Código Secreto

13 Capítulo 13 - Traidores


Bom Milo. Eu agradeço as respostas que me deu, mas eu preciso ir. Desanuviou as dúvidas que pairavam por sua cabeça. Não tinha tempo para elas agora. Claro, me procure sempre que quiser. Milo estendeu-lhe a mão para um cumprimento que foi aceito. E não se esqueça, não conte a ninguém o que eu te disse. Certo, não vou dizer. Até logo, e obrigado mais uma vez. Camus respondeu, destrancando a porta e saindo da sala, sem notar o novo e nada profissional olhar que o policial lhe lançava.


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– Quem são vocês?! Pra onde estão me levando?!! — Hyoga gritava, sem obter nenhuma resposta. Estavam todos em silêncio, ele só ouvia o barulho dos pneus passando por uma estrada de terra. Estava tenso pela situação, mas não estava com medo. Por alguma razão, nem mesmo o homem que o segurava firme pelo braço o deixava com medo. Mas estava apreensivo por não saber o que estava acontecendo.


Estavam andando de carro há um bom tempo, há horas por sinal, e nada deles chegarem e isso, aliado ao profundo silêncio, o deixava aflito. Se Ikki estava lá, devia estar furioso! Pensou em chamá-lo, mas e se não fosse ele? Além de estar perdido, ainda colocaria o policial em má situação. Por isso preferiu manter silêncio.


Quando finalmente chegaram a algum lugar, Hyoga já estava perdendo as esperanças de ser o moreno. Com alguma resistência do loiro, eles o levaram para dentro da cabana e retiraram o pano negro que cobria seu rosto. De costas para a porta do quarto, o loiro percebeu-se numa espécie de chácara. Perdido, o adolescente correu o olhar pelo lugar, antes de uma sensação de estar sendo observando o fazer voltar seu olhar para o homem atrás de si. Virou-se rapidamente de encontro ao homem que o levara até lá e levou um susto, dando um passo para trás.


– Ikki...– Murmurou assustado pela expressão que ele fazia. Sim, ele parecia muito furioso. Muito furioso mesmo. A expressão carrancuda era ainda mais acentuada porque ele não falava absolutamente nada, somente o encarava com aquele olhar que parecia que iria fuzilá-lo. Tentou disfarçar, miseravelmente, o quanto aquele olhar o intimidou.


– Então era você...– Comentou desviando o olhar, sem graça. Os dedos frios do russo se entrelaçaram nervosamente, tentando conter uma explosão de sentimentos. Há pouco pensou que estava perdido, entregue nas mãos de bandidos ou de policiais que em nada o ajudariam, levando-o para a cadeia. O alívio de perceber que estava sendo resgatado durou pouco, apenas o tempo da adrenalina provocada pela perseguição ao carro da polícia. Dali em diante, sentiu uma vulnerabilidade da qual não estava acostumado. Impotência, medo, insegurança, e a sensação de estar pagando o preço alto por ter saído da casa de Ikki, o único lugar que lhe parecia realmente seguro.


Talvez o sentimento que predominava era o arrependimento por não ter acreditado nele, por não ter ficado sob sua proteção. O único que parecia querer ajudá-lo, embora também não quisesse de forma alguma ser um peso para o policial.


Mas por mais que fosse um peso, ainda assim se arrependera de tê-lo deixado no momento em que viu aqueles homens no ônibus, levando-o sabe se lá para onde. Naquele terrível momento, desejou que Ikki o ajudasse como nunca desejou algo em sua vida. E agora ele estava ali, bem a sua frente, com aquele olhar quase homicida pra cima de si. Hyoga não soube definir o que sentiu, era uma mistura de alívio, felicidade, e... decepção.


