Círculo Secreto A Prisioneira
4 Capítulo 4
Cassie? É você?
Um assombro enjoativo formigou nos nervos de Cassie.
—
Então, ela ouviu a própria voz dizendo, quando se virou:
— Eu... eu estava assustada... não queria te incomodar...
— Ah, não seja boba. Venha se deitar — disse Diana, sonolenta,
dando tapinhas na cama ao seu lado e fechando de novo os olhos.
Funcionou. Cassie arriscou que Diana só acordara naquele momento,
e ela ficou bem. Mas Cassie sentiu que estava vacilando quando foi para o
outro lado da cama e se deitou, virada de costas para Diana.
— Mais nenhum pesadelo — murmurou Diana.
— Nenhum — sussurrou Cassie. Não poderia levantar agora e ligar
para Faye, mas não se importava. Estava muito cansada de estresse, de
tensão, de medo. E algo fundo dentro dela estava feliz por não seguir com
aquilo aquela noite. Ela fechou os olhos e escutou os barulhos externos até
cair no sono.
No sonho, ela estava num navio. O convés subia e descia sob ela, e
ondas se erguiam negras nos lados. Perdido, perdido... O que estava
perdido? O navio? Sim, mas algo mais. Perdido para sempre... Nunca
encontrará novamente...
Então o sonho mudou. Ela estava sentada num quarto claro e
ensolarado. Sua cadeira era baixa no chão, o encosto de madeira fino tão
inconfortável que tinha que se sentar ereta. As roupas também eram
inconfortáveis; um boné tão apertado quanto uma toca de natação, e algo
firme na sua cintura que mal lhe deixava respirar. No seu colo, repousava
um livro.
Era o Livro das Sombras de Diana! Mas não, a capa era diferente, um
couro vermelho em vez de marrom. Enquanto folheava, via que a escrita
no começo era bem parecida, e os títulos de alguns dos feitiços eram os
mesmos dos que haviam no de Diana.
Um Encanto para Curar uma Criança Doente. Fazer Galinhas
Dormirem. Para Proteção Contra Fogo e Água. Manter o Mal Inofensivo.
Manter o Mal Inofensivo!
Seus olhos se moveram rapidamente pelas palavras atrás desse.
Enterre o objeto maligno em argila ou areia boa e úmida, bem coberto.
O poder de cura da Terra lutará com o veneno, e se o objeto não estiver
muito corrompido, será purificado.
É claro, pensou Cassie. É claro.
O sonho estava esgotando-se. Ela podia sentir a cama de Diana sob
ela. Mas também podia uma fraca voz, chamando um nome:
— Jacinth! Você está aí? Jacinth!
Cassie acordou.
As cortinas azuis de Diana estavam incandescentes com a luz que
retiam. Alegres barulhos de olaria entravam no quarto. Mas tudo que
Cassie podia pensar era sobre o sonho.
Devia ter lido aquele feitiço no Livro das Sombras de Diana na noite
passada, inconscientemente absorvido-o enquanto folheava as páginas.
Mas por que se lembrar disso de forma tão anormal?
Não importava. O problema estava resolvido, e Cassie estava tão feliz
que estava quase abraçando o travesseiro. É claro, é claro!
Antes da cerimônia da caveira, Diana dissera que a caveira devia estar
enterrada para purificação — em areia úmida. Adam a encontrara na ilha
enterrada em areia. Logo atrás da porta traseira da casa de Diana havia
uma praia inteira de areia. Cassie podia ouvir o oceano rompendo nela
nesse exato minuto.
A pergunta era: ela poderia encontrar o lugar exato na areia que a
caveira foi enterrada?
Faye estava na aula. E estava furiosa.
— Eu esperei a noite toda — sibilou, pegando Cassie pelo braço. —
O que aconteceu?
— Não consegui pegar. Não estava lá.
Os olhos dourados de Faye se estreitaram e os longos dedos de unhas
vermelhas no braço de Cassie apertaram ainda mais.
— Você está mentindo.
— Não — disse Cassie. Lançou um olhar agonizado em volta e depois
sussurrou: — Acho que sei onde está, mas você tem que me dar tempo.
