Notas iniciais
Olá! Este capítulo é a primeira história. Espero que gostem!

Eu sabia que ia dar errado. Falei com minha mãe que não tinha como dar certo, eu passar tantos dias sozinho com meu pai. Porém, ela insistiu que era importante que nós passássemos bastante tempo juntos, para que a separação deles não afetasse nossa relação pai-filho. Só que nossa relação nunca fora boa. E depois que eles se separaram, tanta coisa aconteceu...

Tento me acalmar, mas estou tremendo. Preciso me afastar dessa maldita casa para conseguir me sentir seguro. Então começo a correr e só paro quando percebo que não sei mais onde estou.

A rua está deserta: as lojas estão fechadas, não há uma alma viva passando. Me escoro em um poste. Sinto o vento frio tocar minha pele molhada de suor pela correria. Respiro fundo.

—O que fazer quando seu pai homofóbico descobre que você é gay e te bate? –pergunto ao céu miraculosamente estrelado. Cidades de interior tem essa magia, permitem que o céu da noite ganhe vida. –Chorar? –sinto as lágrimas escorrendo por minhas bochechas. –Não. –as enxugo. –Ele não merece meu choro. –Me assento e coloco o capuz do moletom, que por sorte eu tinha pego antes de fugir. –Ainda bem que minha mãe se separou desse monstro. Olhem o que ele fez comigo! –estendo os braços para que o céu me analise. Os roxos ainda não tinham aparecido, mas já doíam bastante. Minha barriga havia sido chutada com tanta força, que não sei como a comida ainda estava nela. Contudo, o pior era meu rosto que ardia sem parar pelos tapas. –Está doendo tanto... não só fisicamente, mas dentro de mim tudo dói também, sabem?

O choro volta. Não consigo o controlar dessa vez, então choro alto, soluço, me contorço e ainda sim, tudo continua doendo.

—O que eu faço? –murmuro, quando consigo engolir o pranto, com a cabeça entre os joelhos. Deixei o celular lá, não tenho como ligar para minha mãe. O que ela faria se soubesse? Ficaria com mais ódio ainda do papai, viria me buscar? Ela me apoiou tanto quando eu descobri que era gay. Tão diferente dele. Como tinha conseguido viver tanto tempo junto desse crápula? O amor é algo tão esquisito.

Meu agressor pode estar me procurando ? Será que ele mesmo ligaria para mamãe se não me encontrar? De qualquer jeito, não posso deixar que ele me ache porque ele iria me bater mais e mais, até eu dizer estar curado da minha viadagem.

Estou completamente perdido. Não me resta nada para fazer, a não ser me encolher e torcer para que minha mãe surja do além e me leve para casa.

Me deito na imundeza do chão, próximo a uma loja fechada. Penso se para meu pai eu sou tão sujo quanto esse chão. Se para ele, era melhor que eu nunca tivesse sequer existido. Me fixo às estrelas para parar de pensar nisso. Elas vivem tão distantes daqui, em algum lugar mais frio que esse chão. Cada uma em seu próprio cantinho do universo, mal sabe que a luz delas chega até mim. Será que se sentem sozinhas, como eu me sinto agora? Não. Porque nós temos uns aos outros.

-Não é, estrelas? –converso com elas. –Voces podem estar aí, longe pra caramba de mim, mas ainda sim, estão me iluminando agora. A luz de vocês é tão pura que chega até mim mesmo com tantos infinitos nos separando. E é disso que eu preciso, de luzes para iluminar minhas trevas. Obrigado por me fornecerem, eu não sei o que estaria fazendo se não fosse por vocês... –pareço um bêbado, falo coisas sem pensar só para desviar qualquer pensamento sobre meu pai. Minha voz sai rouca e baixa, duvido muito que alguma estrela possa me ouvir. Por fim, fecho os olhos e imagino como seria uma estrela com forma humana.

Um garoto com a pele translucida e cabelos brancos, em moderno corte. Olhos compostos por íris cinzas e uma pupila preta, porém brilhante. As roupas das estrelas devem ser trajes tão brilhantes que até cegam. E protegeriam as peles de tudo sem as sufocar.

Escuto um ruído estranho. Abro os olhos e olho ao redor. Um brilhinho do outro lado da rua chama minha atenção. Ele pisca duas vezes e se torna um clarão que me deixa cego por alguns segundos. Pisco até que distingo uma pessoa diante de mim.

