Cálice de Fogo
18 A Segunda Tarefa do Torneio Tribruxo
Notas iniciais
Houve uma visita a Hogsmeade na metade de fevereiro, mais precisamente na semana do dia dos namorados. No sábado de manhã, Naruto e Sakura deixaram o castelo juntos, atravessaram os jardins frios e úmidos em direção aos portões. Ao passarem pelo navio de Durmstrang ancorado no lago, viram Sasuke Uchiha saindo para o convés, trajando apenas roupas de banho. Ele era magro, mas bem mais forte do que parecia, porque subiu na amurada do navio, esticou os braços à frente e mergulhou direto no lago.
– Ele é doido! – exclamou Naruto abismado, observando o rosto do Uchiha emergir no meio do lago em meio às braçadas. – Deve estar congelando, ainda estamos no inverno!
– É muito mais frio no lugar de onde ele vem – comentou Sakura. – Imagino que ele sinta até um calorzinho aqui – sorriu carinhosamente acenando para ele quando o mesmo ergueu um dos braços em cumprimento quando a viu.
– Será que avisaram pra ele sobre a lula gigante? – se questionou quando retomaram a caminhada.
– Naruto, todos os alunos da Durmstrang nadam no lago, o diretor Hiruzen deu autorização para eles – explicou a amiga, como se fosse óbvio.
– O que? Por que o diretor nunca deu autorização pra gente? – se queixou.
– Até parece que você não conhece os alunos de Hogwarts – ela revirou os olhos.
– Somos terríveis – ele concordou depois de pensar por um momento. – E como é o Uchiha? – ele perguntou depois de um tempo caminhando ao lado da amiga.
– Ele é realmente legal, sabe – ela sorriu carinhosamente. – Não é nada do que se poderia pensar de alguém que vem de Durmstrang. Ele me disse que gosta muito mais daqui.
Naruto não fez comentários. Não mencionava muito o Uchiha, mesmo que fosse muito fã do jogador, se Sakura quisesse conversar sobre, ela mesma falava espontaneamente. Mas era engraçado ver as reações dos alunos, Naruto já tinha até a encontrado miniaturas de partes de boneco perdidos pelo castelo, desde que haviam voltado das festas de fim de ano, que davam a impressão de terem sido arrancados dos modelinhos com os uniformes de quadribol da Bulgária.
O jogador podia fazer muito sucesso, mas na escola, Sakura não ficava para trás, havia alunos que comentavam que eles faziam um casal bonito, mas muitos morriam de inveja, Sakura tinha sua própria parcela de admiradores, é claro, Nagato era um deles e não podia ver ou ouvir sobre o jogador que a cara amarrava.
Em Hogsmeade eles se separaram depois de um tempo, cada um seguindo um caminho diferente, mas no final do dia Naruto ouviu muitos comentarem sobre Sakura e Sasuke terem passado a tarde juntos.
. . .
Naruto havia guardado o ovo de ouro em seu malão no dormitório e não o tinha aberto desde a festa de comemoração da primeira tarefa. Afinal, ainda faltavam dois meses até que fosse necessário saber o significado daquele grito horroroso. Agora, faltando menos de duas semanas para a segunda tarefa, se arrependeu amargamente disso.
Ele ainda não tinha nenhuma pista do que fazer com aquele bendito ovo. O garoto suspirou, bagunçou o cabelo e se jogou de costas na cama, caindo em um sono conturbado por pesadelos em perder e envergonhar Hogwarts de maneiras desastrosas.
No decorrer dos dias seguintes, mesmo que sem querer, Naruto reparou que não só Sasuke Uchiha nadava no lago, mas que Ino Yamanaka e Utakata Uton também.
Então sua cabeça deu um estalo. A próxima prova seria embaixo d’água.
. . .
– Você… – impressão dele ou o olho da amiga havia, de fato, tremido? – Você está me dizendo que está há um pouco mais de uma semana da segunda tarefa e só agora você descobriu o que tem que fazer? Você disse que já tinha decifrado a pista daquele ovo! – exclamou Sakura indignada.
Naruto se encolheu sabendo que merecia levar aquela bronca.
– Pode, por favor, brigar comigo depois da tarefa? – ele implorou.
A amiga suspirou, os ombros baixando da postura irritada.
