Código Secreto
21 Capítulo 21 - Homens de Valor
– Nesse final de semana teremos uma nova corrida. Eu quero que o Bad Angel apareça... Melhor, quero que ele corra! Quero que ele dê o seu espetáculo que está tão acostumado. Que ele corra... Tenho certeza que você e seus amigos policiais darão um jeito de providenciar um bom carro e a garantia necessária para que ele corra sem despertar suspeitas. E, é óbvio... É bom que a polícia não esteja presente, para não estragar a festa.
– E Shun?
– Ele vai comparecer, não se preocupe. Estará nos seus braços antes mesmo que a noite termine... São e salvo. E então, você terá o que quer e eu terei o que quero. O que me diz, fênix?
– Eu aceito...
–----------------------------*----------------------------------*--------------------------
A noite estava animada como poucas vezes se viu em todo o tempo em que puderam presenciar os eventos. Ou talvez fosse apenas a ansiedade com o que estava prestes a acontecer. Mas não estavam propriamente com medo. Insegurança fazia parte da vida dos quatro, mas quando o assunto envolvia a vida e a segurança de inocentes tudo ficava naturalmente mais tenso. E como se isso não fosse o bastante, ainda tinham outras questões envolvidas, muito mais pessoais do que gostariam.
Nem mesmo o som alto da música que tocava no evento quando chegaram pôde abafar os pensamentos que assolavam os quatro presentes no veículo preto que percorria o caminho em direção a corrida. Cada um com seus próprios motivos para se preocupar. Motivos esses que ultrapassavam o fato de tanto Shun quanto Hyoga estarem em risco, como também alguns outros.
Afrodite balançava-se entre a emoção e a razão. Entre a culpa de desejar salvar seu amor e o dever racional de proteger os inocentes, ainda que a custa da vida e liberdade de Carlo. Entre o remorso por nunca ter feito nada quanto às escolhas do italiano, e a consciência de que jamais poderia prever que um dia teria que enfrentá-lo desta maneira. Entre a angustia de saber que deveria cumprir seu dever ainda que seu coração sangre por dentro e aquela sensação de saber que jamais se perdoaria se Carlo viesse a fazer algum mal ao filho de Ikki. De certa forma, sentia-se responsável por aquilo, ainda que racionalmente soubesse que não era verdade.
Milo, embora parecesse o que menos tinha interesses pessoais entre eles, também tinha suas próprias questões. Muito mais envolvendo o avô de Hyoga, Camus, homem que desgraçadamente tinha se descoberto apaixonado. Ainda que não tivessem se resolvido propriamente, sabia que isso era apenas uma questão de tempo. Por isso, o problema de Hyoga migrou de um problema profissional para se tornar um problema pessoal. Também ele havia feito uma promessa velada para si mesmo. Defender Hyoga era defender a família do homem que amava.
Porém, ninguém tinha mais motivos para estar em crise que os homens sentados no banco traseiro. Embora correr nunca tivesse lhe colocado medo, aquelas eram circunstâncias atípicas. Não sabia bem o que iria acontecer, era provável que tivesse que usar o carro para fugir o mais rápido quanto jamais correra em sua vida. Teria que voar sobre rodas! Havia um quê de emoção, de orgulho, de vontade em mostrar para Ikki o quanto era bom no volante. Mas também uma apreensão sobre qual seria o seu destino, o que planejava o homem que queria sua cabeça.
Sua preocupação era justificável. Ikki não havia dito uma única palavra desde que se dirigiram ao local do evento. Tanto seu próprio nervosismo quanto o do moreno era quase palpável, ainda que tentassem a todo custo escondê-lo. Milo dirigia em silêncio, também preocupado, com Afrodite no banco carona. O moreno estava ao seu lado olhando pela janela a paisagem noturna da grande cidade...
Não quis tirá-lo de seu torpor, mas precisava muito conversar com ele, embora não soubesse muito bem o que gostaria de dizer. A vontade estava ali, mas as palavras escapavam-lhe. Eram tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que era difícil dizer o que realmente lhe preocupava mais. Afinal, os problemas que o ligavam ao policial cresciam cada vez mais e se estendiam para o lado emocional e psíquico.
A verdade é que o adolescente ainda não tinha conseguido tirar da cabeça a noite anterior, o toque íntimo, o momento mais excitante de toda a sua vida. Ambas as questões o perturbavam e mesmo que soubesse que deveria priorizar o momento presente, sua mente ainda fervilhava das lembranças com Ikki. Provavelmente não teria coragem para conversar com o mais velho sobre o que aconteceu, embora sentisse que precisava. Sentimentos contraditórios que criavam mais confusão na cabeça já confusa de Hyoga.
