Cárcere Das Almas
11 Capítulo 11 - Love is a losing hand
Notas iniciais
- Eu não vou. – Disse tirando os longos e finos dedos ossudos de Jacques de seu queixo.
Firmou os pés no chão como se quisesse afundar os saltos no taco de madeira. O homem sorriu mais uma vez pacientemente e entrelaçou os dedos nos dela aproximando-se do seu ouvido.
- Olhe bem para as pessoas da festa, mademoiselle. Metade delas não são da corte... Observe os olhares sendo trocados, os sorrisos. Essas festas não seriam tão boas se todos os convidados de fato se conhecessem. Se todos viessem apenas dançar com seus companheiros e fazer média com os primos.
- Se isso fosse verdade os seguranças não seriam necessários. – Cortou Marie.
- Ah, não. Os seguranças são um filtro. Só deixamos passar os mais espertos e inteligentes, os que chegam perto de passar-se por nós. Os que saberiam como agir caso algum escândalo viesse acontecer. E Claire é uma ótima atriz. Achei que ela tivesse passado todas as informações básicas a você... – Disse gesticulando com tédio.
- O que mais ela deveria ter me explicado? – Rosnou baixo.
- Ah, que mais deveria saber? Nada... Vamos, vamos. Estou ansioso por saber a cor dos seus trajes íntimos. – Disse dando leves tapas em seus ombros direcionando-a para escada.
- Solte-me! – Exclamou virando os cinco dedos da mão esquerda em sua face.
Naquele momento não conseguiu manter descrição. Suas luvas de renda não abafaram o som da bofetada nem amenizaram seus efeitos. Jacques massageava a bochecha insistentemente enquanto todos paravam de dançar para encará-los.
A música foi baixando aos poucos e Bernadeth e Claire aparecendo em meio a roda de curiosos que já cochichavam lamúrias sobre a queda de qualidade das festas com o tempo.
- Mas o que está havendo aqui?! – Gritou Bernadeth pondo-se frente ao marido.
- Não deve ter sido nada... – Disse Claire afobada – Marie está alta. Bebeu sem acompanhar com a comida, deve ter sido isso. É, foi isso, não é, Marie?
- Não tente justificar os erros de sua amiga, Claire. Essa mulher já esgotou a cota de gafes da noite. Tire-a daqui, senão expulso-a eu mesma! – Gritou Jacques – Fui afrontado! Eu já havia dito anteriormente que estava acompanhado, mas ela insistiu que eu fosse para um lugar mais reservado com ela. Obviamente recusei e por isso ficou tão nervosa!
- Mentiroso! – Gritou cortando todos os xingamentos que começavam a surgir dos murmúrios – Você queria me levar lá pra cima! Você queria fazer comigo o que todos aqui fazem! Adúlteros! Todos vocês!
Marie desprendeu-se dos braços de Claire, soltou os cabelos, arrancou as luvas jogando-as no chão e escarrou no tapete em protesto.
- Valem menos que os meus excrementos. – Disse dando as costas a todos que a olhavam atônitos – Agora vamos daqui, Claire.
E antes que passasse pelas cortinas de seda, Jacques a chamou uma última vez.
- Sabe o que eu não te contei? Que a sua tão amada amiga é a puta mais solicitadas de Paris.
Sentiu os pulmões inflando dentro do peito, os nós do espartilho se desfazendo tamanha força que tinha feito nos músculos. Os dedos fecharam-se nos punhos, estava pronta para se virar, para comprar a morte certa dentro de uma cela da Bastilha ao defender a honra de Claire até que seus olhos encontraram os da amiga. Vermelhos, embriagados, envergonhados, molhados.
Toda coragem escorreu por olhos que não eram os dela. A dignidade percorreu-lhe a bochecha levando consigo todo pó, toda maquiagem rosada, toda... Máscara. Claire mostrava-se agora como realmente era. De cara limpa, uma vergonha.
- Eu sabia que não ia gostar de sair de casa... – Murmurou puxando a seda para trás do corpo, passando pelos seguranças imóveis, pela porta entreaberta.
As pernas foram perdendo a força ali mesmo naquela calçada, os joelhos lhe falharam duas vezes tirando sua estabilidade e bastou que virasse a esquina para que caísse no chão, ao lado de uma poça. Olhou-se na água suja e deparou-se com a mesma cara que o pai fazia todas as vezes que entrava em casa. Agora ela sabia que era desgosto.
- Ma... Rie... – Soluçou Claire apoiando-se nas paredes da esquina de pedra, escondendo o rosto com as mãos.
- Diz que é mentira! Diz! – Gritou levantando-se do meio fio.
- Não vou desmentir. Agora você sabe que eu não presto! E aí? Qual é a diferença?