– Eu não tenho a chave do banheiro masculino dos monitores – respondeu ela a sua pergunta inicial.
– Então o Kiba pode me ajudar… – Naruto ficou esperançoso.
– Não – negou a amiga veemente. – É melhor você pedir pro Shikamaru, ele vai saber ser mais discreto.
Naruto abriu e fechou a boca, realmente, gostava de Kiba, mas um furo daqueles não passaria despercebido pelo grupo de amigos e, além de Sakura, teria todos eles no seu pé.
– Obrigado – ele agradeceu.
– Você devia era pedir desculpas, isso sim – ela reclamou. – Resolve isso logo – ela pediu, ficando mais calma ao ver a cara sofrida do amigo. – Boa sorte – ela desejou por fim.
Depois de conseguir a senha com Shikamaru – o garoto só havia erguido uma das sobrancelhas e respondido como se fizesse isso sempre –, esperou pacientemente o dia terminar.
Uma vez que Naruto não fazia ideia de quanto tempo deveria gastar no banho para decifrar o segredo do ovo de ouro, ele resolveu ir à noite, quando poderia demorar o tempo que quisesse. Então ele esperou nervosamente o dia terminar, todos irem dormir e seus colegas de quarto roncarem antes de pegar sua capa de invisibilidade e o ovo.
Os corredores banhados pela luz da lua estavam desertos e silenciosos, mas o aluno da Grifinória andou o mais cuidadosamente que conseguia, sempre prestando atenção aos barulhos e vozes, ele já tinha passado do toque de recolher e ser pego não o iria ajudar em nada. Se fosse notado pelos fantasmas, eles fariam o maior escarcéu àquela hora da noite.
Quando chegou à estátua, como orientado por Shikamaru mais cedo, ele localizou a porta certa, encostou nela e murmurou a senha Frescor de Pinho, conforme instruído. A porta se abriu com um rangido. O garoto entrou, trancou a porta ao passar e despiu a Capa da Invisibilidade, olhando ao redor.
Sua reação imediata foi que valia a pena ser monitor chefe só para poder usar aquele banheiro. Tinha uma iluminação suave fornecida por um lustre de muitas velas e tudo era feito de mármore branco, inclusive o que parecia ser uma piscina retangular e vazia rebaixada no meio do piso. Tinha umas cem torneiras de ouro em volta da borda, cada uma com uma pedra preciosa de cor diferente esculpida na parte superior. Havia também um trampolim. Longas cortinas de linho protegiam as janelas, havia uma montanha de toalhas brancas e macias em um canto e um único quadro com moldura de ouro na parede. Era uma sereia loura, profundamente adormecida sobre um rochedo, cujos longos cabelos esvoaçavam sobre o rosto toda vez que ela ressonava.
Naruto pôs a capa, o ovo e o mapa de lado e avançou, olhando para os lados, seus passos ecoando no cômodo. Por mais magnífico que o banheiro fosse – e por mais desejoso que estivesse de experimentar algumas daquelas torneiras –, agora que estava ali, ele não pôde reprimir o temor de ser pego a qualquer momento, então tinha que ser o mais breve possível.
Depois de encher a banheira enorme, tirou o pijama, os chinelos e o roupão e entrou na água. Era tão funda que seus pés mal tocavam o piso, mas a água quente era deliciosa. Ele não perdeu tempo e abriu o ovo, mas aquele barulho horrendo se repetiu, então ele enfiou o ovo debaixo d’água e desta vez, não ouviu grito nenhum. Saía dele um som gorgolejante, uma música cujas palavras ele não conseguia distinguir através da água.
Ele prendeu a respiração e mergulhou. Agora, debaixo d’água, sentado no fundo da banheira de mármore cheia de espuma, ouviu um coro inquietante de vozes que cantavam para ele e que vinham do ovo em suas mãos:
Procure onde nossas vozes parecem estar,
Não podemos cantar na superfície,
E enquanto nos procura, pense bem:
Levamos o que lhe fará muita falta,
Uma hora inteira você deverá buscar,
Para recuperar o que lhe tiramos,
Mas passada a hora – adeus esperança de achar.
Tarde demais, foi-se, jamais voltará.