Faye lhe fitava, aqueles olhos estranhos investigando os dela. Depois,
ela relaxou levemente e sorriu.
— É claro, Cassie. Todo o tempo que precisar. Até sábado.
— Isso não é tempo suficiente...
— Terá que ser, não é? — Faye pronunciou as palavras com lentidão.
— Porque, depois disso, eu vou contar a Diana. — Ela soltou e Cassie
andou até a sua própria mesa. Não havia mais nada a ser feito.
Tiveram um minuto de silêncio no começo da aula em homenagem ao
sr. Fogle. Cassie passou esse minuto fitando os dedos entrelaçados,
pensando reciprocamente na coisa escura e impetuosa dentro da caveira e
os olhos azul-esverdeados e inclinados de Doug Henderson.
No almoço, havia uma nota presa na porta de vidro nos fundos do
refeitório. Do lado de fora, na frente, dizia. Cassie virou as costas para ela
e quase topou com Adam.
Ele se aproximava com uma bandeja cheia, e a levantou para impedir
que Cassie batesse nela, derramando tudo nele.
— Opa — disse ele.
Cassie corou. Mas, quando ficaram um encarando o outro, descobriu
um problema mais sério. Adam parou de sorrir, ela não conseguia parar de
corar, e nenhum deles parecia estar indo a algum lugar.
Olhos no refeitório estavam neles. Um déjà vu, Cassie pensou. Toda
vez que estou aqui, sou o centro das atenções.
Finalmente, Adam fez uma tentativa fracassada de pegar o cotovelo
dela, impediu-se e a gesticulou para frente cortesmente. Cassie não sabia
como, mas Adam conseguia demonstrar cortesia como nenhum outro
garoto que ela já tivesse conhecido. Parecia vir naturalmente a ele.
Garotas olhavam ao passar, algumas delas lançando olhares laterais a
Adam. Mas esses eram diferentes dos outros laterais que Cassie vira na
praia em Cape Cod. Ali, ele estava vestido com roupas sujas de pesca, e as
amigas de Portia desviavam o olhar em desdém. Esses olhares eram
tímidos, ou convidativos, ou esperançosos. Adam só tirava o cabelo
vermelho da testa e sorriu para eles.
Do lado de fora, os membros do Clube estavam reunidos nos degraus.
Até Nick estava ali. Cassie começou a andar na direção deles, e então uma
grande forma saltou e plantou as patas dianteiros nos ombros dela.
— Raj, saia! O que é que você está fazendo? — gritou Adam.
Uma língua molhada e quente lambia o rosto de Cassie. Ela tentou
afastar o cachorro, puxando o pelo no pescoço dele, e acabou por abraçá-
lo.
— Acho que ele está só dizendo “oi” — ofegou.
— Ele é geralmente tão bem em esperar fora do campus até eu sair do
colégio. Não sei porque... — Adam se interrompeu. — Raj, saia —
murmurou numa voz alterada. — Agora! — disse, estalando os dedos.
A língua parou, mas o pastor alemão permaneceu no lado de Cassie
quando esta desvia as escadas. Ela deu tapinhas na cabeça do cachorro.
— Raj geralmente odeia pessoas novas — observou Sean quando
Cassie e Adam se sentaram. — Então como ele pode gostar tanto de você?
Cassie podia sentir os olhos brincalhões de Faye nela e deu de ombros
inconfortavelmente, fitando o saco de almoço. Então algo ocorreu a ela:
uma daquelas respostas atrevidas que ela geralmente só pensava no dia
seguinte.
— Deve ser meu novo perfume. Eau de carne assada — disse, e
Laurel e Diana riram. Até Suzan sorriu afetado.
— Muito bem, vamos voltar ao trabalho — disse Diana então. — Eu
trouxe vocês aqui fora para garantir que ninguém ouvisse. Alguém tem
novas ideias?
— Qualquer um de nós poderia ter matado-o — disse Melanie
calmamente.
— Só alguns de nós têm motivos para isso — respondeu Adam.
— Por quê? — disse Laurel. — Quero dizer, só porque o sr. Fogle era
detestável não é um motivo para assassiná-lo. E pare de sorrir assim, Doug,
a menos que realmente tenha feito alguma coisa.
