Código Secreto

7 Capítulo 7 - Difícil aproximação


Notas iniciais
Desculpem a demora, mas acho que a partir de agora será mais rápida a atualização dessa fic!

– O que você falou para os caras?!

– Falei que ele participa de ‘pegas’ e só. Que não sabia nada das drogas e tal...

– Drogas?

– Tinha droga no carro que ele tava. Eu não sei, ta legal?! Eu não sei, faz e fala o que você quiser! – Ele saiu irritado, deixando Eire com a pulga atrás da orelha. O que será que estava acontecendo?


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A noite fria abraçava o jovem loiro, confortando-o, enquanto mergulhava no mais profundo silêncio. A lua intensa refletia sua luz na garoa, tornando o caminho misteriosamente brilhoso. Sozinho, o jovem seguiu as gotas brilhantes, adentrando na trilha desconhecida. As árvores delgadas e muito altas soltavam pequenas folhas e gravetos, estalando com os passos e ecoando como única voz do lugar. O frio úmido intensificou-se e seus pelos ouriçaram-se, enquanto o coração tremia ante a expectativa.

Imerso nesse silêncio desconhecido, ele prosseguiu, adentrando cada vez mais na mata fechada. A garoa aos poucos se avolumava, anunciando uma tempestade, obrigando-o a proteger-se com o capuz do casaco. O calor do seu corpo vaporou-se para o ambiente, mas não o impedia de seguir. Sua determinação não era compreendida, apenas sentia que devia seguir.

Os passos vagarosos adquiriram intensidade na medida em que o silêncio era rompido por fracos gemidos de dor. Com a ansiedade explodindo em seu peito, o jovem loiro apressou seu passo até começar a correr em busca da jovem que gritava por socorro. Todas as células do seu corpo despertaram em busca da desconhecida jovem, transformando-se num ímpeto desesperado. Precisava chegar, precisava impedir, precisava protegê-la. Até que chegou ao destino, assombrado pelo que via...

A cena chocou-lhe, marejando os olhos, impotente, horrorizado. Não conseguia entender aquilo, mas não conseguia impedir, evitar, proteger.

– Mamãe... – Balbuciou, elevando as mãos até a jovem que era atacada por homens corpulentos, do qual não conseguia ver o rosto. A água caía abundante sobre eles, turvando um pouco sua visão, afogando-a em desespero. Por que a estavam machucando? Por que não podia ir até eles, protegê-la e impedir tanta monstruosidade?

Foi quando ouviu o trotar rápidos dos cavalos. Devagar, percorreu a visão por entre o lugar e avistou uma cavalaria aproximar-se furiosamente. Os homens com vestimentas de guerreiros, num vermelho tão vivo quanto sangue, irromperam o lugar a ponto de chocar-se com o loiro e passar por ele, tal como se fosse um fantasma. Assustados, os agressores da jovem tentaram fugir, enquanto o loiro corria para alcançar a mãe. Desacordada e nua, coberta por sangue, aquela imagem queimou sua retina.

Sua atenção apenas fora dispersada quando ouviu um urro estridente, que vinha dos homens a cavalo. Levou os olhos até eles e percebeu o homem imponente montado num cavalo preto, erguendo um dos homens que violentavam sua mãe. O susto ao poder distinguir os personagens daquela tenebrosa cena o fez tombar sobre si mesmo, ao notar que o cavaleiro era Camus e que este estava a degolar a sua própria imagem. O homem corpulento a quem ele mesmo mataria se pudesse era um alter ego, uma versão imunda de si mesmo. A sua respiração tornou-se ofegante e dificultosa. Voltou seu olhar para o avô que, com lágrimas de sangue nos olhos, decapitou o homem que lhe parecia um espelho...

– Nãooooo!!!!!! – Gritou sentindo-se sufocar com o gosto do seu sangue, debatendo-se e acordando do pesadelo com o estrondo do trovão que rasgou o céu e iluminou o novo lugar em que estava: A casa do policial Ikki Amamiya. Puxando o ar com dificuldade, seus olhos lentamente puderam distinguir a figura do homem que o encarava seriamente.Os segundos se passaram com eles em silêncio até Hyoga se dar conta de que fora mais um dos seus pesadelos. Engoliu em seco, desviando o olhar assustado, ajeitando-se no sofá onde dormia.

