa Quilla Inti como uma missão de salvação para toda a humanidade, mágica e não mágica, outros começaram a colocar em marcha os seus próprios planos...
Fiel servidor de Iemanjá
O quarto que tinham atribuído a Odé em Castellobruxo não se parecia com nada que ele tivesse visto antes. As paredes não eram de pedra nem de madeira talhada, mas de uma substância viva, fibrosa e quente, como se a própria árvore o estivesse a abraçar por dentro. Uma luz suave e esverdeada emanava de umas trepadeiras que pendiam do teto, cujas flores se abriam e fechavam ao ritmo de uma respiração que não era a sua. Apesar do cansaço que o invadia, uma fadiga profunda que vinha não só do corpo, mas da alma, o sono resistia-lhe. Cada vez que fechava os olhos, via as fauces abertas do Fantasma, a água negra a tragá-lo, e depois... depois a sensação de mover-se a grande velocidade, agarrado a algo escamoso e poderoso, o ar a açoitá-lo no rosto enquanto galopavam sobre a superfície do rio. Não tinha sido um sonho. Ele tinha-o montado.
Um suave toque na entrada do seu quarto fê-lo levantar-se. Era o jovem mago que o tinha atendido, de rosto severo, mas olhos curiosos; chamava-se Yaku, tinha-lhe dito.
— O pequeno-almoço — anunciou Yaku num português com sotaque musical, colocando um tabuleiro de madeira clara numa mesa pequena que parecia brotar do chão. Sobre ela, frutos de cores impossíveis, uma pasta espessa e aromática, e uma infusão fumegante que cheirava a terra molhada e mel silvestre. — A Mestra Ima Sumac espera que te juntes a um percurso pelos jardins inferiores depois; ela acredita que o ar e a natureza te farão bem.
Odé assentiu, sem forças para se opor. Comeu em silêncio, saboreando cada dentada com uma mistura de assombro e receio; a polpa de um fruto vermelho e espinhoso explodiu na sua boca com um sabor a canela e céu; era como se estivesse a comer magia. E, no fundo, um sentimento persistente corroía-o: tudo aquilo era uma profanação. O que diriam os Orixás? E a sua mãe? Ela que tinha dedicado à sua vida a honrá-los com cânticos e oferendas na clandestinidade imposta pelos padres católicos. Ele, José Preto, liberto, filho e neto de sacerdotisas, agora estava sentado no ventre de uma árvore mágica, a comer frutos que não tinham nome. Sentia que lhe estavam a arrancar algo essencial, mesmo quando essas mesmas pessoas lhe tinham salvo a vida.
***
Os jardins inferiores de Castellobruxo não eram jardins tradicionais; não havia caminhos retos nem canteiros simétricos. Era um caos controlado, uma explosão de vida que se desenrolava em múltiplos níveis. Algumas plantas cresciam para baixo, a partir das abóbadas de raízes sobre as suas cabeças. Outras flutuavam em esferas de água sustentadas por nada. As cores eram tão vibrantes que doíam aos olhos: azuis elétricos, púrpuras tão profundos que pareciam buracos na realidade, verdes que brilhavam com luz própria.
Yaku guiava-o, apontando com a sua vara — não uma varinha polida como a do Conde, mas um ramo nodoso com uma pedra verde engastada na ponta.
— Essa é a “Lágrima da Lua” — disse, apontando para uma flor prateada que gotejava um néctar luminoso. — O seu néctar cura as feridas da alma, a melancolia profunda, “a saudade”. E esses são Rizomas Sonâmbulos. De noite, desenterram-se e caminham, procurando o melhor solo.
Odé observava, mas o seu coração estava fechado. Via a magia, reconhecia-a como algo tão real como o rio ou o vento, mas sentia-a estranha, perigosa. Era o conhecimento dos outros, daqueles que tinham escolas e títulos enquanto o seu povo lutava pela liberdade e pelo respeito. O seu olhar passeava-se pelas criaturas que pululavam entre a vegetação: pássaros com penas de cristal que cantavam notas claras como sinos; insetos dourados que traçavam figuras geométricas no ar; um mamífero pequeno e peludo com três olhos que observava tudo com uma curiosidade insaciável.
Foi então que o viu. No ramo de uma árvore cujas folhas eram como finas lâminas de jade, havia uma pequena criatura feita de casca, raminhos e folhas verdes. Não era maior que a sua mão, e movia-se com uma timidez extrema, escondendo-se atrás de uma folha quando o olhar de Odé pousou nela. Tinha dois olhos negros como sementes de guaraná, que o observavam com uma inteligência surpreendente.
— Um Tronquilho — explicou Yaku, baixando a voz. — Guardiões das árvores. São tímidos, mas se ganhas a sua confiança, são leais. Esse parece ter tomado interesse por ti.
Odé aproximou-se lentamente, sem estender a mão. O Tronquilho não fugiu. Espreitou um pouco mais, e Odé pôde ver os detalhes minuciosos do seu corpo: os raminhos que formavam os seus dedos, as folhas que se agitavam como orelhas, a maneira como se agarrava à casca como se fosse parte dela. Havia algo profundamente comovente naquela pequena criatura, uma ligação silenciosa com a selva que ele próprio sempre tinha sentido. Sem pensar, sussurrou umas palavras na língua da sua avó, uma saudação antiga aos espíritos da floresta.
O Tronquilho pestanejou. Depois, com movimentos nervosos mas decididos, deslizou pelo ramo e saltou para o ombro de Odé. Os seus pequenos dedos de raminho agarraram-se suavemente à sua roupa de tecido grosso. Odé susteve a respiração. Sentiu um formigueiro, não na pele, mas mais lá dentro, como se a criatura estivesse a partilhar um pedacinho da vida da árvore com ele. Pela primeira vez desde que chegara àquele lugar, um sorriso genuíno, de assombro puro, surgiu nos seus lábios.
— Escolheu-te — disse Yaku, e havia respeito na sua voz. — Não é comum; de facto, é raríssimo. Eles sentem... a essência das pessoas.
Odé manteve o sorriso; havia algo naquela criatura que lhe despertava confiança fraterna. Durante o resto do percurso, o Tronquilho, a quem Odé, na sua mente, começou a chamar Galho, manteve-se no seu ombro, observando o mundo com os seus olhinhos negros. Odé começou a fazer perguntas, ao princípio hesitante, depois com crescente interesse. Aprendeu sobre a “Planta Sussurrante”, cujas folhas repetiam conversas passadas; sobre os “Frutos da Memória”, que, se os comesses, vivias por um instante a recordação de quem os tinha plantado; sobre as “Lianas de Sombra”, que podiam transportar-te entre pontos se caminhasses pelo seu interior com a intenção correta.
Mas, por cada descoberta maravilhosa, sentia uma pontada de culpa. Aquele não era o seu mundo. O seu mundo era de suor, de luta, de cânticos sob a lua a Iemanjá, da sensação da terra sob os seus pés descalços na pequena parcela que a sua mãe cultivava. Enquanto Yaku lhe mostrava como um grupo de estudantes, sussurrando naquela língua sibilante que lhe punha os cabelos em pé, faziam com que umas serpentes se erguessem e movessem as suas cabeças como bonecos, a decisão consolidou-se no seu coração.
— Quero ir-me — disse de repente, a sua voz firme a cortar a explicação de Yaku. — Quero voltar para os meus. Para a minha mãe. Este... dom, ou o que quer que seja, não o pedi. O meu lugar não é aqui.
Yaku olhou para ele com pena, mas assentiu.
— Deves dizê-lo à Mestra Ima Sumac. Ela não te reterá pela força. Mas, José Preto... o dom não desaparecerá pôr o ignorar. E sem guia, pode ser perigoso, para ti e para os que te rodeiam.
***
Ima Sumac recebeu-o numa sala aberta, com vista para a caverna iluminada pela luz dos cristais estelares. Escutou o seu pedido em silêncio, os seus olhos sábios a estudá-lo.
— Compreendo a tua dor, a tua confusão — disse Ima Sumac, a sua voz como um rio calmo. — Forjar uma identidade no meio de dois mundos é uma das provas mais duras. Não te impediremos de ir. Mas antes, há algo que deves saber. Iwi Yacaré, o que tu chamas Fantasma, não te resgatou por acaso. Sentiu-te. Sentiu a magia em ti, mas não uma magia qualquer.
— O que quer dizer? — perguntou Odé, com Galho a apertar-se um pouco mais no seu ombro.
— A magia tem muitas formas — explicou Yaku, dando um passo em frente. — Alguns são bons com as transformações, outros com as poções, outros falam com as criaturas. Mas há ramos raros, que surgem uma vez por século. Quando te trouxemos aqui, examinámo-te, subtilmente. Há uma força em ti, José, que não vemos desde... desde os tempos dos nossos ancestrais entre as montanhas.