Talvez esperasse outra reação do moreno, talvez mais... compreensiva e... calorosa. Um abraço, um aperto de mão, um afago. Ou talvez uma palavra de carinho, de conforto. Sim, era o que esperava, o que queria dele. Qualquer sinal que demonstrasse que Ikki realmente estava feliz e aliviado por ele estar ali, tanto quanto ele próprio. O loiro acabou por abaixar a cabeça, confuso. Claro que não teria a recepção calorosa que esperava. Afinal, fora ele mesmo que o tratara com frieza demonstrando assim o desagrado com sua presença em seu apartamento. Então, o certo seria ele estar até mais aliviado por ter saído de sua vida.


Então, esse olhar não fazia sentido. Ikki parecia realmente abalado com tudo, verdadeiramente transtornado, fazendo-o cada vez mais incompreensível para o adolescente. Era nítida a forma como ele tentava conter a raiva e a vontade de quebrar tudo o que estivesse na frente. Então o policial realmente se importava com ele, mas por que muitas vezes parecia demonstrar o contrário?


– Esperava outro alguém? Um assassino de aluguel, talvez? — O policial comentou irônico, frio, irritado, deixando o loiro ainda mais constrangido.


– Eu... — Tentou dizer, mas o policial o interrompeu, praticamente gritando.


– Eu entenderia se você esperasse isso, Hyoga. Realmente entenderia se você esperasse algum policial disposto a levá-lo para a cadeia, ou algum dos homens que querem dar cabo da sua vida! Eu só não sei por que, Hyoga! Por quê?!! — Perguntou, finalmente encarando o garoto que praticamente se afundava moralmente a sua frente.


– Eu... eu... – Mesmo que tentasse, não havia uma explicação. Ou até existia, mas a fúria de Ikki impedia o loiro de completar seu raciocínio.


– Você quer se matar, é isso?! Quer acabar com a sua vida, não é?! — Ikki perdia completamente o controle, deixando-se levar pela fúria, dando socos na cômoda e arrancando com violência os objetos que estavam sobre ela, assustando ainda mais Hyoga.


– Não! Não! - O loiro balançava a cabeça, nervoso. Embora já tivesse pensado nisso, nunca teve coragem para tal ato. E definitivamente não foi por isso que saiu da casa do moreno.


– Como não, Hyoga?! Você me desobedece, foge da minha casa, o único lugar realmente seguro pra você, e diz que não quer se matar?! Como não quer?? Fala, Hyoga!! — Gritou, segurando forte em seu braço.


– Ah! Não! Você está me machucando!! – Protestou aos gritos, sentindo os olhos arderem pelas lágrimas.


– E você não quer morrer, Hyoga?! Que importa!? Se quer tanto morrer, não me faça perder meu tempo! — Gritou, arrastando o já assustado garoto para a janela, abrindo-a num soco e debruçando o adolescente sobre ela, fazendo o loiro perceber a altura considerável em que estavam. — Vai! Se mata! Se joga!! — Gritava, empurrando o loiro para fora da janela enquanto Hyoga se segurava, gritando seu nome, desesperado.


– Ikki! Pára Ikki! Pára!! — Implorava, aos prantos.


Ikki o trouxe para junto de si, afastando-o da janela, e iria brigar ainda mais com o loiro, mas um ato impensado de Hyoga fez estancar sua fúria desenfreada. O loiro desvencilhou-se do aperto firme e bruto de Ikki e, ao invés de fugir, o abraçou forte, chorando copiosamente.

– Desculpa, desculpa... Eu não queria, não quero morrer!– Murmurava o jovem, agarrando-se o mais forte que conseguia ao corpo do moreno, molhando a camisa do policial com suas lágrimas, vendo nele o único que realmente poderia ajudá-lo, seu porto seguro, sua proteção.

Ikki ficou estático, paralisado. Fitava, aturdido, a reação de Hyoga e só então percebeu quão fragilizado ele estava. Vulnerável a ponto de ferir seu orgulho, amedrontado a ponto de implorar por ajuda, não com palavras, mas com lágrimas. E aquilo tocou o coração do policial. Era esse tipo de entrega que esteve esperando o tempo todo, e não podia esperar que viesse dessa forma, tão dramática, expondo o adolescente a tantos riscos. Mas pelo visto, era exatamente isso que ele precisava. E como se a vida lhe desse um soco, o loiro simplesmente voltou para ele, acusado, assustado, e entregue.