– Você está bem? – Ikki perguntou. Ouvira o jovem gemer lá de seu quarto e desconfiou de que algo estava errado. Hyoga demorou um pouco para regularizar a respiração e responder:

– Estou... eu... eu tive um pesadelo, só isso. – Respondeu com a voz trêmula, levando as mãos ao rosto, notando que suava demais, e escondendo-se do olhar do moreno. Ikki ficou analisando-o por um tempo: Era um garoto, apenas, um tanto arrogante sim, mas ainda assim apenas mais um adolescente rebelde como tantos outros. Devia esperar que estivesse assustado com tudo, e até que tivesse pesadelos com isso, provando ainda mais para si que o loiro era de fato inocente de todas as acusações de pairavam sob sua cabeça.

– Hyoga... – Resolveu sentar no sofá onde o loiro dormia, ficando ao seu lado. – Eu acho que talvez eu tenha exagerado contigo. – Tentou dizer, sentindo-se um tanto responsável pelo desespero estampado no rosto do adolescente. Talvez Afrodite tivesse razão quando afirmou que tinha pegado pesado demais com ele. – Naquele dia, no presídio, minha intenção não foi te aterrorizar, apenas deixá-lo ciente do futuro que lhe aguardava se continuasse agindo da forma que estava. – Disse encarando-o sério e firme. Hyoga olhou nos olhos do moreno e percebeu uma sinceridade genuína nele. Percebeu que o policial cria que seu estado se devia a sua visita ao presídio. Bom, talvez fosse melhor que pensasse isso mesmo.

Tudo bem... – Limitou-se a dizer, desviando o olhar para o chão, cruzando as mãos e tentando não demonstrar fragilidade. Ikki percebera de imediato que o garoto era de poucas palavras, muito parecido consigo mesmo, o que normalmente seria muito bom, mas nessas circunstâncias era péssimo. O loiro já estava consigo há três dias e ainda não conseguira criar uma relação de confiança entre eles e isso não era bom.

– Bom, eu vou para o meu quarto, então. – Comentou, erguendo-se. Hyoga o seguiu com o olhar e, ainda receoso, desculpou-se:

– Desculpe tê-lo acordado. – Pediu atraindo a atenção do moreno, olhando para o relógio que já contava uma da manhã.

– Você não me acordou. Eu costumo dormir tarde, mesmo... – Respondeu, num meio sorriso. O loiro ergueu-se do sofá, mas não respondeu. O policial ficou esperando que ele dissesse mais alguma coisa, ou pelo menos desfizesse aquela postura fria e distante, mas apenas o silêncio veio. Então, desejou-lhe boa noite e seguiu para o quarto.

O loiro permaneceu no mesmo lugar, parado e em pé, olhando na direção do quarto do policial, que se manteve com a luz acesa, enquanto toda a casa permanecia no escuro. O russo, então, respirou pesadamente, encarando o sofá onde dormia, com as imagens do pesadelo ainda permeando em sua mente. Sabia que não mais conseguiria dormir aquela noite, e a aflição por estar sozinho começou a lhe abater com força. Normalmente, a solidão não seria um problema, já que gostava dela, mas neste momento não.

Esse sentimento só fazia crescer aquela sensação de estar em perigo. Não foi difícil perceber que o policial, apesar de ser um sujeito estranho, não desejava outra coisa que não fosse ajudá-lo a se ver livre das acusações, mas ainda assim não seria fácil. O moreno não lhe dizia coisa alguma, não traçou nenhuma estratégia, apenas o manteve dentro de casa, como se estivesse numa prisão, só que mais segura do que aquela presenciada. O tempo passava e ele se via enredado cada vez mais nessa teia e não via solução, e o único que dizia querer ajudá-lo simplesmente nada falava. Essa situação estava ficando insustentável para o loiro.

