Cárcere Das Almas
17 Capítulo 17 - Love is a losing hand
Notas iniciais
“O quarto ficou morno por um longo ano até que o frio da noite pudesse me atingir novamente. Depois disso houve um grande hiato até que o meu coração decidisse abrigar outro morador e com ele, a cama dos meus aposentos.” – Escreveu Marie dez anos após aquela noite, numa madrugada insana.
Os olhos piscaram algumas centenas de vezes antes de se abrirem por completo. A fronha gelada do travesseiro ao lado a assustou. Onde... Onde poderia estar aquele corpo senão em suas mãos? Ao seu lado? Apalpou toda cama de casal e nada encontrou além do vazio.
Ergueu-se esticando os braços, movendo os dedos dos pés. Sentou na cama com os olhos apertados. Como já estava claro! Mas tinha acabado de ir dormir...
- Por Deus! Que horas são agora? – Perguntou a si mesma.
— Hora de correr para não se atrasar. – Disse Claire colocando brincos, saindo pela porta do banheiro — Não quer ouvir mais uma de Pierre, quer? Separei um vestido para você, está sobre o banco da penteadeira. Vista-se rápido. Hatim já nos trouxe pão...
- Claire? – Interrompeu Marie.
- O que é?
Marie procurou em seus olhos um vestígio que fosse da doçura da noite anterior, mas não via nada. Nenhum brilho escondido, nenhum pingo de desejo. Lançou-se para fora da cama tomando uma de suas mãos e levando-a até os lábios.
Antes que beijasse a morena a puxou rapidamente reprimindo-a com um olhar desaprovador. As sobrancelhas grossas se uniram e os lábios rubros cerraram-se em linha. Um tenebroso “não” escapuliu pela brecha de seus lábios e enterrou-se no peito de Marie, inconsolável.
Claire saiu do quarto num segundo e bateu a porta com força, estava claramente irritada. Mas... Pelo quê? Marie pensou em sentar-se a cama e questionar-se pelo que tinha feito de errado, mas isso se somaria apenas nos minutos adicionais de gritos e ameaças de Pierre quando chegasse ao trabalho.
Olhou-se no espelho da penteadeira por breves segundos. Estava vestida com uma camisola verde, mas não se lembrava de tê-la vestido. Não entendia a irritação de Claire, mas talvez fosse passageira. Logo estariam bem novamente. Agora sua maior preocupação era tirar sua cara de satisfação e guardá-la na gaveta para que ninguém notasse que a partir daquele dia era uma mulher de fato.
Enquanto tomava banho observava com mais afinco as nuances do corpo, as curvas, a textura da pele. Estava diferente, sentia-se diferente. Tinha Claire em cada centímetro do corpo, podia esfregar o sabonete o quanto quisesse, mas ainda sentia seu perfume e quiçá seu toque.
Vestiu meias finas, luvas, o vestido e um chapéu fino. Vestia-se para esconder o corpo, para guardá-lo, preservá-lo o máximo que pudesse, ainda que tivesse que arrancar todas as peças em seu trabalho. Tinha certeza que o que havia escorrido pelas pernas no dia anterior era sua inocência e por isso, estava envergonhada, mas feliz, porque o coração nunca havia abrigado sentimento tão nobre por alguém. Desceu as escadas com Vladmir e Dona enroscando-se nos calcanhares e deparou com Claire em pé com um embrulho de papel nas mãos e Louis a seu lado, ereto, encarando-a também.
- O que foi? – Perguntou no penúltimo degrau da escada.
- O que foi? Enquanto você brinca com os gatos seus clientes a esperam! Vamos, vamos! Vai tomar seu café lá mesmo. – Estendeu o pacote – Aqui, segure.
Virou para trás e acenou para Oscar que a olhava escancaradamente apoiado no beiral da cozinha que levantou a xícara de leite e fez reverência. Ele não estranhou o largo sorriso que ela o lançou, tinha certeza de que algo estava diferente em seu coração. Mas infelizmente, ele não tinha nada a ver com isso; pensava com pesar.
Marie chegou passando direto por Pierre, sem dar tempo de ouvir bronca e entrou em sua saleta arrancando as luvas. Um homem preparava os lápis de costas para ela, não se virou para cumprimentá-la com um bom dia, apenas continuou arrumando.
- Um bom dia, Senhor. – Disse tirando o chapéu – Peço desculpas pela demora, isso não vai voltar a acontecer...
- Não há problema. – Virou-se segurando um lápis comprido, com a ponta bem fina. – A senhorita é Marie, não é mesmo?
- Sim... Desculpe o atrevimento, mas de onde o senhor me conhece?
Ela insistia em chamá-lo de senhor por mera formalidade, mas estava de frente para um rapaz tão jovem quanto ela. Dava no máximo uns vinte anos. Tinha o rosto levemente rosado, os cabelos loiros com as costeletas tapando as orelhas, usava calças largas e suspensórios. Era de uma classe baixa, então.
- Um homem me pagou para desenhar a senhorita. Ele estava na tal festa que a senhora... Bem. Onde a senhora fez sua fama.
- Olhe bem, eu não quis chamar atenção, estava me defendendo daquele...!
- Não precisa me explicar nada, moça. Sei que eles são abusados. Agora, vamos? Preciso trabalhar.
Ele parecia tão sério que até assustava. Mas não deixou de arregalar os olhos – e logo depois esconder o rosto – quando viu seu corpo alvo semi nu.
- Moça... Quer dizer, Srtª Marie, o meu cliente pediu que a senhora usasse isso. – Estendeu um relógio de bolso prateado para suas mãos.
- Como é? Como eu uso isso?
- A ideia era que tapasse... É... – Engasgou — Sua intimidade.
Ela o encarou atônita e tomou o relógio nas mãos. Escondeu-se atrás do biombo e pensou em como usaria aquilo sem parecer uma oferecida. Colocou um colar de pedras pretas que fazia conjunto com brincos que pesavam em suas orelhas, mas ficavam lindos.
Pôs sapatos de salto e bico fino, como os nobres, com plumas negras nos pés e um hobby branco cuja finalidade era apenas cobri-la até que tivesse coragem de mostrar-se ao garoto.
- Sente-se no chão, por favor. – Disse o garoto dobrando os joelhos – Apoie um braço no divã e descanse o rosto nele. Com a outra mão segure o relógio... É... Você pode tirar esse, essa, isso aqui.
Ele segurou na barra do hobby branco. Ela tirou e ele ruborizou levemente. Não deixou de analisá-la nem por um segundo e segurando em seus braços foi moldando a posição que queria que ficasse.
- Agora segure o relógio sobre... É! Aí mesmo. Obrigada. Agora, faça a sua melhor cara de pensativa olhando para o lado e tente não se mover muito.
Ele sentou no banco e começou a rabiscar. Em uma hora ele só abriu a boca para pedir que ela mantivesse o rosto na posição e ela para suspirar. O dia seria longo, muito longo.
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