Céu Obscuro

14 Um novo talento


Claudio tamborilava os dedos na mesa tentando se concentrar, mas sua raiva era imensa. Ele levantou-se e pegou um copo de água da jarra gelada e observava Nanimori pela janela.

—Dando uma pausa? –indagou Leonardo quando entrou.

—Sabe, você poderia muito bem ter avisado que os eleitos devem ser compatíveis com seus guardiões! Só perdemos tempo!

—Eu não sabia. Meu ancião não falou nada sobre.

—Talvez Gokudera-kun não devesse ter ido. Ou melhor, que ninguém tivesse ido com Tsuna e assim ela elegeria ele. Todos os problemas tinham acabado. Aí Tsuna localizava mais um ancião para Jack e perfeito! Mas nãoooooooo! Seria fácil demais.

—Claudio, pelo menos temos um eleito que consegue localizar guardiões. Vamos parar de dar tiros no escuro. –disse sentando em uma poltrona.

—Estou enlouquecendo Leonardo. – Claudio se pôs diante do homem. -Eu me arrependo tanto, mas tanto de ter encontrado Adelina. Ela só ferrou com a minha vida! Eu queria voltar no tempo. –ele andava de um lado a outro. -Tem algum ancião que faz isso?

Leonardo ri.-Nem sempre temos oportunidade de corrigirmos nossos erros. Adelina não teve. Mas a Vindice lhe deu está oportunidade. Você deve agarrar-se a ela com unhas e dentes.

—Eu sinto que envelheci uns dez anos.

—Eu também penso que não deveria ter ido Claudio, mas sinta-se grato por ter pessoas te ajudando a consertar o seu erro. –Falava Gokudera entrando na sala com vários livros. –Mas já que ela me escolheu, eu vou fazer de tudo para achar o próximo Ancião.

—Sua anciã já entrou em contato com você?-indagou Leonardo.

—Não diretamente, mas eu consigo sentir como se alguém estivesse me guiando. Por exemplo esses livros, eu senti alguém me dizendo quais pega-los.

—Ela é mais sutil.

—Será que os vulcões da Nova Zelândia continuarão ativos quando ela sumir de lá? Certeza que era pela sua presença. –comenta Claudio.

—Saberemos daqui alguns anos.- concluiu Gokudera.

Leonardo senta diante do rapaz. -Como está se sentindo com os novos poderes?

—Percebo fatos que eram tão óbvios que não entendo como não os enxergava.

—Quando se é um eleito, você vê como o mundo é imenso.

—Com você também é assim, Claudio?-indagou Hayato.

—Não sei dizer exatamente. –disse Claudio sentado em sua cadeira. -Eu já nasci com esses poderes.

—Não sei se pretende ter filhos Gokudera, mas eles vão herdar suas habilidades de eleitos. Assim como Jack e Claudio.

—Leonardo, você teve visões ao ser eleito?

—Sim. Você também?

—Sim... O que viu?

—Digamos que foi uma jornada interna. Eu entendi muito de mim e o que acontecia a minha volta para evoluir. E você?

—Algo do gênero.

—Já conseguiu entendê-las?

—Estou tentando interpreta-las.

—Pode demorar, mas conseguirá. Mas, vamos voltar às pesquisas.

—O que acharam até agora? –indagou Gokudera.

—Há algo suspeito ao sul das Américas e no norte da África. –Claudio mostrava no mapa preso à parede.

Gokudera começou a analisar as localidades, ele sentiu seu corpo vibrar e enxergou inúmeros arabescos por todo o mapa. Seus olhos se arregalam.

—Hã...Algum problema?-indagou Claudio.

—Não estão vendo esses desenhos no mapa?

—Não tem nada aí, Gokudera.

—Esses desenhos que provavelmente vê é o idioma dos anciões. -Esclareceu Leonardo.

—Não consigo ler. Você consegue?

—O idioma deles é complicado, pois o entendimento é mais intuitivo.