Sem alternativa, mesmo considerando que de nada adiantaria, Hyoga decidiu sair do escuro e seguir para a única luz possível para si naquele momento. O quarto de Ikki estava com a porta aberta e ele não precisou entrar para vê-lo. Ele estava sentado, de costas para si, debruçado sobre pilhas de papéis. Mesmo por trás do encosto vazado da cadeira, o loiro pôde ver que ele estava sem camisa, exibindo o corpo musculoso, a pele bronzeada, algumas cicatrizes e uma tatuagem que se estendia pela extensão de seu tronco. Uma bela tatuagem de uma fênix com as asas abertas. O desenho tatuado se encaixava tão perfeitamente em sua pele, em seus traços, que parecia fazer parte de seu corpo, como se tivesse nascido com ela. As cores, a expressão da ave, tudo nela transmitia uma força inesgotável. Realmente, uma tatuagem e tanto!

– Bela tatuagem. – Comentou displicente, enquanto adentrava no quarto, parando ao lado da cama, um pouco atrás do moreno, que não se deu ao trabalho de virar-se para encarar o adolescente.

– Fiz quando tinha a sua idade. – Respondeu por alto, ainda prestando atenção nos papéis a sua frente. Hyoga sorriu de lado, cruzando os braços, lembrando-se de seu avô.

– Camus me mataria se eu fizesse uma desse tamanho... – Comentou debochado, mas Ikki nada respondeu. O policial estava tão concentrado no que fazia que não percebeu que o loiro continuava ali, em pé, analisando-o. Seus olhos percorreram a pele morena, a imponente tatuagem dava um aspecto rústico e viril, numa mistura de cores vermelho e alaranjado que dava um tom mais moreno ainda a pele já bronzeada, tão contrastante com a sua. Além da tatuagem, o que lhe chamou mais a atenção foram as cicatrizes que cortavam a pele e a tatu. — Por que uma fênix? — Perguntou inesperadamente, surpreendendo a si mesmo com a curiosidade repentina que viu surgir sobre aquele homem.

Ikki ergueu o olhar assim que ouviu a pergunta, estranhando o fato de o garoto estar puxando assunto com ele. Sem levantar-se da cadeira, ele finalmente virou-se para encarar o loiro. Eles se entreolharam numa fração de segundo, como se quisessem entender um ao outro, suas razões, suas palavras. – Porque me identifico com a fênix. Sou como ela, sempre renasço das minhas cinzas. – Respondeu. Novamente suas palavras foram além do que costumavam ir, mas deixou que as coisas seguissem dessa forma, pois precisava da confiança do garoto que o encarava indisfarçadamente curioso.

– Está falando isso por causa dessas cicatrizes? – Perguntou deixando-se levar pela curiosidade, sentando-se na cama.

Também... – A indiscrição deveria tê-lo incomodado, mas não. Dividir a história contada em sua pele não era algo que fazia com frequência, principalmente com um estranho. Ao contrário, nem os poucos mais chegados tinham tanto conhecimento de si mesmo quanto esse garoto insinuava querer saber. Perceber nos olhos claros do loiro essa curiosidade sobre si já poderia ser suficiente para que ele o afastasse, mas se impediu. Justificava-se pela necessidade da aproximação, e talvez fosse isso mesmo. – Esta eu ganhei quando tentava prender um sequestrador, numa operação que tinham muitos reféns. – Disse, apontando uma cicatriz no ombro esquerdo. – Esta foi numa operação para desarticular uma quadrilha, uma viga caiu em cima de mim. – Desta vez apontou uma cicatriz perto da clavícula direita. – E esta aqui foi a minha ex. – Riu baixo e rouco, mostrando uma perto da coluna, na direção da cintura. – E esta foi numa operação para tentar prender o ‘chefe’, desconfio que tenha sido seu segurança que atirou contra mim. – Disse indicando a grande cicatriz pouco acima da direção do coração.

– Ele atirou no seu coração, para te matar... – Hyoga observou pela direção da marca.

– E eu quase morri mesmo, mas o capeta não gosta de mim e me expulsou do inferno... – Disse, com sorriso de escárnio. O loiro não disse nada, apenas o olhava com um semblante curioso. Talvez estivesse preocupado em ter que encarar o homem responsável por deixá-lo nessa situação. Poderia falar mais coisas para tentar tranquiliza-lo, mas tranquilo não era o que ele deveria ficar. Devia sim ter consciência dos riscos, para não cometer erros fatais.