Naruto ficou sem fôlego e emergiu, sacudindo os cabelos para longe dos olhos. Foi preciso ouvir a música do ovo mais três vezes para decorá-la, depois ele caminhou um pouco dentro da piscina, concentrando o pensamento, deixou seu olhar vagar pelo banheiro, refletindo... se as vozes só podiam ser ouvidas embaixo da água, então fazia sentido que pertencessem a criaturas subaquáticas.
Os olhos do garoto pousaram sobre o quadro da sereia sonolenta na parede.
– Existem sereias no lago? – ele murmurou confuso, nunca tinha visto uma sereia no lago antes, só a lula gigante.
Voltou a pensar na música das sereias: “Levamos o que lhe fará muita falta.” Pelo jeito elas iam roubar alguma coisa dele, alguma coisa que ele ia precisar recuperar. O que é que elas iam levar? Mas ficou animado, pelo menos agora sabia o que fazer.
– Então é isso? A segunda tarefa é ir procurar as sereias no lago e...
Mas ele subitamente percebeu o que estava dizendo e sentiu a excitação se esvair.
– Como é que eu vou respirar embaixo d’água?
. . .
Naruto contou tudo o que ouviu do ovo para a melhor amiga no dia seguinte com a esperança de ela ter uma resposta sobre como respirar uma hora embaixo d’água, mas foi como se a mente dela tivesse dado um branco.
– Eu não me lembro de nenhum feitiço que permita respirar embaixo d’água por uma hora – o olhar dela estava longe, a cabeça balançando tentando lembrar de alguma coisa. – Tem um que permite respirar por 15 minutos, você teria que calcular bem para não perder o tempo exato, mas… eu não sei se um feitiço muda funciona embaixo d’água…
Então, Naruto, achando que logo, logo iria tomar um cansaço tão grande de biblioteca que ia durar para o resto da vida, se enterrou entre os livros empoeirados, à procura de um feitiço que permitisse a um ser humano sobreviver sem oxigênio por pelo menos uma hora. Mas, embora ele e a amiga procurassem nas horas de almoço, noites e em qualquer tempo livre que encontrassem – mesmo que o garoto pedisse à professora a Tsunade uma permissão escrita para usar a Seção Reservada –, os dois não encontraram nada que permitisse Naruto passar uma hora embaixo d’água e sobreviver para contar a história.
Episódios já familiares de pânico estavam começando a perturbar o garoto agora e, mais uma vez, ele sentia dificuldade de se concentrar nas aulas. O lago, que Naruto sempre tinha encarado como mais um elemento na paisagem dos jardins, atraía seu olhar sempre que ele se aproximava de uma janela, as profundezas sombrias e mortalmente geladas começavam a parecer prestes a engoli-lo a cada dia que a segunda tarefa se aproximava.
Do mesmo jeito que acontecera antes, quando ele precisou enfrentar o Rabo Córneo, o tempo estava correndo como se alguém tivesse enfeitiçado os relógios para andarem em alta velocidade. Faltava somente uma semana para o dia vinte e quatro de fevereiro (ainda havia tempo)... faltavam cinco dias (logo ele ia achar alguma coisa)... faltavam três dias (por favor, tomara que eu ache alguma coisa… por favor...).
Faltando apenas dois dias, Naruto começou a perder o apetite.
– Você está bem, Naruto? – murmurou Jiraya, entre uma aula e outra.
– Tô – ele respondeu em modo automático.
– Só nervoso, não é?
– Um pouco – ele concordou.
– Naruto – disse Jiraya, colocando a mão no ombro do garoto –, eu fiquei preocupado antes de ver você enfrentar aquele Rabo Córneo, mas agora sei que está à altura. Você vai se dar bem. Já decifrou a nova pista, não?
Naruto confirmou com a cabeça mas, ao fazer isso, se apoderou dele uma vontade louca de confessar que não tinha a menor ideia de como iria sobreviver no fundo do lago durante uma hora inteira. Ele ergueu os olhos para Jiraya – quem sabe o padrinho precisava entrar no lago algumas vezes para cuidar das criaturas que viviam lá? Afinal, ele cuidava de todo o resto na propriedade...
– Você vai vencer – afirmou Jiraya. – Sei disso, sem nem precisar perguntar para a Sakura. Posso até sentir. Você vai vencer, Naruto.
O garoto simplesmente não teve coragem de apagar o sorriso feliz e confiante do rosto do padrinho. Forçou um sorriso para ele e se adiantou para a próxima aula.
