Código Secreto

12 Capítulo 12 - Perseguição


Notas iniciais
Captulo especialmente betado pela Sayuri no Virgo, obrigada querida S2!

– Está bem! Eu ligo! – Diz, dando um abraço apertado no amigo. Depois foi até Eire e se despediu da loira, que se mostrava bastante aflita. Depois, respirou fundo e foi para dentro de um ônibus que levava para o interior do estado. Ele colocou sua mochila no bagageiro pessoal acima de seu banco e sentou, fitando atentamente a janela. Suspirou novamente, triste. Não queria ter que fugir, especialmente depois que Ikki entrou em sua vida. Com ele, por um momento pensou que poderia sair daquela situação, mas não. Estava só atrapalhando a sua vida, incomodando, e já estava farto de ser um peso na vida das pessoas. Sua mãe, Camus, Ikki, todos... Ele sempre era um fardo para todos.


Imerso em pensamentos, não percebeu a movimentação na rodoviária. Policiais chegavam ao local procurando o jovem foragido, Hyoga. E numa ação calculada, esperaram que ele entrasse no ônibus para agir. Lá dentro, ele não teria como fugir. E foi com susto que Hyoga ouviu seu nome ser chamado, e notar aqueles policiais bem a sua frente. Sentiu o sangue gelar, estava perdido.



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Os olhos arregalados do loiro mal podiam acreditar que estava diante deles. Como? Como pudera ser descoberto? É claro, estavam em seu encalço, bem como Ikki havia dito. E tremeu de pavor ao se recordar das cenas na prisão, aquelas celas das quais o moreno havia mostrado. E foi pelo medo que seus músculos travaram. Ficou imóvel, ouvindo os policiais o chamarem pelo nome diversas vezes, até sentir ser puxado com certa brutalidade.


– Esperem! Estão me machucando!! – Hyoga gritou em protesto, se debatendo, enquanto era levado para fora do ônibus.

No lado de fora, no saguão de embarque, Isaak e Eire conversavam preocupados quando, uns dez minutos depois, perceberam uma movimentação estranha de policiais, até perceberem que estavam atrás do loiro. Assistiram a tudo sem nenhuma reação. Aflitos, não sabiam o que fazer. Não perceberam a presença dos policiais em nenhum momento, embora Isaak tenha sido o mais cuidadoso possível. Só puderam assistir, inertes, a prisão do amigo, sem que pudesse m ajudar. E embora não soubesse exatamente o que fazer, ele sabia que não seria uma boa idéia ser visto junto do loiro. Afinal, ele estava ajudando Hyoga, um foragido da polícia, a sair da cidade. Certamente seria pego pelos policiais se fosse visto.

Eire! Nós temos que ir embora! – Disse já puxando a amiga para o lado oposto onde os policiais levavam Hyoga.

Mas... O Hyoga! Não podemos deixá-lo sozinho!! – Ela reclamou, resistindo a sair do lugar.

– Eire! Eles não podem nos ver! Não podemos fazer nada pelo Hyoga agora! Vamos dar o fora daqui!! – Ele proferiu, decidido, usando da força para tirá-la do local mesmo contra a vontade dela.

Alheio a isso, Hyoga se debatia e tentava a todo custo fugir dos policiais enquanto era encaminhado para uma viatura. Ele gritava e fazia força, mas dois fortes homens o seguravam firmemente. O loiro notou que as pessoas paravam para ver a sua prisão, enquanto era praticamente arrastado por todo o saguão de embarque como um verdadeiro marginal, mas naquele momento ele só pensava em Ikki e em como tinha sido burro ao sair da casa do moreno. Seus olhos marejaram, pelo medo e pelo orgulho ferido. E a lembrança de Camus também se fez presente. Quantas vezes o avô não havia dito que suas ações teriam essa mesma conseqüência. Só não sabia ele que, verdadeiramente, era inocente de todas essas acusações.

