Cárcere Das Almas
15 Capítulo 15 – Till the chips were down
Um punho nervoso batia na porta. Bateu diversas vezes, chamou por seu nome. Pierre brigou com a pessoa, gritou ordenando que não incomodasse, mas ela tornou a bater, com mais pressa. Mais força.
- Pode me demitir! Eu não vou sair da frente dessa porta enquanto não tiver certeza de que ela está bem. – Exasperou-se. As últimas palavras não passavam de uma fina voz esganiçada, estava chorando. A pessoa que estava do outro lado da porta não estava só apressada, estava desesperada.
Marie encostou a orelha na porta e ouviu o choro contido. Reconhecia... Era o mesmo de uma criança inconformada, o mesmo que ouvira na noite anterior, em seu colo.
- Jacques, abra a porta. – Pediu – Por favor. Preciso que ela saiba que estou bem, que você não... Você sabe.
- Que eu não...? – Disse ele rodopiando o chaveiro no dedo indicador pouco se importando com o choro da mulher do lado de fora.
- Ora, homem! Não me faça falar! Agora abra esta porta.
- Que vou ganhar com isso?
Enquanto ele a atrasava ouviu passos no corredor e a voz de Pierre exaltada. Não estava com o costumeiro tom irritado, estava bravo. Raivoso. Pronto para arrastá-la pelos cabelos para fora do Antiquário.
- O que você quer, Jacques? – Perguntou sem medir as palavras.
Ele abriu um sorriso malicioso e jogou o molhe de chaves.
- Quero que comecemos o trabalho hoje.
Marie não respondeu, apenas concordou mentalmente. Pelo menos ele teve a decência de pedir apenas aquilo. Soube medir o que estava trocando, afinal, abrir a porta não era algo assim tão absurdo. Girou a maçaneta e empurrou a porta com força, abrindo-a completamente.
Fulminou Pierre com os olhos quando o viu tentando arrastá-la pelo braço até a saída. Deveria estar aplicando muita força para fazê-la agarrar-se no beiral com as duas mãos. Não bastou que ela o olhasse, ele a obrigou a utilizar de sua nova condição como modelo. Mal tinha percebido no que se transformara e já usava isso a benefício próprio.
- Se ainda quiser receber toda a grana que lhe propuseram esta manhã, solte Claire. – Ordenou estendendo a mão para a mulher.
Ele soltou uma longa bufada no ar, moveu os lábios como se ainda planejasse dizer algo, mas soltou os dedos e virou as costas resmungando.
- Ah, Marie, graças a Deus! Ainda está vestida... Não aconteceu nada? Diz para mim que não vão querer te matar. E Jacques? Que diabos estão fazendo trancafiados esse tempo todo aí dentro?
- Entre. – Disse puxando a porta atrás de si.
- Ah, olha quem veio nos fazer companhia! Claire! Pena que eu não me lembro de ter mandado chamá-la... – Ele fez uma pausa dramática com os dedos nos lábios como se estivesse pensando sobre a frase anterior – Então? Por que está aqui?
- Ela vai ficar aqui até o final do meu expediente. – Disse Marie passando-a para trás do corpo – Se não se importar, é claro.
O tom cordial acalmava as frases grosseiras, apaziguava as feições que o homem adquiria quando as ouvia. Como aquele ditado “morde e assopra”. Ele as observou naquela posição. Marie no ataque, protegendo a mulher como se algum animal pudesse agarrá-la, dilacerá-la. O brilho fixo nos olhos esperando por uma resposta. Balançou a cabeça negativamente e bufou sonoramente.
- Não, eu não me importo. Podemos começar?
- Sim, claro. O senhor tem alguma ideia de como vai querer o desenho? O estilo?
- Não faço a menor ideia. Não sou artista. Surpreenda-me.
- Nesse caso... Claire, venha cá no biombo comigo, ajude-me. É muito mais experiente que eu nesse ramo.
As duas foram juntas para trás do biombo de ferro e madeira que as dava um pouco mais de privacidade antes de arrancar as roupas. Parecia que Claire tinha esquecido que ainda estavam na mesma sala, coisa de metros de distância entre eles, mas começou a cochichar perguntas incompreensível, complexas demais para serem respondidas naquele momento.
- Em casa eu te explico tudo, está bem? Agora, faça-me ficar o mais coberta possível.
Ela se vestiu com um robe bege perolado, encheu-a de adereços dourados e uma calcinha negra. Pediu que deixasse os seios livres, ele poderia reclamar que ela estava usando muitas roupas e se ficasse muito nervoso tinha todo o direito de pedir que tirasse tudo. Prendeu o cabelo num alto rabo de cavalo frouxo.