– Preciso das suas habilidades de vidente – Naruto puxou a amiga no meio do corredor entre uma aula e outra.
– Agora? – ela se queixou.
– Acho que eu tô surtando.
– Tudo bem, respira – ela mesma fez o movimento de respiração, fazendo-o imitá-la.
Então Naruto respirou e se concentrou na pergunta que queria fazer. Depois que a amiga voltou para as aulas de adivinhação, descobriu que havia um modo de obter uma resposta certa desde que fizesse a pergunta certa.
Não podia perguntar sobre como faria para respirar embaixo d’água porque a mesma não sabia a resposta, então… tinha que perguntar sobre quem sabia a resposta.
Ele segurou os ombros da amiga e olhou bem fundo nos olhos dela antes de perguntar:
– Quem é que pode me ajudar na questão que mais me apavora no momento?
Por um instante podia jurar que o olhar da amiga brilhou, ele prendeu a respiração esperando pela resposta, mas então ela desviou o olhar e cumprimentou alguém por cima do ombro dele:
– Hinata!
– Oi – a garota cumprimentou –, tudo bem? – ela olhou de um para o outro.
– Na verdade não, estamos procurando algo que permita alguém respirar embaixo d’água por uma hora – Naruto respondeu.
– Tá bom – ela inclinou a cabeça e se afastou deles.
Então suspirou, observando a aluna da Lufa-Lufa se afastar.
– Às vezes eu não entendo ela – balançou a cabeça de um lado para o outro.
– Achei que vocês estivessem bem – comentou Sakura, uma dúvida no olhar. – Depois você pensa nisso, temos aula agora – ela o puxou.
. . .
Na noite que antecedeu a segunda tarefa, Naruto já sentia como se estivesse paralisado por um pesadelo. Tinha plena consciência que se conseguisse, mesmo que por um milagre, encontrar um feitiço que servisse, seria um trabalho enorme aprendê-lo da noite para o dia. Como podia ter deixado isto acontecer? Por que não começou a trabalhar na pista do ovo mais cedo? Por que deixou seus pensamentos vagarem durante as aulas – e se um professor tivesse mencionado como respirar debaixo d’água?
Ele e Sakura estavam sentados na biblioteca quando o sol se pôs lá fora, virando febrilmente páginas e mais páginas de feitiços, escondidos um do outro por pilhas maciças de livros em cima das mesas de cada um. O coração de Naruto dava um enorme salto cada vez que ele via a palavra “água” em uma página, mas um número bem maior de vezes era apenas “Meça um litro de água, duzentos e cinquenta gramas de folhas de mandrágora picadas e pegue um...”
– Tem que haver alguma coisa – murmurou Sakura, trazendo uma vela para mais perto. Seus olhos estavam tão cansados que ela estava lendo as letrinhas miúdas de Feitiços e Encantos Caídos com o nariz a dois centímetros da página. – Nunca teriam proposto uma tarefa que fosse impossível de ser realizada.
Ela parecia estar tomando como ofensa pessoal o fato de a biblioteca não ter informações úteis sobre o assunto, a biblioteca jamais tinha falhado antes.
– Eu devia ter aprendido a virar um animago – Naruto apoiou a cabeça entre os braços.
– Leva anos para alguém virar um animago, depois ele tem que se registrar e tudo o mais – disse Sakura vagamente, agora espremendo os olhos para ler o índice de Estranhos dilemas da magia e suas soluções. – A professora Tsunade falou pra gente, lembra? A pessoa tem que se registrar na Seção de Prevenção do Uso Indevido da Magia, dizer em que animal se transforma, quais as marcas características, por isso não pode...
– Eu tava brincando, não tem a menor chance de eu conseguir amanhã, vou fracassar na tarefa – se deu por vencido.
Sakura ergueu a cabeça se sentindo derrotada.
– É a primeira vez que eu não consigo a resposta para algo, eu tô extremamente frustrada – os olhos dela encheram de água, o semblante exausto.
– Sakura? – a voz de Temari chamou.
– Aqui.
Tanto Temari quanto Shikamaru surgiram de trás de uma estante.
– A professora Tsunade mandou te chamar, ela parecia bem brava – informou Temari.
Sakura suspirou e se levantou.
– A gente se vê no salão comunal – a garota de cabelos rosa se despediu.