Os policiais o colocaram de forma rude dentro da viatura sem dizer muita coisa, mesmo sobre os protestos do adolescente, que reclamava por seus direitos. Seu coração acelerado no peito, a respiração ofegante e o olhar que misturava medo e fúria, encarava os policiais com ódio. Mas não tinha jeito, fora pego. Os policiais também entraram no carro e deram a partida, levando-o para a delegacia onde ficaria preso novamente.

– Ikki... – O nome do policial saiu murmurado, quase inaudível de sua boca, num desesperado pedido de socorro. O moreno era o único que poderia salvá-lo nesse momento, mas não fazia a menor idéia de como pediria socorro.

Imerso na idéia de ser preso, de ficar junto daqueles presos imundos e toda aquela cena tenebrosa presenciada junto de Ikki, o loiro não percebeu a movimentação estranha que se formou inesperadamente em volta da viatura. Só percebeu que havia algo errado quando os próprios policiais se agitaram com a presença de outros carros.

O loiro olhou pela janela vendo outra viatura. Mas aquela estava dando suporte aos policiais. Olhou para trás e sentiu o carro dar uma arrancada e os homens gritarem ao mesmo tempo em que estavam sendo seguidos.

A adrenalina correu o corpo de Hyoga rapidamente e olhou para o motorista do seu carro. Como o cara dirigia mal! – Ele pensou, enquanto corria o olhar para todos os lados, tentando entender o que estava acontecendo.

Estão tentando pegá-lo! Querem o garoto! – Um dos policiais gritou e chamou reforço. Hyoga não entendeu muito bem, mas o que parecia era que estavam tentando pegá-lo. Mas quem seria? Será que era o homem que Ikki havia dito? O tal de Carlo que o queria morto? O desespero só fez aumentar, junto com a adrenalina.

Acelera! Acelera!! – Um dos policiais falou, antes dos tiros começarem. Uma onda de perseguição em meio a cidade e o tiroteio se iniciou fazendo Hyoga se jogar no banco traseiro para se proteger dos tiros.

O carro fazia movimentos bruscos e um dos tiros atingiu o pneu da viatura que dava escolta à que levava Hyoga, fazendo-a deslizar no asfalto pela alta velocidade, batendo contra dois carros e de frente para uma mureta. Com o barulho, o adolescente levantou-se rapidamente para ver o que tinha acontecido. Viu a viatura com a frente destruída e outro carro se aproximando em alta velocidade.

Quando avistou o carro seu coração disparou. Reconheceu-o imediatamente. Era o mesmo carro que o havia vencido no pega que culminou na sua prisão. O carro preto marcava o asfalto com a velocidade que só o NOS propiciava. E então aquilo fez sentido. Poderia ser os próprios homens do ‘chefe’, mas no fundo ele sabia que não. Era ele...

– Ikki... – Murmurou baixinho novamente, com o fio de esperança que brotou em seu coração. Não sabia como ele faria, mas sabia que ele o salvaria tal como prometera.

O tiroteio entre o carro preto e a viatura que levava Hyoga continuou intenso obrigando o loiro a se abaixar novamente para se proteger. O vidro da janela se estilhaçou em cima dele, que continuava imóvel com os braços sobre a cabeça. De olhos fechados, ele somente ouvia o som dos pneus cantando, os tiros e os carros na pista que tentavam desviar deles.

Até que num momento inesperado sentiu seu corpo ser projetado para frente, indo de cara contra o banco do carona. A freada brusca que o levou ao susto fora fruto de um bloqueio provocado pelo carro que os perseguia. Elevou a cabeça novamente e pôde ver a viatura em que estava forçar passagem entre os carros dispostos lateralmente para evitar a passagem.

Porém, a redução brusca de velocidade e a perda de munição fizeram com que se tornassem vulneráveis. Não demorou muito para que parassem o carro da viatura e retirassem Hyoga de lá, colocando-lhe um capuz sobre o rosto e levando-o rapidamente para o carro perseguidor.