Definitivamente aquela roupa não lhe caiu tão bem como seria se fosse no corpo da morena. Marie era loira, de olhos claros, o robe bege só ressaltava sua brancura. E se fosse para isso, preferia mudar para um preto com plumas. Era um bom contraste.
- Agora... Feche essa cara. Seu forte é o olhar penetrante. Escolha entre parecer indiferente a ele ou mostrar seu ódio nos olhos e nas mãos. – Disse Claire finalizando a maquiagem nos olhos.
Marie apareceu com a cabeça abaixada e apoiou-se na porta esperando aquele gelo percorrer por seu corpo e mantê-la de pé, parada por muitas horas. Jacques levantou-se do banco boquiaberto, espantado com sua beleza e inflou o peito quando ela levantou o queixo pouco acima do normal e virou o rosto para o lado, o olhar perdido no pé direito da saleta.
- Incrível. – Soltou sentando frente ao tripé com o papel para desenho.
Claire admirava a maneira com que ela conseguia ser sensual. Ignorando completamente o desenhista, mantendo as pernas fechadas, mostrando apenas o contorno dos seios, porque nem isso expôs ao todo. E o olhar... Perdido. Em outro lugar. Não se moveu mais que duas vezes para transferir o peso do corpo durante todo desenho e nenhuma palavra.
Jacques tomou o relógio de bolso depois de bastante tempo intrigado com a falta de luz na janelinha e arregalou os olhos. Podia ter a pompa que quisesse para abrir a carteira e expor suas joias, mas com aquela reação confirmou a imagem do tipo de homem com hora para chegar em casa.
- Nós... Nós, terminamos amanhã, tudo bem? Eu vou acertar com Pierre como combinei com você. E, Claire, tente servir pra alguma coisa amanhã. Ou posam juntas, ou vou deixá-la na minha casa servindo de distração para Bernadeth. – Disse retirando-se da saleta às pressas. I
Ele bateu a porta e aproveitando a brecha, Marie trancou-a por dentro. Tinha que ter uma conversa séria com Claire. Tinha que – depois do dia cheio – preocupar-se com o emprego que ela tinha deixado de lado apenas para saber se estava bem.
- Claire, eu vi como Pierre falou com você. Vi como a segurou... Não deveria ter dito que não se importava em ser demitida. Foi muito imprudente!
A morena abria a boca para tentar rebater, mas sabia que estava errada e a permitia continuar dando a bronca.
- E agora? Eu preciso de você aqui dentro. – Disse Marie finalmente – Eu sei o que fazer, mas não questione nada na frente dele, em casa eu te explico tudo, prometo. Evite cara de surpresa.
Trocou de roupa rapidamente e apoiou os cotovelos no balcão. Claire estava nervosa demais para parecer tão descontraída. Apenas ficou calada ao lado, observando.
- Marie, tenho que passar sua agenda. Preciso saber se está disposta a ficar aqui até as oito. Sua carga horária aumentaria em duas horas, mas os ganhos seriam compensatórios. Para nós dois. Os ricos ofereceram muito, muito mais do que o esperado. Pelos meus cálculos, 200% do preço normal... Nunca vi tantos zeros na minha vida – Falava sem parar apontando para os cálculos nas folhas do caderno de horário. – E esse último, que saiu agora pouco, me fez desmarcar com quatro pessoas.
- Amanhã? – Perguntou curiosa encarando o papel.
- Não. Nos próximos três meses, ele tem três horários semanais de quatro horas cada. Então? Você aceita pegar esse horário adicional?
Claire pigarreou alto e pressionou três dedos em suas costas.
- E eu? – Perguntou inocentemente esperando ver um nome que fosse em seu caderno.
- Pegue suas roupas e suma daqui. Já chamei alguém que te substitua. – Disse Pierre jogando a chave da saleta em seus pés.
Ela abaixou para pegar a chave como se recolhesse as últimas migalhas. Foi muito mais baixo do que Oscar e Hatim quando ainda eram mendigos, abaixou a cabeça. Esperou que Pierre pedisse desculpas e saísse detrás do balcão para recolher a chave para ela, como deveria ser feito com qualquer mulher, mas apenas recomeçou a falar sobre os ganhos que teriam com aquele horário extra.
- Não sei o que fez esse final de semana, mas se puder fazer mais fezes, terá dinheiro para uma velhice pra lá de confortável...