Voltou o olhar para a sua própria janela, respirando profundamente numa vã tentativa de se acalmar. Aquela definitivamente não era a hora certa para pensar sobre seus sentimentos e desejos. Muita coisa estava em jogo. Sua vida, sua liberdade, até mesmo sua sanidade. Sem falar em Shun. E sem falar na sua mãe, que devia estar morta de preocupação depois de tanto tempo afastados. Era o que mais sabia fazer, aliás, deixá-la preocupada, aflita. Era um péssimo filho! Reconhecia isso, mas ainda assim a amava...
– Você está bem, garoto? – Milo perguntou fitando Hyoga pelo retrovisor, reparando na cara amuada do jovem. Claro, imaginava que ele devia estar com medo da situação. Não devia ser fácil estar na pele dele.
– Estou... – Respondeu simplesmente, sem dar tanta importância, atraindo a atenção de todos no carro.
– Olha, não tem problema em dizer que está com medo. Será um desafio de gigante para você. É normal sentir medo... – Afrodite tentou confortar o garoto, endireitando-se no banco carona para fitá-lo nos olhos.
– Não estou com medo... – Respondeu rapidamente, deixando todos em silêncio. Certamente esperavam aquele comportamento agressivo em função de todo aquele estresse. Mas o que eles não sabiam é que a morte sempre foi uma ideia presente para Hyoga. Só lhe faltava a coragem e o motivo justo que lhe impulsionasse. Então, no fundo, a ideia de ser morto por aquele assassino não era assim de toda ruim. Pelo menos não faria mais sua mãe sofrer... – Estava pensando na minha mãe... – Emendou ao fitar Ikki, que nada disse. Na verdade, depois daquela resposta ninguém disse mais nada. Qualquer palavra naquele momento seria incômoda e desnecessária. Talvez apenas a palavra de uma pessoa pudesse mudar a perspectiva do adolescente, mas o moreno estava imerso em seus próprios fantasmas...
Não que fosse insensível aos sentimentos do garoto, conscientemente sabia dos riscos e da confusão mental que devia estar assolando o jovem. Porém, para ele, não estava sendo fácil. Especialmente aquela desagradável sensação de não ter controle sobre a situação o estava tirando o prumo. Logo ele, acostumado a estar no controle de tudo, agora se via em uma tempestade no meio de um oceano revolto, sem o menor controle sobre o que poderia acontecer. E o pior é que do seu descontrole havia o risco iminente contra seu filho e Hyoga, duas das pessoas que lhe eram mais caras.
E então, o que já parecia naturalmente difícil se tornou impossível de lidar. Tentava, a todo custo, demonstrar uma certeza e uma confiança que não sentia. Era assim que costumava lidar com os problemas, e acalmar os ânimos dos que amava. Porém, com o passar do tempo, Hyoga desenvolveu uma capacidade angustiante de ver além do que podia mostrar, além do que o próprio Ikki gostaria de revelar. Sabedor de que não conseguiria enganar o loiro, o policial apenas se conteve até onde pôde, ignorando o jovem de certa forma, na esperança de não demonstrar nenhuma fraqueza. Talvez, por orgulho. Mas a bem da verdade aquilo era necessário, já que havia uma promessa sua, que a cumpriria mesmo que arriscando a própria vida. Não poderia mostrar fraqueza, não no momento em que mais precisava ser forte.
Do lado de fora do carro, poucos tinham conhecimento do que estava prestes a acontecer. Mas Isaak sabia bem. Fora avisado do trato assim que ele foi firmado e certificou-se ele próprio de proceder com as formalidades necessárias para a corrida de seu melhor amigo. Sim, ainda considerava Hyoga como um amigo, o melhor amigo que tivera, ainda que suas ações pudessem ser consideradas asquerosas. Como um verdadeiro Judas, Isaak sabia que Hyoga jamais o perdoaria, isso se conseguisse sair vivo daquele carro.
Cassius, o verdadeiro atravessador das corridas, também tinha conhecimento, assim como todos os que faziam parte da cúpula de negociações. Por isso não foi difícil entender a participação repentina do Bad Angel e a total ausência dos policiais naquele evento, ainda que pouco tempo depois de ter sido estourado e terem pego Hyoga em flagrante. O burburinho pelo retorno do Bad Angel foi tamanho e uma certa má vontade em esconder o fato trouxe uma das maiores médias de público esperadas para uma corrida. Todos estavam muito satisfeitos.
