Cárcere Das Almas
3 Capítulo 3 - Love is a losing game
A primeira vez em que ela foi chamada para posar já tinham se passado suas semanas após o ‘combinado’ — já que não havia nenhum tipo de documento que provasse que Pierre a tivesse contratado como sua empregada, para qualquer tipo de trabalho que fosse.
Tinha sobrevivido das sobras da vizinha, uma daquelas senhoras religiosas que veem a face de Deus nos bons feitos, na caridade, na piedade. Só não percebia o sorriso crescente de seus governantes por sua ignorância, a falsa esperança de um messias, alguém que olhasse por todos.
Não foi o todo poderoso que sustentou as carnes de Marie nos ossos naquele meio de mês tortuoso, foram os restos e ela se lembraria disso mais tarde.
Pierre percebeu-a mais magricela e fez algumas piadas infames sobre sua preocupação em mostrar o corpo para homens afeminados, que em nada reparariam. Pouco a importava para quem fosse se mostrar, dava mais atenção às bisnagas e ao perfume maravilhoso que deixavam quando saíam quentinhas, do forno da padaria na esquina de casa.
Não parou frente a vitrine para namorar os pães, esse trabalho já pertencia aos mendigos, Oscar e Hatim. Dois rapazes falidos – ou se preferir ler fedidos, também cabe às suas características — cada qual com sua fábula mirabolante.
Oscar dizia ser um importante homem de negócios que veio da Inglaterra fechar um acordo milionário acompanhado de sua jovem e belíssima – muita ênfase no ‘bela’ porque faz toda diferença ser traído por uma mulher feia ou bonita — secretária o seduziu na noite que antecedia sua volta à Inglaterra. Ela o teria feito ingerir uma droga que o fizesse parecer morto, tomou seu posto e voltou à Inglaterra com o contrato, dinheiro e toda vida profissional que pertenceria à ele.
Nada que não pudesse ser inspirado em Romeu e Julieta e ainda conseguisse explicar o porquê de usar um terno surrado. As crianças do bairro dizem que ele roubou de um defunto, mas era uma possibilidade a ser pensada, já que seus braços não passavam de varetas... O pobre quase não se aguentava em pé, como poderia arrombar um mausoléu?
Já Hatim inventara uma realidade muito mais gloriosa para tomar como passado. Era descendente de um grande sheik árabe e tinha ido apenas passar as férias descansando em Paris, mas como nunca assumiria ter sido sua culpa, atribui a pobreza à uma mulher – como de costume os machistas fazem.
Dizia que tinha conhecido uma belíssima dançarina e que ela o seduziu – mais uma vez o poder de sedução da mulher se sobressaindo no uso da razão masculina. Vamos conquistar o mundo dessa maneira! – e o instigou a visitá-la todas as noites, pagar jantares e presentes caros. Assim se fez sua desgraça. Ele acabou com o dinheiro, seus seguranças não o encontraram e ele espera que o pai o venha buscar até hoje.
Marie sabia que naquele primeiro dia faria algo imperdoável. Se a mãe já a odiava antes disso não conseguia imaginar os níveis de afeto ficando negativos quando soubesse de seu emprego. Se bem que ela nunca saberia... O pai não podia demonstrar mais muitas emoções, na verdade, nenhuma; mas, se passou toda a vida pedindo a Pierre que ajudasse a filha quando partisse, era porque haveria de ter um motivo. Não por dívida, mas por humanidade.
Andava pelas calçadas apertando o xale sobre o peito, esquivando a barra do vestido das sujeiras que os cavalos deixavam para trás, sem nenhuma vergonha – animais porcos. Rezava por algum adiantamento do bendito salário, o qual ainda nem sabia os dígitos. Se pouco ou se muito – o que duvidava – iria ganhar alguma coisa e por isso já estava descansada.
Adentrou a lojinha de esquina e sentiu o cheiro forte de coisas velhas entrando pelas narinas. O pulmão daquele homem deveria ser só poeira!
- Senhor Pierre? – Chamou.
Ele afastou o olho esquerdo da lente de aumento e guardou a joia dentro do bolso do avental. Não sabia quanto ouro ou pedras teria naquela peça, mas mal a interessava.