— Vai ver Fogle sabia muito — disse Suzan inesperadamente. Todos
se viraram para ela, mas ela continuou desenrolando um bolinho sem olhar
para cima.
— Então? — Deborah falou finalmente. — Que isso significa?
— Bem... — Suzan levantou os olhos azuis para olhar para o grupo. —
Fogle sempre vinha aqui no raiar do dia, não vinha? E o escritório dele é
bem ali, não é? — Ela assentiu, e Cassie seguiu o olhar até uma janela no
segundo andar do prédio feito de tijolos vermelhos. Então Cassie olhou
para a colina, até o ponto em que Kori foi encontrada morta.
Houve uma pausa, e então Diana disse:
— Ah, meu Deus.
— Que foi? — perguntou Chris, olhando em volta. Deborah abriu um
olhar zangado e Laurel pestanejou. Faye ria.
— Ela está dizendo que ele pode ter visto o assassino de Kori — disse
Adam. — E então, quem quer que tenha matado ela, o matou para
impedir que falasse. Mas sabemos que ele estava aqui naquela manhã?
Cassie agora observava a janela no segundo andar até a chaminé que
se erguia do teto da escola. Estava frio na manhã que encontraram Kori
morta, e o diretor tinha uma lareira em seu escritório. Será que fumaça
saía da chaminé naquela manhã?
— Sabe — disse suavemente a Diana — , acho que ele estava aqui.
— Então deve ser isso — Laurel disse animada. — E significaria que
não foi um de nós que matou-o; porque quem matou ele também matou
Kori. E nenhum de nós teria feito isso.
Diana estava aparentemente bastante aliviada, e os membros do
Círculo assentiram. Uma voz baixa dentro de Cassie tentava dizer algo,
mas ela a retraiu.
Nick, por outro lado, franzia o lábio.
— E quem além de um de nós teria sido capaz de derrubar uma
avalanche em alguém?
— Qualquer um com uma vara ou uma barra — vociferou Deborah.
— Aquelas pedras no penhasco no Devil’s Core estavam só empilhadas de
um jeito estranho. Um renegado poderia ter derrubado-as facilmente.
Assim, voltamos à questão de qual deles derrubou-as; se ainda temos que
nos perguntar. — Havia uma luz de caçadora em seu rosto, e Chris e Doug
ficaram ansiosos.
— Deixe Sally em paz até descobrirmos isso — Diana disse
simplesmente.
— E Jeffrey — acrescentou Faye guturalmente, com um olhar
significativo. Deborah olhou para ela, antes finalmente de abaixar os olhos.
— Agora que resolvemos isso, tenho um verdadeiro problema para
discutir — disse Suzan, limpando migalhas de pão da frente do suéter, um
processo interessante em que Sean e os Henderson assistir avidamente. —
O Baile é em menos de duas semanas, e eu não sei ainda quem chamar. E
não tenho nenhum sapato...
O encontro se degenerou, e logo após isso o sinal tocou.
— Quem você vai chamar para o Baile? — Laurel perguntou a Cassie
naquela tarde. Estavam saindo do colégio de carro com Diana e Melanie.
— Ah... — Cassie foi pega de surpresa. — Eu não pensei nisso ainda.
Eu... Nunca convidei um garoto para dançar na minha vida.
— Bem, agora é hora de começar — Melanie falou. — Geralmente,
os renegados não nos convidam; eles são um pouquinho assustados. Mas
você pode ter qualquer garoto que quiser; só o escolha e diga para
aparecer.
— Simples assim?
— É — Laurel respondeu alegremente. — Assim. É lógico, Melanie e
eu não convidamos geralmente garotos que estão comprometidos. Mas
Faye e Suzan... — Ela revirou os olhos. — Elas gostam de pegar garotos
comprometidos.
— Eu notei — disse Cassie. Não houve perguntas sobre com quem
Diana iria dançar. — E Deborah?
— Na maioria das vezes, Deb fica sozinha — disse Laurel. — Ela e os
Henderson saem juntos; jogando cartas e outras coisas na sala das
caldeiras. E Seam vai de garota em garota; nenhuma delas gosta dele, mas
têm muito medo de se recusarem. Você vai ver lá; é engraçado.
