Cárcere
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Inicialmente, aceitem minhas desculpas pelo atraso. Sinceramente, pra Delilah eu tenho uma desculpa mais concisa, visto que somente agora encontrei tempo para escrever, mas para Cárcere... Ela foi afetada pela minha abstenção dos prazeres virtuais, aka: tumblr, ff.net e Nyah. De toda sorte, apesar de demorar, o último capítulo chegou. Em algum momento deverei postar os one-shots extras dos quais já devo ter falado.
Agora...
O Matthew é o vilão mais foda ever.
Até mesmo mais foda que o tio Voldinho aka: Lord Voldemort. Heh. Kidding. Muah, não sei. Só sei que adorei vê-lo nesse papel, porque é exatamente tão oposto daquilo que ele aparenta ser que até combina. Em todo o caso, esse é o último capítulo dessa fanfic e provavelmente a conclusão vai agradar uns, mas não outros, mas é a vida. No fim, eu tentei fazer o possível para agradar ingleses e americanos.
Agradeço a todas (ou se tiver um homem aí, todos) que acompanharam a fic, que favoritaram, que deixaram reviews ou que só gostaram mentalmente mesmo. O que não quer dizer que vocês não possam mandar reviews nesse capítulo também. You know. Heh.
Boa leitura ~
Os noticiários daquele mês de Outubro anunciavam a todo o momento o estranho fenômeno que parecia tomar conta do planeta ao mesmo tempo. Nenhum confuso meteorologista conseguia explicar o porquê de um dia o céu nublar paralelamente em Tóquio, Berlim, Madrid, Roma e Washington e assim permanecer durante semanas, com a ocorrência de ocasionais tempestades, potencialmente devastadoras, que ceifaram milhares de vidas humanas, sem dó ou piedade, sem distinção de raça, credo, gênero, cor ou idade, nos vários cantos do mundo. O mais curioso era, no entanto, que na maior parte do tempo o céu cinzendo mais parecia um palco onde dançavam graciosa e assustadoramente centenas de milhares de raios e de onde ecoava o som quase ensurdecedor dos trovões.
"Tch. Eles não param de chegar, os mortos. O que é isso? Outro presentinho do Zeus pro Hades?" Disse Lovino, enquanto terminava de receber um grupo de Berwald. O estóico balseiro suspirou, também exausto com a quantidade de trabalho. Mei olhou do barqueiro para o mensageiro, mas permaneceu calada.
"Creio que não. Ele não tem mais o controle sobre os seus poderes. Estamos a mercê do destino."
"O que você quer dizer?" Perguntou confuso o mensageiro. "Como assim ele não controla mais os seus poderes?"
Berwald fitou o Aqueronte com uma expressão neutra, seus olhos apenas acompanhando a estranha movimentação em seu tão precioso rio. Lovino e Mei o acompanharam com o olhar e ao avistarem aquilo que Berwald sinalizava, Lovino ficou boquiaberto enquanto que a esposa de Hades levou as mãos ao rosto, pasma.
"E lá vai ele." Disse o barqueiro, meio enfadado.
"Lovino, vá, peça para Heracles localizar Pégasus e vá com ele atrás de Zeus imediatamente." Alertou Mei.
"Mas..."
"Vá. Você tem minha permissão para sair do submundo."
Ignorantes às preocupações do submundo, Kiku e Francis sentavam em cantos opostos da cela, o primeiro com a cabeça meio baixa e fazendo um esforço descomunal para erguê-la, o segundo apoiando a cabeça na parede, com os olhos semicerrados. Já fracos, seus corpos não lhes permitiam sequer se mover e a cada minuto pareciam enfraquecer ainda mais. Haviam há algum tempo perdido a noção do tempo. As respirações eram ofegantes, como se estivessem à beira da exaustão e um suor gelado molhava seus rostos. Tentavam se comunicar pelo olhar, já que falar lhes custaria ainda mais energia. Kiku buscava, de alguma forma, convencer o outro – e a si – mesmo que Arthur ainda viria.
Um vulto bloqueou a entrada da cela e o barulho das grades sendo abertas chamou a atenção dos dois ocupantes.