Mas não é por causa dessas cicatrizes que você se considera uma fênix, não é? – Perspicaz, Hyoga logo percebeu que esses fatos não tinham ligação com a tatuagem, afinal foram em tempos posteriores. Aliás, o jovem fora perspicaz além da conta, deixando o moreno incomodado pela primeira vez desde que chegara a sua casa.

Não... – Respondeu secamente, voltando a atenção para os papéis sobre a mesa. Hyoga logo percebeu que chegara ao limite da conversa e que aquele era um assunto que o policial não estava disposto a ter consigo.

O que está fazendo? – Perguntou, mudando de assunto. Aproximou-se olhando por cima do ombro de Ikki.

– Analisando os relatórios de Afrodite sobre o seu caso.

– Afrodite é aquele policial que estava com a minha mãe, na delegacia?

– Sim, ele mesmo. – O moreno logo percebeu a estranheza contida na voz do adolescente. – Por quê?

– Nada. Só o achei estranho...

– Como estranho?

– Sei lá... achei ele feminino demais para um policial. Ele é...? – Perguntou.

Sim, ele é gay. – Respondeu, mas novamente notou estranheza no adolescente. – Algum problema? – Perguntou, ainda com os olhos voltados para os relatórios.

Não! Nenhum... É só que eu não esperava encontrar policiais... gays. Essa é uma profissão de homem! – Comentou sincero.

E qual seria a sua definição de... homem? – Perguntou, vendo no rumo dessa conversa uma chance de ganhar um pouco mais a confiança de Hyoga.

Como assim? Homem é homem! – O jovem afirmou, confuso.

– Bom, se o caso é a existência de um pênis, posso dizer que Afrodite é um homem...

– Não é só ter um pênis...

– E o que precisa mais? – Instigou, sem saber exatamente para onde ele mesmo queria chegar com aquela conversa.

– Precisa ser homem! Não deitar com outro homem, agir como homem e não daquela forma afetada! Eu não entendo, ele devia se comportar estando numa delegacia! – Deixou escapar sua opinião, de forma espontânea. Ikki arqueou a sobrancelha, pondo seu olhar analítico novamente sobre o loiro, se perguntando como aquele jovem podia ser tão perspicaz num momento e tão infantil em outro.

– O que foi? – Perguntou, incomodado com aquele olhar sobre si. O moreno, então, logo percebeu: Hyoga era um adolescente, apenas, quase uma criança que devido ao sofrimento amadurecera rápido demais. Mas ainda assim, uma criança que se deixasse falaria tudo o que lhe passasse pela cabeça.

– Então, para você, ser homem é não agir de modo afetado e não deitar-se com homens? – Indagou de modo irônico, que o loiro não percebeu.

Basicamente... – Respondeu, sem entender bem o porquê daquelas perguntas. Ikki parou um pouco, como se pensasse em suas palavras, e depois voltou a olhá-lo duramente.

Pois você teria outro pensamento se tivesse visto as coisas que vi. Homens, como você diz, que agem de modo não afetado e deitam-se com mulheres, mas em compensação agem como crueldade, desprezo e violência. Homens que agem com brutalidade, arrogância e desprezo para com as outras pessoas. Homens que se deitam com mulheres, mas que as violentam, as humilham, as maltratam. Esse seu conceito se aplica a essas pessoas, Hyoga? – Indagou de modo sério.

Esses não são homens, são monstros! – Respondeu com um quê de revolta.

– Então, não pense que o modo como agimos ou com quem nos deitamos é o que nos define. Garanto que Afrodite, mesmo com seu jeito afetado e deitando-se com outros homens, é muito mais homem que muito machão por ai. – Disse, vendo como o loiro mantinha-se estranhamente calado, enfezado, e com os olhos vermelhos.Não entendera muito bem essa mudança brusca de reação do garoto, mas achou por bem continuar, já que Afrodite fazia parte da equipe, não poderia correr o risco do preconceito do garoto pôr tudo a perder. – Além disso, Afrodite é um dos melhores investigadores dessa cidade. O fato de ele ser gay não atrapalha em nada o seu trabalho e nem a sua hombridade, fique tranquilo quanto a isso. – Respondeu e voltou-se aos relatórios, deixando-o imerso em pensamentos.

