Lisa parecia muito melhor quando Gabriel entrou em seu quarto com um prato de comida nas mãos. Desconfiada como sempre, a mulher já lhe disparara perguntas sobre o que era a comida e por que estavam dando a ela esse gesto de bondade. Gabriel não soube responder. "Era o certo a se fazer. Mesmo se fossem perigosos."

Lisa gostou da ideia de ser considerada perigosa. Gabriel, contudo, achou um pouco triste.

—Sabe, Gabriel, vocês estão sendo gentis comigo. Obrigada. —Agradeceu Lisa.

Gabriel a olhou surpreso. Lisa era mesmo do tipo que agradecia? Para alguém que só havia proferido ameaças e palavras de desconfiança, aquele agradecimento quase o fez perguntar se tudo o que havia acontecido foi um sonho. Mas não foi. De alguma forma, sonhos eram muito mais complicados para Gabriel. Então ele apenas assentiu com a cabeça e sorriu.

—Não precisa agradecer, eu tô só cuidando de você. —Disse ele.

—A propósito... —Começou Lisa, mas parou logo em seguida.

—Quer saber de Hugo?

Lisa afirmou com a cabeça.

—Não o vi desde o almoço. Precisou de uma transfusão, mas Serena aceitou ser a doadora. Ela é a única compatível. —Contou Gabriel.

Lisa pareceu surpresa.

—De todas as pessoas aqui, a Campbell é a última que eu imaginaria que ajudaria Hugo. —Disse ela.

—Eu também fiquei surpreso. —Concordou Gabriel. —Mas Youseph a convenceu. Ela não queria se tornar um carrasco como os Durand que fizeram mal a ela.

—Hugo não é assim. —Interrompeu Lisa.

Gabriel apenas observou Lisa enquanto ela defendia o rapaz.

—Hugo é carinhoso. É bondoso, gentil, educado. E é por isso que estamos aqui. —Contou ela.

—O que aconteceu? —Perguntou Gabriel.

—Eu não deveria ter falado isso. —Lisa encerrou o assunto. —Por favor, vá embora. Estou satisfeita.

Gabriel percebeu que Lisa era bastante apegada a Hugo, então apenas concordou em se retirar. Pelo estado de seus ferimentos, confiar em alguém, naquele momento, seria muito difícil.

Gabriel apanhou o prato do qual Lisa havia se alimentado e saiu.

—Me avise se precisar. —Disse Gabriel, assim que passou pela porta, e assim seguiu seu caminho até à cozinha novamente.

Lisa havia deixado o prato pela metade. Ela com certeza estava com fome, mas Gabriel não acreditava que a mulher estivesse satisfeita. Algo naquela conversa estava deixando Gabriel preocupado. Por que ser gentil e bondoso era algo ruim? O que o teria feito fugir? E por que fugiria com Lisa?

Gabriel considerou a hipótese de que Lisa e Gabriel seriam um casal, mas algum bloqueio o impediu de pensar isso. Estava errado, com certeza.

Estes pensamentos pararam no instante que viu os outros anjos.

Então Gabriel notou que Youseph estava lavando as louças sujas. Serena estava ao lado de Nasura, ambos sentados na grande sala de jantar que mais parecia um refeitório para um batalhão.

Depois de todo o trabalho que tiveram, os quatro se sentaram juntos. Ninguém iniciava a conversa e o silêncio estava fritando o cérebro de Gabriel.

—Então, —Começou ele. —O que acharam dos novos hóspedes? Isso inclui a mim.

Youseph suspirou e sorriu.

—Tem sido movimentado, isso eu não posso negar. E por enquanto, divertido. Por algum motivo tivemos três adições em um mesmo dia. —Disse o anfitrião.

Em seguida, Gabriel voltou seu olhar para Nasura.

—E Nasura—

—Por favor, —Interrompeu Nasura. —Me chame pelo meu sobrenome. Não nos conhecemos o bastante.

—Akira? —Tentou Gabriel outra vez.

Ele assentiu.

—Akira, há quanto tempo está aqui?

Nasura apenas lançou um olhar frio para Gabriel e respondeu curtamente.

—Um mês. No máximo. Foi quando Erron Durand começou essa guerra.

Gabriel notou que Nasura, no entanto, não estava de bom humor. Esperava que o médico lhe dissesse de onde viera e o que lhe trouxe até os Seraph. Mas não iria insistir. Tudo seria respondido em seu tempo.

—Tudo bem, não vou perguntar mais sobre seu passado, Akira.

Nasura agradeceu sutilmente, balançando a cabeça. Gabriel ficou até feliz com isso. Devido às primeiras impressões com o médico, aquilo era um enorme passo. Isso dava um bom pressentimento para Gabriel.

Mas uma dúvida surgiu na mente de Youseph.

—Mas e o Durand? Ele vai ficar bem?

Nasura assentiu novamente com a cabeça.

—Foi um ferimento profundo, mas ele vai ficar completamente cicatrizado em dois dias. Ele é um Durand, afinal, se tem uma coisa que Durands fazem bem é se regenerarem. —Disse Nasura. —E eu sou um bom médico.

—E Lisa? —Questionou Gabriel.

—São fortes como o aço. —Disse Serena. —Anjos se curam bem rápido, Gabriel. Aposto que nunca ficou tão mal na sua vida, não é mesmo, Gabriel?

Gabriel então percebeu que, em toda a sua infância, toda vez que ficava doente, sua recuperação era rápida e anormal. As poucas pessoas que ele conheceu, passageiramente, levavam semanas para se recuperarem de doenças e ferimentos. Mas Gabriel não.

—Nunca fiquei.

—Então agradeça ao destino por ser um de nós! —Ironizou Youseph, seguido de uma gargalhada.

Gabriel riu também.

Na mente dele, esse dia tinha sido uma mudança radical na sua vida. Quase não parecia real. Mas por algum motivo, ele sabia que era. Ele sempre soube. A vida toda ele soube, mas algo, inerte, no fundo de sua mente, o impedia de perceber. Foi assim quando as suas asas se abriram pela primeira vez. Quando pintou o retrato daquela mulher que, no fundo, acreditava ser sua mãe. Ou quando sentiu tanta tristeza só de se aproximar de um garotinho com quem tinha feito amizade na pré-adolescência. Por algum motivo eram memórias incompletas, falhas. Haviam buracos. Buracos feitos de uma breve luz branca e aconchegante.

Quando recobrou a consciência, todos estavam olhando para ele. Gabriel só então percebeu que estava segurando uma bola de pura luz.

Ele se levantou num pulo, agitando os braços como se estivessem pegando fogo, por mais que não queimasse. Quando a luz finalmente se apagou, ele olhou cada um ali presente nos olhos.

—Como eu fiz isso?

Youseph e Serena se entreolharam. Nasura só observou fixamente os braços de Gabriel.

—Fazia tempo que não havia magia de luz por aqui. —Disse Serena. —É tão raro quanto um caso de magia das sombras, ou até mesmo a magia celeste!

—M-Magia de luz!? —Surpreendeu-se Gabriel. —Eu sou um mago de luz?

Notas finais
Olá. Me desculpem pela demora escrevendo esse capítulo. Estive num limbo esse ano, só agora tive inspiração. Mas obrigado por lerem e continuarem lendo. Escreverei mais com o tempo.