— Provavelmente não vou ver — disse Cassie. A ideia de se aproximar
de algum garoto e mandá-lo escoltá-la era simplesmente impensável.
Impossível, mesmo se fosse uma bruxa. Ela também podia falar isso para
todo mundo agora e deixá-los se acostumarem. — Provavelmente não vou.
Não gosto muito de dançar.
— Mas você tem que ir — disse Laurel, desanimada, e Diana disse:
— É a maior diversão... sério, Cassie. Olhe, vamos direto para a
minha casa e falar sobre garotos que você pode convidar.
— Não, eu tenho que ir direto para casa — Cassie disse rapidamente.
Tinha que ir para casa porque tinha que procurar a caveira. As palavras de
Faye ressoavam no fundo de sua mente o dia todo, e agora inundaram a
voz de Diana. Todo o tempo que precisa. Até sábado. — Por favor, só me
deixe na minha casa.
Num silêncio espantado e um pouco ferido, Diana aquiesceu.
Por toda aquela semana, Cassie procurou a caveira.
Procurou na praia onde acontecera sua iniciação, onde tocos de velas
e poças de cera derretida ainda podiam ser vistos meio enterrados na areia.
Ela olhou na praia sob a casa de Diana, entre as plantas e tábuas.
Procurou na costa de uma ponta a outra, andando nas dunas todas as
tardes e noites. Fazia sentido que Diana marcasse o lugar de alguma
forma, mas com que tipo de marca? Qualquer pedaço de naufrágio na
areia poderia servir.
Conforme cada dia passava, ela ficava cada vez mais preocupada.
Tinha tanta certeza que podia encontrar; era só uma questão de procura.
Mas agora parecia que ela já tinha olhado em cada centímetro da praia por
quilômetros, e tudo que encontrou eram destroços marinhas e algumas
garrafas velhas de cerveja.
Na manhã do sábado, ela saiu pela porta da frente e viu um carro
vermelho claro rodeando o beco sem saída passando perto da casa da avó.
Não havia nenhuma casa naquele ponto da pequena península onde a
estrada terminava, mas o carro rodeava ali. Quando Cassie ficou parada na
porta, o carro se virou e passou lentamente em frente à casa dela. Era o
Corvette ZR1 de Faye, e Faye estava nele, um braço lânguida saindo pela
janela.
Quando passou por Cassie, Faye levantou a mão e ergueu um dedo,
sua longa unha brilhante ainda mais vermelha que a pintura do carro. Aí,
se virou e falou, sem voz, três simples palavras.
Pôr do sol.
Continuou sua viagem sem olhar para trás. Cassie a fitou enquanto
esta partia.
Cassie sabia o que ela queria dizer. No pôr do sol, ou Cassie trazia a
caveira para Faye, ou Faye contava para Diana.
Eu tenho que encontrá-la, pensou Cassie. Não me importo se tenho
que escavar cada centímetro quadrado de areia daqui até o continente. Eu
tenho que encontrar.
Mas aquele dia foi igual aos outros. Rastejou de joelhos na praia perto
da área da iniciação, ficando com areia dentro dos jeans e dos sapatos.
Não encontrou nada.
O oceano corria e uivava ao seu lado, o cheiro de sal e algas marinhas
decadentes enchendo as narinas. Conforme o sol deslizava cada vez mais
longe ao oeste, a lua crescente sobre o oceano brilhava mais clara. Cassie
estava exausta e aterrorizada, e desistia da esperança.
Então, conforme o céu escurecia, ela viu o anel de pedras.
Passara por ele uma dúzia de vezes. Eram pedras de fogueira,
manchadas de preto com carvão. Mas o que estavam fazendo tão perto da
água? Numa maré alta, pensou Cassie, estariam cobertas. Ela se ajoelhou
ao lado delas e tocou a areia no centro.
Úmida.
Com os dedos tremendo levemente, cavou ali. Cavou cada vez mais
fundo até os dedos tocarem algo sólido.