O loiro manteve-se calado, remoendo consigo mesmo o sermão de Ikki. Odiava profundamente levar sermão e estava matutando um jeito de respondê-lo a altura, e de forma bem grosseira, mas não o fez. Admitia que ele estivesse certo, não era o que se fazia na cama que definia alguém como homem, mas também não podia dizer que Afrodite era um homem como outro, ou como ele. Afrodite era uma bicha! – Pensou consigo mesmo.

Hyoga, mais alguma coisa? Já está tarde, quero terminar isso aqui e você precisa descansar... – Afastou-o, interrompendo seus pensamentos, deixando claro que a conversa terminara. Talvez devesse se explicar, mas era péssimo nisso e poderia causa ainda mais mal entendido. O loiro desviou o olhar e bufou discretamente, contrariado.

Na verdade, eu queria sim. Já tem três dias que estou fora de casa e eu estou preocupado com a minha mãe.

– Você sabe que é perigoso que você saia daqui agora...

– Eu sei, mas ela é minha mãe. E se bem conheço ela deve estar muito preocupada comigo. Capaz de estar me procurando feito louca. E eu não queria deixá-la tão preocupada. Você podia ir até ela, dizer que estou bem.

– Hyoga, para todos os efeitos, eu não sei onde você está. Como vou dizer que está bem se não sei onde você está?

– Mas é importante... – Respondeu, vacilante. Entendia as razões dele, mas não podia deixar a mãe tão preocupada e sozinha com o ruivo. Já estava acostumado a sair pela noite sem dar notícia, mas estava há muito tempo longe de casa e ela não merecia tanto sofrimento, não merecia um filho que desse tanto trabalho como ele. Ikki soltou um suspiro cansado.

– Ok, eu vejo isso depois. Agora me deixa trabalhar... – Respondeu sem dar muita atenção ao loiro. Hyoga percebeu que o moreno somente o estava afastando, mas que provavelmente o enrolaria e não falaria com sua mãe. Irritado e contrariado, ele saiu do quarto sem nem se despedir, pulando no sofá, irritado. Como se não bastasse o sermão, aquele cara sequer lhe ouvia e ainda o tratava como criança! Mas não deixaria as coisas desse jeito. Mostraria a Ikki quem era e falaria com a sua mãe de um jeito ou de outro, o policial querendo ou não.

Sem se importar com a saída furiosa de Hyoga de seu quarto, Ikki tentou continuar com os estudos dos relatórios mais recentes de Afrodite. Porém, não mais com a mesma atenção. A inesperada presença de Hyoga e sua evidente curiosidade deixou o moreno um tanto desatento. Seria normal o garoto aparecer uma hora, não poderia se manter fechado para sempre, principalmente numa situação como aquela. Além do mais, ele próprio era o único a quem o loiro podia conversar. Era normal e perfeitamente razoável que o loiro o procurasse uma hora. Nada demais. Mas então porque estava tão preocupado com isso?

Bufou ao perceber que o tempo passava e não conseguia mais se concentrar. A sua mente se inundou com as imagens e a voz do loiro, impedindo que ele conseguisse trabalhar. Irritado consigo mesmo, já que estava sem sono e sem concentração, resolveu ir até a sala ver o loiro. Talvez pudessem conversar um pouco mais, agora que o loiro se mostrava mais aberto a uma conversa.

A sala, imersa em silêncio, fez com que o moreno se aproximasse cautelosamente. O jovem estava deitado, aparentemente dormindo. O moreno sorriu, cruzando os braços. Era óbvio que ele estava fingindo que dormia, e muito mal por sinal. Além do fato de ter se passado pouco tempo entre a conversa entre eles, as pálpebras do loiro tremiam de leve, tentando mantê-las fechadas. Provavelmente, o loiro não queria mais conversa. Deve ter se irritado por tê-lo negado contato com a mãe, era uma criança mesmo! Lindo, mas apenas uma criança.