O loiro, assustado, seguiu os homens sem nada dizer. A ação fora rápida demais e ele não teve reação. Somente se deixou levar pelos homens, agora incerto se eles eram mesmo a mando de Ikki.


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A informação da fuga de Hyoga e da perseguição correu rapidamente, embora Kanon tenha conseguido abafar um pouco na mídia que noticiassem o ocorrido. Ele temia que se aquilo vazasse nos jornais seria impossível segurar o caso do loiro na delegacia. E nada nesse mundo o faria ceder para os federais. Não teve dificuldade para administrar os jornalistas, mas estava sendo especialmente chato e delicado ter que lidar com o avô de Hyoga.


Ele não fazia a mínima idéia de como Camus Verseau tinha conseguido a informação da perseguição e do tiroteio, mas o fato é que ele estava lá na delegacia, enfurecido querendo informações sobre o loiro fugitivo. Trancado dentro da sua sala, Kanon via-se na difícil missão de explicar ao ruivo que seus homens não só não conseguiram recuperar Hyoga, como também não fazia a menor idéia de quem eram os homens que procuravam, os homens do ‘chefe’.

A solução para acalmar a fera ruiva acabava de chegar do seu horário de almoço. Nem colocou os pés na delegacia e Milo fora chamado para dar explicações a Camus. E que ele tivesse boas explicações, porque o ruivo estava com cara de poucos amigos.

Não que o policial soubesse exatamente o que dizer, mas ficou particularmente satisfeito com a escolha. Queria mesmo falar com Camus, explicar a situação, embora não pudesse dizer a verdade. Mas havia construído uma relação de amizade com o francês, ou quase isso, e queria fortalecer essa relação, pois intuía que ela seria muito necessária no futuro.

Camus...? – O policial chamou, indicando com um gesto discreto que fosse até sua sala. Assim que o ouviu, o ruivo se levantou da cadeira onde não tão pacientemente aguardava, e seguiu o policial até sua sala, local que já conhecia bem.

– Eu espero que tenha uma boa explicação... – O ruivo proferiu, e sem esperar por um convite, sentou-se na cadeira a frente da mesa de Milo.

Sim, mas antes... – O policial disse, parando-se para acomodar-se em sua cadeira e fitando o ruivo cuidadosamente. – Como soube do ocorrido? – Foi curto e direto em sua pergunta.

Eu também tenho meus contatos, Milo... – Disse, levemente incomodado. O policial estreitou os olhos, analisando-o minuciosamente. – Mas isso não importa. Quero saber do meu neto!

– Ele está foragido. – Disse sem dar muitos detalhes, continuando a fitá-lo profundamente. Alguns segundos se passaram em silêncio, com Camus devolvendo o olhar do loiro na mesma intensidade, analisando e sendo analisado, como se quisessem se compreender mutuamente e assim revelar a verdade por trás das palavras tão vagas.

É só isso o que tem para me dizer? – Camus proferiu, quebrando o silêncio, ainda fitando-o nos olhos. O policial hesitou um pouco, escolhendo bem as palavras que usaria.

– Você sabe que eu não posso dar detalhes da investigação... – Suspirou, finalmente desviando o olhar para sua mesa. O ruivo se ergueu e andou levemente pela sala, mantendo-se de costas para o policial, atraindo-lhe a atenção novamente.

Mas eu tenho o direito de saber... – Disse, com uma expressão que misturava indignação e frieza e isso surpreendeu Milo. Como aquele homem conseguia manter tanta frieza diante de uma situação como aquela? – Tenho o direito de saber do Hyoga!

– Do seu neto...? – Insistiu, curioso em como aquele assunto abalava o ruivo a sua frente. E pelo incômodo que ele não conseguiu disfarçar, notou que havia algo errado ali.

É, do meu neto. – Desviou o olhar por um segundo antes de voltar a fitá-lo, cruzando os braços sobre o peito numa postura defensiva. – E então? – Exigiu.