***

—Olá senhor. –cumprimentavam os membros da Epifania.

—Olá a todos. Kenjiro como está nossa aliança com a Vongola?

—Indo perfeitamente bem senhor.

—Podemos colocar em prática a nossa próxima etapa? Eles já confiam o suficiente?

—Mais do que suficiente senhor.

—Ótimo. O chefe ficará feliz. E não se esqueça da outra parte.

—Pode deixar!

***

Kenjiro chega afobado no colégio de Tsuna e o encontra sentado enquanto observava os outros fazendo esportes. Pelo menos essa era a única vantagem de se estar em fase de recuperação.

—Olá Tsuna-kun! –Cumprimenta Kenjiro se jogando no banco e assustando o rapaz.

—Ah! Não faça mais isso!

—Foi mal!- disse rindo.- Mas escute! Eu tenho excelentes notícias!!!

—Qual seria?

—Os melhores pesquisadores da Epifania conseguiram achar outro Ancião!

—SÉRIO!? Tão rápido assim!?

—Que nada. Faz tempo que eles os estão rastreando. Então, você acha que já consegue ir?

—Sim, claro! Isso é maravilhoso Kenjiro-kun! Só temos que ver com a Vongola.

***

—A resposta é não. –disse Reborn. –Ainda não confiamos na Epifania.

—Mas foi o Kenjiro...

—Você confia demais nas pessoas, Tsuna. Terão que fazer muito mais para formar laços fortes de amizade.

—Eu serei o chefe da Vongola e é minha alma em jogo aqui. –gritava Tsuna.

—É justamente por esses motivos que temos cautela!- afirmou Iemitsu.

—Você não tem moral para isso, pai!

—Como!? Eu me desvinculei do meu cargo da família em busca da purificação da sua alma.

—Como sempre, é apenas a máfia que importa para você.

—Você será o próximo chefe, é obvio que isso me importa.

—Esse é o problema pai. Quando me olha você só enxerga o chefe da Vongola e não o seu filho. Pergunto-me se será diferente com o meu irmão.

—Eu me importo e muito com você. E com o seu irmão é a mesma coisa.

—Não parece.

—Vocês dois parem. Já deu. Discutam isso outra hora. –dizia Reborn.

—Vocês sabem pelo menos o que estou passando aqui!? A cada dia eu tenho mais medo de mim, quero voltar a ser normal logo!!!

—Tsuna, não faça bobagens por desespero. Espere a Vongola achar outro Ancião. Agora temos o Gokudera para localiza-los.

Tsuna nada disse, subiu as escadas e afundou em seus cobertores. Naquele momento que desejou intensamente ser o chefe da Vongola, arrependia amargamente de não ter aceitado o cargo antes, pelo menos em sua concepção ele seria o dono do seu próprio nariz e já estaria a caminho do outro ancião. Como a Vongola não enxergava que a Epifania queria apenas ajuda-lo?

***

Gokudera passou os dias ao lado de Claudio e Leonardo, vasculhando páginas e mais páginas dos livros e arabescos que apareciam em alguns lugares das páginas, destacando partes importantes. O rapaz loiro estava impressionado com a velocidade que Hayato lia e fazia suas anotações. O mapa já estava cheio de escritas e teorias que apontavam para algumas cidades no litoral da Argélia e Espanha.

—Deviam ter trazido esse cara antes aqui. — Comentou Jack observando o mapa.

—Está falando mal do meu trabalho? –falou Claudio.

—Vamos ser sinceros, você é bem lerdo.

—Ei, ele tem uma habilidade específica. Somos filhos de eleitos e o seu pai é um eleito, e isso não nos ajudou até agora.

—Ainda está vendo arabescos no mapa, Gokudera-kun? –indagou Jack ignorando Claudio

—Sim. Eu descobri que obtendo mais informações e com concentração, os desenhos tornam-se mais objetivos. Não estão mais espalhados pelo papel.

—Continue assim e vai dominar suas habilidades rapidamente. -concluiu Leonardo saindo do recinto.

