Cárcere Das Almas

7 Capítulo 7 - Oh, what a mess we made


Claire banhou-se rapidamente e logo gritou a dona da casa pelos corredores. Primeiro tentou chamá-la a plenos pulmões – o que a vizinha estranhou muito, mas preferiu não se meter. Depois viu-se forçada a caminhar nua pelos corredores, segurando os cabelos, procurando por Marie.

– Claire! O que aconteceu? – Perguntou Marie fechando o mais rápido que pode as cortinas.

– Não tinha toalha e como você não escuta... Vim até você. Agora me diga: Onde consigo uma toalha?

Marie levou-a até seu quarto e ergueu depressa uma toalha para ela. Ainda que pensasse que toda água que estava em seu corpo já tinha escorrido pelo assoalho. Preferia limpar o chão mil vezes a ter de encarar aquela mulher nua mais uma vez. Ofereceu vestidos, pares de luvas e meias, mas Claire não aceitou. Preferiu jogar fora a meia rasgada e voltar para casa com o seu. Em suas palavras “ainda não estava na hora de pedir-lhe favores ou abusar de sua castidade.”

– Venha, vamos comer. Estava preparando um prato de salada antes de você... Bem. Aparecer.

– Não se preocupe! É só colocar um pano e uma vassoura na minha mão que eu limpo toda a bagunça. Essa casa dá até gosto de limpar. Você não pensa em fazer uma reforma? Já imaginou essa cama com um véu azul bebê? Ou rosa chá! Ia ficar... Nobre!

Marie não conseguia conter as risadas. Como Claire pensava grande, santo Deus! Reforma? Naquela casa velha? Se quebrasse uma parede cairia o teto e tudo. Deveria estar cheia de mofo, iria gastar o dobro, o triplo! Com certeza...

– Marie? – Chamou – Marie? Não está me ouvindo? Não acha que iria ficar belíssimo?

– Ah, sim, sim. Ia ficar belíssimo. Só não sei se tenho porque investir nisso. – deu as costas à cama de casal e parou na porta – Agora vamos, temos de comer.

Claire ficou mais calada depois daquela afirmação. Mais ouviu que falou durante o percurso de volta a cozinha. Sentou-se a mesa de mogno e espiou por cima dos ombros de Marie o que estava pondo na salada.

Ainda era muito cedo e o clima não estava bom para sopas. A entrada foi uma salada de pepino, tomate, alface e agrião com molho rosé. Antes de começarem a comer o prato principal, Marie notou sua quietude e disse:

– O que foi que eu te disse que você ficou calada?

– Nada... Nada. Só estou com fome. É isso, não tenho hábito de comer tão bem, fiquei ansiosa por provar sua comida.

– Diga. Agora eu quero saber mais sobre esses ideais que tanto esta causando polêmica.

– Bom, eu não sei ao certo. – Começou enfiando uma garfada de cenouras na boca – Os comerciantes não estão satisfeitos, os pobres sempre foram insatisfeitos e a rainha gasta nosso dinheiro como papel higiênico. Recebi do meu vizinho esses dias um escrito muito interessante falando sobre os direitos civis e essas coisas...

– Direitos Civis? Pode me trazer esse papel? Você ainda o tem?

O coração de Marie estava agitado. Uma orquestra inteira o regia. As mãos começaram a formigar, os pés a se mexerem embaixo da mesa. Algo de diferente estaria por vir, estava sentindo! Mudanças. Era isso que cheirava aquele desentendimento público.

Mal sabia a pobre que aquilo traria sua falência e não ascendência futuramente.

Mas enquanto isso conversou e comeu acompanhada da nova amiga. Falaram sobre roupas, sapatos, decoração, falaram até da — antes inimaginável — reforma da casa.

– Aqui poderia ficar um lustre, o que acha?

– Não sei... Poderíamos colocá-lo em outro lugar? Eu gosto dessa abóbada. – Disse Marie olhando para o teto.

– Veja só! Já escureceu! Que horas são, Marie? – Perguntou afobada.

– Acalme-se. Ainda está cedo...

– Cedo? Não sabe o perigo que é onde moro. Tenho que ir... Mas ainda nem ensaiamos as poses...

– Não tem problema. Outro dia você volta aqui. – Disse Marie, naturalmente.

– Eu volto? Achei que estivesse importunando-a.

– Claro que não! Gosto de ficar sozinha, mas não o tempo todo. As vezes é bom ter companhia. Você não tem namorado, Claire?

A moça baixou os olhos por um momento, apressou o passo até a porta e balançou a cabeça negativamente. Marie pensou que poderia tê-la ofendido, mas por quê? Ela também não tinha e nem por isso ficaria constrangida por uma pergunta tão banal.

– Boa noite... Até amanhã. – Disse Claire puxando o decote do vestido para cima.

Bateu a porta e recolheu-se para dentro da saleta mirando a abóbada. Pensando em todos os detalhes que Claire tinha planejado para aquela obra. Não ficou em silêncio nem cinco minutos.

– Marie! Marie! – Escutou chamarem-na do lado de fora. – Preciso de sua ajuda!

Olhou pelo olho mágico e logo viu que os gritos pertenciam a Hatim que tinha um semblante desesperado. Girou a maçaneta e ouviu o que tinha a dizer.

– Pegaram ele! Pegaram ele! – Gritou com a mão na cabeça olhando em direção a padaria.

– Pegaram quem? O Manuel?

– Não! Pegaram o Oscar! Querem recolher a gente!

Hatim estava desesperado. Se a rua não estivesse tão escura ela poderia jurar que viu escapar lágrimas pelo canto dos olhos. Correu atrás dele segurando a saia do vestido e a anágua. Quando chegou na esquina da padaria gritou com os homens que o tinham prendido dentro de uma carroça com outros tantos mendigos.

– Ei! Você que está guiando os cavalos! Soltem-no já! – Gritou chamando atenção de toda vizinhança.

Atraiu olhares de todos as janelas. Aquilo era o que menos queria, mas precisava salvá-lo de uma maneira ou de outra.

– E o que a senhorita tem com isso? Esse inglês não pode ser seu irmão, muito menos seu filho. Vai dizer que...

– Não se atreva! Sou uma viúva muito decente! Diferente da senhora sua mãe que não o ensinou a respeitar o luto dos outros. Eu me interessei por ele. É um homem forte. Pode me servir.

– A senhora está me dizendo que vai fazê-lo de escravo? – e soltou uma gargalhada – Compre-o! Quanto tem nos bolsos? Podemos negociar...

– Se o senhor chama de escrava a mulher que deita contigo a noite...

Nesse momento o público soltou uma gargalhada.

– Então a senhora o quer para suprir suas condições de mulher? Coisa que o seu falecido marido não pode mais fazer...

– Isso mesmo, sim senhor.

O público parou de saudá-la ou rir. Agora a imagem dela estava começando a ficar deturpada – o que pouco importa quando se é para salvar um amigo.

– Não esqueça de lavar antes de usar. – Disse abrindo a portinha, permitindo a saída de Oscar de dentro da jaula.

Ele desceu e foi correndo abraçar Hatim e logo depois ajoelhar-se perante Marie e agradecer pelo que fez.

– Não precisa disso, Oscar. Vamos, vamos para casa. Se ficarem na rua mais um segundo os dois serão recolhidos e eu não posso ser tão baixa a ponto de declarar querer os dois para mim.

Alguns segundos depois eles riram junto.

– Tudo bem, talvez eu seja baixa o suficiente para querer os dois. – Disse abrindo a porta.