– A Hinata pediu pra te entregar isso – Temari deu um pacotinho para Naruto com um sorrisinho malicioso nos lábios. – O que tá acontecendo entre os dois pombinhos?
– Tema – Shikamaru chamou e balançou a cabeça de um lado para o outro. Temari fez um bico, mas respeitou.
– Boa sorte na prova amanhã – ela desejou e saiu dali junto do namorado, Naruto recebeu um aceno de cabeça do mesmo.
Ele ia precisar. O garoto abriu o pacotinho e viu que tinha algumas ervas ali. O que ele deveria fazer com aquilo? Um chá? Queria ir atrás da garota, mas logo seria o horário de dormir e precisava pensar no amanhã.
. . .
– Ei! – alguém o chamava. – Naruto! Acorda!
Naruto caiu no chão.
– O que.. – murmurou.
– Você precisa se apressar – era Kiba quem o chamava. – Você dormiu aqui nesta poltrona? Tá todo mundo preocupado, ninguém conseguia te achar e você não voltou pro quarto a noite.
– Não importa – disse Temari. – Você tem que se apressar, a segunda tarefa começa em 15 minutos. Kankuro está tentando acalmar a professora Tsunade enquanto estamos aqui.
– O que? – Naruto levantou em um pulo e saiu correndo pelo portal do salão comunal, os dois amigos seguindo atrás dele.
No saguão de entrada havia uns poucos retardatários, todos saindo do Salão Principal depois do café da manhã em direção às portas duplas de carvalho da entrada, para ir assistir à segunda tarefa.
Enquanto corria pelo gramado dos jardins, viu que as arquibancadas que tinham rodeado o picadeiro dos dragões em novembro agora estavam dispostas ao longo da margem oposta do lago, quase explodindo de tão lotadas e que se refletiam nas águas embaixo. A algazarra animada dos espectadores ecoava estranhamente pela superfície das águas enquanto Naruto corria pela outra margem do lago em direção aos juízes que estavam sentados em uma mesa coberta com tecido dourado. Sasuke, Ino e Utakata estavam parados ao lado da mesa, observando Naruto se aproximar correndo.
– Estou... aqui... – ofegou o garoto, derrapando na lama ao parar.
– Onde é que você esteve? – disse a voz autoritária da professora Tsunade o censurando. – A tarefa já vai começar!
– Ora, deixe-o recuperar o fôlego – disse a voz risonha de Nawaki ao lado da irmã.
O diretor Hiruzen sorriu para o aluno, mas os diretores das outras escolas não pareciam nem um pouco satisfeitos de vê-lo... Era óbvio, pela expressão em seus rostos, que tinham pensado que o campeão não ia aparecer.
Naruto dobrou o corpo, as mãos nos joelhos, procurando respirar, sentia uma pontada do lado do corpo que lhe dava a sensação de ter uma faca enfiada nas costelas, mas não havia tempo para se livrar dela; Hashirama agora andava entre os campeões, espaçando-os pela margem a intervalos de três metros. Naruto ficou bem no fim da fila, ao lado de Sasuke, que estava de roupas de banho e segurava a varinha em posição.
– Tudo bem, Naruto? – sussurrou a professora Tsunade, afastando Naruto um pouco mais do Uchiha. – Pelo visto, descobriu o que tem fazer – ela olhou com aprovação para o pacotinho que havia se aberto em seu bolso e uma das ervas despontava para fora.
Enquanto a professora se afastava, ele apertou o bolso, tentando entender do que ela estava falando. Era o pacotinho que Hinata havia pedido para Temari lhe entregar na noite anterior.
Ele tampou o bolso não deixando que as ervas caíssem. Seria possível…?
“– Quem é que pode me ajudar na questão que mais me apavora no momento?”
Lembrou de quando havia perguntado para a amiga quem poderia ajudar… o brilho no olhar… a resposta…
“– Hinata!”
Naruto balançou a cabeça de um lado sem acreditar na sua sorte, nunca mais ia duvidar das palavras da amiga; quantas vezes já não tinha repetido isso a si mesmo e tantas vezes ainda duvidava? Olhou em volta em busca das duas garotas, Hinata seria difícil de achar na multidão, é claro, mas não havia nem sinal do cabelo cor de rosa da melhor amiga e… ela também não havia ido procurar por ele…
Sentiu um arrepio subir por seu corpo e fechou os olhos, se lembrando da canção do ovo… ele precisava seguir as vozes das sereias… elas levaram algo precioso dele… algo que ele precisava recuperar em até um hora… ou nunca mais…
Naruto abriu os olhos e se concentrou em respirar para não entrar em pânico.