Claire enxugou as lágrimas, engoliu o mal estar e jogou-a na parede. Adquiriu um pouco de seriedade e encarou os olhos de Marie por alguns segundos. Exageraram aquela situação como duas mulheres parisienses que eram. Discutiram, tiraram argumentos de onde não existia, aumentaram o erro vinte e cinco vezes apenas para ter o que falar.
A morena direcionou-a num caminho desconhecido para a volta de casa. Mas qualquer lugar na noite escura era um ambiente diferente para Marie, que nunca saia de casa. Acabaram num beco cheio de barracos, apartamentos apertados ao redor de um chafariz inutilizado. Escadas de ferro, corredores e portas de madeira. Algumas plantas mortas também faziam parte da decoração do local.
- Onde estamos? Mas que inferno! Eu quero ir para minha casa! – Disse Marie estendendo os braços para o céu, caindo sentada no banco de cimento ao redor do chafariz.
A lua posicionou-se sobre a sua cabeça iluminando a gosma cinzenta que escorria do topo, onde deveria sair uma água límpida. Mas até que aquele cenário estava próprio para uma briga helênica.
- Estamos na minha casa e você vai parar de ser mimada agora mesmo. Não estou em condições de caminhar até sua casa, levante-se e acompanhe-me.
A voz de Claire expressava mais do seu cansaço do que o rosto abatido. Já não tinha mais paciência para brigar, negociar ou tentar explicar. Tinha perdido a vontade de convencê-la de qualquer coisa. Era cabeça dura demais, agora a única coisa que queria era cair em sua cama e dormir.
- O que? Mas eu já disse! – Teimou batendo os pés.
Ela levantou a barra do vestido, caminhou até uma das escadas de ferro e subiu. Tirou uma chave pequenina de dentro do decote e abriu a porta, murmurou algo sobre ser perigoso uma moça passar a noite num chafariz e adentrou a porta deixando-a meio aberta.
Não havia outra alternativa que não segui-la. O farfalhar das folhas das plantas já eram motivo suficiente para assustá-la e fazer com que entrasse no apartamento de Claire. Subiu as escadas segurando no corrimão enferrujado, levantando o vestido para não tropeçar.
A morena já tinha tratado de acender uma vela velha num pires cheio de cera. Estava sentada no sofá esperando-a passar pela porta.
- Vamos, vamos logo com isso, Marie. Eu tenho gatos, fique tranquila. Como pode ver eles são bem gordos. Não tem um rato que entre nessa casa e permaneça vivo. – Disse apontando para os bichanos malhados que esfregavam-se em suas pernas.
Marie fechou a porta com cuidado, obedecendo. Não dava para ter uma visão privilegiada da casa com apenas uma vela acesa, mas bastava para saber que era muito pobre. O papel da parede descascando, o forro do sofá saindo por buracos, o assoalho de madeira arranhado. A única visão que deveria ser deslumbrante naquele ambiente caótico era sua dona que nada tinha de glamourosa.
- Ora, não fique aí parada. Eu não aguentei vê-la descobrindo meu segredo... – Disse com a voz manhosa, acariciando um outro gato que apareceu no braço do sofá – Mas é assim que eles chamam as artistas. Não pense que me entrego a qualquer um, Marie...
Era incrível comoo conseguia ser tão bipolar. Numa hora lamentava como uma pecadora, na outra agia como um homem orgulhoso.
- Sente-se aqui do meu lado. Procure me entender... Eu só queria que se divertisse, que visse... – os soluços começaram a cortar as palavras – Não vai deixar de ser minha amiga, vai?
Marie se aproximou lentamente, sentou-se ao seu lado, passou a palma da mão direita na bochecha molhada da mulher e deitou a cabeça em seu colo. Deixou que ela chorasse o quanto quisesse, que o arrependimento fosse embora junto com o que lhe restava de bebida.
- Onde fica o banheiro? – Perguntou minutos depois – Preciso te dar um banho...
Mesmo sonolenta, a morena cooperou caminhando. Despiu-se com sua ajuda e entrou debaixo da ducha de água gelada.
- Marie... Eu nunca senti algo tão forte por alguém como sinto por você. — Murmurou puxando-a para debaixo d’água num lapso de desequilíbrio.
Depois de secas e vestidas dormiram na cama de casal sobre os perfumados lençóis cor de rosa. Claire agarrou a cintura da amiga e dormiu abraçada a ela em menos de cinco minutos. Nunca passou pela cabeça de Marie que um dia dormiria ao lado de uma mulher na mesma cama, ainda mais dentro de um apartamento velho, caindo aos pedaços. Mas as circunstâncias já não importavam, o que ela achava mais inacreditável era a sensação de liberdade que sentia ali. Quase como se o seu vazio tivesse sido preenchido completamente.
Fechou os olhos e dormiu sentindo a respiração quente e calma da amiga no pescoço.
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