Cavou em volta daquilo, sentindo a curva de sua força, até amolecer
areia suficiente para levantar o objeto. Era surpreendentemente pesado e
coberto com um fino tecido branco. Cassie não precisava tirar o tecido
para saber o que era.
Estava quase abraçando-o.
Conseguiu! Encontrou a caveira, e agora podia levar para Faye...
A sensação de triunfo morreu dentro dela. Faye. Como realmente
poderia levar a caveira para Faye?
O tempo todo que ficou procurando a caveira, encontrá-la não era real
para ela. Não pensara no que aconteceria depois que simplesmente
pusesse as mãos nela.
Agora que estava mesmo segurando-a, agora que a possibilidade estava
diante dela... não poderia fazer isso.
O pensamento daqueles olhos dourados e cobertos examinando-a,
daqueles dedos com as longas unhas vermelhas apertando-a, deixou Cassie
enjoada. Uma imagem passou brevemente pela sua mente, de um falcão
de olhos dourados com as garras estendidas. Uma ave de rapina.
Não podia continuar com isso.
Mas e Diana? A cabeça de Cassie se inclinou em exaustão, em
derrota. Não sabia o que fazer com Diana. Não sabia como resolver nada.
Tudo o que sabia era que não podia passar a caveira para Faye.
Alguém deu uma tossidela logo atrás dela.
— Eu sabia que você ia conseguir — disse Faye na voz rouca quando
Cassie, ainda de joelhos, se virou para olhar. — Tinha completa fé em
você, Cassie. E minha fé está agora justificada.
— Como você sabia? — Cassie estava aos seus pés. — Como sabia
onde eu estava?
Faye sorriu.
— Eu te disse que tenho amigos que veem muito. Um deles só me
trouxe a notícia.
— Não importa — disse Cassie, impetuosamente se acalmando. —
Você não pode ficar com ela, Faye.
— É aí que você se engana. Eu vou ficar. Sou mais forte que você,
Cassie — disse Faye. E, como estava ali de pé na pequena duna sobre
Cassie, alta e atordoante vestindo calças pretas e um top escarlate frouxo,
Cassie sabia que era verdade. — Eu vou levar a caveira. Você pode correr
até Diana se quiser, mas vai chegar tarde demais.
Cassie a fitou por um longo minuto, respirando rápido. Finalmente,
disse:
— Não. Eu vou com você.
— Quê?
— Eu vou com você. — Em contraste a Faye, Cassie era pequena. E
estava suja e desarrumada, com areia em cada centímetro das roupas e
debaixo das unhas, mas era inflexível. — Você disse que só queria a
caveira para “dar uma olhada rápida”. Foi por isso que concordei em pegá-
la para você. Bem, agora eu a achei, mas não vou deixar você sozinha com
ela. Vou com você. Quero observar.
As sobrancelhas negras de Faye, curvadas como as asas de um corvo,
se ergueram mais.
— Então voyerismo é sua ideia de diversão.
— Não, é sua; não, alias, é a dos seus amigos — disse Cassie.
Faye riu.
— Você não é uma minhoca tonta tanto assim então, não é? — disse.
— Muito bem; venha. Ainda que se unir a nós é mais divertido que
assistir.
Faye fechou a porta do quarto atrás de Cassie. Andou em direção ao
armário e tirou algo dele. Era um acolchoado, não com padrão rosa como o
da cama, mas cetim vermelho.
— Minha reserva — disse Faye, com um sorriso curvado. — Para
ocasiões especiais. — Lançou-o para a cama, então começou a acender as
velas no quarto que emitiam cheiros pungentes e inebriantes. Aí, abriu
uma caixa de veludo.
Cassie assistiu.Dentro havia uma confusão de pedras soltas, algumas
polidas, algumas inteiras. Eram de um verde escuro e ametista, preto,
amarelo-enxofre, rosa pálido e laranja manchado.
— Encontre as vermelhas — disse Faye.
Os dedos de Cassie já estavam de qualquer forma se coçando para
pegá-las. Começou a procurar pela desordem arco-íris.
— Essas pedras preciosas, granadas, são boas — disse Faye,
aprovando algumas pedras bordô. — E cornalinas também, se não são
muito laranjas. Agora, deixe-me ver: opala cor de fogo para paixão, jaspe
vermelha para estabilidade. E um ônix preto para rendição ao seu ser
sombrio. — Ela sorriu estranhamente para Cassie, que ficou rígida.