"Olhe para você." Disse uma voz séria. Ares caminhou até Afrodite, ajoelhou-se na sua frente e ternamente colocou a parte de seu cabelo que ficara pregada a seu rosto em virtude do calor atrás de sua orelha e segurou-lhe a mão. Hefesto estava parado na porta, com a mais jovem das Graças agarrada a seu braço que, em forma humana, tinha uma expressão preocupada no rosto.
"Vee, faça alguma coisa, Lud. Eles precisam de sua ajuda."
O aludido sacudiu a cabeça.
"Não há muito o que fazer se não esperar Hades aparecer. Você ouviu Hera."
Ludwig caminhou até Francis e Gilbert, seu olhar indo de um para outro, sem olvidar das mágoas existentes entre ele e os eventuais amantes.
"Você não deveria ter tomado partido de Hades, Francis. A causa dele é perdida."
"Quando falamos de amor, nenhuma causa é perdida, querido." Ofegou Francis com um sorrisinho no rosto.
"Lud!" Choramingou Feliciano. "Por favor!"
Ludwig suspirou, um pouco contrariado, e tomou a mão livre de Francis sob o olhar curioso de Ares e envolveu-a com suas mãos infinitamente mais quentes e maiores que as da deusa enfraquecida, fechou os olhos e começou a murmurar algo que lembrava uma espécie de mantra. Em seguida, caminhou até Kiku e, ajoelhando-se na sua frente, apesar do olhar de desconfiança que recebia, fez o mesmo.
O brilho foi voltando lentamente aos olhos de Kiku e, embora ele ainda permanecesse pálido e suasse frio, sua respiração se tornou mais suave. O mesmo se deu com Francis, que já estava inclusive mais corado.
"É o que posso fazer. Reestabeleci uma parte de suas forças para que assim eles não desapareçam. Por favor, não peça mais."
"Vee, obrigado!" Sorriu Feliciano abraçando calorosamente o maior.
"Achei que você estivesse do lado do Mattie." Gilbert fez um bico
"Você gostaria que ele desaparecesse?" Ludwig cruzou os braços e Gilbert franziu o cenho.
"Tch. Não vou comentar com Mattie só porque se ela desaparecesse aquele sobrancelhudo não ia vir mesmo e isso tiraria minha incrível diversão AHAHAHAHAHAH."
"O que você não vai comentar comigo, Gil?"
Ludwig, Gilbert e Feliciano ao mesmo tempo gelaram e se sobressaltaram. Gilbert, em um pulo, afastou-se de Francis e pigarreou, desconfortável. O albino preferiu não responder e sustentou um olhar sério na direção do loiro recém-chegado.
Matthew franziu o cenho, mas não insistiu. Estava bastante ciente do que se passara, mal para os que não o haviam percebido ali. De todo o modo, não era ignorante à relação entre Gilbert, Francis, se tampouco Ludwig era.
"Vim chamá-los para nos reunirmos. Poseidon recebeu uma informação do submundo e parece fora de si. Não sei por que, tampouco quero saber. O que importa é que, ao que parece, Hades virá ainda hoje. E espero eu que o inconsequente do meu marido também apareça." Matthew tossiu meio desconfortável e com as bochechas meio coradas, enquanto um sorriso travesso se desenhava no rosto de Francis e Gilbert fazia um bico.
"Honhonhon, preocupado com o maridinho? Não se preocupe, Artie está cuidando muito bem dele ~"
Muito contra as expectativas, foi Gilbert quem retaliou Francis. Em parte porque sua violência foi deveras inferior à que Matthew seria capaz, em parte porque o comentário o irritou de duas maneiras. De qualquer forma, a satisfação de Matthew se traduziu na vermelhidão em suas orelhas e um agradecimento meio tímido.
"Tragam esses dois também. Quero que vejam enquanto eu destruo o oh, tão precioso amor que eles defendem." Disse, antes de se virar e sair.
Paralelamente, enquanto que no mundo dos vivos as tempestades pareciam piorar a cada minuto com a adesão de ondas gigantescas e um mar hostil, no Olimpo, Poseidon descontava sua fúria com gritos.
"ONDE ESTÁ ELE? ONDE ESTÁ? DIGA ONDE VOCÊ O ESCONDEU, BASTARDO!"
Arthur arqueou a sobrancelha, com um sorriso de deboche no rosto.