- Pierre. – Chamou com a voz arrastada – Olhe nos meus olhos agora mesmo. Se Claire sair por aquela porta desempregada eu vou junto com ela. E não quero nem saber se vai ter um colapso com essa agenda. Sumo de Paris e nunca mais vai me achar. Pode esquecer todo o lucro de sei lá quantos por cento. Está me entendendo?
Ele olhou para o chão afastando-se do balcão, coçando os olhos.
- Claire não me atrapalhou, muito pelo contrário. Ajudou-me a me vestir, a me comportar dentro daquela sala com Jacques. E você sabe que ela tem muitos clientes.
- Se não fosse por Jacques elogiando tanto quando saiu eu não acreditaria. Só lhe farei esse favor pelos lucros. Apenas.
Marie tirou a chave da sala das mãos da morena e a pôs delicadamente sobre o vidro do balcão.
- Fez um bom negócio, Pierre.
Ao por o pé dentro de casa Marie chamou por Oscar e Hatim a plenos pulmões. Procurando por eles na cozinha, nos quartos, batendo na porta dos banheiros. Estava ansiosa para contar a novidade, ou pelo menos a parte boa dela.
Apareceram rapidamente e reuniram-se na sala de estar para ouvir a declaração. Ela respirou fundo e contou a verdade para que pudessem compreender onde queria chegar.
- Claire e eu fomos a uma festa. Eu presenciei uma das coisas mais abomináveis da face da terra e não consegui ficar calada. Amaldiçoei todos os nobres, bati e cuspi na cara de um.
Oscar e Hatim explodem em risadas e até que cessem Marie achou que se não soubesse de toda a história também acharia gozado.
- E hoje eles foram me procurar. – Encurtou a história indo para o ponto chave.
Tão de repente suas expressões se modificaram de preocupação, angústia.
- Como sabiam onde trabalhava? – Interrompeu Oscar.
- Eles viram que ela estava acompanhada por mim e sabiam onde me encontrar.
- Eu achei que fossem querer me matar, mas foi completamente o contrário. Os riquinhos gostaram da minha personalidade, estão fazendo fila para me desenhar. Vamos melhorar de vida, vai entrar mais dinheiro em casa, vamos poder fazer uma reforma... Vai ser bom para todos nós daqui para frente.
Hatim começou a pular no sofá a dizer umas coisas estranhas em árabe. Independente de compreender ou não o que dizia, pareciam ser felicidade.
- Vamos ficar ricos! – Parou por um momento – Quer dizer... Você. Você vai ficar rica, Marie. Parabéns. – Retomou a postura séria solicitada pelos olhares metralhadores de Claire e Oscar.
- Não podemos ficar tão abobalhados pensando que tudo vai ficar bem. Eles podem pedir mais de você, Marie. Sei que isso não é da minha conta, mas me preocupo com sua segurança. Podem de um dia para o outro querer... Roubar você, não sei. Eles são loucos! Acham que são donos do mundo. Como, como os ingleses de alta patente!
Essa última frase saiu sem pensar. Oscar baixou a cabeça esperando por alguma piada de Hatim, que nunca chegou. Passou a mão pelos cabelos, transtornado. Pediu licença com a voz que lhe restava e a passos rápidos voltou para o quarto.
- Achei que você fosse falar alguma coisa. – Disse Claire para Hatim que estava tão chocado quanto Oscar.
- Não era hora de fazer piada. Ele deve estar se sentindo péssimo! Tenho que vê-lo... Depois do que aconteceu hoje, deve estar se martirizando agora mesmo. – Levantou-se da cadeira despedindo-se naquele ato.
- Que aconteceu hoje, Hatim? – Perguntou Marie antes que ele sumisse pelo corredor.
- Foi convocado pelo exército. Estão desesperados por soldados e ele terá que ir, não sei ao certo em quanto tempo, talvez uns dois meses para ficar trancafiado com os outros. Uns meses mais, uns meses menos. Ainda assim é pouco tempo para se acostumar com a ideia...
- Eu compreendo, Hatim. Diga a ele que quero conversar em particular quando puder, quando quiser.
Com um aceno de cabeça rápido se retirou do lugar deixando-as sozinhas. Claire tinha o olhar fixo na abóbada que já mostrava algumas nuvens cinzentas iluminadas pela lua cheia.
- Não podia ter sido melhor, não acha? – Perguntou Marie segurando-a pela mão.
- Estou feliz que esteja viva, isso é suficiente.
Ficaram alguns segundos em silêncio e logo depois foram para cozinha. Estavam famintas, precisavam de uma boa refeição. O dia tinha sido muito movimentado, mas isso não lhe cedia um ponto final. Ainda havia uma coisa, muito importante para acontecer e Claire não esperaria nem mais uma noite.
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