Esse burburinho chegou aos ouvidos dos outros amigos de Hyoga. O Grupo formado por Eire, Freya, Jabu e Hagen estranharam a súbita ausência de Isaak entre eles, mas estavam mesmo era ansiosos e preocupados com a corrida do Bad Angel. Totalmente alheios a tudo o que acontecia, apenas esperavam e torciam para que tudo corresse bem para Hyoga.
Outro que soube do que estava para acontecer foi Camus. Provavelmente, dos que sabiam alguma coisa, ele era o que menos estava entendendo a situação. Apenas chegou aos seus ouvidos que haveria uma corrida e que Bad Angel estaria presente. Sabedor de que seu neto era o tal Bad Angel, aquilo pareceu mais grave do que comumente seria aquelas corridas. Afinal, Hyoga era um foragido da polícia. Como ele poderia estar na corrida? Tentou entrar em contato com Milo para saber melhor o que estava acontecendo, porém não foi atendido, o que aumentou ainda mais a sua preocupação. Então, era óbvio para si que devia ir ver com seus próprios olhos o que estava acontecendo. Mesmo que intuísse que aquilo era muito perigoso e que talvez não devesse se envolver... Porém, mesmo a contragosto, se tratava de Hyoga. Filho de sua filha amada... A preocupação nunca o abandonou, mesmo que o julgamento fosse uma constante. Mesmo que acreditasse numa espécie de maldição, ainda assim... Era seu neto.
Um detalhe que não passou despercebido pelo observador aquariano era a total ausência da polícia, ainda que tivesse avisado sobre o acontecido. Era o certo a fazer, afinal de contas, visto que aquilo parecia perigoso inclusive para Hyoga. Estava intuindo algo de muito grave. E a última vez que teve uma dessas intuições acabou presenciando a morte de sua esposa Irina. Mas talvez, não estivesse assim tão ausente de policiais...
E a intuição de Camus estava certa porque ali também estava presente Kanon, o delegado chefe de Ikki, Milo e Afrodite. Porém, estava ele disfarçado em uma missão especial que nem mesmo seus melhores policiais sabiam. Já tivera conhecimento de que Afrodite havia descoberto o seu envolvimento com Isaak e a essa altura já o estavam julgando como agente duplo. Não que fosse uma total mentira...
Já dentro do carro, o tempo parecia não passar a espera de um retorno de Carlo. Ele parecia envolto em silêncio e não havia dado um único sinal de vida desde que chegaram ao local. Para piorar, os carros já estavam se posicionando na linha de início da corrida o que indicava que já era hora do Bad Angel aparecer.
– Mas Hyoga não vai sair daqui enquanto eu não tiver uma palavra dele sobre onde está Shun... – Ikki foi categórico ante a ansiedade presente em todos. Tinha razão, afinal. Embora soubesse que o modo de agir do italiano não trazia riscos ao menino, toda a operação ainda era muito arriscada para uma criança.
– Milo, vamos circular?! Talvez a gente encontre alguma coisa... Ele não pode ficar escondido por muito tempo. Uma hora ele vai ter que aparecer. – Afrodite sugeriu para o amigo, que concordou.
– Sim, vamos nos separar e ver o que encontramos por aí... – E então o escorpiano olhou para trás na direção de Ikki e Hyoga. – Qualquer coisa é só chamar... – Mostrou o celular para eles recebendo uma afirmação positiva do moreno.
– Vamos ficar e esperar uma comunicação de Carlo... – E foi com esta afirmação que os policiais saíram de seus lugares, Milo e Afrodite em direção a multidão, em caminhos opostos, enquanto Ikki e Hyoga direcionaram-se para os bancos da frente do carro, Ikki no volante e Hyoga no banco carona.
Aquela era a primeira vez que ficaram sozinhos desde o momento íntimo no quarto... Foi inevitável para o loiro um certo constrangimento, pois Ikki optou novamente por aquela irritante mania de ficar em silêncio. Fitando-o discretamente de rabo de olho, Hyoga não parava de pensar que, pelo menos naquela vez, ele poderia dizer alguma coisa, embora reconhecesse que não tinha muito para falar. Suspirou desviando o olhar para a janela, frustrado.
– Hyoga? – Ouviu a voz do moreno bem baixinho, mas não deu muita importância, encostando a cabeça no vidro.