"Do que você está falando, Tonio? O Lovi é livre para ir e vir, se ele optou por ficar lá a culpa é minha ?"
"Você vai se arrepender, filho da p..."
"Antonio, NÃO! Ele está zombando da sua cara!" Démeter tratou de conter o enfurecido senhor dos mares. "Lovino está bem. Minha filha disse que ele está auxiliando na condução das almas até o submundo."
"O quê?"
"Muitos humanos estão morrendo. O submundo está abarrotado." Arthur cruzou os braços, falando como se todos os presentes fossem um pouco culpados. Matthew, que havia acabado de chegar e se iterar de sua presença, tomou-o de supresa agarrando-lhe pela gola da camisa.
"Onde. Está. Ele?" Perguntou entre dentes. "Não minta para mim, sei que estavam juntos! Onde está Zeus?"
Os olhos esmeralda brilhavam com uma diversão sádica.
"Descansando. Sabe como é, eu dei muito trabalho a ele, se é que você me entende."
Matthew rangeu os dentes.
"Vocês não..."
Arthur não respondeu, mas o seu sorriso de escárnio já bastava. Os presentes lançaram um olhar preocupado para Hera, que parecia que explodiria a qualquer momento.
"Zeus, seu desgraçado, mostre essa sua cara aqui agora mesmo." O tom, embora lento, era trêmulo e soou infinitamente mais ameaçador do que se se tratasse de um grito. "Eu vou matá-lo se você não aparecer, matá-lo como fiz da última vez e, dessa vez, tratarei de eliminá-lo como humano também, você me ouviu?" Ameaçou. "É melhor aparecer."
Uma repentina careta de desgosto se formou no rosto de Arthur. Após um silêncio perturbador, suspirou e parecendo um pouco contrariado admitiu que Zeus não apareceria.
Matthew sorriu.
"Ah, não, ele vem. Pode acreditar que ele vem."
Arthur não soube quando ele finalmente ficou na mais absoluta desvantagem. A princípio, parecia um jogo justo: ele contra Hera – e talvez Poseidon. Um embate direto, simples, sem maiores complicações. Aparentemente, contudo, os demais deuses não pareceram estar de acordo com o planejamento mental do senhor dos mortos. Afora Ivan, que preferiu manter apenas um apoio moral a Matthew sem demonstrar interesse de envolvimento direto, e Yao, que tinha interesses superiores, tais como a segurança de sua filha no submundo, o que perpassava exatamente pela máxima de se manter distante de quaisquer problemas de Hades e relacionados a Hades, Antonio, Gilbert, Ludwig, e os gêmeos Lili e Vash cercaram Arthur em um cerco deveras desproporcional.
"Escondendo-se atrás dos seus aliados novamente, Hera? Já vi essa novela antes. Se você quer tanto defender seu homem ou sua honra arruinada, é mais efetivo que duelemos, sem a interferência dos outros."
Matthew riu.
"Mas é claro que eu não vou lhe dar essa chance, Arthur. Em nenhum momento eu disse que isso seria uma luta justa."
Na sua cela, Kiku se contorceu.
"O que foi, Kiku?" Perguntou Francis com a voz meio fraca.
"M-Matthew, seu desgraçado..."
Eles ouviram Arthur gritar uma, duas, três vezes. Eles ouviram Arthur amaldiçoar, invocar seus aliados do submundo e ouviram o som da batalha ocorrendo, das lâminas se chocando e dos trovões retumbando logo abaixo de si. Sentiram o odor do sangue invadir suas narinas e temeram por ambos os lados. Kiku tentou em vão se levantar, mas não encontrou forças.
"Droga." Grunhiu o moreno. "Onde está a parte do acordo que deveríamos ser soltos quando Arthur aparecesse?"
Francis pareceu desamparado.
"Você acha mesmo que eles vão lembrar que estamos aqui? Não antes de terminarem de massacrar Hades. E aí vai ser a nossa vez."
"Tch. Ponha um pouco mais de fé na gente, bastardo. Já estou arrependido de ter vindo aqui."
"Lovino" Cantarolou Francis como se acabasse de presenciar um milagre.