Estava tão imerso na sua fúria que sequer prestou atenção a isso. Mas agora que o loiro baixou completamente a guarda para si e debulhava-se em lágrimas em seu peito, sentiu que fora bruto demais. Afinal, como disse Afrodite, ele era apenas um garoto.


– Calma... — Disse, sem saber exatamente o que dizer. Meio hesitante, o moreno o envolveu timidamente em seus braços, procurando trazer algum conforto ao garoto e acalmá-lo, mas não pareceu surtir muito efeito, pois ele só fazia chorar cada vez mais.


Sem nenhum preparo profissional para uma situação como aquela, Ikki fez o que seu instinto mandou, o que lhe pareceu o mais correto. Abraçou o jovem bem forte, trazendo-o para junto de seu corpo e se deixando levar pelo momento. Seu rosto se afundou na curva do pescoço de Hyoga, e sem que percebesse, sussurrou palavras de conforto para o loiro.


Isso pareceu surtir algum resultado e Hyoga pareceu ficar mais calmo, aos poucos, à medida que o abraço se intensificava, e as mãos corriam a pele e os cabelos, o coração ainda palpitava forte no peito de ambos, mas num ritmo mais cadenciado. A mente, a racionalidade, o orgulho e o profissionalismo foi deixado de lado cedendo lugar a dois homens com sentimentos a flor da pele, exaustos, sofridos, e mais do que nunca, cúmplices.


O loiro finalmente percebeu que jamais conseguiria escapar daquela situação sem Ikki, e nem queria. E o policial percebeu que jamais deixaria que alguém o fizesse sofrer novamente, não só por suas obrigações profissionais, mas também e muito mais por desejo íntimo, próprio e inevitável.


E embora ainda tenso, o russo foi afrouxando o abraço, os músculos foram relaxando um pouco, ainda relutantes em deixar o corpo do moreno. O abraço passou a ser mais carinhoso, ambos inconscientes num primeiro momento, que somente o coração um do outro trazia aquele sentimento de paz e tranquilidade tão precioso para os dois.


Hyoga ainda ouvia alguns múrmuros do policial, baixos e tranquilos, tentando lhe passar mais confiança e conforto. E de repente se viu na situação em que desejava. O abraço apertado, o conforto, a palavra amiga, era tudo o que ele queria. Sorriu feliz, embora tímido, e elevou a cabeça só um pouco para que seus olhos encontrassem com os do policial. E o que viu o deixou desnorteado, e arrepiado.


Encontrou nos olhos do moreno algo que não esperava de mais ninguém. Havia profundo sentimento neles, e não soube precisar, ou não teve coragem para isso. Havia preocupação, carinho e medo. Por si? Talvez. Ikki ficou tão preocupado que teve aquela reação desesperada? Havia, realmente, todo aquele sentimento ou era apenas emoção e imaginação de sua parte?


Os olhares se encontraram deixando um clima de reconhecimento entre eles, mas também de inquietação e dúvidas. O lado profissional de Ikki tentava contê-lo a todo custo. Ele era um garoto, o seu protegido. Mas ele era tão parecido consigo, surpreendentemente parecido. E aquilo o atraía de forma sem igual. Era homem o bastante para admitir que Milo estava certo, ainda mais com aquela vontade imensa de mergulhar naqueles lábios tão deliciosos.


Mas conteve-se diante da hesitação do loiro. Ele estava confuso e abalado, e seria uma covardia se aproveitar de um momento de fragilidade para tocar aqueles lábios com os seus. Tocou a face alva com as mãos e viu o loiro corar, certamente sentindo-se confuso com os próprios sentimentos...


– Err... com licença?!– A voz doce de uma senhora interrompeu o momento entre os dois, que se afastaram devagar, meio atordoados, e encarando a senhora. — Eu trouxe roupas... limpas.– Ela disse, mostrando as peças e fitando assustada o quarto, parcialmente destruído.


