Cá entre nós

1 Prólogo/ Furor


Notas iniciais
Olá! Essa é a minha primeira fanfic aqui e já de cara com temas pesados envolvendo um casal que eu amo: Shura e Aiolos. Mesmo que esses temas por si só sejam polêmicos, por favor, não se intimidem com os avisos - tomei o cuidado de não tornar a narrativa mais explícita do que o estritamente necessário para os rumos da fanfic. "Cá entre nós" é uma adaptação dos eventos que precedem o Episódio G e começa com a reencarnação de Atena.

Prólogo — Furor

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Afasto um pouco o braço jogado sobre meu rosto e espio por aquela pequena fresta. Não importa quantas vezes eu cubra e descubra meus olhos, a realidade continua ali.

Tento me movimentar o mínimo possível, mas acabo virando na cama com um rangido alto que não havia sido planejado.

Droga.

Sorte ou azar, Aiolos continua ressonando com a cabeça apoiada nas costas de uma mão, inconvenientemente esparramado e me roubando parte da metade da cama a que eu deveria ter direito. Seu hálito rescende a vinho. O travesseiro, não faço ideia de onde possa estar.

Eu deveria enlouquecer agora, mas tudo que faço é observá-lo.

Aiolos, de alguma maneira, nos conduziu até aqui — este ponto das nossas vidas em que nos deitamos exaustos após dividirmos intimidade e uma dose de prazer indescritível. Inesperada, eu definiria, mas estaria sendo injusto se a resumisse apenas assim.

Eu sempre soube, de modo velado, que ele me queria. Como não perceber segundas intenções naqueles abraços longos e inquietos, no jeito como ele se oferecia para limpar minhas feridas após os treinos? Eu posso ser distante, mas nada distraído. Aiolos, meu melhor amigo, definitivamente estava disposto a se oferecer a mim, se eu assim quisesse.

Dependia só da minha iniciativa, estava bastante claro, pois ele jamais esboçara algum movimento perigoso. Conhecendo-o como conheço, posso afirmar que era suficientemente ponderado para não colocar seu desejo à frente dos nossos anos de companheirismo. Ficamos neste xadrez durante muito tempo e nunca houve nenhuma espécie de xeque, portanto, jamais imaginei que algum dia ele atravessaria a fronteira que ele mesmo havia desenhado.

Vislumbro nossas roupas jogadas de qualquer jeito no chão e engulo em seco.

Será que havia sido somente a bebida que o levara a investir e eu a consentir? Que botões foram finalmente acionados para que eu acabasse em sua cama, no meio de seus lençóis perfumados?

Eu me lembro da celebração de algumas horas atrás. Era outro evento em comemoração ao renascimento de Atena, desta vez promovido pelos representantes de Dioniso na Terra. Como em toda boa festa envolvendo o deus dos lazeres, havia vinho, música, teatro e bacantes. Aiolos e eu começamos comportados, mas logo nos embebedamos durante a comédia improvisada, que contou até com a participação de alguns cavaleiros.

Eu deveria ter parado quando nossas risadas começaram a ficar altas e desproporcionais às cenas no palco, mas continuei. Agora me lembro com clareza de que Aiolos cuidou o tempo inteiro para que minha taça não se esvaziasse.

Então vieram as canções, as danças, a comida, aqueles homens e mulheres se oferecendo em nome da satisfação de Dioniso. Em dado momento, estávamos Aiolos e eu disputando uma bacante — mais pela diversão do que por seus atrativos -, quando desconfiei de que ele e a garota tinham alguma espécie de plano para mim. Nos envolvemos os três e acreditei que era isto que tramavam: uma extravagância para o cavaleiro com fama de contido. No entanto, em pouco tempo, isso não se mostrou verdadeiro. Percebi um tanto tarde que era Aiolos que me alimentava de uvas e me beijava o pescoço, e não a bacante — esta logo deu um jeito de sair de cena sem ser notada.

Não fez nenhuma falta.

"Shura, você tem certeza?", Aiolos ainda teve a delicadeza de perguntar, as mãos alisando minhas coxas de um jeito indecente.

Eu poderia ter negado. Eu deveria ter negado. E veja agora onde estou.

Aiolos entreabre seus lábios grossos e antecipo-me fechando os olhos. Contudo, ele apenas solta um suspiro mais longo e permanece dormindo. Me sinto infantil e...irresponsável. Mas por pouco tempo, pois o semblante de Sagitário me desperta estranha curiosidade e desfaz temporariamente minha nuvem tempestuosa de pensamentos.

Eu nunca tinha reparado de verdade em como ele é atraente. Ou acho que preferi ignorar sua beleza para nos poupar — o que agora é inútil. Aiolos parece mais jovem quando dorme, quase angelical: as linhas de preocupação somem e seus cabelos ondulados ganham volume em desalinho. Ainda desse jeito, ele é tão...viril. Ele tem porte de herói: os traços helênicos, a altura imponente, a musculatura esculpida pelos rigorosos treinos.

Isso é errado de tantas formas, que mal as consigo enumerar.