As sereias levaram Sakura!
Nawaki lhe deu um breve aperto no ombro ao passar por ele e voltou à mesa dos juízes; depois apontou a varinha para a própria garganta como fizera na Copa Mundial, disse “Sonorus!” e sua voz reverberou sobre as águas escuras até as arquibancadas.
– Bem, os nossos campeões estão prontos para a segunda tarefa, que começará quando eu apitar. Eles têm exatamente uma hora para recuperar o que foi tirado deles. Então, quando eu contar três. Um... dois... três!
O apito produziu um som agudo no ar frio e parado, as arquibancadas explodiram em vivas e palmas, sem se virar para ver o que os outros campeões estavam fazendo, Naruto descalçou os sapatos e as meias, tirou o punhado de ervas do bolso, enfiou na boca e entrou no lago.
O lago estava tão frio que ele sentiu a pele arder como se estivesse no fogo e não na água, à medida que ele foi se aprofundando no lago, agora a água batia nos joelhos, e seus pés, que rapidamente perdiam a sensibilidade, escorregaram pelo lodo e pelas pedras lisas e cheias de limo. Naruto mastigou a erva com mais força e pressa que pôde, era borrachudo e viscoso. Com a água gélida pela cintura ele parou, engoliu a erva e esperou que alguma coisa acontecesse.
Ouviu os espectadores rirem e concluiu que devia estar com cara de idiota, entrando no lago sem dar sinal algum de poder mágico. A parte do seu corpo ainda seca se encheu de arrepios, meio imerso na água gelada, uma brisa impiedosa levantando seus cabelos, Naruto começou a tremer violentamente. Evitou olhar para as arquibancadas, as risadas estavam mais altas e ele ouvia assobios e vaias de alunos, provavelmente da Sonserina...
Então, inesperadamente, o garoto teve a sensação de que uma almofada invisível estava cobrindo sua boca e seu nariz. Ele tentou respirar, mas isto fez sua cabeça girar, seus pulmões se esvaziaram e ele sentiu uma dor súbita e lancinante dos dois lados do pescoço...
Naruto levou as mãos à garganta e sentiu duas grandes aberturas abaixo das orelhas abanando no ar frio... estava com guelras. Sem parar para pensar, ele fez a única coisa que lhe pareceu certa: se atirou no lago.
O primeiro gole de água gelada do lago lhe pareceu um sopro de vida. Sua cabeça parou de girar, ele tomou mais um gole e sentiu-o passar suavemente pelas guelras e bombear oxigênio para o seu cérebro. Ele estendeu as mãos para a frente e olhou-as. Pareciam verdes e fantasmagóricas debaixo d’água e haviam nascido membranas entre os dedos. Ele se contorceu para ver os pés descalços – tinham se alongado e igualmente ganhado membranas, parecia também que saíam nadadeiras do seu corpo.
A água não parecia mais gelada, tampouco... pelo contrário, se tornou agradavelmente fresca e muito leve... Naruto começou a nadar, admirando como seus pés com nadadeiras o impulsionavam pela água, registrou que estava enxergando com muita clareza e não sentia mais necessidade de piscar. Logo nadou uma distância tão grande em direção ao meio do lago que deixou de ver seu leito. Deu uma cambalhota e mergulhou em suas profundezas.
O silêncio pesou em seus ouvidos ao nadar por uma paisagem estranha, escura e enevoada. Só conseguia ver três metros ao redor, por isso à medida que se deslocava novos cenários pareciam surgir repentinamente da escuridão à sua frente: florestas ondulantes de plantas emaranhadas e escuras, extensões de lodo coalhadas de pedras lisas e brilhantes. Ele nadava cada vez mais para o fundo e para o centro do lago, os olhos abertos, espiando, através da misteriosa claridade cinzenta que iluminava as águas, rumando para as sombras além, em que as águas se tornavam opacas.
