Céu Cinza
1 ❥ — Chuva majestosa.
Notas iniciais
E então, sem um único aviso prévio, a gravidade cai em um espaço vazio. Há um silêncio perturbador e mortífero no ar, que perdura até que o corpo desprovido de sequer um sopro de vida desaba indefeso sobre o chão castigado. A poeira que fica momentaneamente suspensa no ar não é capaz de apagar aquela cena, e o tempo parece congelar bem diante de seus olhos.
Gray não consegue mover um músculo para evitar o atrito do corpo com o solo. Seu cérebro não consegue comandar seus movimentos, pois seus olhos podem ver, mas não compreendem aquela cena de início.
Corpo. Sem vida. Ao chão.
Quando o bombardeio de informações finalmente o atinge, a situação repete inúmeras vezes em seu subconsciente. Ele percebe seus últimos momentos de vida; os cabelos azuis entregues à brisa quando o corpo é atraído ao solo, seus olhos se fechando para sempre, seu peito subindo em busca de ar, os músculos trêmulos perdendo movimento.
Há um tremer de lábios e palavras sofridas são sussurradas ao vento. Não consegue ouvi-las. Suas últimas palavras. Foca o olhar na forma que os lábios se mexem ao pronunciar cada sílaba.
"Gray-sama", chama entre pausas que mostram notável sofrimento. E dor.
Ele não conseguira reagir a tempo de pegá-la em seus braços.
Há devastação em todo lugar, mostrando os indícios da guerra pela sobrevivência do mais forte que ocorreu bem ali. O corpo de Juvia ao chão está rodeado por uma poça de sangue em um vermelho vivido que aumenta de tamanho cada vez mais rapidamente. Suas feridas estão abertas e se espalham por cada pedaço de pele que seus olhos percorrem, expulsando mais do líquido rubro. São cortes profundos, círculos arroxeados e queimaduras que formam bolhas que os pedaços que sobraram de suas roupas rasgadas não podem cobrir. Seu rosto mostra um inchaço incomum e um filete vermelho escorre pelo canto de sua boca, resultado do esforço para com suas últimas palavras.
O corpo do mago de gelo é alvo de calafrios constantes, que ele sabe que não poderia evitar mesmo que estivesse severamente agasalhado. É um frio que nunca esteve preparado para suportar. Faz seus músculos e lábios tremerem sem parar. Sua pele se torna mais fria que de costume, adquirindo uma tonalidade levemente arroxeada. Seus braços e pernas se tornam rígidos. Seu coração palpita muito rapidamente para que possa acompanhar.
E então, a dor lhe atinge em cheio.
Uma dor dilacerante em seu peito, como se seu coração fosse comprimido em restos. O chamado de Juvia por seu nome estoura repetidas vezes em seu subconsciente. Imagens distorcidas. A morte iminente. Gray sufoca, incapaz de inspirar ar suficiente. Não consegue mais ver nada em sua volta.
Seus dentes rangem como de uma fera selvagem em fúria e seus olhos arregalados ardem em vermelho. O mesmo vermelho que cobre o corpo de Juvia. Sua visão fica embaçada ao que as lágrimas que se acumulavam no canto de seus olhos encharcam seu rosto.
Um trovão é ouvido ao fundo quando seus olhos encaram o céu acima de sua cabeça. O fluxo de lágrimas não cessa. E então ele dá um grito ensurdecedor na direção do céu, como se pudesse competir com o som gerado pela onda de choque, que dribla a saliva amarga da boca e os soluços do choro compulsivo.
O céu de Magnólia é preenchido com um tom cinzento numa coloração macabra quando pesadas nuvens se fazem presentes e cobrem a luz do dia, formando um véu de desolação. O vento soprava forte em aviso de uma premonição antecipada para as fadas que ainda de pé lutavam, à mercê da sorte, contra as forças malignas por suas vidas e de seus preciosos companheiros.
Há relâmpagos que geram clarões no céu obscuro ao cortá-lo, como se fossem uma explosão de luz capaz de cegar. Até que a chuva começa a cair, molhado corpos machucados e trêmulos. A água que cai é logo absorvida pelo solo seco assim como o sangue derramado. O peso do mundo desabando em suas cabeças cheias de preocupações como um grande balde d'água fria. Como se o céu tivesse explodido o paraíso em uma chuva devastadora e majestosa.
A magia de gelo que Gray possui é liberada por cada célula de seu corpo em uma forma devastadora ao que as machas negras marcam seu corpo e rosto. Ao fechar os punhos e gritar ao céu, instantaneamente, cada pingo de água se transforma no mais puro gelo já manipulado pelo mago da Fairy Tail.
A fúria da chuva é então substituída pela lentidão com que os flocos caem das nuvens obscuras. A paisagem destruída é forrada pelo branco límpido e calmo.
Forma-se lentamente uma camada de gelo no chão e corpo de Juvia é então coberto por finos flocos de neve que são embebedados pelo sangue que mancha sua pele alva.
O corpo cansado e abalado de Gray cede sobre seus joelhos, caindo assim ao lado do corpo da companheira. Ele não sente o aconchegante calor que emanava de seu corpo. Então espera pelo chamado doce e apaixonado característico de Juvia, mas ele nunca é captado por seus ouvidos.
Ele procura consolo ao enterrar seu rosto no peito da maga de água, mas a ausência do martelar dos batimentos cardíacos de Juvia em seu ouvido o sufoca novamente. Então, chora. Chora como nunca. O frio o domina novamente e o faz tremer. Não faz força nem para respirar, perdendo o fôlego. Os gritos agonizantes presos na garganta.
— Por favor — suplica ele entre soluços. Com a voz sofrida e nasalada por conta do choro excessivo. O rosto descansando entre o pouco tecido de roupa que cobre o peito da azulada. — Eu preciso de você ao meu lado. Eu preciso... De você.
Ele procura pela mão da maga em desespero, entrelaçando seus dedos nos dela com força ao encontrá-la fria. Agora, ele consegue entender.
Quando Juvia entrelaçava suas mãos e lhe prometia que nunca as soltaria, ele considerava muitas vezes um exagero da azulada. Agora, entretanto, ele consegue entender seu ato desesperado. A simples ideia de soltar sua mão e deixá-la ir, parecia lhe doer mais que balas perfurando seu corpo.
Não a deixaria ir. Não. Nunca a soltaria.
Sente necessidade de sentir o aperto forte em sua mão que não vem. E então o desejo de ter uma segunda chance lhe atinge bruscamente.
Uma segunda chance para lhe dar sua resposta, para retribuir seus sentimentos com a mesma sinceridade, para fazer tudo como deveria ser ou para beijá-la.
Agora, entretanto, era tarde demais.
E toda a água congelada que cai do céu cinza em flocos finos e dança no vento é pura como as lágrimas de seu coração.
Fale com o autor