– Obrigado...– Ikki agradeceu, um tanto sem jeito. Voltou a fitar Hyoga, que limpava com as mãos as próprias lágrimas. – Tome um banho, mas tarde eu volto para conversarmos.– Disse e o loiro concordou gestualmente. Satisfeito, Ikki respirou fundo e saiu do quarto, se encaminhando para fora da casa.


Parou na varanda, encostando-se à mureta, esfregando o rosto com as mãos, num suspiro profundo e cansado, completamente perturbado e com uma semi-ereção constrangedora para si. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo, não poderia estar apaixonado por aquele garoto!


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– Isaak! Isaak! Pare!! — Reclamava a jovem, aos gritos, enquanto era arrastada pelas ruas pelo amigo. Eles já estavam relativamente longe da rodoviária, e não via nenhum policial à vista, mas ele agia como se ele quem estivesse sendo perseguido. — Pare!!– Debateu-se até que, irritado, ele a soltou.


– Porra garota, você fala demais! Se quer voltar, volte! Depois não reclame se for presa por estar ajudando Hyoga a fugir!– Ele gritou, irritado, encarando a jovem que parecia bem assustada.


– Isso é muito covarde, Isaak! Hyoga não merece que o deixemos a própria sorte, desse jeito.–Ela disse, em tom mais baixo, hesitante. Ao mesmo tempo em que se culpava por deixá-lo sozinho, também temia ir presa.


– Mas nós não vamos poder ajudá-lo se formos presos! — Ele resmungou, fazendo-a se calar. De certa forma, ele tinha razão. Mas aquilo trazia angustia muito grande a jovem, deixando-a incomodada, inquieta.


– E você pelo menos sabe como ajudá-lo?– Ela perguntou. Isaak a encarou por alguns instantes, incerto no que dizer. Avistou um carro preto se aproximando devagar, parando logo na esquina. Eire não percebera o veículo por estar de costas para ele.


– Vou pensar em alguma coisa... Vá pra casa. E desculpe, não quis te machucar...– Disse, apontando para o braço da moça.


– Está tudo bem, você vai pra onde?– Ela perguntou.


Não sei, vou tentar uns contatos, ver o que faço pelo Hyoga. Não se preocupe, Eire. Vai dar tudo certo. Vá pra casa da Freya, tenta distrair a cabeça.


– Distrair a cabeça...– Murmurou irônica. – Me liga se tiver alguma noticia dele?


– Ligo. Agora vá! Vai! — Insistiu, deixando a jovem desconfiada, mas seguiu seu caminho, olhando para trás. Finalmente vira o carro preto e, embora não tivesse nada demais, algo lhe dizia que havia algo muito errado naquela história.


Isaak esperou até que ela saísse de sua visão, descendo para a estação do metrô. E só então seguiu até o carro preto, de olhos fixos no motorista. O carro tinha os vidros esfumaçados muito escuro, de forma que não era possível ver quem estava lá dentro, mas o adolescente não precisava ver para saber quem estava lá.


Entrou no carro, sentando no banco do carona, tossindo um pouco pela fumaça que lá estava. O homem fumava seu cigarro tranquilamente, impregnando todo o interior do veículo sem se importar com isso.


– Eu vou abrir a janela, esse cheiro está muito forte.– Ele disse, recebendo a permissão silenciosa através de um gesto mínimo. Então, Isaak abriu um pouco, apenas para que a fumaça saísse e ele tivesse um pouco de ar para respirar. Respirou um pouco pela janela, causando risos baixos e irritantes do homem do lado de fora.


Pensei que fosse pegar o Hyoga... – Isaak iniciou, irritado.


– Não era um bom momento. Muita gente. Muitos policiais...


– Eles estavam de tocaia?


Não, mas... tem um em especial que sim.


– Ikki?


– Bingo...!– O homem sorriu torto, fazendo Isaak respirar profundamente.


– Isso está demorando demais! Está saindo do controle, e tudo por culpa desse tal de Ikki! Temos que tirá-lo do caminho. — Comentou, irritado. O homem ao seu lado riu, divertido pela pressa do jovem.