Pequenos peixes passavam velozes por ele como flechas prateadas. Uma ou duas vezes ele viu um vulto maior nadando mais adiante, mas quando se aproximou, descobriu que era apenas um grande tronco enegrecido ou uma moita densa de plantas. Não viu sinal algum dos outros campeões, nem dos sereianos, – nem, ainda bem, da lula gigante.
Plantas verde claras se estendiam à sua frente até onde sua vista podia alcançar, como um prado coberto de relva muito crescida. Naruto olhava para a frente sem piscar, tentando discernir as formas na obscuridade... Ele continuou a nadar por uns vinte minutos ou assim lhe pareceu. Então, finalmente, ouviu um trecho da música misteriosa dos sereianos.
Uma hora inteira você deverá buscar,
Para recuperar o que lhe tiramos...
Naruto nadou mais rápido e não tardou a ver um grande penhasco emergindo na água lodosa à frente. Nele havia pinturas de sereiano: carregavam lanças e caçavam algo que parecia ser a lula gigante. O garoto deixou o penhasco para trás seguindo a música dos sereianos:
... já se passou meia hora, por isso não tarde
Ou o que você busca apodrecerá aqui...
Um punhado de casas de pedra, manchadas de algas, tomou forma de repente no lusco-fusco que rodeava o garoto. Aqui e ali, às janelas escuras, Naruto viu rostos... rostos que não tinham qualquer semelhança com o quadro da sereia no banheiro dos monitores-chefes...
Os sereianos tinham peles cinzentas e longos cabelos verdes. Seus olhos eram amarelos, como seus dentes pontudos e eles usavam grossas cordas de seixos ao pescoço. Lançaram olhares desconfiados quando Naruto passou. Um ou dois saíram das tocas para examiná-lo melhor, seus rabos de peixe prateados golpeando a água; as lanças nas mãos.
Naruto continuou a nadar veloz, olhando para os lados e logo as casas se tornaram mais numerosas: havia jardins de folhagens ao redor de algumas, ele chegou a ver um grindylow amarrado a uma estaca do lado de fora de uma porta. Os sereianos apareciam por todos os lados agora, observando-o ansiosos, apontando para suas mãos palmadas e guelras, falando entre si, com a mão encobrindo a boca. Naruto virou um canto e se deparou com uma cena estranha.
Um grande número de sereianos flutuava diante de casas enfileiradas que pareciam uma versão local de uma praça de povoado. Um coro cantava no centro, chamando os campeões e, por trás, erguia-se uma enorme estátua: um gigantesco sereiano esculpido em um pedregulho. Quatro pessoas estavam firmemente amarradas à cauda da estátua.
Naruto ficou surpreso ao ver Hinata amarrada entre Sakura e um garoto que não reconheceu. Havia ainda uma garota que não aparentava ter mais de oito anos e cujas mechas de cabelos dourados deram ao garoto a certeza de que era irmã de Ino Yamanaka. Os quatro pareciam profundamente adormecidos. Suas cabeças balançavam molemente sobre os ombros e um fluxo contínuo de pequenas bolhas saía de suas bocas.
Tanto Sakura quanto Hinata lhe eram importantes, mas será que Sakura tinha se tornado mais importante para o Uchiha do que era para ele?
Então o garoto sentiu um arrepio percorrer seu corpo, Hinata tinha dado o pacotinho com ervas para Temari porque provavelmente também tinha sido chamada como Sakura. Sem a ajuda de Hinata ele jamais teria conseguido a chance de realizar a segunda tarefa.
Então que tinha que salvar Hinata e o Uchiha tinha que salvar Sakura.
Naruto correu em direção aos reféns, meio que esperando os sereianos baixarem as lanças para o atacarem, mas eles nada fizeram. As cordas que atavam os reféns à estátua eram grossas, viscosas e muito fortes.
Naruto olhou ao redor. Muitos sereianos que cercavam os reféns seguravam lanças. O garoto nadou rápido para um deles, com uns dois metros de altura, uma longa barba verde e uma gargantilha de dentes de tubarão, e tentou, por meio de mímica, pedir a lança emprestada. O sereiano riu e sacudiu a cabeça.
– Não ajudamos – disse ele numa voz áspera e rouca.
Ele tentou tirar a lança do sereiano, que a puxou para si, ainda sacudindo a cabeça e rindo.