"Ve, tenham calma, já tiramos vocês daí." Tranquilizou, agachando-se e passando o braço de Francis sobre seu obro. Lovino fez o mesmo com Kiku. Os dois prisioneiros pareciam pesar de fato algumas boas tolenadas.
"Feli ~. Oh, que alegria! Vocês dois aqui, na minha frente, tão belos."
"Cala a boca, idiota, quem é que estava falando de ser massacrado há um minuto? E NÃO TOQUE NELE, DROGA!"
"Como você chegou aqui, Lovino?"
"Você está brincando com a minha cara? Eu sou o mensageiro dos deuses! Transito entre Olimpo e submundo com uma liberdade que vocês nunca terão."
"E por que não veio mais cedo?"
"Arthur não deixou o Lovi sair de lá, ve. Pra evitar que ele o espionasse a mando do irmão Toni."
"Você quer calar essa boca, idiota?"
"Claro, por que não pensei nisso antes."
"Só mais alguns passos, ve. Quando sairmos da cela, seus poderes se restabelecerão."
Os últimos quatro passos pareceram uma eternidade e foram dados somente sob o som marcante das respirações agitadas dos quatro. O primeiro passo fora da cela revigorou os espíritos dos ex-prisioneiros, devolvendo-lhes sua condição de deuses na íntegra.
"Obrigado, Feliciano. Lovino."
"Não nos agradeçam. Só tratem de evitar que aquele bastardo que é uma triste desculpa para Deus estrague ainda mais os planos do bastardo das assombrações."
"Espera, o quê? Zeus está vindo?" Perguntou Francis alarmado.
"Não." Inspirou Kiku. "Ele está aqui."
A proposição de Kiku foi confirmada com uma risada histérica conhecida até demais que ecoou por todo o Olimpo.
Kiku analisou Lovino.
"O quê?"
"Lamento o que eu vou fazer agora, mas prometo que será por pouco tempo e você não se machucará."
"M-mas que merda, s-seu bastardo, o q-que você..."
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"S-seu estúpido." Disse Arthur meio abatido. "Eu disse para você não vir."
Alfred estava parado entre Arthur e Antonio, com as mãos na cintura e um sorriso que não se sabia se era forçado ou apenas um mero costume. A desvantagem de seu amante era, de fato, gritante. Arthur tinha ferimentos por todo o corpo, sentia o gosto metálico do sangue que escorria pelo canto de sua boca e podia jurar que o seu braço esquerdo estava meio deslocado. Antonio, contudo, não estava intacto e apresentava vários arranhões e suspeitava que uma de suas mãos estivesse quebrada. Seus aliados, contudo, estavam bem até demais.
"Trégua, Antonio." Falou com uma voz firme. "Essa luta não lhe pertence."
"Você não manda em mim, Zeus."
Alfred olhou de relance para o lado, suspirou e atestou. "Sei que não." Observando um sorriso satisfeito no rosto de Antonio. "Mas conheço alguém que mande." Sinalizou com o polegar as quatro figuras paradas à sua esquerda: Kiku e Francis tendo em mãos um Lovino desacordado e um Feliciano apreensivo.
"Feliciano!" Adiantou-se Ludwig.
"Lovi!"
"Vejam, com o tempo eu aprendi um pouco da arte da diplomacia. Assim vocês não podem mais me chamar de inconsequente ahahaha!"
Kiku suspirou com alguma certeza de que chantagem não era exatamente o seu modelo ideal de diplomacia e adiantou-se.
"Antonio e Ludwig, eu vos proponho abandonar essa causa em troca da segurança de seus preciosos amantes. O que me dizem? Pensem que não é muito diferente do que Alfred quer com Arthur. Não sei porque vocês estão em lados opostos, afinal, se fariam o mesmo por esses dois aqui."
Antonio engoliu seco e olhou de relance para Ludwig que mecanicamente havia repetido o mesmo gesto. O primeiro adiantou-se até Alfred e parou ao seu lado, jogando seu enorme machado no chão como prova de aceitar a trégua. Ambos se encararam por algum tempo, como se conversassem por telepatia. Em seguida, Antonio caminhou até Kiku e Francis e solicitou que lhe entregassem Lovino. Ninguém se atreveu a contestar e Antonio saiu de cena carregando seu precioso mensageiro como se uma bela noiva adormecida fosse. Por sua vez, Ludiwig pigarregou meio desconfortável e imitou o gesto de Poseidon, tomando Feliciano pelas mãos e com o exato pensamento de como aquela luta era uma perda de tempo.