Acalme-se... Você está muito apressado. Não é assim que as coisas funcionam.


– Você deve saber, afinal, o profissional aqui é você, não é Carlo? Mas lembre-se que o chefe não gosta de demora... muito menos de falhas!


– Eu sei... e ele é especialmente sádico e cruel, não é mesmo? Requisitar logo o melhor amigo de infância para a incumbência de matar Hyoga... — Carlo expressou-se com irônica incredulidade. – Coisa de profissional, realmente.


Porque você não vai a merda?!– Isaak irritou-se com o tom. Sabia que o chefe jamais apareceria, muito menos para um homem tão visado para a polícia como era Carlo. Aquele homem realmente era cruel, mas, além disso, era muito inteligente. – Não queira justo você me recriminar...


– Tsc... Nem de longe garoto, embora meus métodos sejam um pouco mais limpos do que os dele. Mas não me importo, só vim aqui porque a princípio há mais gente interessada no loiro. Houve uma perseguição, um carro suspeito literalmente roubou o loiro dos policiais.


– O que?! — Isaak gritou, incrédulo.


– Impressionante, não?!Provavelmente esse garoto tentará entrar em contato com você, e aí poderemos localizá-lo.- Disse, entregando um pequeno localizador de chamadas para que Isaak colocasse no celular. – Quando ele te ligar, o número que ele ligar ficará registrado e poderemos definir sua localização. E então poderei encontrá-lo. Certamente está num lugar deserto, o que torna meu trabalho de encontrá-lo mais difícil. Esse loirinho encontrou um guarda costas de primeira, realmente! — Disse no seu tom mais irônico possível, rindo.


– Pare de brincadeira, Carlo!! Pegue o Hyoga e mate-o! Você está sendo muito bem pago pra isso! Você pagará muito caro se falhar! Impôs sem, contudo, conseguir abalar o assassino.


Hnn... imagino o quanto você também não pagará, caso eu falhe, não é mesmo... Isaak? Disse, olhando firme nos olhos do outro, jogando a ponta do cigarro fora.

– Meus problemas não são da sua conta! Mate Hyoga! Apenas isso!– Disse firme, saindo do carro sem permitir que ele voltasse a falar.


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A noite caía silenciosa, fria, onde o som dos animais era o único vestígio de que não estava sozinho. Conforme o tempo passava, Hyoga conseguia relaxar e o silêncio e o cheiro da terra o ajudavam bastante, embora ainda sentisse os efeitos da adrenalina, do medo, e do alívio. As emoções o assolaram de forma impiedosa, sem que ele tivesse tempo para processar tudo aquilo.

E como se tudo o que estava acontecendo já não fosse o suficiente, ainda tinha ele. O policial que apareceu em sua vida de forma tão brusca e rapidamente se tornou imprescindível em sua vida. Sim, não tinha mais dúvidas, depois do que aconteceu hoje, de que Ikki realmente queria ajuda-lo, e embora não entendesse algumas das ações dele, que pareciam até contraditórias, não podia mais negar sua ajuda.

E nem poderia. Toda aquela situação serviu para provar a ele o quanto o moreno estava certo ao ter tantos cuidados. Era óbvio que sem Ikki não conseguiria sobreviver nem dois dias. E isso o apavorava. Suspirou pesadamente, sentindo os cabelos molhados arrepiar sua pele, pelo vento frio que entrava pela janela. A sensação trazia certo conforto, mas também... vergonha.

Era impossível não olhar pela janela e não lembrar-se do episódio com Ikki. Nunca se sentiu tão apavorado, nunca teve tanto medo quanto naquele momento em que fora pego pelos policiais. Sentiu um alívio tão enorme que chegava a se tremer por dentro, de tão nervoso, ao mesmo tempo em que via um Ikki descontrolado, praticamente o empurrando pela janela.

