Cárcere Das Almas
13 Capítulo 13 - Love is a losing hand
Notas iniciais
O jantar foi tão animado quanto os dias de Natal em que o pai de Marie era vivo e contava histórias até cansar. Ele a acomodava na perna esquerda e com todo cuidado lia alguns livros velhos, de fábulas que pegava emprestado com o chefe. Estranho como ela arregalava os olhos para prestar atenção nos detalhes do livro sem nem saber ler. Passava os dedos sobre as letras desenhadas, nas margens com ramos de folhas verdes e lírios que já perdiam a cor.
Quando as páginas acabavam e Marie ainda estava acordada ele improvisava algumas histórias sobre princesas, castelos e cavalos. A menininha se encantava sempre que o pai finalizava a história com a princesa fugindo do castelo num cavalo malhado com o destino em seu encalço.
Não que como todas as meninas ela não quisesse um casamento luxuoso com um príncipe, com bolo de quantos andares for possível e aqueles vestidos de cortina. Ao contrário, ela esperava que o pai descrevesse o elegante traje do noivo, mas essa etapa nunca chegava. Era assustador demais para o pai descrever sua filha se casando. Preferia pensar que ela fugia livre, além de não pôr ideias tão cedo na cabeça da pequenina.
Ela se divertia com as histórias por conta das surpresas. O pai sempre fora criativo quanto ao enredo e ao exagero em descrições mágicas.
Falava calmamente até que Marie começasse a bocejar e permanecer com os olhos por mais tempos fechados que abertos, apoiado no ombro ossudo do pai. Ainda sonolenta via Benjamin carregando-a nos braços, tomando todo cuidado com a cabeça que pendia em seu ombro. Mais parecia uma boneca de pano que uma menina, quando dormia ficava completamente suscetível, e temia que quando crescesse continuasse com o sono pesado.
Deitava-a na cama e afastava o cabelo dos olhos, investia minutos observando-a ressonar, abraçar o travesseiro, arrancar toda coberta que o pai tinha colocado sobre o corpo.
A lembrança daquelas noites com histórias fez com que ela voltasse no tempo, numa situação muito ruim que se passou logo depois de abrir os olhos, fingindo estar dormindo.
Benjamin não tinha a menor pressa em chegar ao seu quarto, esperava que a mulher já estivesse dormindo, o que o pouparia de suas reclamações, sua voz fina e irritante.
Beijava a testa da menina quando terminava de rezar por seu anjo da guarda e caminhava para seu quarto todas as noites perguntando-se quando foi que a meiga filha do feirante com quem tinha se casado tinha se transformado numa bruxa.
Sabia que Marie não acordaria com qualquer discussão, mas era sempre essa sua desculpa para não incentivar a briga. Foram poucas as vezes que ela chegou a ouvir seus cochichos abafados no quarto. Apenas quando fingia ter dormido para tirar a curiosidade do que os pais faziam a noite. Descobriu que não faziam mais que engarrafar palavras feias, insultos e logo depois o silêncio. Certo dia ficou atrás da porta ouvindo a conversa e foi desse dia que se lembrou.
- Quando vai parar de gastar dinheiro com brinquedo para essa menina e vai começar a juntar para a obra da casa? – Perguntou a mãe num tom impetuoso.
- Com o dinheiro que comprei aquela boneca não daria nem para meia dúzia de tijolos.
- E a tiara do mês passado? Acho que se unir os valores você consegue sim. – Exasperou-se.
- Telma, vire-se para o seu lado e vá dormir. Se acordá-la não sei o que faço contigo.
- O que vai fazer hein? – ouviu alguns passos apressados no assoalho – Que vai fazer comigo? Essa garota me odeia. Desde o dia em que nasceu. Não sei como suporta olhar nos olhos dela! Azuis, tão transparentes como água. Sem sal, sem graça nenhuma.
A mulher não parava de falar um minuto, sua voz carregava o tom de arrogância descomunal. Frívola. Essa era a palavra que se resumia perante a filha. Não fazia um carinho, não lhe dava um sorriso. No momento em que ouviu aquelas palavras pode ter certeza de que todas as explicações que o pai dava para a falta de afeto da mãe eram uma mentira. Não era fria por um questão genética, não era fria porque os pais não tiveram tempo de lhe dar carinho. A ignorava por vontade própria.
- São os meus olhos, Telma. A minha filha tem os meus olhos. Se não calar a boca agora mesmo...
- Que vai fazer? Inventar uma história para a garota e colocar o meu nome na bruxa? Poupe-me. Ela não gosta de mim e ponto, não precisa de esforçar para isso.