Ima Sumac estendeu a mão para um jarro de cerâmica que continha água. Com um gesto da outra mão, fez com que uma pequena esfera de água se elevasse e flutuasse no ar.
— Controlo da água, dos fluidos... algo que muitos feiticeiros podem fazer. Mas o que há em ti é diferente. É uma afinidade com a força que sustenta os mundos, que mantém as estrelas no seu lugar e as folhas presas à terra. Os antigos chamavam-lhe Gravitomancia.
Odé franziu o sobrolho. Não entendia as palavras, mas algo ressoava nele. Lembrou-se de momentos da sua vida: a sensação de que, às vezes, quando estava muito tranquilo junto ao rio, as pedras pareciam pesar menos; a vez que, em criança, tinha caído de uma árvore e sentira como a sua queda se atrasava um instante, o suficiente para aterrar sem se magoar. Coisas que atribuía à proteção dos Orixás.
— Não sei do que estão a falar — disse, mas a sua voz não era tão segura.
— Podemos mostrar-te — disse Ima Sumac suavemente. — Não com feitiços, mas deixando que a tua própria natureza responda. Vem.
Levaram-no para um espaço aberto, uma plataforma natural de pedra no bordo dos jardins, de onde se via o grande vazio da caverna e as estruturas que pendiam das alturas. No centro, havia uma pedra grande e plana.
— Tenta mover essa pedra — pediu-lhe Yaku. — Não com as mãos. Não penses em feitiços. Apenas... deseja-o. Sente o seu peso, e deseja que esse peso mude.
Odé olhou para a pedra com ceticismo. Respirou fundo, querendo despachar aquela loucura. Fechou os olhos e, em vez de pensar na pedra, pensou na sua mãe. No peso da sua ausência naquele momento. No peso do mundo que queria abandonar. No peso de ser algo que não tinha escolhido ser. Sentiu uma opressão no peito, uma energia que subia desde os seus pés, ancorados na rocha da plataforma; de repente, a pedra... titubeou e ele abriu os olhos, ofegante; tinha sentido algo, algo enorme, profundo e aterrador, como agarrar as rédeas de um rio desbocado por um instante.
A pedra não se levantou, não flutuou. Pelo contrário, enterrou-se na plataforma por completo. Galho, no seu ombro, emitiu um guincho de assombro.
Ima Sumac e Yaku olharam um para o outro. Nos seus olhos havia uma mistura de assombro e de preocupação gravíssima, já que, embora a pedra se tivesse enterrado, tudo em Castellobruxo experimentou uma sensação de esmagamento, como se a terra os estivesse a atrair com mais força do que nunca para o seu interior; quanto mais longe de onde estavam se sentia a força, tanto mais potente ela se manifestava.
— É verdade — sussurrou Yaku. — É um talento natural para a Gravitomancia. Em estado latente, mas puro. Iwi Yacaré deve ter sentido a distorção subtil nas correntes da água à tua volta. Por isso te escolheu.
— Isto... isto muda as coisas, José — disse Ima Sumac, e o seu tom já não era apenas amável, mas urgente, grave. — Estamos a trabalhar em algo muito importante... está estagnado. Tem estado estagnado durante muitíssimos anos. Os feitiços teóricos estão completos, os artifícios conceptualizados, mas o elo perdido, a chave para manipular a gravidade a grande escala de forma estável e segura, residiu sempre num mago com uma afinidade inata como a tua. Não um que aprenda os feitiços, mas um que sinta a força como uma extensão de si mesmo, que sinta os feitiços antes de os conjurar. Não vemos um há mais de trezentos anos, só o viram os nossos ancestrais.
Odé recuou um passo, sentindo que a própria plataforma se inclinava sob os seus pés. Galho agarrou-se ao seu pescoço.
— O que... o que estão a dizer?
— Estamos a dizer — prosseguiu Ima Sumac, aproximando-se, a sua voz carregada com um peso histórico avassalador — que o teu dom não é apenas um talento curioso. É, potencialmente, a chave para a sobrevivência do nosso mundo, mágico e não mágico, perante uma ameaça que se aproxima das estrelas. Temos um plano e tu, sem o saberes, és uma peça central.
O pânico, frio e nítido, substituiu a confusão no peito de Odé. Queria negá-lo, gritar que era um erro, que ele era apenas José Preto, liberto, filho de sacerdotisa. Mas o afundamento da pedra, a certeza nos olhos daqueles magos, a memória da sensação de poder bruto que tinha roçado... tudo lhe dizia que era verdade.
— Não... — conseguiu dizer, a sua voz quebrada. — Não posso. Não quero essa responsabilidade. O meu lugar é com os meus. Deixem-me ir.
Ima Sumac olhou para ele, e pela primeira vez, Odé viu algo mais que sabedoria nos seus olhos: uma férrea determinação, tingida de dolorosa necessidade.
— José Preto — disse, e cada palavra pesava como chumbo —, sinto-o mais do que podes entender. Mas agora sabes. E nós sabemos. E o mundo lá fora, o da tua mãe e dos teus, depende, sem o saber, de que a magia encontre uma forma de alcançar as estrelas ou de se defender do que vem delas. Deixar-te ir agora, com este conhecimento e este poder sem domar, não é uma opção. Não para nós. E talvez, no fundo, não para o teu próprio povo.
Yaku colocou-se suavemente entre Odé e o caminho de regresso aos jardins. Não era uma ameaça, mas uma barreira de determinação e obediência à sua Mestra.
— Não te vamos encerrar, descansa — disse Yaku, a sua voz grave. — Mas não podes ir-te. Não ainda. Deves entender, deves aprender. Pelo teu bem, e pelo de todos. A viagem às estrelas precisa das tuas raízes, Odé. E ainda que seja contra a tua vontade inicial, temos a esperança de que chegues a ver que as tuas raízes não estão apenas na terra da tua mãe, mas também no tecido mesmo do céu que devemos aprender a sulcar.
Odé olhou para o Tronquilho no seu ombro. Os pequenos olhos negros observavam-no, como se também esperassem pela sua decisão. Sentiu o peso da pedra, o peso da selva, o peso de um futuro que se fechou à sua volta como as paredes de uma cela; e ele sabia-o tão bem, os seus bisavôs, avôs e pais tinham sido confinados a celas, tantas vezes, nenhuma era diferente. Não havia escapatória. O Fantasma não o tinha salvo para o devolver à sua velha vida. Tinha-o raptado para uma missão que não escolheu, num mundo que nunca quis conhecer.
E naquele momento, José "Odé" Preto, o liberto, fiel servidor de Iemanjá e Oxóssi, entendeu que o seu caminho tinha tomado um rumo irrevogável. Não para a liberdade que conhecia, mas para uma responsabilidade tão vasta e pesada como o firmamento que agora, soube, teria de decidir enfrentar.
A Traição e o Exílio
Aruã retomou o relato, a sua voz mais suave pelo amanhecer em vigília, mas não menos carregada de emoção.
— Entre os jovens magos que nasceram após a alteração, surgiu um talento excecional. O seu nome era Mallku Qhasqui (Falcão de Pedra). Era um prodígio em astromagia e gravitomancia e, o que dizer das ciências trouxas, matemática, astronomia; numa só noite, leu, entendeu e até corrigiu o “Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica” do trouxa Newton. Com as suas habilidades, todos estavam seguros de que o Programa Quilla Inti logo daria os seus primeiros resultados. Tão seguros estavam, que iniciaram a construção de Puma Punku.
— Precisávamos de um lugar de onde lançar o nosso principal artifício mágico, um barco capaz de sulcar os céus em direção às estrelas — disse Huyustus ao entender a minha falta de compreensão. — Um lugar onde a magia da terra fosse especialmente forte, onde as leis naturais e as leis mágicas se entrelaçassem de maneira única. Esse lugar foi Puma Punku.
— Puma Punku não era um templo, João — intrometeu-se Aruã com a voz cheia de orgulho. — Era um porto para as estrelas. Cada bloco de andesito, perfeitamente cortado, cada ranhura e protuberância trabalhadas com a mais extraordinária magia e com a maior técnica trouxa, era parte de uma matriz mágica colossal. A esplanada principal era uma plataforma de lançamento. Dispunha de portais floo para estaleiros subterrâneos. Os nossos antepassados estavam muito perto de conseguir a sua primeira viagem de teste às estrelas, quando tudo se desmoronou. Deves saber que, onde uns viam uma ameaça externa que devia ser enfrentada para salvar a todos, Mallku viu o suposto destino manifesto da magia.