—Como o seu pai sendo chefe da máfia, consegue ficar tanto tempo longe da família?

Claudio e Jack se olham.

—E que você não conhece a minha mãe.

—Aquela mulher é barra pesada acredite. Ingleses! –Jack o encara. –Isso foi um elogio.

Gokudera apenas balança a cabeça e volta aos seus estudos sem sucesso. Algo quente se enrolava pelo seu pescoço e um agradável cheio de perfume trouxe um sorriso a sua face. Ele puxou a garota pelos braços até ela cair no seu colo.

—O que faz aqui?

—Lanche!- Haru apontava para uma cesta. –Haru trouxe lanche o suficiente para todos!

—Obaaa! Comida de verdade! –comemorou Claudio.

—Do jeito que fala até parece um prisioneiro. –falou Jack.

—Sobrevivo de instantâneos por aqui meu caro. Isso não é saudável.

—Pobre coitado. –dizia Jack em sarcasmo.

—Mimado! –balbuciou Claudio indo em direção à cesta.

—Vamos para outro lugar. –disse Hayato a Haru.

No jardim da sub-sede da Vongola no Japão, Gokudera passeava de mãos dadas com a namorada.

—Ando meio afastado de você ultimamente.

—Haru entende que é uma emergência. Haru ainda está assustada com o estado que Tsuna-kun chegou.

—Nós quase o perdemos e não podíamos levantar um dedo para ajudar. Ele está vivo, mas sabemos das condições da alma do Décimo.

—Gokudera-kun não precisa se preocupar. A Vongola vai conseguir porque agora Gokudera-kun é um eleito também!

—Quanta confiança. –disse sorrindo.

—Haru sabe que Gokudera-kun vai fazer o impossível para Tsuna-kun continuar do lado iluminado.

—Sim!-respondeu animado.

Eram visões do futuro Gokudera. O tempo que a noite dominou e o céu tornou-se obscuro. -Um flash repentino da conversa com o Pai da Lavina veio a sua mente fazendo seu sorriso sumir. As rugas de preocupação surgiram.

—O que houve? Gokudera-kun ficou preocupado de repente.

—Sei que estamos fazer de tudo para salva-lo mas... O que acontecerá caso falhe?

—Não vai falhar!

—Mas e se falhar? Se o Décimo virar... Sei lá... Um cara que machuque quem amamos. Ainda ficaremos ao lado dele? Eu quero ser seu braço direito. É o meu sonho! Um braço direito significa estar ao lado de seu chefe independente de qualquer coisa, mas, eu não sei o que faria se ele se tornar alguém irreconhecível.

Haru sorri em simpatia com a preocupação do rapaz e afaga seu rosto. –Eu sei o que Gokudera-kun irá fazer. –ele a observa nos olhos. –Gokudera-kun fará de tudo para trazê-lo ao caminho da luz, pois é o que Tsuna-kun faria se um dos seus amigos fosse para as trevas. E essa é a função de um braço direito, quando o chefe se perder ele deve coloca-lo novamente no caminho certo, mesmo que para isso, ele tenha que se tornar o maior inimigo dele.

Gokudera a abraça carinhosamente cheio de motivação com suas palavras. –Eu realmente espero que não precise chegar a esse nível. Vou fazer o impossível para impedir.

—Haru sabe que Gokudera-kun conseguirá. Agora vá para aquela sala, coma o seu lanche e ache o próximo ancião.

Ele a retribuiu com um longo beijo e um abraço apertado. –Eu não preciso de ancião algum para me mostrar a luz, pois eu tenho você. Obrigado!

Horas mais tarde de trabalho a finco durante a madrugada e quase deixando Claudio louco com as suas teorias, Gokudera estava exausto enquanto olhava para o mapa sentado em sua cadeira. O rapaz loiro estava adormecido entre os livros velhos da sua mesa, abraçando o livro azul de letras douradas no peito.