Mas, apesar da violência, da forma bruta com que ele falava, o seu coração sabia que Ikki não o queria mal. Pelo contrário. E foi levado intimamente pelos sentimentos que sequer pensou antes de abraçá-lo, de se segurar a ele como quem pede por socorro de forma velada. Suas lágrimas abundantes, no entanto, denunciavam e escancaravam seus sentimentos de modo tão avassalador que agora, mais calmo e pensando friamente, sentia-se envergonhado pelo seu ato.

Sim, Hyoga era muito orgulhoso e vaidoso. Aprendeu isso com Camus, e aprendeu com louvor, uma das poucas coisas que adquirira do avô e que se orgulhava. Mas naquele momento ele não conseguiu se conter, esconder seus sentimentos e sua fragilidade. Viu-se totalmente exposto diante do moreno, tão exposto que praticamente se sentia nu diante dele. Sem amarras, sem vergonhas, sem nada. Era apenas Hyoga, em seu mais íntimo ser, agarrando-se ao único homem que queria e podia ajuda-lo. O único que se importava...

Mordeu o lábio inferior, os pensamentos a mil e todos voltados para Ikki e para o abraço que não saía de sua cabeça. Aquele olhar... Vislumbrou aquele olhar por meros segundos, mas ele falava tantas coisas, sentimentos que o coração do loiro reconhecia e palpitava ansioso por mais, mas que a mente de Hyoga, ainda repleta de rejeição e preconceitos, rejeitava, deixando o adolescente confuso.


Ergueu-se e aproximou-se da janela, vislumbrando a paisagem. Assustou-se ao ver um carro preto se aproximar, mas tentou manter a calma, o orgulho tentando domar a confusão de sentimentos. Foi até a porta e a trancou, sentando-se novamente na cama. Com a ansiedade explodindo, enquanto o pensamento vagava para onde Ikki estava, e por que ainda não tinha aparecido para falar com ele?


No andar de baixo, Ikki estava sentado no sofá, ainda remoendo tudo o que havia acontecido. Passou toda tarde sem a mínima coragem de voltar lá pra cima e falar com Hyoga, o que era estranhamente patético, mas preferiu não julgar-se ou pensar a respeito. Estava esperando a chegada de Milo e Afrodite para decidir o que fazer. E esperava que o pisciano tivesse alguma informação boa que os ajudassem a decidir algo.


– Ikki... – Milo e Afrodite chegaram juntos no mesmo carro. A expressão abatida e desorientada do moreno fez com que os amigos se preocupassem com a situação deles. – Você está bem, Ikki?


Estou bem, apenas cansado. – Disse, cumprimentando os amigos e indicando que sentassem nas poltronas. – E vocês, conseguiram alguma informação? – Perguntou, visivelmente agitado. Os amigos perceberam a agitação nada comum a Ikki, mas resolveram não questionar.


– Não há nenhuma informação valiosa entre Camus e Natássia, ou qualquer dos amigos deles. Investiguei a vida pregressa deles, e embora eu tenha certeza que há algo errado nessa família, nada que envolva o tráfico. – Milo, disse, cruzando os braços e se ajeitando na poltrona, olhando para Afrodite.


– Bem, eu descobri algumas coisas... suspeitas. – Dite começou, pegando alguns papéis em sua bolsa.


O que descobriu Afrodite, fale logo! – A afobação de Ikki era visível, mas Dite calou-se novamente ante a atitude estranha do amigo.


– Vocês lembram todos aqueles contatos que consegui no hotel do Carlo? – Vendo a afirmação dos amigos, continuou. – Fiz uma varredura e encontrei muitos nomes aleatórios, mas um em especial me chamou a atenção. Esse aqui. – E então entregou um papel para Ikki, que se levantou imediatamente se levantou para analisar o documento.


– Mas espera aí. Esse contato... ? – Ikki estava incrédulo. Os anos de experiência na polícia não o prepararam para uma traição como aquela.


Vocês lembram que investigando aos registros de Isaak na delegacia, descobrimos que os registros haviam sumido? – Dite prosseguiu com sua explicação.