— Ele e os seus irmãos, ou seguidores, começaram a propagar uma heresia — continuou Huyustus, abrindo os olhos. — Argumentavam que a chegada da presença estelar não era uma ameaça para os magos, mas uma purificação para a Terra. A incompatibilidade só afetaria os trouxas. “O seu destino sempre foi servir-nos; agora, se a sua sorte é desaparecer, que assim seja”, diziam. “O mundo será nosso, limpo da sua torpeza, das suas superstições religiosas e da sua suja falta de magia”.
O ar no observatório pareceu arrefecer. Não era a primeira vez que um mago poderoso desprezava os trouxas; de facto, até surgiram confrontos entre magos para fazer prevalecer a benevolência, mas essa forma de pensar não era nova para mim, nem para a minha família, nem para as famílias nobres e de puro-sangue mágico do velho mundo. Embora eu não a partilhasse, havia muitos magos da minha casa nobre, da minha Casa Mágica, que a partilhavam, mas não em voz alta.
— Mallku reinterpretou os cálculos estelares — disse Aruã. — Manipulou os dados para “demonstrar”...
— Talvez os tenha manipulado — interrompeu Huyustus, tentando corrigir, mas Aruã apenas negou com a cabeça.
— Manipulou os dados para “demonstrar” que os magos sobreviveriam e inclusive prosperariam sob a influência extraterrestre — insistiu Aruã. — Formou uma fação secreta, os Qhapaq Ñan, o Caminho do Poder, e enquanto o resto dos nossos antepassados trabalhava para completar o Quilla Inti, Mallku trabalhava no seu próprio projeto.
Huyustus bateu no chão com o seu cajado, e as imagens projetadas pelos anéis de pedra mudaram, mostrando agora representações de batalhas.
— O conflito era inevitável. Quando os nossos antepassados descobriram os seus planos, confrontaram Mallku e os Qhapaq Ñan. A Batalha das Pedras Cantantes durou três dias e três noites. Magia contra magia, irmão contra irmão. Foram os nossos antepassados, os “tradicionalistas”, quem ganhou com a ajuda dos trouxas... mas a um custo terrível.
— Os nossos antepassados destruíram o seu próprio porto para as estrelas antes de permitir que caísse nas mãos dos rebeldes; também destruíram a sua única embarcação e tudo o que se desenvolveu e construiu com a ajuda de Mallku — confirmou Huyustus, a sua voz quebrada pela emoção. — Com feitiços que fizeram tremer a terra, com maldições de fragmentação que fizeram em mil pedaços o andesito como se fosse vidro. Mas Mallku, tão brilhante como era, tinha antecipado essas ações. Enquanto a dolorosa vitória se consolidava em Puma Punku, ele e os seus seguidores mais leais já estavam na Ilha do Sol, no Lago Titicaca.
Aruã aproximou-se da abertura circular do observatório, olhando para o céu diurno como se pudesse ver através do tempo. As projeções na parede tinham-me feito reviver a Batalha das Pedras Cantantes e fui testemunha, tantos séculos depois, de todo o sangue mágico e sangue trouxa derramado naqueles três alucinantes dias.
— Que cegos tinham sido os nossos antepassados! Mallku e os seus tinham construído uma nave em segredo. Mais pequena do que as que planeavam lançar em Puma Punku, e mais bem preparada para o confronto do que para a exploração. Acreditamos que dispunha de algum conduto que fazia com que todos os poderes dos magos e todos os corações das suas varinhas se unificassem, magnificando centenas de vezes qualquer feitiço. Quando o pequeno destacamento de magos e trouxas chegou à Ilha do Sol, perseguindo os sobreviventes das forças de Mallku, a sua embarcação já sobrevoava a ilha e, a partir dela, lançaram a maldição “cruciatus”, tão amplificada pelo seu artifício que não só o destacamento se retorceu de dor instantaneamente até perder a sanidade, mas também os animais e até os peixes que estavam no caminho do feixe do feitiço.
A imagem que se projetava na parede era tão descabida e aterradora ao mesmo tempo, que quis rejeitá-la. Magos das altas montanhas deste continente, voando para o espaço numa embarcação construída em segredo e provida de um canhão mágico que concentrava toda a magia de todas as varinhas dos seus ocupantes. E, em contrapartida, o que tinha experimentado com Jatun Sicuri, tudo o que tinha visto em Castellobruxo, tudo o que Huyustus e Aruã me relatavam com honestidade, dizia-me que era possível.
— Desde os céus — continuou Huyustus — Mallku e os seus lançaram um último feitiço, e perderam-se da vista para sempre; um conjuro de dessecação e esterilização da terra que afetou toda a terra de Tiahuanaco em quase 80 léguas em redor. Em questão de dias, a terra que tinha alimentado o nosso povo durante séculos tornou-se estéril. Os canais de rega secaram. As colheitas morreram. Os animais pereceram. E o pior...
— O pior foi a purga de vingança — Aruã completou a frase, a sua voz apenas um sussurro. — Alguns Qhapaq Ñan que ficaram para trás tinham recebido ordens para eliminar qualquer um, mago ou trouxa, que tivesse participado no programa ou soubesse demasiado sobre ele. Primeiro eliminaram os que trabalhavam no códice. Os Magos Veneráveis traçaram um plano: devíamos mover-nos; todos os que tivessem magia no sangue deviam atravessar as montanhas e internar-se no centro da selva que agora conhecemos como Amazónia; todos os trouxas viajariam com um grupo de magos atravessando a outra cadeia montanhosa e deviam dirigir-se ao mar; instalar-se-iam lá com a ajuda dos magos e seriam privados de todas as suas memórias. Depois, os magos lançar-se-iam ao mar até chegar à grande massa continental, para entregar o códice na Grande Casa de Salomão, já que não restava vivo, nem mago nem trouxa, que soubesse decifrá-lo. A última pessoa que podia entendê-lo e explicá-lo foi a avó de Huyustus, a trouxa mais brilhante e inteligente que já viveu, que participou na alteração e a praticou na sua própria filha; confessou tudo no seu leito de morte.
O silêncio que se seguiu foi mais eloquente do que qualquer palavra. Finalmente, encontrei a minha voz.
— Então, o códice...
— Contém tudo — disse Huyustus. — Os cálculos estelares originais, os desenhos das embarcações, os princípios da astronáutica mágica, as coordenadas a que chegaria a ameaça que se aproxima e, tristemente, também está lá o procedimento para fazer com que a magia se enraíze, antes do seu nascimento, naqueles em que não deveria. Disseste-nos que Athanasius Kircher foi o último mago europeu a estudá-lo, mas deixaste claro que não pôde decifrá-lo; aparentemente, Mallku é agora o único que sabe como decifrá-lo.
Agora entendia tudo, compreendia por que a Ministra Lufkin me tinha enviado. Não era apenas curiosidade académica, era uma missão de reconhecimento; o mundo mágico europeu tinha ouvido rumores de que em Castellobruxo se estudava uma ciência que decidiram chamar “Magiastronautica”, mas nada mais. Que miopia a da Europa e da Ásia também, agora que penso nisso; ninguém sabe sobre a ameaça, sobre o sucesso pervertido dos antepassados dos magos de Castellobruxo, ninguém sabe nada sobre o códice que contém tudo.
— Continuaram o programa aqui? — perguntei diretamente.
Huyustus e Aruã trocaram um olhar longo e significativo. Finalmente, Huyustus assentiu.
— À nossa maneira, adaptada à selva, mais lenta, mais secreta. Não temos um sítio tão peculiar como Puma Punku aqui, mas temos algo talvez mais valioso: tempo, isolamento e a sabedoria da selva que nos ensinou paciência. E bom, agora temos algo mais...
— O quê? — perguntei de imediato.
— Um Grande Bruxo da Ordem de Hermes Trimegisto...
Os três estávamos a rir com franqueza, mas de repente os círculos que estavam a projetar imagens na parede caíram; algumas trepadeiras, gentilmente presas às paredes, caíram; tudo se tinha fixado sobre as superfícies, os copos sobre as mesas, os nossos pés no chão do observatório, tudo começou a sentir-se pesado, muito pesado. A coruja de Huyustus, que até ao momento tinha passado despercebido, estava no chão emitindo um queixume doloroso cada vez que tentava mover-se. Assim que Huyustus quis apressar-se a ajudá-lo, deu um passo e caiu de bruços; não conseguia levantar-se. Algo estava a puxar tudo e todos para a terra com uma força desconhecida.