– Fale... – Incentivou de forma fraca e desanimada, quase que de birra, o que não ajudou muito na recente decisão de falar do moreno. Não sabia o que dizer, embora tivesse muito para falar. Mas não era muito bom com as palavras e muito menos com as questões do coração. – O que foi? – O garoto estranhou seu repentino silêncio, fitando-o curioso. Ikki fitava o volante fixamente, como se buscasse dentro de um oceano revolto palavras que pudessem expressar da melhor maneira aquilo que gostaria de dizer.
– Só... Tenha cuidado... – A resposta vacilante respondeu muito mais do que pretendia. O que talvez Ikki não soubesse é que olhares e gestos podem expressar sentimentos com muito mais precisão do que as palavras. Hyoga sentia o que ele queria dizer, não por suas palavras vazias, mas pelo seu olhar vago e cheio de significado. Sua expressão preocupada, cheia de linhas involuntárias. Aquelas mãos apertando o volante como se quisesse segurar, proteger, cuidar... – Eu estarei aqui... Mas... – E aquela foi a primeira vez que Hyoga vislumbrou medo nos olhos sempre tão seguros de Ikki. É claro, racionalmente, embora quisesse acreditar que ele fosse uma espécie de super-herói capaz de salvá-lo até do mais perigoso homem... Ele não era um super-herói de quadrinhos. Era apenas um homem comum, extraordinário, mas comum. Com limitações e que, por isso, talvez não pudesse cumprir a promessa feita.
– Ikki, eu... – Quando a coragem finalmente veio e Hyoga tencionou dizer alguma coisa, o celular do policial começou a tocar, assustando-os. A respiração de ambos suspendeu por alguns segundos, tempo suficiente para fazer ambos os corações acelerarem. Entreolharam-se por um instante antes que o moreno atendesse.
– Estamos aqui... – A afirmação do policial foi direta, pois sabia bem que estava do outro lado da linha. Seus olhos não desviavam nem um segundo do de Hyoga, atento a todas as instruções que Carlo daria a partir daquele momento.
– Vejo que o carro do Bad Angel também já está pronto... – O olhar do moreno então se direcionou para a pista, vislumbrando um suntuoso carro amarelo vivo, muito parecido com o que Hyoga havia usado na noite do flagrante. – Acho que já está na hora do garoto se apresentar para o grande público, não acha? – A voz tranquila e levemente sarcástica de Carlo irritava profundamente o moreno, mas tentava a todo custo controlar-se.
– Onde está Shun? Hyoga não vai aparecer enquanto eu não estiver com meu filho, Carlo... – Ikki não permitiu nenhuma outra negociação. Não iria correr o risco de perder as duas pessoas mais importantes de sua vida.
– Ele está se divertindo bastante. É uma criança ótima, sabe?
– Chega de rodeios, Carlo! Onde está meu filho!!
– Ah, mas quem está de rodeios aqui é você meu caro... O grande público está ansioso pelo Bad Angel e você o segurando contigo. – Uma risada irônica se fez ouvir no outro lado da linha. – E seu pequeno filho é um dos que estão ansiosos pela aparição de Hyoga.
– Carlo...!
– Se quiser encontrá-lo, é só circular por aí... No meio da multidão. Vai atrás das risadinhas fofas que você o encontra... Agora, se Hyoga não aparecer... Não garanto que o encontre feliz e inteiro... – Antes que Ikki pudesse dizer alguma coisa Carlo desligou o telefone.
– Merda! — Desesperado e fitando a multidão, Ikki pensava em como encontraria seu filho no meio de toda aquela gente.
– O que houve? – Hyoga perguntou, preocupado.
– Ele soltou meu filho no meio dessa gente! – Tentou retornar a ligação de Carlo, mas não conseguiu. Retornou a ligação para Milo na intenção de que ele pudesse encontrar seu filho... E na tentativa desesperada de encontrar seu filho, Ikki desfocou de Hyoga que permanecia imóvel ao seu lado.
O loiro sabia que precisava sair daquele carro e se dirigir para o seu posto. O medo o segurava naquele banco e Ikki estava com a cabeça a mil, voltada para Shun. Sabia o que ele queria. Não que Milo e Afrodite procurassem por Shun, mas ele mesmo. Porém, sua presença ali o segurava deixando-o ansioso e atormentado. Aquela era a hora certa de agir. Sabia disso. Sentia isso. Tremia por dentro ao arrastar os dedos no trinco da porta...
– O que está fazendo? – Assim que percebeu a movimentação de Hyoga, Ikki o segurou parando tudo o que estava fazendo. O jovem o fitou curioso e intrigado com a pergunta um tanto quanto óbvia. Mas perdoava-lhe o espírito agitado, imaginava a angústia que como pai devia estar sentindo.