Sim, só havia o boletim de ocorrência. Os registros sobre as prisões de Isaak. Mas o que tem? Você descobriu quem sumiu com os registros? – Milo perguntou.


– Bem... eu não descobri exatamente, mas acho muito suspeito que o nome do nosso chefe esteja na lista de contatos do Carlo. – Ele disse, mexendo levemente nos cabelos.


– Kanon... Kanon!! – Ikki murmurou entre dentes, sentindo uma fúria sem fim tomar seu corpo.


– Espera... o informante que estávamos procurando é.... Kanon?! – Milo perguntou, atordoado.


– É o que tudo indica... – Afrodite mordeu o lábio inferior, sabendo que tinha trazendo uma bomba para os amigos, especialmente para Ikki.


– Afrodite... você tem certeza disso? Tem certeza que há correlação entre Kanon e Isaak...? – Ikki perguntou.


– Aí é que está! Olha que coisa... Depois que eu averiguei essa informação, eu saí em campo com os amigos do Hyoga, e a informação que eu colhi da Freya, prima da namoradinha do Hyoga, é que Isaak já foi preso diversas vezes e que sempre era solto misteriosamente. Era fato, nas rodas dos amigos, que ele tinha costas quentes com a polícia. E quem poderia ser? Quem além de nós e Kanon tinham informações suficientes? — Dite explicou-se.


– Por isso nossas emboscadas nunca davam certo! Filho da mãe!! – Ikki bradou, surrando o ar.


– Calma Ikki! Não é hora de se exaltar! – Milo pediu. – Afrodite, o ideal seria levar uma foto do Kanon para esses amigos do Isaak. Só assim teremos certeza da ligação deles. – Considerou.


– Isso levantaria suspeitas. O Kanon já está de orelha em pé. Aliás, Ikki.... – Dite levantou-se para olhar nos olhos do amigo. – Ainda não está certo, mas... estão dizendo que o Kanon quer tirá-lo das investigações.


– O que?! – Ikki gritou, indignado. – Ele não pode fazer isso!!


– Na verdade, pode. Ele é o delegado ainda Ikki, querendo ou não. E, segundo o que ouvi, ele acha que você perdeu a imparcialidade do caso, está passional demais e que acha que isso pode prejudicar o andamento. – Dite disse.


– Ele está é querendo tirar o Ikki da jogada! – Milo bradou, irritando-se junto.


– Sim, mas ainda não temos que provar. Não há nada efetivamente contra ele, apenas indícios. – Afrodite considerou.


– Sim... Afrodite tem razão, tem toda razão. Precisamos agir com calma... – Ikki respirou fundo, tentando acalmar-se e voltar a ser o profissional frio e calculista que era.


– Afrodite, tem como você tentar descobrir quem deles está contatando o Carlo? Certamente não é o chefe... – Milo perguntou.


– Posso tentar... – Dite deu de ombros, fingindo não ser tão difícil quanto seria.


– Afrodite, você sabe... sabe que se ele se pôr contra nós, se ele tentar matar o Hyoga, você sabe... eu não vou poupá-lo dessa vez... – Ikki proferiu em tom de alerta.


– Eu sei Ikki... E nem vou pedir o contrário. É nosso dever proteger o Hyoga. – Dite concordou, secamente. Sabia que o moreno estava disposto a tudo para proteger o loirinho, inclusive matar Carlo se fosse necessário. Era preciso estar preparado, embora estivesse pronto para algo assim desde que se descobriu perdidamente apaixonado por um assassino.



Continua...

Notas finais
N/A: E então, pessoas! Demorei, mas cheguei rs. Só explicando, o 'chip' de localização mencionado por Carlo tem fundamento apenas no universo de James Bond rs, mas como isso é uma ficção, optei por fazer o Carlo ter acesso a essas coisas de espionagem para localizar/tentar localizar o loirinho ^^.

Explicações dadas, espero que gostem!!

Agradecimentos especiais a Vagabond pelas sugestões e dicas ^^ Obrigada flor!!! =***