Alea iacta est
Após o súbito e inexplicável esmagamento gravitacional que nos tinha feito tremer a todos, um silêncio elétrico e tenso tinha descido sobre o complexo. O breve alívio de que a pressão tivesse cessado não conseguiu dissipar a sensação de que algo fundamental se tinha quebrado, certamente algo mágico, algo puramente brutal.
Aruã e eu ajudámos Huyustus a levantar-se do chão do observatório. O velho mago, cujo rosto pétreo raramente mostrava algo mais do que uma calma milenar, tinha agora uma expressão de dor e profunda preocupação. O seu corujão bateu as asas debilmente até pousar no seu ombro, emitindo um queixume lastimoso.
— Isso não foi natural — murmurou Huyustus, esfregando a testa onde tinha batido no chão. — Nem foi um acidente.
— Odé — disse Aruã, e nessa única palavra havia uma mistura de assombro e alarme. — Será possível que isso tenha sido percebido por Iwi Yacaré?
— Onde está ele? — perguntei, sentindo um nó de urgência no estômago. A revelação de que Odé poderia possuir um talento inato para a Gravitomancia mudava tudo. Já não era apenas um liberto confuso a quem se oferecia um caminho; era um recurso, uma peça-chave num projeto colossal.
— Teria de estar com Ima Sumac — respondeu Huyustus. — Devemos ir.
O caminho do observatório até aos níveis dos gabinetes facultativos de Castellobruxo parecia-me muito longo. A harmonia do lugar, que ainda ontem me tinha parecido imperturbável, agora sentia-se alterada. Os estudantes que passavam pelas pontes de cipós murmuravam entre si, lançando-nos — lançando-me — olhares inquietos. Algumas das plantas luminescentes piscavam de forma errática, e o suave sussurro da ofidioglossia que sempre flutuava no ar parecia ter-se tornado num murmúrio ansioso.
Encontrámos Ima Sumac e Yaku fora de uma câmara circular cuja entrada estava velada por uma tapeçaria de fibras vivas. As suas expressões eram graves. A Diretora exibia uma determinação férrea nos seus olhos sábios; Yaku, ao seu lado, parecia um soldado de guarda.
— Huyustus — cumprimentou Ima Sumac, deixando de lado qualquer ordem protocolar. — Aruã e tu, Cagliostro João, suponho que sentiram a... perturbação, como todos.
— Foi ele, não foi? — perguntei, evitando os preâmbulos. — Odé.
— Sim — confirmou ela, sem rodeios. — Yaku estava a mostrar-lhe as bases do controlo da magia, como faríamos com uma criança de dois anos, de forma muito subtil. Pediu-lhe que interagisse com uma pedra, só para que sentisse a conexão; claro que o máximo que esperávamos era que a pedra levitasse, como sempre acontece com qualquer surto de energia mágica descontrolada nas crianças. Mas, em vez de a mover... enterrou-a. E não só isso, a onda de distorção gravitatória propagou-se; tudo no interior da escola que está sob as cúpulas de proteção mágica experimentou esta alteração na força da gravidade. Foi breve, mas poderosa. Iwi Yacaré deve ter sentido isso na terra inundada; talvez, enquanto Odé caía da árvore, algo estava prestes a manifestar-se e o aperto de Iwi Yacaré interrompeu-o por susto, não sabemos. Mas o que acabámos de ver e sentir é gravitomancia; assim funciona, pode multiplicar o campo gravitacional da terra, pode invertê-lo, dividi-lo, anulá-lo. José Preto é um gravitomante natural. O primeiro a nascer em mais de três séculos.
As palavras ressoaram na câmara de madeira viva. Aruã e Huyustus assentiram com solenidade, como se se tivesse confirmado uma profecia temida e ansiada.
— Isso muda tudo para vocês — disse eu, olhando para cada um. — Já não se trata apenas de oferecer-lhe um lugar na vossa escola. É sobre recrutá-lo para o vosso Programa Quilla Inti.
— É sobre sobrevivência, João — replicou Huyustus, a sua voz grave. — Ouviste-o. A ameaça das estrelas é real. O códice contém o plano e estratégias e outras coisas, mas ninguém o consegue ler. Aqui, durante séculos, desenvolvemos um novo, do zero, mas a chave para o executar, a peça que nos falta desde a queda de Tiahuanaco, é um mago que sinta a gravidade como nós sentimos o ar, que possa dominar os feitiços teóricos não pela memorização, mas pela intuição. Odé pode ser essa chave; tem de ser essa chave.
— E ele sabe? Sabe que o veem assim? — perguntei, contendo uma raiva que não sabia por que começava a carregar-se no meu interior.
— Explicámo-lo — interveio Yaku, com calma, mas ainda assim olhei-o com essa raiva que se acumulava. — Ou, pelo menos, tentámos fazer com que entendesse a magnitude. A sua reação... foi de pânico, de rejeição; disse que o seu lugar era com o seu povo, com a sua mãe, que não queria esta responsabilidade.
— E então confinaram-no aqui — concluí, apontando para a câmara atrás da tapeçaria.
— Para sua proteção e a de todos — disse Ima Sumac, e embora o seu tom fosse sereno, percebi um brilho de inquebrantável decisão nos seus olhos. — Um talento assim, em estado selvagem, sem treino, é um perigo. Sentiste-o: um momento de angústia e enterrou uma pedra na terra firme; imagina o que poderia fazer num momento de verdadeiro terror ou ira. Não podemos permitir que se vá assim, ainda não.
Aí estava a origem da minha raiva. A justificação perfeita, envolta em preocupação e num suposto bem maior. A mesma lógica que tantas vezes tinha visto nas cortes europeias, mágicas e trouxas: o indivíduo sacrificado no altar do progresso, da segurança ou do establishment.
— Quero vê-lo — disse com firmeza.
Ima Sumac trocou um olhar com Huyustus. Uma conversa de silêncios passou entre eles. Finalmente, a Diretora assentiu.
— Podes falar com ele. Mas deixa-me ser clara, Conde de São Lourenço. José Preto não sairá de Castellobruxo até que tenha aceitado o seu dom, saiba controlá-lo e esteja disposto a colaborar conosco. Esperámos séculos por isto, não o deixaremos passar por uma crise de identidade, por compreensível que seja; a sua família pode ser trazida para aqui, sob proteção. Podemos dar-lhe uma vida boa, uma vida com propósito.
— Contra a sua vontade? — perguntei, mas a minha voz soou mais cortante do que pretendia.
— Para seu próprio bem, e pelo de um mundo que nem sequer sabe que dele precisa — respondeu ela, e nas suas palavras não havia maldade, apenas uma certeza absoluta, fria como o andesito das montanhas dos antepassados do seu povo.
As suas palavras fizeram-me entender a situação. Eles não negociariam; iam reter Odé, mesmo contra a sua vontade, iam moldá-lo, convertê-lo na ferramenta que o seu projeto necessitava, sem importar o que ele desejasse. E eu, Cagliostro João de Bragança da Sousa Nassau, Grande Bruxo da Ordem de Hermes Trimegisto, não podia permiti-lo. Não só pela promessa que lhe tinha feito na selva, mas porque o que planeavam cheirava à mesma arrogância que tinha levado à criação do códice, à alteração secreta das mulheres para que seus filhos fossem receptáculos forçados de magia e, claro, à traição de Mallku Qhasqui: a crença de que um fim grandioso justificava qualquer meio.
Ima Sumac afastou a tapeçaria com um gesto, revelando a câmara. Era um espaço acolhedor, com um leito de folhas secas e fragrantes, uma pequena mesa que brotava do chão e uma abertura que dava para uma vista dos jardins inferiores. Odé estava sentado na beira do leito, curvado, com a cabeça entre as mãos. No seu ombro, um pequeno Tronquilho acariciava o seu pescoço com os seus dedos de raminho, como se tentasse consolá-lo.
Ao ouvir os nossos passos, Odé levantou a vista; os seus olhos, antes cheios da reverência pelos Orixás e depois do terror perante o desconhecido, agora apenas refletiam um desespero abismal e um profundo esgotamento. Ao ver-me, um brilho de esperança iluminou o seu rosto, mas apagou-se de imediato quando viu os outros atrás de mim.
— Senhor Conde — murmurou, com voz rouca.
— Odé — disse, aproximando-me e deixando que os outros ficassem na entrada. — Estás bem?
— Não — respondeu, com uma franqueza dilacerante. — Não entendo nada. Dizem que tenho um... poder especial, que ninguém mais tem, que posso mudar o peso das coisas com a mente, que sou especial, mas eu apenas me sinto... preso. — Olhou para Ima Sumac e dirigiu-se a ela com um tom desafiador. — Vossa Mercê disse que não me encerrariam.
“Vossa Mercê”; empregou o termo trouxa com que os escravos se dirigem aos donos das fazendas.