– Fazendo o que devo fazer...
– Hyoga, não vou deixar você...
– Não deixe Shun sozinho, ele precisa de você mais do que eu agora... – A certeza de suas palavras surpreendeu até o próprio Hyoga. Talvez fosse uma resignação com seu próprio destino. Afinal, como dizia há muito seu avô Camus, ele havia procurado seu destino inevitável: A cadeia ou a morte. E agora precisava ter a coragem de pelo menos não sacrificar mais ninguém.
Ikki fitou o jovem que parecia ter amadurecido muito em tão poucas horas. Ele tinha razão, embora todas as células de seu corpo gritassem para que não permitisse. Sabia que a partir do momento que deixasse Hyoga entrar naquele carro, seria quase impossível resgatá-lo.
A mão fria de Ikki deslizou na direção do rosto pálido do adolescente que jurara proteger. Arrependia-se do momento em que fez a proposta para ele. Jamais deveria tê-lo envolvido. Jamais deveria ter se envolvido daquela maneira. Agora, via-se entre a cruz e a espada, sem saber quem salvar...
Hyoga fechou os olhos aproveitando os segundo de um carinho genuíno que poucas vezes havia sentido, além de sua mãe. Como gostaria de receber mais daquele carinho... Abriu os olhos devagar quando sentiu o calor da mão do mais velho se afastar, como se pudesse acompanhar seus movimentos.
– Leve isso com você... – Os olhos preguiçosos de Hyoga se ergueram para fitar o objeto mencionado por Ikki e, com susto, percebeu que se tratava de uma pistola. – Caso seja necessário.
– Mas... Eu não sei usar isso. – Fitava aquela arma de fogo com apreensão, indeciso se deveria tomá-las nas mãos. E aquela reação não foi surpresa para Ikki. Com a rapidez que lhe permitia a falta de tempo, mostrou o básico de como atirar e entregou novamente para o loiro, que a pegou com relutância.
– É só pra caso... Precisar. – Ikki reafirmou como se implorasse aos céus para que esse momento não chegasse. Mas não tinha como saber e era melhor que o jovem tivesse como se defender até ele próprio chegar.
Hyoga concordou, afinal, agradecendo discretamente e guardando por dentro da roupa. E como se buscasse mais motivos para não sair daquele carro, fitou novamente os olhos de Ikki, como se buscasse uma segurança que sabia não poder encontrar nele. O moreno percebia toda aquela angustia no adolescente, mas pouco podia fazer. Os olhos ficaram fixos um no outro, sem que uma única palavra permeasse o olhar.
– Então eu vou... – Mas antes que o loiro concluísse seu confuso raciocínio, o policial o beijou nos lábios. Definitivamente não era o certo a se fazer. Talvez colocasse ainda mais dúvidas no loiro. Mas o ímpeto foi mais forte quando as palavras não conseguiam expressar que estaria com ele, que sua alma estava com ele, mesmo que fisicamente não pudesse estar. Mesmo que as circunstâncias fizessem parecer o contrário. Aquele beijo mostrava não só o seu desejo, mas seus sentimentos. Suas intenções. Suas palavras não ditas.
Hyoga parecia compreender que não era um beijo sexual. Era diferente do que havia experimentado em toda sua vida, mesmo com o próprio Ikki. Aquele contato parecia falar diretamente com sua alma, de um jeito que não poderia ser dito em palavras. Entendia bem a vontade de Ikki, assim como a angustia por não poder estar ao lado dele naquele momento.
E um sentimento totalmente novo surgiu no coração de Hyoga. Sentia, através do cuidado de Ikki, o valor que nunca pensou ter. A importância de si mesmo emocionou o jovem. Ainda não entendia porque o policial dava-lhe tamanha importância, tamanho valor. Ikki acreditava nele, depositava sua confiança, mostrava-lhe que tinha algum valor ainda que não percebesse.
Um sorriso discreto desenhou o bonito rosto do loiro. Foi um pequeno momento de cumplicidade que valeu por toda uma vida. Ainda que morresse naquele momento... Terá valido a pena o ter conhecido.
Sem nada dizer, Hyoga tomou impulso e saiu do veículo em direção ao carro que usaria para correr. Sem olhar para trás, sem encarar Ikki, sem vacilar... Agora, mais que nunca, desejava provar para si e para ele que Ikki estava certo. Era um homem de valor.
Continua...
Fale com o autor