- Telma. Ela não tem como gostar de você. Não tem motivos! Nem quando era um bebe sem discernimento você a acariciou! Tive que pedir pelo amor de Deus para amamentá-la! Coisa que você só fez uma vez.
A voz de Benjamin estava começando a ganhar um tom ameaçador. Os móveis no quarto estavam começando a ser arrastados. A pobre criança não compreendia o que se passava lá dentro, tinha vontade de se esconder, mas os ouvidos, curiosos, não desgrudavam da porta.
- Ela me machucou, Benjamin! – Gritou Telma em protesto.
- Ela estava morrendo de fome! Se não fosse pela filha de Pierre... Você a teria deixado morrer. Diga-me, Telma, por que toda essa fixação com nossa filha? Quando namorávamos você sempre dizia que queria ter filhos... Eu não entendo.
- Eu a odeio, Benjamin. – Afirmou a mulher com todas as palavras.
O homem derrubou algum objeto de porcelana no chão, os cacos escapuliram por baixo da porta. Nos pés da menina via-se um pedaço pontiagudo com metade do desenho de uma flor cor de rosa.
- Eu a odeio! Odeio por você ficar tanto tempo admirando sua beleza, seus cabelos loiros, seus olhos claros! Odeio por você ser completamente apaixonado por ela! Odeio por você me esquecer nesse quarto em detrimento de uma garotinha!
As palavras começaram a ficar entrecortadas, Telma caiu em soluços e não proferiu mais nada.
- Eu não posso acreditar que você sinta ciúmes. – Disse Benjamin num tom amargo.
- Onde você vai? – Perguntou Telma assustada.
- Para qualquer lugar longe de você.
E quando abriu a porta deparou-se com a menina, ainda de pé, com as mãos fechadas em concha no peito e as lágrimas escorrendo pelas bochechas como uma cachoeira límpida.
Ele a pegou nos braços e deitou a cabeça em seu ombro, murmurando maldições para Telma.
- Por que não dormiu, meu anjo? – Perguntou afagando-lhe os cabelos enquanto descia a escada.
- A mamãe não gosta de mim, pai. – Afirmou com os olhos marejados, observando Telma parada no beiral da porta. Os cabelos castanhos cortados rente ao pescoço e a franja bagunçada na testa. Telma era linda, morena, esbelta, filha de espanhóis. Mas o que tinha de bonita, tinha em dobro de egoísta.
- A mamãe não gosta de ninguém.
A voz de Benjamin ecoava em sua mente. Não poderia ter se esquecido daquela cena tão facilmente. Fazia anos, anos que não recordava daquilo. Achava até que nunca tinha se lembrado com exceção do dia seguinte ao ocorrido.
A imagem foi ficando distorcida e não pode enxergar Pilar com tanta nitidez como as outras cenas. Oscar a sacudia pelos ombros, aflito. Oscar? Sim, sim. Eles estavam tomando chá na sala de estar, logo depois do jantar.
- Marie? Marie? Está tudo bem? – perguntava segurando sua face com as duas mãos. – Estamos falando com você há minutos e não responde. Ficou aí, parada, olhando para a escada esse tempo todo, muda.
- Eu estou bem... Só um pouco cansada. Foram algumas lembranças que me laçaram, só isso. – Disse passando a mão no rosto, certificando-se que estava seca. – Que acham de continuarmos conversando amanhã?
Concordaram balançando as cabeças. Os gatos já tinham se acomodado no sofá e dormiam tranquilamente. Hatim e Oscar também se levantaram das poltronas segurando as xícaras e os pires.
- Bom, até conseguirmos uma cama extra para você, pode ficar com a minha. Não me importo em dormir no chão. – Disse Hatim a Claire.
- Muito gentil da sua parte, mas não posso aceitar. – Disse baixando os olhos – Se não parecer muito grosseiro, prefiro dormir aqui na sala com meus gatos.
- Quem foi que disse que está faltando cama? Enquanto não arrumo o quarto de Claire, no segundo andar, ela pode dormir na minha cama de casal. Tem espaço sobrando. – Disse Marie bocejando.
Os homens a encararam desconfiados e deram de ombros. Que mais podiam fazer? A casa era dela mesmo. Apertaram as mãos, colocaram as xícaras na cozinha e encaminharam-se para seus aposentos. Claire nos calcanhares de Marie, ainda muda. Não tinha negado o convite como fizera com Hatim, ao contrário, parecia ter aceitado de imediato.
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