— Isto não é uma cela, José — disse Ima Sumac, com voz melíflua. — É um lugar para encontrares calma, para pensares.
— É um lugar do qual não me deixam sair! — explodiu Odé, pondo-se de pé. O seu Tronquilho aferrou-se com força. — Disseram que Yaku estaria à porta, que se tentasse sair...! Sou um liberto, não um escravo! Não voltarei a sê-lo!
As suas palavras ressoaram na câmara. Ima Sumac não se moveu, mas Yaku deu um passo em frente, com o rosto severo.
— Ninguém te trata como escravo, José — disse Yaku. — Tratamos-te como aquilo que és: um mago com um dom extraordinário que deve ser guiado.
— Eu não quero ser mago! — gritou Odé, e na sua voz havia ecos do homem que tinha visto a selva como um templo sagrado, não como um laboratório. — Quero voltar para a minha mãe, quero sentir o cheiro da cozinha de lenha da minha avó, quero trabalhar para cuidar delas, mas, acima de tudo, simplesmente, não quero estar aqui.
A tensão na divisão era palpável. Senti o olhar de Huyustus e Aruã cravado em mim. Sabia que este era o momento. Podia inclinar-me, aceitar a sua lógica, tentar convencer Odé de que ficasse, ganhar a sua confiança e a deles. Ser o diplomata, o emissário sábio que a Ordem de Hermes Trimegisto esperaria que fosse.
Mas a minha mente já tinha traçado outro caminho. Um mais pragmático, mais próprio da política das cortes em que tinha sido criado.
“Muito bem”, pensei, olhando para a angústia no rosto de Odé. Se não cooperam por bem, será por mal. Levarei Odé para a Europa, serei o enviado que seguramente Lufkin espera que seja, informar-lhe-ei de tudo: a ameaça estelar, o códice, o programa espacial e, sobretudo, deste gravitomante único. O Ministério Britânico e a minha Ordem mobilizarão recursos, negociaremos a partir de uma posição de força. Castellobruxo entregará a sua investigação em troca de... de algo, o que estivermos dispostos a dar: proteção, recursos, um lugar à mesa grande. Se se negarem... bom, nós, europeus, temos experiência em extrair recursos do Novo Mundo, mágicos ou não. Odé será a peça de negociação; o seu raríssimo dom dar-nos-á a vantagem. E eu... eu ajudarei a salvar o mundo, manterei a Europa na vanguarda e certificar-me-ei de cuidar de Odé e da sua família.
Era um plano frio, calculador e, tal como os magos de Castellobruxo, traía os desejos de Odé, mas eu sim velaria por ele. Estava realmente justificado, já que o fim — salvar o mundo mágico e trouxa, elevar o estatuto da Europa — compensaria, e eu cuidaria de Odé melhor do que estes magos. Mas, antes, devia manipular um homem que apenas ansiava pela sua liberdade.
— Odé tem razão — disse em voz alta, e todos os olhares se voltaram para mim.
Falei com a autoridade do meu título e do meu linhagem. Além disso, utilizei o feitiço “robes” para substituir a minha roupa pela vestimenta formal e de mais alta etiqueta da minha família. Num instante, exibia um justacorps de seda luxuosa, um ras de Saint-Cyr preto, aberto no peito para exibir a minha veste que me chegava até metade da coxa, profusamente bordada com fios de ouro e, claro, o meu culotte, ajustado até ao joelho, do mesmo tecido que o colete. No meu pescoço, surgia a minha chemise de linho fino, com mangas largas e amplas; o seu renda surgia pelas aberturas das mangas do meu justacorps e no peito por cima da minha veste. Rematava a minha cravate de seda rosa, atada ao pescoço. Finalmente, as minhas meias de seda branca, bem tensadas, seguradas com ligas acima do joelho, e os meus calçados de salto baixo, de veludo vermelho, com fivela de ouro. Tudo harmonizado com a minha espada de corte de empunhadura de madrepérola incrustada de rubis e diamantes, presa com um cinturão de couro de lontra, as minhas luvas brancas de pele de veado, a banda vermelha da Ordem de Hermes Trimegisto sobre a qual estavam bordadas, com fios de ouro, a venera da Ordem e o brasão da Família Sousa Nassau. Todos pareceram dar um pequeno passo atrás.
— Não o podem reter aqui contra a sua vontade — continuei. — É contrário às leis fundamentais do mundo mágico, que se forjaram em Uagadou, a nossa escola mais antiga, e são as mesmas que Hogwarts, Ilvermorny e, estou certo, Castellobruxo defendem. Um mago não pode ser forçado a um caminho que não escolha.
— Leis europeias, aplicadas aqui, no coração da Amazónia? — Ima Sumac, que tinha arqueado uma sobrancelha ao ver a minha roupa, agora tinha ambos os olhos bem abertos. — Creio ter deixado claro que as Casas e as Escolas do resto do mundo respeitam a nossa privacidade. A jurisdição que representas termina onde começa a selva-mãe, João. — Chamou-me pelo meu nome próprio para tentar demonstrar que não se deixava intimidar pelos meus títulos.
— É uma questão de princípio, não de jurisdição — repliquei, adotando uma postura de nobre ofendido. — O que propõem é pouco menos do que uma prisão dourada. Oferecem trazer a sua família, não é? Violando a sua própria regra de não admitir trouxas aqui? Isso demonstra o desespero da sua posição. Estão dispostos a quebrar as suas próprias normas por este... recurso.
Usei a palavra “recurso” deliberadamente e vi como Odé empalidecia ainda mais. Eu era a sua única esperança, e estava a falar dele como se fosse um mineral precioso.
— Não é desespero — disse Huyustus, com voz cansada. — É adaptação. É prioridade. A ameaça...
— A ameaça pode ser gerida de outra maneira! — interrompi, elevando a voz. — Com cooperação internacional, com os recursos combinados de todas as grandes escolas e ministérios, Odé não tem de ser o sacrifício único de Castellobruxo. A Ministra Lufkin reunirá os chefes de todas as organizações mágicas; podemos formar um consórcio, um esforço global. Vocês terão o reconhecimento e os recursos de que precisam, e Odé terá opções, não uma sentença.
Era uma mentira elaborada, banhada em razão. Oferecia uma saída que soava nobre, mas que, na realidade, colocaria Odé no centro de uma rede política muito mais vasta e provavelmente mais voraz do que a de Castellobruxo. Mas estava a funcionar; Aruã e Huyustus assentiam quase imperceptivelmente.
Ima Sumac estudou-me durante um longo e silencioso momento. Os seus olhos, tão profundos como o Rio Abuná, pareciam escavar atrás das minhas palavras.
— A tua proposta é interessante, Cagliostro João. Mas cheira à ambição de um império que acaba de perder as suas colónias trouxas e procura novas esferas de influência. Acreditas mesmo que confiaríamos o futuro do nosso projeto, e deste jovem, às maquinações do Ministério da Magia Britânico? À Ordem de Hermes Trimegisto, cujos membros ainda debatem se os magos de sangue mestiço são dignos de ser os seus iguais?
O seu golpe foi baixo, preciso e efetivo. Vi a dúvida crescer nos rostos de Aruã e Yaku. Odé olhava-me agora com uma mistura de confusão e um vislumbre de receio.
— A minha lealdade é para com a magia, e para fazer o que é correto — disse, com a maior convicção que consegui reunir.
— O que é correto? — perguntou Ima Sumac, suavemente. — Ou o que é conveniente para os teus próprios planos? Não, João. Odé fica; aprenderá aqui, num ambiente que respeita a sua conexão com a terra, não que a explora. E nós continuaremos o nosso trabalho. Podes ficar como observador, se o desejares, ou podes ir-te, mas ele não irá contigo.
A porta tinha-se fechado. A diplomacia tinha falhado. Senti o peso da minha varinha na sua funda, uma presença reconfortante e mortal. A opção violenta, a que tinha considerado como último recurso, apresentava-se agora como a única viável. Talvez fosse hora de estes magos saberem que sou o melhor duelista da Europa, principalmente com a minha varinha, mas também com um florete trouxa.
— Então — disse, e a minha voz perdeu toda a sua cordialidade prévia, adotando o tom frio e cortante que usava nas salas de intriga de Lisboa —, estou a desafiá-los formalmente. Exijo, pelo direito de um mago livre a escolher o seu destino, que se permita a José Preto decidir se fica ou se vai. E se ele escolher ir-se, eu serei a sua garantia.
— Não existe tal direito aqui, de que falas? Não estás numa corte europeia — respondeu Yaku, colocando a mão na vara nodosa que pendia do seu cinto.