Milo pensou por um momento enquanto o encarava. Ele poderia mentir, inventar qualquer desculpa, ou até mesmo alegar o sigilo profissional, e se livrar de Camus de uma vez. Mas não era isso o que queria fazer. Sua intuição lhe dizia que Camus poderia ajudar de alguma forma nesse caso, mesmo que não soubesse agora como.

Ergueu-se pensativo, e deixou seu olhar vagar pela sala enquanto caminhava até a porta, certificando-se de que não havia ninguém ouvindo a conversa e a trancando, sob os olhares atentos do ruivo. Respirou fundo e fitou o avô de Hyoga, antes de começar.

Ele está bem, não se preocupe. – Disse num tom de voz baixo, aproximando-se, o que fez Camus arquear a sobrancelha.

– Bem? Como assim? Você sabe onde ele está? – Perguntou visivelmente confuso. Milo assentiu com a cabeça simplesmente, sempre tomando cuidado para que ninguém além de Camus o escutasse. – E o que aconteceu? Onde ele está? – Emendou as perguntas, preocupado.

Essas perguntas eu não posso responder... – Disse, aproximando-se mais e pediu com um gesto para que não falasse nada, e que o deixasse continuar. – Não posso responder porque é uma questão de proteção, tanto sua quanto da sua família. Quanto menos pessoas souberem onde ele está, mais seguro.

– Como não pode responder?! Fico sabendo que Hyoga participou de uma perseguição, tiroteios pelo meio da cidade, entre policiais e sei lá mais quem, e você me diz que não pode me responder?! Eu exijo saber o que está acontecendo! – Camus protestou, irritado.

– Calma... eu sei que está preocupado, mas ele está bem. E essa perseguição foi menor do que eventualmente você tenha conhecimento. Ninguém saiu ferido, está tudo bem. – Milo tentou tranqüilizá-lo. O ruivo bufou contrariado.

Mas então ele está com vocês? – Perguntou, tentando entender toda aquela história.

– Não exatamente... – Milo respondeu vagamente, procurando a melhor resposta. – Ele está com uma equipe especial, secreta. Num lugar seguro. – Mentiu.

– Equipe especial? Mas por quê?

– Lembra o que me disse quando você veio dar o seu depoimento? – Perguntou, vendo o ruivo assentir com a cabeça. – Pois você estava certo. Hyoga não é o ‘chefe’, mas está servindo de escudo para o verdadeiro culpado. Sim, ele cometeu alguns erros, mas nem de longe é quem procuramos. Temos certeza disso.

– Se vocês têm essa certeza, porque não o liberam de uma vez? – Perguntou, demonstrando leve nervosismo. — Minha filha está à base de calmante por causa dessa história! Eu não entendo!!

– Acalme-se Camus! – Pediu, aproximando-se até tocar-lhe no braço. – Eu entendo o sofrimento de vocês, mas ainda não podemos fazer nada porque não temos provas. E é justamente nisso que estamos trabalhando. Precisamos que confie em nós. - Pediu. Camus voltou os seus olhos para a mão que segurava seu braço com firmeza, mas sem machucar e acabou soltando um discreto suspiro.

Ele estava cansado, extremamente cansado, e a voz de Milo era de certa forma tranqüilizante, amenizando o seu sofrimento. Não era um homem insensível, embora tentasse se mostrar forte e frio na maior parte do tempo. Desde que aquela tragédia se abateu sobre sua família, o francês se incumbiu de ser o pilar de todos eles, até mesmo do adolescente. É claro que aceitou a decisão da filha em ficar com o filho, embora já imaginasse todos esses transtornos.

Mas apesar de preparado, isso não o protegia do desgaste emocional. Por longos anos não soube o que era paz, seja pelas lembranças terríveis, seja pelas brigas com o neto. Tudo. Sentia um peso enorme em suas costas, um peso que começava a ficar insuportável.