Meu melhor amigo, meu irmão de armas, meu amante. É uma loucura, um absurdo sem tamanho! Mas ele é tão bonito e envolvente, que é difícil aceitar que cometi um pecado. Isso jamais poderia ter acontecido entre nós; isso vai contra as regras do Santuário. Sei que a culpa vem bater à porta e não tarda. Muito em breve estarei lamentando a conta do que fizemos.

Começo a me sentir claustrofóbico na presença dele. Minhas convicções duelam dentro de mim: tudo que eu sabia sobre ele versus o que descobri, meus princípios versus minha lascívia.

Aiolos, que preço pagaremos por esta noite? Nada mais será como antes e a culpa é minha, mas também sua.

À medida que a temperatura do meu corpo esfria, um ressentimento colossal vem me pisotear e tem gosto de ressaca. Então, o encanto finalmente se quebra e o amanhã chega para cobrar minhas lamentações.

O que será feito de nós?

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Eu posso vê-lo me olhando de canto, os olhos castelhanos ainda mais estreitos numa tentativa boba de não ser flagrado acordado.

Ironicamente, eu também finjo dormir.

Não posso encarar o que eu mesmo fiz sem antes calcular os estragos. É uma forma de tortura, eu sei, mas sempre fui um pouco masoquista. Caso contrário, não teria me apaixonado por Shura de Capricórnio, certo?

Certo.

Que fique muito claro que eu empurrei com a barriga até onde aguentei. Não foi fácil, obrigado a ter que enfrentar seu silêncio às minhas nem tão discretas investidas, sendo apenas seu "melhor amigo". No começo, eu alimentava esperanças de que você fosse ingênuo, mas daí percebi que você as ignorava de propósito.

Você não queria mais do que já éramos.

É lógico que fiquei arrasado e desde o começo, afinal, primeiro eu tive que desistir de lutar contra a verdade de que o amava, depois tive que aceitar que não havia futuro para meus sentimentos. Quis odiá-lo, mas isso me parecia humilhante e injusto demais. Eu não podia exigir isso de você.

Não podia cobrar amor correspondido de um cavaleiro de Atena.

Você é o mais equilibrado e racional dentre nós dois, deve ter atentado para o óbvio ao meu primeiro sinal de interesse e ponderado meticulosamente antes de escolher tal postura. Inferno, Shura, eu também conheço o regimento de cabo a rabo! O problema é que, com você por perto, fica difícil levar nossas proibições a sério. Justo quando perto de você, o cavaleiro mais devoto à Atena!

O que a deusa pensaria de nós agora, deitados nus depois da heresia que cometemos? A deusa é apenas um bebê...

No entanto, faz séculos que o amor entre cavaleiros é terminantemente proibido. Apesar disso, durante todos estes anos em que a deusa esteve ausente, Shion fazia longos retiros nos Cinco Picos Antigos e duvido que você nunca tenha escutado nada sobre o que estou insinuando. Além disso, também existem os boatos a respeito de Máscara da Morte e o novato Afrodite, os quais você despreza, porém isso não muda o fato de serem cavaleiros de patente igual à nossa.

Sei que estou errado e procurando nos erros dos outros justificativas para os meus próprios...enfim, eu só queria que você ao menos tentasse me entender. Talvez me perdoasse se pudesse estar na minha pele por um único dia. Aliás, eu tenho certeza de que me perdoaria, porque sei que há um coração justo batendo debaixo de tantas camadas de frieza.

Surpreendi-me com o quanto você considerava nossa amizade, tanto que não me afastou depois que minhas intenções se evidenciaram. Shura, isso foi a maior prova de sua afeição e eu prometi a mim mesmo que a honraria ao respeitar sua neutralidade.

Mas não resisti, Shura, eu sinto muito.

Não resisti à sua guarda finalmente rendida depois de alguns goles de vinho, nem à sua espontaneidade ébria. Você não tem mesmo ideia de como fica irresistível desse jeito? Eu penso que você só pode ter feito de propósito! Foi demais até para meu férreo autocontrole, que cimentei com anos de rejeição e disciplina.

O restante, confesso, foi tudo obra minha: a bacante, as uvas. Mea culpa.

Perdão, mas não consigo me arrepender. Você disse "sim" e entreguei-me por inteiro. Foi a melhor noite da minha vida, como eu poderia me arrepender?

Todavia, você vai se arrepender, e daí eu vou me arrepender junto. Como serão as coisas amanhã? Você vai ser capaz de superar esse deslize e olhar nos meus olhos todos os dias, cúmplice de nosso pequeno segredo? Ou vai entender que cometemos um crime imperdoável e que merecemos punição? Rezo somente para que não me afaste, Shura, muito embora eu não mereça mais sua confiança.

Morfeu leva-me com meus pensamentos desesperados e a última coisa que vejo é sua silhueta — meu amigo, meu amado, o homem que hoje eu conheci por inteiro. Por um segundo, não sei se o que aconteceu foi real ou apenas mais um doce sonho.

Então, acordo novamente com os primeiros raios do dia e desta vez estou só. É chegada a hora dos arrependimentos.

Estou pronto para enfrentar você. Você está pronto para me enfrentar?