A atmosfera cristalizou-se. Galho, o seu Tronquilho, emitiu um guincho agudo e escondeu-se no pescoço da túnica de Odé.
Foi então que tudo explodiu.
Odé, movido por um instinto de sobrevivência puro, gritou: “Não!” e, sem sequer pensar, estendeu uma mão em direção à janela que dava para os jardins. Não houve palavra mágica, não houve varinha. Apenas um desejo visceral, alimentado pelo pânico e por uma força que apenas começava a despertar.
Toda a parede colapsou sobre si mesma.
— Alto! — gritou Ima Sumac, sacando a sua própria varinha, uma peça de madeira escura com entalhes intrincados.
Mas Odé já se movia, com uma agilidade surpreendente; saltou para fora. Galho espreitou a cabeça, os seus olhinhos negros brilhando com determinação, aferrado ao pescoço das roupas de Odé. Justo quando se afastou do ambiente, todos os ramos de uma árvore prateada que crescia justo fora da divisão vieram abaixo, com um ranger queixoso, amontoando-se sobre o espaço que se tinha derrubado.
— Detenham-no! — ordenou Ima Sumac.
Yaku lançou-se em direção à abertura, mas eu já tinha tomado a minha decisão.
— Protego! — gritei, e um escudo de energia azulada materializou-se entre Yaku e a saída, empurrando-o para trás.
O som do feitiço, tão estridente e europeu naquele ambiente de magia fluida, rompeu com a ordem e o equilíbrio que mantinham a arquitetura de Castellobruxo.
— João, não! — escutei a voz de Aruã, cheia de decepção.
Mas já era tarde. Eu tinha escolhido o meu lado.
— Incarcerous! — apontei para Ima Sumac, e cordas brotaram da minha varinha.
A Diretora não era uma novata; com um gesto rápido da sua varinha, um véu de trepadeiras surgiu do chão, interceptando as cordas e prendendo-as.
— Então este é o teu verdadeiro jogo, Hermético! — gritou, e pela primeira vez vi ira nos seus olhos.
Huyustus, até agora um espetador consternado, levantou o seu cajado.
— Basta! Isto é uma loucura!
Mas a loucura já tinha vida própria. Yaku, recuperando-se, lançou um feitiço que não reconheci, um jato de seiva pegajosa e brilhante que voou em minha direção; esquivei-me por pouco, e a seiva impactou contra a parede, solidificando-se ao instante como um âmbar duro.
— Stupefy! — contra-ataquei, e o raio vermelho disparou-se em direção a Yaku.
Aruã interpôs-se, não com um feitiço de proteção como escudo, mas com um movimento do seu cajado que pareceu desviar a energia para o teto, onde se dissipou num faiscar que carcomeu o teto.
— João, por favor! Não faças isto!
Não podia deter-me, tinha cruzado o Rubicão. Na minha mente, já não eram aliados potenciais, mas obstáculos perante o meu objetivo.
— Ventus! — soprei na direção deles, e um vendaval em miniatura encheu a câmara, levantando folhas, pó e a tapeçaria da entrada, desorientando-os por um momento.
Aproveitei a confusão para saltar para a abertura. Odé já tinha desaparecido na marafa dos jardins inferiores. Saltei, apesar da grande altura, e conjurei um feitiço para aterrar seguro na base das árvores. Lá em cima, gritavam vozes de alarme.
— Libertou o rapaz! Alerta em todos os níveis! — ordenava Ima Sumac.
Olhei para cima. Huyustus estava debruçado no bordo, o seu rosto: uma máscara de dor e fúria. Os nossos olhares encontraram-se.
— Sinto muito, amigo! — disse-lhe, sabendo que não me ouvia. — Mas isto é maior do que nós!
Virei-me e entrei no caos controlado dos jardins inferiores. O ar cheirava a flores rotas e terra removida. Ao longe, entre as plantas que se moviam como se estivessem agitadas, vi uma figura que corria: Odé.
— Odé! Espera! — gritei, correndo atrás dele, sorteando rizomas que se retorciam sob os meus pés e esquivando os jatos de água de esferas flutuantes que pareciam ter-se descontrolado.
Parou ao ouvir a minha voz, girando-se. Galho espreitava a cabeça pelo seu pescoço, olhando-me. Nos olhos de Odé havia medo, mas também um vislumbre de esperança ao ver-me.
— Senhor Conde! Os... derrotou-os?
— Por agora — ofeguei, chegando à sua altura. — Mas vêm mais. Temos de sair daqui. Viste algum caminho? Uma saída?
Odé negou com a cabeça, desesperado.
— Não... tudo é... árvores e mais árvores, pontes que se movem sozinhas, mas mais abaixo parece haver a selva natural, a de Iemanjá.
Olhei à minha volta. Os jardins eram um labirinto vertical e horizontal. Ouvia já os gritos de outros magos e estudantes aproximando-se, coordenados. O sussurro da ofidioglossia tinha-se convertido num murmúrio de alerta que parecia vir de toda a parte.
— Temos de descer — disse. — Para onde levei o curso deste rio, é a nossa melhor opção.
Começámos a descer por uma rede de lianas e raízes, ajudando-nos mutuamente. Odé, apesar da sua confusão, movia-se com uma graça natural, como se a selva mesma o ajudasse. Num momento dado, ao tentar cruzar uma ponte estreita de madeira viva, um grupo de três estudantes apareceu no outro extremo, varinhas em punho.
— Alto aí! — gritou um, um jovem de traços andinos.
— Não temos tempo! — disse a Odé. — Segue!
— Immobilus! — lançou um dos estudantes.
Esquivei-me do feitiço, que impactou numa flor gigante, petrificando-a ao instante.
— Confundo! — contra-ataquei, e o estudante que tinha lançado o feitiço deteve-se, olhando para os seus companheiros e aprestando-se a enfrentar-se a eles.
Mas vinham mais; lá de cima, Yaku e outros dois magos adultos descendiam com determinação. Ima Sumac e Aruã deviam estar a coordenar a busca a partir de outro ponto.
A perseguição converteu-se numa pesadelo vertiginoso. Corremos ao longo de ramos que eram caminhos, deslizámos por escorregas de casca polida, escondemo-nos atrás de cortinas de fetos gigantes que Odé, com um gesto da sua mão, fez com que se compactassem atrás de nós. O seu dom, embora selvagem, respondia ao seu instinto de sobrevivência. Numa ocasião, ao sermos encurralados numa plataforma sem saída, gritou de frustração e, sem querer, fez com que toda a plataforma se inclinasse bruscamente para um lado, lançando dois perseguidores que tentavam abordá-la para uma rede de trepadeiras elásticas mais abaixo.
Mas éramos dois, contra dezenas deles, e conheciam cada centímetro do seu lar.
Finalmente, encurralaram-nos. A nossa retirada desesperada levou-nos a um nível baixo do complexo, perto dos alicerces onde a rocha viva da caverna se encontrava com o solo. Aqui, o rio subterrâneo que atravessava Castellobruxo era mais largo e caudaloso, rugindo com força num canal talhado pelo tempo e pela magia. Às nossas costas, a parede lisa da caverna, coberta de musgos fosforescentes. À nossa esquerda, o precipício para as águas turbulentas. À nossa direita e à nossa frente, o caminho estava bloqueado.
Ima Sumac, Aruã, Yaku e pelo menos outros seis magos, alguns deles veteranos de rosto severo, fecharam-nos o passo. Formavam um semicírculo. Não havia ira nos seus rostos agora, apenas uma resolução fria e triste. Até Aruã olhava-me com uma decepção que me impactou mais profundamente do que qualquer reprovação.
— Acabou-se, João — disse Ima Sumac. A sua voz não elevava o tom, mas levava o peso da autoridade absoluta. — José. Não há mais fuga. Venham pacificamente. Ninguém sairá ferido.
Odé, arquejante ao meu lado, estava pálido. Galho tinha subido para a sua cabeça, olhando para os magos com uma atitude desafiante, como um minúsculo guerreiro pronto para defender o seu amigo. Senti o desespero de Odé, o sabor amargo da liberdade prestes a ser arrebatada, outra vez.
Eu, pelo contrário, sentia uma ira fria; tinha falhado, o meu plano tinha-se desmoronado. Mas não me renderia; se fosse cair, cairia lutando, e talvez, só talvez, pudesse criar uma distração para que Odé saltasse para o rio. Era uma morte certa naquelas águas furiosas, mas talvez preferível a uma vida de cativeiro; na sua mente, estes magos não terão este valioso recurso; na minha, sim.
— Não se aproximem — disse, pondo-me à frente de Odé, a minha varinha levantada. A energia mágica formigava no meu braço, pronta para ser libertada num último e letal arrebatamento. — A última coisa que farei não será render-me.