- Está atrasada. – Olhou para o cuco na parede ao lado – Quatro minutos. – Disse num tom áspero.
- Desculpe... Alguém me espera?
- Ora só. Nem começou! Ninguém espera em Paris, criatura. Entre, dispa-se e aguarde o senhor Toledo no divã, ele não se demora.
Pierre abriu passagem levantando um tampão de madeira da bancada, permitindo sua passagem para o corredor. Marie andava com cautela, estudando cada cômodo. Algumas portas fechadas outras entre abertas. Comentários, ordens, vozes guturais masculinas a assustavam.
“Que não gritem comigo” – Mentalizou torcendo os lábios.
- Segunda porta à direita! Sem xeretar! – Gritou Pierre as suas costas.
Ela ainda não sabia como posaria. Se sentaria, deitaria ou subiria no divã – mesmo que parecesse pouco provável essa última opção. Havia um biombo de madeira que separava uma parte do quarto. Mas para que haveria de servir?
- Não vejo utilidade em trocar de roupa escondida, vou ficar nua na frente do homem mesmo! – Exclamou sem perceber que seu primeiro cliente já a observava da porta.
- É para as novatas criarem coragem. – Disse um rapaz surgindo de trás da porta, contrariando a imagem de velhos tarados que ela tinha construído de antemão.
- Ah... – Disse ruborizando – Eu não sabia que estava aí atrás. Podemos começar, senhor Toledo?
O rapaz tirou o chapéu e pôs no cabideiro junto com o casaco de veludo que usava. Fechou as cortinas de um pano muito fino, mas encardido na mesma proporção e sentou-se a sua frente, no banco do tripé – aquela coisa que segura a tela.
- Eu não quero intimidar você, mas estou cheio de ideias. Penso que a senhorita poderia relaxar um pouco mais e me mostrar o que pode fazer com o seu corpo. – Disse tirando um cantil de prata do bolso do paletó, dando uma bela golada.
Marie engoliu a ânsia de vômito ao ver uma linha daquela bebida escorrendo pelo canto dos lábios do rapaz. Ele poderia aveludar o quanto quisesse a voz, mas nunca a camuflaria o suficiente para esconder a verdadeira identidade. Os olhos o denunciavam, ele era perverso e isso parecia estar escrito em sua testa.
Não sabia o que fazer, como se sentar – ou deitar – ela simplesmente nunca se perguntou como seria sensual para um homem, nunca tentou parecer. Tinha suas dúvidas, mas uma coisa que não faria era pedir ajudar. Implorar para que o homem se levantasse e viesse ajudá-la? Mas de maneira nenhuma. Lembrou-se de uma vez que voltou tarde para casa com o pai, quando viu pela primeira vez uma puta francesa. A mulher tinha os ombros a mostra e boa parte das pernas, e ah, os cabelos soltos. Completamente livres no vento.
Não queria ter de parecer uma puta, mas viu como o pai olhou para os lábios da mulher. Desabotoou as costas do vestido e deixou-o cair até os ombros. Soltou os cabelos, cruzou as pernas e levantou a saia do vestido até a linha do joelho.
A medida que transformava-se naquela mulher sensual o coração se exprimia e o estômago também. Preocupava-se em manter o cérebro pensando apenas na comida que comeria depois que fosse paga e não no que estava fazendo para obtê-la.
Paralisou-se.
- O que é isso? – Perguntou o homem notando sua rigidez. – O que pensa que está fazendo? Eu paguei por uma modelo semi nua e você vem e me mostra um oitavo de pele? Arranque logo essa saia!
Ela permaneceu quieta, parada como estátua. O homem se levantou, segurou-a pelos braços e arrancou com ignorância as mangas e a saia do vestido de seu corpo.
- Agora levante essas pernas. – Ordenou apontando para o braço do divã.
Ela obedeceu e permaneceu naquela posição até que ele saísse de trás da tela, quatro horas depois.
- Você foi muito boazinha... – Disse esfregando os dedos sujos de tinta sob seu queixo. – Pode receber muito mais que essa mixaria como modelo, se quiser.
- Não me toque. – Disse escondendo-se atrás do biombo, agarrada ao seu vestido.
Ela esperou até ouvir a porta bater para que descongelasse e pudesse chorar em paz.
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