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Na manhã seguinte, Hyoga acordou com o cheiro forte de algo queimando. Ainda deitado, ele piscou e esfregou os olhos, se apoiando nos cotovelos. Inspirou o ar mais profundamente para sentir o cheiro de queimado, ainda confuso entre sonho e realidade.

– Ikki? – Chamou, como se certificasse que não se tratava de sonho.

Estou aqui na cozinha! – Ouviu o policial gritar. Pelo visto o cheiro vinha da realidade mesmo. O jovem ergueu-se preguiçosamente e foi até onde o moreno estava. Teve vontade de rir quando se deparou com o moreno de short preto e avental, retirando um troço preto e completamente torrado de dentro do forno, quase se queimando no processo.

Tem alguém enrolado ae!? – Gracejou ao ver o moreno completamente desajeitado.

– Eu tentei fazer umas panquecas para a gente, mas não deu certo! – Hyoga riu olhando o negócio em cima da mesa.

– Ah, então isso é uma panqueca! Pensei que fossem... sei lá com que isso se parece! – Brincou mais um pouco. Ikki sorriu, pelo menos o garoto tinha bom humor de manha cedo, já era algo.

– Engraçadinho, da próxima é você que vai preparar nosso café. Mas hoje vai ser isso mesmo... – Disse limpando as mãos com o pano de prato.

– Você não acha que vou comer isso, não é? – Perguntou, num misto de seriedade e piada, incerto se o moreno estava a brincar consigo ou falava a sério. Ikki riu.

É isso ou aquele pão dormido... – Disse indicando o pão estendido na outra bancada. O loiro olhou o pão, sentindo nojo. Aquele troço devia estar mofado de tão preto!

– Essa porra tinha que tá no lixo! Está mais preta que a panqueca! Deus, onde eu fui parar?! – Dramatizou, revirando os olhos.

– É o que tem, rapaz! Se acostume porque aqui não tem mamãe! – Disse, dando as costas ao loiro, para pegar o café. O loiro, que antes estava com uma cara animada, fechou-a imediatamente. Ele tinha que voltar a tratá-lo como criança? Pensou, sentando a mesa e esperando o café. O moreno entregou a bebida, estranhando o bico que o loiro fazia. O que raios aconteceu? Será que o garoto era bipolar?

O moreno ia perguntar ao loiro o que tinha acontecido, mas foi interrompido pelo som de uma buzina irritante. Deixou o loiro de lado e foi ver o que era, enquanto o loiro bebia o café, sem tocar nas porcarias queimadas de Ikki. Nem morto que ele comeria aquilo! E não era nenhuma criança, apenas tinha bom gosto. Quem ele pensava que era?

E ainda tinha que dar um jeito de escapar daquela casa para ver a sua mãe. Pensando nisso, o loiro olhou pelos lados procurando o moreno. Foi até a sala e não o encontrou, onde será que ele tinha se metido? Foi quando decidiu olhar pela janela, para ver se ele tinha saído. Talvez fosse a sua chance de fugir dali.

O moreno estava mesmo na calçada, conversando com uma mulher. A loira era belíssima e fazia o tipo perua chique, com longas madeixas loiras, um salto agulha enorme, calça de couro preta colada as pernas, uma blusa com estampa de animal, várias joias e uma bolsa extravagante. A bela loira definitivamente não passava despercebida. Era muito linda, mas não parecia fazer o tipo do policial. Ainda mais porque eles pareciam estar discutindo. Será que era alguma namorada? Pensou enquanto observava os dois pela janela.

Foi então que Hyoga a reconheceu. Olhou para um gaveteiro de quina e percebeu que a loira lá em baixo era a mesma da loira que segurava um bebê na foto do porta-retratos. Ikki já tinha lhe dito que ela era a sua ex-mulher. Aquilo o surpreendeu, pois ela estava muito diferente da foto. Agora entendia o motivo de Ikki ter se separado, a mulher virou uma perua louca, só pode! Pensou, antes de ser surpreendido com o escancarar da porta da sala, se deparando com um pirralho de uns cinco anos, mais ou menos. Pela afobação dele, devia ser algum conhecido de Ikki.

Você é amigo do meu papai? – O menino perguntou para a surpresa do loiro.


Continua...