Ima Sumac suspirou, um som de genuína pena.
— Pena. Tinhas tanto potencial, Hermético. — Levantou a sua varinha. — Magos... imobilizem-nos. Sem dano permanente ao jovem.
Várias varinhas e varas ergueram-se contra nós. O ar carregou-se de poder pronto para estalar. Odé fechou os olhos. Eu respirei fundo; até agora tinha-me privado de usar força letal, mas, neste preciso momento, preparava-me para lançar uma cadeia dos feitiços mais negros e destrutivos que conhecia.
Foi então que o rio rugiu.
Não foi um rugido de água contra rocha. Foi um som mais profundo, mais visceral, que surgiu das mesmas entranhas do caudal; as águas, uns passos mais abaixo, abriram-se como se uma ilha emergisse das profundidades.
Escamas de um verde escuro quase negro, manchadas de óxido e ocre, romperam a superfície. Uma massa colossal que fazia parecer pequeno o bergantim no qual tinha navegado pelo Amazonas; a cabeça, larga como o tronco do biribá, ergueu-se sobre as águas; os olhos, do tamanho de rodas de carruagem, de um âmbar profundo e inescrutável, pousaram em nós; sim, era Jatun Sicuri.
A sua só presença paralisou tudo. Os magos de Castellobruxo baixaram as suas varinhas uns centímetros, não por medo, mas por um assombro reverencial; até Ima Sumac pareceu conter a respiração.
A titanoboa não nos atacou. Abriu as suas fauces, não para morder, mas para emitir um som; não era um silvo de serpente, era um... um conceito, uma emoção pura entoada em som e sintonizada em magia antiga; um rugido em ofidioglossia que não só se ouviu, mas que se sentiu nos ossos, no sangue, na alma.
“BASTA!”
A palavra, ou melhor, a ordem absoluta, explodiu nas nossas mentes com a força de um cataclismo. Não foi dirigida só a nós, os encurralados, mas a todos os presentes; entendi-a com perfeita clareza, como se sempre tivesse falado a língua das serpentes; entendi-mo-la todos no meio de um estremecimento generalizado.
“PEQUENOS SERES COM VARINHAS. LUTANDO POR UM DESTINO QUE NÃO LHES PERTENCE”.
A voz de Jatun Sicuri não saía da sua boca, mas ressoava diretamente na nossa consciência, carregada de uma paciência milenar e uma decepção abrasadora.
“TU, CONDE DE PEDRA E MENTIRAS”.
Os seus olhos âmbar cravaram-se em mim, e senti como se me despissem a alma.
“VÊS ESTE JOVEM NÃO COMO UM IRMÃO, MAS COMO UMA MOEDA. UMA CHAVE PARA A TUA PRÓPRIA GLÓRIA E A DA TUA LONGÍNQUA TERRA. O TEU CORAÇÃO CHEIRA À MESMA ESCURIDÃO QUE A DO FALCÃO DE PEDRA QUE FUGIU PARA AS ESTRELAS. AMBIÇÃO VESTIDA DE SALVAÇÃO”.
Cada palavra era um chicote. Encolhi-me, a vergonha e a ira lutando dentro de mim. Como sabia? Quão transparente era o meu ser para este ancião?
“E VOCÊS, GUARDIÕES DA ANTESALA DO FIRMAMENTO”.
O seu olhar varreu Ima Sumac, Aruã e todos.
“TÃO SEGUROS DO SEU CAMINHO. TÃO DISPOSTOS A ENCLAUSURAR UMA ALMA LIVRE NUMA JAULA DE BOAS INTENÇÕES. EM QUE SE TORNARAM OS SUPOSTOS PROTETORES DA TERRA? EM CARCEREIROS?”
Ima Sumac baixou a cabeça, não em submissão, mas em doloroso reconhecimento. Aruã fechou os olhos.
“ESTE MENINO...”
Jatun Sicuri dirigiu-se agora a Odé, que tremia, hipnotizado pela presença do colosso.
“...TEM O ECO DA TERRA NO SEU SANGUE. E O PRANTO DO RIO NO SEU CORAÇÃO. O SEU CAMINHO NÃO É O SEU. NEM O DESTE.”
Um olhar de desprezo em minha direção.
“O SEU CAMINHO AINDA ESTÁ POR SER TRILHADO, E NÃO SERÁ TRAÇADO POR VARINHAS NEM POR PLANOS DESTA TERRA OU DA TERRA ALÉM DAS GRANDES ÁGUAS”.
Jatun Sicuri aproximou-se ainda mais da margem, o seu imenso corpo criando uma onda suave que lambia as rochas. Inclinou a sua cabeça para Odé.
“SOBE, FILHO DO RIO E DA TERRA FECUNDA.”
A ordem era clara. Odé olhou-me, os seus olhos cheios de uma insuspeitada tranquilidade e uma curiosidade ainda mais antiga.
— Não... — murmurei, mas a minha voz não tinha força.
— Vai, Odé — disse Aruã, com uma voz rota pela emoção. — Vai.
Odé não duvidou um só instante mais. Com Galho a aferrar-se ao seu cabelo, caminhou para o bordo e, com uma ajuda imperceptível de Jatun Sicuri, que inclinou o seu lombo escamoso, subiu para as costas da serpente titânica. Via-se minúsculo, frágil, sobre aquele ser de lenda.
Jatun Sicuri voltou-se para todos nós uma vez mais. Os seus olhos âmbar brilharam com uma luz interna.
“ESQUECERAM COMO ESCUTAR. COMO RESPEITAR. POR ISSO, TIRAR-LHES-EI O OUVIDO QUE NUNCA SOUBERAM USAR.”
Ergueu a sua cabeça e emitiu um último som, um silvo complexo e poderoso que se enroscou no ar como uma serpente de som. Senti-o penetrar na minha mente, nos meus ouvidos mágicos. Não doeu, mas foi como se um véu se levantasse, como se uma cor nova aparecesse no espectro da minha percepção.
Olhei para Ima Sumac, para Aruã, para Yaku. Vi outra expressão nos seus rostos, uma compreensão atónita de ter perdido uma cor em lugar de a ganhar, de se terem colocado atrás de um véu escuro. O murmúrio constante da ofidioglossia em Castellobruxo... tinha desaparecido; o silêncio que deixou era ensurdecedor; já não podiam entender a língua das serpentes; o castigo de Jatun Sicuri era subtil e devastador: tinha-lhes privado de uma parte fundamental da magia deste lugar, da conexão que eles tanto valorizavam.
“APRENDE DISTO, CONDE. OU PERECERÃO, QUANDO AS ESTRELAS CHAMAREM À SUA PORTA.”
Com isso, Jatun Sicuri mergulhou. O seu corpo colossal deslizou sob as águas escuras do rio subterrâneo, levando consigo Odé e Galho. As águas fecharam-se sobre eles e, em segundos, só restou o rugido habitual da torrente.
Ninguém se moveu, ninguém falou. O peso do ocorrido, das palavras de Jatun Sicuri, da nossa própria vergonha, aplastava-nos mais efetivamente do que qualquer feitiço gravitacional.
Fiquei a olhar para as águas vazias, a minha varinha pendendo inutilmente da minha mão. Tinha perdido, tinha sido desmascarado, a minha ambição tinha-me cegado; Odé tinha-se ido, não para a liberdade que eu lhe prometi — uma liberdade que, na realidade, era outra prisão —, tinha-se ido para um destino que nenhum dos que ficámos para trás podíamos compreender. E o pior de tudo: Jatun Sicuri tinha-me deixado a sua língua, sem saber o que isso significa na Europa.
Ima Sumac foi a primeira a romper o silêncio. Voltou-se para mim, e nos seus olhos já não havia ira, apenas uma profunda tristeza e uma determinação renovada, talvez mais humilde.
— A tua missão aqui terminou, Cagliostro João de Bragança da Sousa Nassau — disse, a sua voz clara no novo silêncio, carente do silvo da ofidioglossia. — Dar-te-emos provisões e um guia até ao limite do nosso território. Depois, estarás por tua conta. Informa a tua Ministra do que viste, diz-lhe que a ameaça é real, diz-lhe que estamos aqui e continuaremos a trabalhar, ou diz-lhe o que quiseres; é-me indiferente.
Não tive nada que responder. Apenas assenti, derrotado.
Ao longe, o rio seguia o seu caminho, levando os últimos ecos da serpente titânica e do liberto que tinha encontrado, no ventre da selva, um destino maior e mais terrível do que qualquer homem, mágico ou não, poderia ter imaginado. E eu, Grande Bruxo da Ordem de Hermes Trimegisto, fiquei só com o peso da minha traição e o silêncio da minha voz.