Alfred então, após haver tratado de prolongar por tanto tempo o momento, finalmente se virou para encarar Matthew, que estava parado, meio atônito, meio congelado pela raiva, com as mãos apertando tanto o braço de seu trono que se podia ver suas veias saltando para fora. Ele nem mesmo conseguia levantar e Gilbert preferiu nem tentar olhar para a figura em ebulição sentada ali perto. Em nenhum momento Alfred saiu da posição que estava, como se temesse que essa movimentação pudesse suscitar maior retaliação.
"Então..."
"Então."
"Estou aqui. Não era o que você queria?"
"Gracioso como sempre, não é?"
"Faço o possível." Deu de ombros.
"Devo dar minhas congratulações. É a primeira vez que vejo você se livrar de Poseidon sem precisar apelar para sua força bruta."
"Todos evoluímos."
"Mate Arthur, ou farei isso eu mesmo."
Alfred negou com a cabeça.
"Fui idiota da última vez, com medo de desestabilizar o equilíbrio do mundo e tudo mais. Mas agora realmente não importa. É um circulo vicioso. E dessa vez tampouco lhe darei a oportunidade que você teve."
"Eu sempre tolerei bem demais seus casos, Alfred, mas dessa vez foi longe demais."
"É? Me pergunto por quê."
O tom irônico de Alfred denunciava a insinuação da causa que ele mesmo já tinha ciência. Matthew, da mesma forma, sabia e sabia muito bem – embora jamais fosse admitir – que aquele caso o perturbava tanto pela imortalidade de dimensão do poder de Arthur quanto pela sinceridade e intensidade dos sentimentos de Alfred por Arthur como seu marido jamais sentira por ele mesmo no auge de sua paixão inconsequente. Como de praxe, se sentia ameaçado. Mas dessa vez, a ameaça o aterrorizava de verdade.
Levantando-se em um movimento rápido, bradou que se Zeus não saísse da frente, não hesitaria em passar por cima dele, mesmo que isso possivelmente destruísse um deles. Estava tão cego pelos ciúmes e pelo medo que perdera o real objeto da empreitada a ponto de ameaçar eliminar o próprio marido. Não era tão diferente dos humanos afinal, se deixando cegar por suas premissas já distorcidas.
Diante da impassividade de Zeus, não hesitou e avançou sobre ele, buscando, sobretudo, contorná-lo para alcançar Arthur. Alfred o segurou, quase abraçando.
"Matt, por favor, pare. Isso não faz mais sentido." Sussurrou-lhe, como se o acalentasse.
"Calado! Eu juro que vou me vingar dessa humilhação, eu juro!"
"Você está fora de si."
"Não estou!" Berrou. Alfred não viu o que Arthur viu. E talvez por isso, este viesse a se amaldiçoar um dia por não haver reagido a tempo. Mas bem ele sabia que não teria tempo de sequer abrir a boca para alertá-lo, primeiro porque não conseguia sequer se mover e segundo porque foi tudo tão rápido que mesmo Alfred demorou a sentir a dor aguda em seu peito e o líquido quente escorrendo por ele. E aí ele virou para Arthur, como se perguntasse o quê exatamente havia acontecido. E quando Alfred virou, ele viu como, em uma questão de milésimos de segundos, Gilbert trataria de partir Arthur em dois, devolvendo-o ao seu cárcere humano com o então abandonado machado de Antonio baixo os gritos desesperados de Francis e um subsequente golpe de lança de Kiku em seu estômago.
Se Alfred, sendo quem era, estivesse em suas condições plenas, aquele ferimento – e Hera bem sabia disso – não passaria de um arranhão inútil; incômodo, mas tão facilmente recuperável quanto um mínimo corte feito com papel no canto do dedo. O que, contudo, Matthew não sabia e Arthur descobrira pouco mais cedo naquele dia enquanto estava deitado na cama envolvido pelos braços do amante era que, para poder realizar todo o plano de aparecer como um fantasma para Arthur sem, ao mesmo tempo, ser percebido pelos demais deuses, Alfred havia perdido parte de sua condição absoluta de Senhor dos Deuses, limitando-se a uma condição tão semelhante a de um semideus que parecia até degradante. Por isso se abrigara no submundo. Por isso temia aparecer. Estava fraco, tão fraco que o restante de seus poderes parecia piada. E a fatídica adaga de Hera em seu peito não soaria então como um inofensivo papel, mas lhe atribuiria um destino tão cruel quanto o que seu esfacelado amante tornaria a receber.