Sem se preocupar, Faye arrumou as pedras num círculo no
acolchoado. Em seguida desligou a luz e o quarto era somente iluminada
pelas velas.
— Agora — disse Faye —, a nossa convidada.
Cassie achou que essa era uma forma estranha de se colocar, e ela
sentiu um enjoo no estômago quando Faye abriu a mochila. Prometeu a si
mesma que impediria que Faye fizesse algo terrível demais com a caveira...
Mas como?
— O que você está planejando fazer com ela? — perguntou, tentando
manter a voz calma.
— Só dar uma olhada — murmurou Faye, mas não prestava muita
atenção em Cassie. Olhava para baixo enquanto tirava o tecido branco,
molhado e coberto de areia, revelando o domo brilhante da caveira de
cristal. Enquanto Cassie assistia, Faye levantou a caveira ao nível de seus
olhos, mexendo nela com os dedos. Reflexos das chamas das velas
dançaram nas profundezas do cristal.
— Ah — disse Faye. — Olá. — Ela olhava nos buracos vazios dos
olhos como se olhasse para um amante. Se inclinou e levemente beijou os
sorridentes dentes de quartzo.
Em seguida, abaixou a caveira no centro do círculo de pedras.
Cassie engoliu em seco. A sensação enjoativa piorava ainda mais; se
sentia mais enjoada a cada minuto.
— Faye, você não devia formar um círculo de velas também? E se...
— Não seja tola. Nada vai acontecer. Eu só quero ver qual é o
problema dessa amiguinha aqui — murmurou Faye.
Cassie não acreditou.
— Faye... — Estava começando a entrar em pânico. Foi uma má
ideia, sempre foi uma má ideia. Não era forte suficiente para impedir Faye
de fazer qualquer coisa. Nem sabia o que Faye estava fazendo.
— Faye, você não precisa preparar...
— Silêncio — Faye disse agudamente. Pairava sobre a caveira,
analisando-a, meio reclinada sobre a cama.
Estava tudo acontecendo muito rápido. E não era seguro. Cassie tinha
certeza disso. Podia sentir uma escuridão redemoinhando dentro da
caveira.
— Faye, o que você vai fazer com ela?
Mais escuridão, subindo como o mar. Como Faye podia ser tão
poderosa, para tirar essa escuridão da caveira tão rapidamente? E tudo isso
sozinha, sem um coven para cuidar de sua retaguarda?
O rubi em forma de estrela no pescoço de Faye piscou, e pela
primeira vez Cassie notou pedras iguais nos dedos de Faye. Todas essas
pedras vermelhas — para aumentar a energia do ritual? Para elevar o poder
da bruxa... Ou da caveira?
— Faye!
— Cala a boca! — disse Faye. Inclinou-se mais sobre a caveira, a boca
aberta, a respiração vindo rápido. Cassie quase podia ver a escuridão na
caveira, girando, erguendo-se como fumaça.
Não olhe! Não lhe dê mais poder! a voz em sua cabeça gritava. Cassie,
em vez disso, fitou Faye urgentemente.
— Faye, o que você está tentando fazer... não é o que você acha! Não
é seguro!
— Me deixe em paz!
Redemoinhando, erguendo-se, cada vez mais alta. A escuridão no
início era fina e transparente, mas agora era grossa e grande. Cassie não
olhava, mas podia sentir. Estava quase no topo da caveira, desenrolando-
se, volvendo-se.
— Faye, cuidado!
A garota de cabelo preto estava diretamente sobre a caveira,
diretamente no caminho da escuridão ascendente. Cassie a agarrou,
puxando-a.
Mas Faye era forte. Rosnando algo incoerente, ela tentou se soltar de
Cassie. Cassie lançou um olhar em direção à caveira. Parecia sorrir
insanamente para ela, a fumaça espiralando dentro dela.
— Faye — gritou, puxando os ombros da outra garota.
As duas caíram para trás. No mesmo instante, pelo canto do olho,
Cassie viu a escuridão se libertar.
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