1823 — EPÍLOGO: O silêncio da serpente
Passaram-se quarenta anos. Quarenta invernos romanos, quarenta verões de pó e pedra. O lugar que agora chamo de lar é uma cela de claustro no Colleggio Romano, uma lousa de frio e silêncio onde o tempo se entrelaçou com as paredes e, quando o vento sopra, traz ecos de vidas passadas.
Já não sou Cagliostro João de Bragança da Sousa Nassau, Conde de São Lourenço, Grande Bruxo da Ordem de Hermes Trimegisto. Esses nomes são, precisamente, ecos de outra vida, ou melhor, da vida de outro homem. Um homem arrogante, vestido de seda e ambição, que cruzou um oceano e, ao chegar ao seu destino, acreditou que podia manipular a sorte de um continente e, pior, a vontade de um homem livre. Esses nomes pertencem a um homem a quem uma serpente colossal, mais antiga que as pirâmides, despiu a alma com um rugido.
Jatun Sicuri devia ter-me matado. O seu castigo foi mais subtil, mais perfeito: despojou-me de todas as línguas dos homens e entregou-me a sua: o parsel mais antigo e mais puro. Quando cheguei às costas de Portugal, já não conseguia pronunciar uma única palavra em português, latim, francês ou inglês. Apenas saíam dos meus lábios silvos e assobios, sons guturais que soavam a blasfémia ou loucura para os ouvidos trouxas e a arte escura e perversa para os ouvidos mágicos.
A minha família, a orgulhosa Casa de Sousa Nassau, desmoronou-se; o seu último herdeiro apenas falava a língua das serpentes, era uma maldição, uma zombaria. A nobreza mágica da Europa deu-me as costas, a Ordem de Hermes Trimegisto repudiou-me, o mundo para o qual nasci expulsou-me, sem julgamentos, sem duelos. Apenas o silêncio gelado do desprezo e do medo.
Encontrei refúgio, ou melhor, um esconderijo final, no último lugar que visitei antes da minha queda: o Colleggio Romano. Para os sacerdotes trouxas que administram este lugar, sou o Irmão João, um missionário que perdeu a razão nas selvas da Amazónia, possuído por espíritos pagãos ou pelo próprio demónio, quando tentava evangelizar essas terras ingratas. O meu voto de silêncio é considerado uma penitência divina e não uma maldição mágica. Atribuíram-me as tarefas mais baixas: limpar os solos de mármore desgastado, esfregar as latrinas, sacudir o pó de estantes cheias de livros que já não consigo ler como antes. De dia, sou um fantasma silencioso, um espectro que passa com o seu balde e o seu pano.
Mas as noites… as noites são minhas.
No mais absoluto segredo, no coração da escuridão, quando o Colleggio dorme, deslizo para a secção selada, aquela que os trouxas não veem, aquela que os magos esqueceram. Ali, custodiado por sigilos que já não me afetam, está o códice.
O manuscrito de Athanasius Kircher. A chave de Tiahuanaco. O aviso e a esperança descritos nas estrelas.
Durante quatro décadas, todas as noites, sentei-me à sua frente. Não tenho varinha para tentar desfazer os seus encantamentos. Não tenho artifícios mágicos para decifrar os seus símbolos. Apenas tenho a língua que me foi imposta e o desespero de saber que, depois de tantos anos, descobri que o consigo ler. O parsel é a mãe de todas as línguas, mas não o posso traduzir para ninguém, nem sequer retê-lo na minha cabeça, porque assim que quero dar-lhe a forma de alguma língua humana, perde-se, dissipa-se, escorre como a água por entre os dedos.
As marcas nas suas páginas, que parecem constelações abstratas ou diagramas de artifícios impossíveis, ganham vida. Quando sussurras a linguagem antiga sobre elas, as linhas movem-se, reconfiguram-se, os cálculos estelares dos magos astrónomos dos Andes desdobram-se como serpentes de luz na minha mente. Vejo as coordenadas da ameaça que se aproxima, um ponto frio e voraz na negrura entre as estrelas; compreendo os princípios da Gravitomancia não como teorias, mas como cantos guturais que descrevem a curvatura da realidade. Vejo os princípios arquitetônicos de Puma Punku, como um porto vibrante para embarcações estelares; vejo os desenhos da nave de Mallku Qhasqui, o Falcão de Pedra, com o seu canhão que unifica varinhas e amplifica a vontade mágica; vejo o procedimento para que a magia se una ao humano antes de nascer.
Tudo está aqui. Tudo o que Huyustus e Ima Sumac ansiavam, tudo o que poderia salvar ou condenar o nosso mundo.
E eu sou o único na Terra que o pode ler.
A ironia é tão amarga que, por vezes, me faz rir, um som rouco e sibilante que ressalta nas paredes da minha cela e assusta os ratos. O castigo de Jatun Sicuri não foi apenas uma condenação, foi uma chave; converteu-me em muito mais do que um Amaru Rimay, e nem se fala de um simples parselmouth; consigo sentir a linguagem nas veias da terra, no batimento das pedras. Consigo ler o códice, mas não posso comunicar o seu conteúdo a ninguém. Estou preso na prisão mais perfeita: a de um segredo que pode mudar o destino do mundo, custodiado por um homem a quem o mundo desterrou.
Às vezes, nos meus sonhos, vejo-os. Odé, cavalgando sobre o lombo de Jatun Sicuri em direção a um destino que nem ele nem eu compreendemos; Ima Sumac, governando Castellobruxo num silêncio ainda mais profundo, privada do silvo que uma vez uniu o seu povo à selva; Aruã, com os seus olhos cinzentos de cinza, talvez ainda à espera de uma redenção que nunca chegará.
O que terá sido deles? Continuaram o seu programa? Encontraram outra chave? Ou o tempo tê-los-á consumido, como a mim?
O meu corpo é velho agora, os ossos doem-me com o frio romano, as mãos, que uma vez brandiram uma varinha de ébano com incrustações de prata, agora estão nodosas e calosas pelos panos e vassouras. Já não tenho magia, ou, melhor dizendo, a única magia que me resta é a de escutar o silêncio e entender o canto do antigo.
Esta noite, como todas as noites, estou em frente ao códice. As velas trouxas projetam sombras dançantes sobre as suas páginas. Estendo uma mão trémula e pouso a ponta do dedo sobre um diagrama circular, um núcleo de poder gravitacional. Sussurro, não uma palavra, mas uma sensação, um conceito em parsel: "Elevação. Libertação. Contrafluxo."
As linhas na página estremecem e erguem-se, formando uma esfera tridimensional de luz ténue que flutua diante de mim. Lá dentro, vejo equações de gravidade invertida, feitiços de Vacuitas para ludibriar o vazio, diagramas de um motor astral que se alimenta da diferença de energia que há entre os mundos. É belo, é terrível e está condenado a morrer comigo.
Amanhã, talvez, já não desperte. Ou talvez tenha outros dez anos de limpeza e silêncio pela frente. Mas o códice… o códice não pode morrer aqui. Esta verdade não pode apodrecer numa cela esquecida de Roma.
A quem o deixaria? A um sacerdote trouxa que o veria como heresia? A um mago europeu que, como eu há tanto tempo, veria nele apenas um instrumento de poder?
Não. Estou seguro de que o meu destino não é comunicar os seus segredos; nunca o foi.
Suspiro, um som que é quase um silvo. Apago a vela. A esfera de luz desvanece-se, e o códice volta a ser um livro poeirento e indecifrável.
Levanto-me com dificuldade e dirijo-me à porta da minha cela. Lá fora, o corredor está na penumbra. Mais além, no claustro, a primeira luz da alvorada começará em breve a filtrar-se sobre as antigas pedras de calçamento.
Regressarei à minha rotina de silêncio e serviço, varrerei os corredores, os sacerdotes passarão ao meu lado sem me ver, murmurando as suas orações num latim que já não entendo.
Mas dentro de mim, no lugar onde antes habitavam a ambição e o orgulho, reside agora um conhecimento vasto e silencioso, um mapa de estrelas que ninguém mais pode ler, um canto de serpente que ninguém mais pode escutar.
E talvez, só talvez, isso seja suficiente. Ter sido, no final, não um conquistador nem um traidor, mas simplesmente um escriba. O último amanuense de um segredo demasiado grande para qualquer mundo.
O amanhecer toca a pedra fria da janela, é hora de começar o dia; tomo o meu balde e a minha vassoura, e deslizo para o corredor, um homem velho, sem magia, sem palavras, com o peso das estrelas carregando silenciosamente sobre os meus ombros cansados.
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