Eu... – Tencionou dizer alguma coisa, percebendo o momento raro de vulnerabilidade. – Eu só estou cansado. – Disse, sentindo um leve rubor na face pelo modo como o outro lhe encarava. Ele parecia verdadeiramente preocupado.

Tudo bem, eu entendo. – Milo levou as mãos ao ombro dele, apertando de leve, como se quisesse passar força ao ruivo. – Não precisa fingir que está tudo bem. Sei que deve estar sendo difícil para você também. É uma situação muito delicada, normal sentir-se cansado.

As palavras do policial eram reconfortantes, confessava para si mesmo. Camus não tinha muito amigos, não tinha com quem falar, mesmo que essa não fosse da sua personalidade. Em geral, quando precisava desabafar, procurava a filha Natássia. Mas ela não estava em condições de nada naquele momento. Na verdade ela precisava muito mais dele do que o contrário, fazendo o ruivo se dedicar a filha e esquecendo-se de que ele também precisava de um ombro amigo de vez em quando.

Nesses momentos ele sentia muito a falta da falecida esposa Irina. Ela era o seu apoio, o seu ombro amigo, tudo. E desde que ela se foi nunca mais teve ninguém ao seu lado. Nem como amigo. Vivia sozinho, amparado pela filha e mais ninguém. Talvez por isso, sentia-se tão desconfortável com aquele momento com o policial. Um sorriso sem graça despontou de sua face e se afastou, colocando as mãos no bolso.

Então... está certo que Hyoga não é o responsável pelo que estão lhe acusando? Mesmo com todas aquelas provas? – Perguntou, desviando o assunto.

É no que acreditamos, e no que estamos focando nossa investigação. – Milo suspirou e manteve-se no mesmo lugar, percebendo que ele mudara de assunto. – Mas preste atenção, Camus. Ninguém pode saber que ele está conosco, entendeu? – Avisou, se aproximando novamente para falar mais baixo. – Nem mesmo com o delegado. – Disse, fazendo o ruivo franzir o cenho.

Não posso falar disso com o delegado Kanon?! Por quê?

Porque ele está em outra linha de investigação. Não são todos que acreditam na inocência do Hyoga. E o Kanon é um deles. – Explicou.

E você acredita no Hyoga? Acredita que ele é inocente?

– Sim, eu acredito.

– Por quê? – Camus perguntou, fazendo Milo pensar por um momento antes de responder:

– Faro profissional. – Respondeu simplesmente. O ruivo franziu o cenho, descrente daquela resposta, mas acabou por deixar desse modo. Duvidava que o loiro pudesse dizer a verdade sobre o motivo que o levava a acreditar em Hyoga. – Sei que estou sendo vago nas minhas respostas, mas não posso fazer mais do que já estou fazendo. – Emendou, recebendo um discreto consentimento de Camus.

Eles ficaram em silêncio por um tempo, enquanto o ruivo processava todas aquelas informações. Milo não o recriminava, ao contrário, estava satisfeito pela evidente preocupação do ruivo com o neto, embora o tratamento entre eles não tenha sido o dos melhores. E certamente essa preocupação devia estar mexendo com o emocional de Camus, haja visto que até para ele que o conhecia pouco, parecia estranhamente tenso. – E a Natássia, como ela está? – O policial perguntou, tentando quebrar o clima.

O avô de Hyoga o fitou levemente confuso, sendo praticamente arrancado de seus pensamentos. Ele fitou o loiro estranhando aquela pergunta que lhe parecia pessoal demais. – Imagino que ela não saiba o que aconteceu. – Milo explicou-se, diante da expressão do outro.

– Não, claro que não. – Suspirou pesaroso. – Ela está à base de calmante desde que ele foi preso.

– É natural, ela é mãe...

– Sim, problemas que eu já tinha previsto... – Camus murmurou em concordância, num tom de voz baixo, como quem fala alto consigo mesmo. Mas Milo acabou por escutar, estranhando o comentário.