-Olá. –é um garoto. Ainda não consigo enxergar seu rosto, e a luz dos postes não colabora. Sua voz é suave e grave de um jeito único.

-Quem é você? –questiono. Ele parece sorrir.

-Uma estrela. –ele se assenta ao meu lado. –Escutamos suas palavras e vimos que você tem luz. Fazia tanto tempo que nenhum humano nos dava atenção...então, deixaram eu vir aqui.

-QUE?! –me esquivo para longe dele. –Não me lembro de ter batido a cabeça, mas essa é a única explicação possível. –Passo a mão por meu cabelo, em busca de algum galo.

-Você não bateu a cabeça. –Ele ri, e sua pele parece brilhar um pouco. –Pode acreditar nisso se quiser, mas que eu sou real, eu sou.

-Hã...- eu o encaro buscando sinais de que ele é imaginário. Seu rosto é tão simétrico que não deveria existir, a cor do cabelo, da pele e dos olhos não é humana, e ele realmente parece exalar luz. Todavia, é muito real. –Acho que eu devia bater a cabeça com mais frequência, então.

-Que? Por que? –ele parece confuso, inclina a cabeça de lado.

-Porque aí te vejo mais vezes. -ele gargalha. –Qual a graça? É sério! –digo rindo também, mas ele leva a sério, e para de rir e só sorri. –Como é ser uma estrela? –digo depois de alguns segundos em que só nos encaramos.

-Não é tão diferente de ser uma pessoa. –ele dá de ombros. –Estamos sempre distantes umas das outras, isoladas pelos infinitos vazios. Mas temos o brilho umas das outras. –Ele fecha os olhos. –Ficamos muito felizes de um humano como você ter agradecido por nosso brilho. Humanos no geral são tão cheios de si, pensam que só eles tem luz, quando só servem para adensar as trevas.

-É. –Não sei o que dizer. Olho para sua roupa e não consigo a entender. Mesmo ela o cobrindo inteiro, posso ver seus músculos se projetando.

-Me deixaram te dar um presente, então. –Ele diz, e abre os olhos. Nota o quanto eu o encarava, e eu coro.

-Pr-presente? –gaguejo. Ele faz que sim com a cabeça. Eu estreito os olhos. –Um presente bom? Qual presente?

Ele se inclina em minha direção. Arregalo os olhos. Seu rosto se aproxima do meu e seus lábios envolvem os meus. Não reajo de imediato, chocado. Mas o beijo tem um gosto tão bom, e traz sensações tão boas, que passo as mãos ao redor de seu pescoço, e o beijo de volta, sem nem me dar conta que estou beijando a luz pura. Ele me puxa para mais perto e nos beijamos até não termos mais fôlego.

-Você me diz se o presente foi bom. –ele diz rindo. Sua face está rosa choque. Eu rio de volta.

-Bom é pouco. –Meu coração disparado faz com que eu sinta o sangue correndo rápido por minhas veias.

-Mas não é só um simples beijo. –ele explica. –A dor dos machucados que seu pai te causou vai ser aliviada. E você terá uma proteção contra...eventuais situações perigosas que você poderia vir a enfrentar, estando na rua sozinho dessa forma.

-Uau. –eu toco meus lábios. –Eu...-realmente sinto um alivio tremendo, a dor toda parece coisa do passado. –Não tenho o que dizer, é muita bondade de vocês me presentearem assim.

-Você merece. –ele sorri. –É um ser humano bom. Tem muita luz para nos presentear de volta. Talvez possa ser um de nós algum dia. –Ele me abraça. E diz com a boca próxima a minha orelha. –Agora durma. Sua mãe virá só daqui há muitas horas, e é melhor que você esteja na praça principal, porque ela vai te procurar por lá.

-Praça principal? –eu murmuro, sendo tomado por uma onda de sono. Ele faz que sim. Me deito em seu colo, sua pele emana calor, é muito confortável. Ele me faz cafuné até que estou dormindo. Mas antes que eu esteja completamente dominado pelo sono, escuto ele sussurrar:

—Eu sempre estive olhando você. Sua luz, ela me ilumina de um jeito...Eu...Eu te amo.

Notas finais
É bem viajado, não? KKKKKKKKK Espero que eu tenha conseguido fazer vocês viajarem junto. Logo logo posto o segundo capítulo, com a outra história, dessa vez com a lua.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.