Naruto deu uma volta completa no corpo, olhando. Alguma coisa afiada, qualquer coisa… Havia muitas pedras no leito do lago. Ele mergulhou e apanhou uma de aspecto afiado e voltou à estátua. Começou, então, a golpear a corda que prendia Hinata e, depois de alguns minutos de esforço, elas se romperam. Hinata flutuou, inconsciente a alguns centímetros do leito do lago, acompanhando o movimento da água.
Naruto correu o olhar à volta. Não viu sinal dos outros campeões. De que é que estavam brincando? Por que não se apressavam? Ele se virou para Sakura, ergueu a pedra afiada e começou a golpear as cordas dela também...
Na mesma hora, vários pares de fortes mãos cinzentas o seguraram. Meia dúzia de sereianos começaram a afastá-lo de Sakura, balançando as cabeças de cabelos verdes e dando risadas.
– Você leva o seu refém – disse um deles. – Deixe os outros...
Naruto balançou a cabeça de um lado para o outro. Nem pensar que deixaria a amiga ali.
– Sua tarefa é resgatar a sua amiga... deixe os outros...
– Ela é minha amiga, também! – tentou berrar, gesticulando em direção a Sakura, uma enorme bolha prateada se desprendendo silenciosamente dos seus lábios.
Queria ter certeza de que todos ficariam bem, não queria que morressem ou que fossem levados pelos sereianos. A garotinha de cabelos dourados parecia pálida e fantasmagoricamente esverdeada. Naruto lutou para afastar os sereianos, mas eles riam com mais vontade que nunca, empurrando-o para trás. O garoto olhou alucinado para os lados. Onde estavam os outros campeões? Será que ele teria tempo de levar Hinata até a superfície e voltar para buscar Sakura e os outros? Será que ele conseguiria encontrá-los de novo?
Mas, então, os sereianos que o rodeavam começaram a apontar excitados para alguma coisa acima da cabeça dele. Naruto ergueu os olhos e viu Utakata nadando em direção ao grupo. Havia uma enorme bolha em torno de sua cabeça, que fazia suas feições parecerem estranhamente largas e esticadas.
– Me perdi! – disse ele silenciosamente, com uma expressão de pânico. – Yamanaka e Uchiha estão vindo agora!
Sentindo-se imensamente aliviado, Naruto viu Utakata puxar uma faca do bolso e libertar o garoto. Ele o puxou para cima e desapareceu de vista.
Naruto olhou para os lados, aguardando. Onde estavam Ino e Sasuke? O tempo devia estar se esgotando e, segundo a música, os reféns jamais voltariam...
Os sereianos começaram a guinchar excitados. Os que seguravam Naruto afrouxaram o aperto, olhando para trás. O garoto se virou e viu algo monstruoso cortando as águas em direção a eles: um corpo humano de roupas de banho com uma cabeça de tubarão... Era o Uchiha, percebeu abismado. Parecia ter se transformado – mas de maneira incompleta.
O homem tubarão nadou direto para Sakura e começou a puxar e a morder as cordas que a prendiam; o problema é que os novos dentes do Uchiha estavam posicionados de forma imprópria para morder qualquer coisa menor do que um golfinho e Naruto temia que se o Uchiha não tivesse cuidado, pudesse cortar Sakura ao meio. Correndo para ele, Naruto bateu com força em seu ombro e estendeu a pedra afiada. Sasuke agarrou-a e começou a libertar Sakura. Em segundos, ele terminou; agarrou Sakura pela cintura e, sem ao menos olhar para trás, começou a subir rapidamente com a garota para a superfície.
. . .
Sakura respirou fundo ao recobrar os sentidos e abriu os olhos quando emergiu à superfície. Imediatamente ficando brava por não ter levado um aviso sequer do que esperar, a professora Tsunade tinha lhe dado uma xícara de chá e, mesmo que o gosto fosse horrível, jamais pensou que teria uma poção que fizesse com que apagasse o corpo, mas a mente não.
Olhou para o garoto que a resgatara e tomou um susto ao ver um tubarão se transformar em Sasuke. Ele tinha se transformado em animago?
– Você estarr bem? – ele perguntou, o semblante preocupado.
– Sim! – respondeu depois de tossir um pouco, testando a garganta.
Ele acenou, respirando aliviado e a surpreendeu: pegou os dois lados da cabeça dela e beijou seus lábios.
Continua…
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