Matthew, ainda ignorante, tinha um sorriso satisfeito no rosto e a paciência de esperar que Alfred parasse com a encenação e se recuperasse instantâneamente, como faria de acordo com seu conhecimento de mundo. Mas os segundos – que pareciam minutos – provaram que o sangramento só se tornava mais e mais forte – e Alfred, mais e mais pálido, até seus olhos adquirirem um tom cinzento e sem brilho em vez do azul celeste vívido de sempre. Kiku e Francis assistiam atônitos à cena, sem saber o que deveriam fazer para acabar com aquela tragédia.
"O que você está esperando, idiota? Vamos! Recomponha-se!"
O silêncio de Alfred lhe deixou em pânico.
"Alfred, não brinque comigo! Vamos, pare logo com essa porcaria de sangramento!"
O aludido suspirou, meio irritado. E abraçou Matthew, sentindo todo o calor que emanava de seu corpo e seu sangue manchar a túnica branca que usava. Não era que ele não amasse aquela criatura ao mesmo tempo doce e ciumenta, de certa maneira frágil que era sua esposa. Era que ele amava Arthur mais do que tudo, talvez até mais que seus próprios humanos. Por qual outra razão, senão, ele lhes permitiria perecer e descer aos domínios eternos e obscuros do Hades? Matthew sentiu um choque – um choque de verdade – tão forte que parecia que ia explodir. Em questão de segundos, ele entendeu tudo. Amaldiçoou Zeus, com a respiração ofegante e sentindo a queimação em seu peito se espalhar por todo o seu corpo, quase como em um curto circuito.
"Nos vemos por aí, Mattie." Confidenciou Alfred, sendo o último pensamento que se passou pela sua cabeça naquele momento o de que depois ele arrumaria uma maneira de se desculpar com Kiku e Francis e assim, desfaleceu sobre o esposo, mais duro que pedra e com seu todo-poderoso raio, recém-utilizado, caindo próximo a seus pés.
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Os gemidos masculinos meio abafados violavam o silêncio do pouco frequentado banheiro do bloco de História. Os dois jovens trancados no segundo box perto da parede tinha as respirações ofegantes, Arthur cavalgando sobre Alfred com uma paixão quase selvagem. Grunhiam e gemiam um o nome do outro, enquanto trocavam carícias e se beijavam para tentar abafar os sons de suas travessuras universitárias. O que Alfred mais amava era poder desgrenhar ainda mais os revoltosos cabelos do namorado e o que Arthur mais avama era poder se deleitar com o brilho de luxúria que maculava o puro azul celeste dos olhos de Alfred. Arthur chegou ao clímax um pouco antes de Alfred, que o agarrou como se sua vida dependesse daquilo, enquanto se enterrava dentro do corpo do namorado. Esperaram a respiração voltar ao normal para rir feito duas crianças que fizeram uma travessura bem sucedida.
"Eu te amo." Sussurrou Alfred, beijando ternamente a testa de Arthur.
"Também te amo, git." Falou com um forte sotaque inglês, acariciando os cabelos de Alfred, um pouco molhados pelo suor.
Deixaram que o silêncio do ambiente falasse um pouco, aproveitando a presença e o calor um do outro, sem se separarem.
"O que fazemos agora? Gazetamos a aula do Honda?" Perguntou o mais alto com o semblante cheio de esperança.
"Mas acabamos de faltar a aula do Bonnefoy! Alfred, o que eu já lhe falei sobre gazetar para fazer sexo?"
"Uh. Que você gosta?"
Arthur manteve a expressão séria e o cenho franzido.
"Ahhh, Artie, qual é! Você só falta a aula do Bonnefoy porque ele é francês? Que preconceito contra os japoneses é esse?"