Gokudera olhou no relógio e eram 4:15 da madrugada. Repousou os óculos sob a mesa e ficou diante do mapa. Algo estava furado em sua teoria, segundo os livros e os arabescos, a localização do ancião continuava sendo apontada entre o litoral da Argélia e Espanha. Gokudera já havia confirmado várias e várias vezes se o ancião estaria em Palma ou em Ibiza, mas os dados não batiam.

—Gokudera, você está enxergando com olhos humanos.

—O quê? –ele olhou assustado pela sala. Além de Claudio e seus roncos, não havia mais ninguém além dos dois e a noite estava silenciosa. –O Sono já está me dando ilusões. Ou seriam espíritos?

—Que imaginação fértil, garoto. –disse uma mulher em alto bom som. Quando Gokudera virou para a sua mesa, era a sua anciã.

—Olha quem resolveu aparecer.

—Me chateia em ver meu eleito não sabendo usar suas habilidades.

—Você não mandou o manual de instruções.

—Muito espertinho. Gokudera, meu querido, você leu todos estes livros espalhados, mas e aquele? –ela apontava para o livro que Claudio estava abraçado.

—Ele já está pesquisando de cabo a rabo aquela edição.

—Se você não tiver a visão, não conseguirá ver o imenso potencial daquele livro.

Gokudera anda vagarosamente e tira o livro de Claudio sutilmente. Ao abri-lo percebeu que havia várias e várias informações relativamente interessantes unidas com arabescos. Após alguns minutos de leitura dinâmica, Gokudera conseguiu ler através dos arabescos que o mundo dos anciões era muito mais vasto que para os humanos. Ele sabia o que aquilo exatamente queria dizer.

—Vocês verem coisas que humanos não podem. A sua caverna não estava no mapa, achei que o parque a havia deixado de fora, mas na verdade é porque no mundo dos humanos ela não existe.

Ela o aplaude. –Parabéns. Entrou na linha correta de raciocínio.

—Esse ancião está submerso no mar ou em uma ilha escondida meio ao estilo da Simon. Todo esse tempo, os arabescos estavam me mostrando o mapa completo do mundo.

—Exatamente. O Ancião que localizou é o ancião da natureza

—O que elegeu o pai de Claudio.

—Exato! Leve aquele homem, o ancião provavelmente se mostrará mais fácil com alguém que possuiu sua energia. Seria interessante levar o seu eleito.

—Difícil, o pai de Claudio não quer colaborar. Teremos que se virar com ele mesmo. Anciã, sobre as minhas visões...

—Todo o individuo que passa por um teste feito pelos anciões, conseguem ter algum tipo de visão.

—Eu queria tentar entendê-las. Foi tudo muito confuso.

—Você já entendeu Gokudera. Aceite.

—O Décimo vai se tornar obscuro não importa os nossos esforços?

—Todo futuro pode ser alterado. E se o futuro foi mostrado a você, Gokudera, é porque existe essa possibilidade.

—Você sabe o que eu vi?

—Sim.

—Quem era a criança que eu segurava em meu colo? Por que foi tão doloroso me separar dela?

A anciã ri. –Você ainda está enxergando suas visões com olhar humano. Comece a analisa-la como um eleito. Há algo acontecendo Gokudera. Você deve estar sentindo vibrações grandes de energia que provavelmente, o deixam abalado e perdido. –a sala se enche de arabescos. –Olhe quanto conhecimento estou compartilhando com você. Use-os!

Gokudera observava maravilhado. Aquilo era melhor que qualquer revista de sci-fi que havia lido. Ele quase perguntou se aquela anciã seria uma alienígena por causa dos arabescos estranhos, mas ela já havia sumido. Se era outra forma de vida compartilhando informações que fosse, ele com certeza iria usar aqueles conhecimentos a favor da Vongola, apenas teria que aprender a lê-los por completo.

O rapaz colocou o livro onde estava e saiu procurando algum sofá para dormir. Ele precisa estar inteiro antes de fazer uma nova viagem.