– Você tinha previsto...? – Perguntou, mesmo sabendo que ele provavelmente não responderia diretamente. Teria que arrancar dele essa informação.

Não, não é sobre esse caso. Desculpe, eu estava pensando alto. – Camus desconversou desviando o olhar.

Eu percebi que estava. – O loiro disse, aproximando-se mais dele. – Novamente aquele assunto? – Perguntou, soltando a isca. O ruivo o fitou inquisitivamente. – Aquele assunto que conversamos em sua casa. – Ele explicou-se.

É... é o mesmo assunto. Mas eu realmente não gostaria de falar sobre isso.

– Tudo bem, eu entendo que seja algo pessoal da sua família e que não queira falar. Mas seria bom você desabafar um pouco. Imagino que não tenha muito com quem conversar sobre isso. – O policial foi dizendo enquanto aproximava-se dele. O ruivo estranhou aquele tom, visivelmente não estava sendo profissional.

– Desculpe, mas isso é algo muito pessoal. Não seria profissional esse tipo de conversa entre nós. – Disse seriamente. O policial o fitou por alguns instantes, pensando sobre o que ele havia dito, e teve que concordar. No entanto, sua primeira reação foi rir do comentário. E o fez polidamente, embora estivesse verdadeiramente divertido com a situação.

Sim, sou obrigado a concordar. Mas não precisamos manter uma postura profissional o tempo todo, não é? – Comentou, fazendo o ruivo franzir ainda mais a testa, levando um sorriso divertido e bonito no lábio do escorpião. – Eu sou um homem, antes de ser policial. Eu também gosto de conversar, bater papo, ter amigos... – Explicou-se.

Entendo... – Camus disse simplesmente. Sim, aquilo fazia sentido. Ele aparentava ser jovem, devia gostar de farrear por ai.

E então...? – Milo insistiu, vendo que não receberia resposta. – Precisamos manter essa relação profissional?

– Milo, eu concordo que tenha amigos, mas definitivamente eu não me enquadro no perfil dos seus amigos. Eu já passei dessa fase. – Explicou-se sincero.

– Você que sabe, Camus. Não vou insistir. Mas saiba que os meus maiores amigos são mais velhos que você. E depois, eu gosto de você. Você é sincero, confiável, seria um bom amigo. Saiba que pode contar comigo se quiser um amigo... – Disse, sorrindo gentil.

Obrigado... – Camus agradeceu hesitante. Fitou um tempo aquele sorriso, pensando naquelas palavras, no quão jovial e leve ele era, e o quanto isso era estranho considerando a profissão que tinha e com as coisas que devia ver em seu dia-a-dia.

– Você tem quantos anos, Camus? – Milo perguntou casualmente., voltando-se para sua mesa, arrumando alguns papéis.

– 55 anos. – Respondeu, recebendo mais um belo sorriso do loiro.

– Eu tenho 35. Está vendo?! Não é tão mais velho do que eu. – Riu divertido. Camus o fitou pensativo, tentando entender o interesse repentino do policial em se tornar seu amigo. Ele devia estar planejando alguma coisa, devia fazer parte da investigação. Só isso explicava esse interesse todo.

Bom Milo. Eu agradeço as respostas que me deu, mas eu preciso ir. – Desanuviou as dúvidas que pairavam por sua cabeça. Não tinha tempo para elas agora.

Claro, me procure sempre que quiser. – Milo estendeu-lhe a mão para um cumprimento que foi aceito. – E não se esqueça, não conte a ninguém o que eu te disse.

Certo, não vou dizer. Até logo, e obrigado mais uma vez. – Camus respondeu, destrancando a porta e saindo da sala, sem notar o novo e nada profissional olhar que o policial lhe lançava.



Continua...



Notas finais
N/A: Um capítulo recheado de Camus e Milo, especialmente para as fãs milocamistas como eu o/