Arthur procurou segurar o riso, na esperança de manter a autoridade sobre Alfred. Seu namorado tinha libido demais pro seu gosto, isso sim. Parecia querer experimentar e desbravar cada canto da universidade ou de outro lugar que lhe garantisse uma oportunidade. A primeira vez deles havia sido tudo, menos romântica como Arthur esperava, exceto para os que considerassem ser romântico fazê-lo na sala dos professores.
Estudante do segundo ano de literatura de 23 anos, inglês, Arthur Kirkland conhecera Alfred F. Jones, um jovem e energético americano, quando este perambulava pelo prédio de Literatura em um dia de Outono em Oxford, e teve uma péssima primeira impressão. O então calouro de História era barulhento, intrometido, perturbava e zombava de Arthur como se tivesse toda a intimidade do mundo com ele. Dois anos depois, ele realmente tinha. Alfred um dia lhe confidenciou que fora guiado ao prédio de Literatura porque alguém parecia lhe chamar de lá e quando Arthur sugeriu que poderia se tratar de um fantasma – o que não deixava de ser verdade –, Alfred passou duas semanas sem passar perto do prédio.
"Não, já basta por enquanto."
"Aaaaaw mas, Artie!"
"Eu disse que não!" Asseverou, separando-se de Alfred e tratando de vestir os boxers e a calça. O sorriso de Alfred caiu. "Mas quando chegarmos no dormitório, você pode fazer como quiser." Seu sorriso tornou a brilhar enquanto ele ajeitava suas próprias roupas.
"Yay, Artie, obrigado!"
"É, é. Não sei de onde você tira tanta libido." Resmungou, recebendo um selinho do maior.
"Sua culpa." Respondeu lhe dando um selinho.
Já vestidos, os namorados sairam do boxer que mais cedo presenciara seu ato apaixonado de mãos dadas, trocando sorrisinhos cúmplices. No mesmo momento, eles se aperceberam da presença de um terceiro, que lavava as mãos limpas com a maior calma do mundo.
"Mattie!" Alfred acenou para o gêmeo.
Arthur não sabia se Alfred preferiu ignorar, ou se sua típica ingenuidade lhe impediu de perceber que seu irmão estava qualquer coisa, menos feliz em vê-lo. De fato, o jovem Matthew parecia estar completaente ciente do que acontecera momentos antes entre seu irmão e o namorado – e Arthur não demorou para perceber isso, desconfiando, inclusive, que ele pudesse estar presente durante uma parte ou mesmo todo o ato. Arthur sabia e Alfred sabia também, que por motivo que lhes fugia à compreensão, Matthew não simpatizara com a cara de Arthur quando se conheceram. Aliás, simpatizar era puro eufemismo.
"O que nossos pais diriam se soubessem que você gazeta aulas para foder seu namorado no banheiro?" Disse com a voz fraca de sempre.
"O que eles diriam se soubessem que você gazeta aulas para pagar de voyeur enquanto eu fodo com o meu namorado no banheiro?" Provocou, zombeteiro e sem malícia, entendendo como brincadeira a insinuação do irmão. Diante da resposta de Alfred e do olhar de ódio de Matthew, Arthur engoliu seco.
"P-para sua informação, eu estou no meu intervalo, ok?"
"Maaas ainda paga de voyeur. Tsk. Matt, você precisa arrumar uma namorada. Ou namorado, como preferir."
Matthew ficou em silêncio, com a expressão neutra, como se preferisse engolir a resposta que queria dar. Ele observou com o mesmo silêncio o irmão se despedir e não respondeu ao aceno com cabeça de Arthur, seus olhos acompanhando cada movimento deste até que finalmente eles saíssem do banheiro, ainda de mãos dadas. Nem Alfred, nem Arthur ouviram o barulho do espelho quebrando dentro do banheiro, nem veriam o sangue escorrer dos punhos de Matthew ou suas palavras baixas carregadas de veneno e dirigidas a arruinar a felicidade do casal. Naquele momento, nem Alfred, nem Arthur ou Matthew saberiam que estavam sendo observados, tampouco este estava consciente de despertar uma paixão quem sabe doentia em alguém que um dia conheceu, muito embora não se lembrasse.
"Kesesese ~ Diga ao Tonio que finalmente os encontrei!" Anunciou animado. "E que os jogos recomecem!"
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