Bêbados fazem o que sóbrios não têm coragem.
1 Bêbados fazem o que sóbrios não têm coragem
Notas iniciais
. Não determinei idade dos personagem, isso, aqui, vai de cada um. Se tu quiser que eles tenham catorze anos, ok. Se quiserem que eles tenham dezoito, ok. Você escolhe, camarada! Boa leitura.
. Se você for o tipo de leitor que gosta de ler ouvindo alguma música, o que eu ouvi para escrever essa oneshot foi "Ludovico Einaudi - Low mist";

Naquela quarta semana de outono, Derry havia entrado em uma forte temporada de chuva. A região nordeste e sudeste da cidade mergulhara na falta de energia repentina. As portas naquele mês começaram a ser trancadas com frequência e a venda de cadeados e lanternas aumentaram no mercado da avenida Costello em uma porcentagem absurda. O medo que o breu fosse uma largada para que arrombamentos e roubos começassem a assombrar a cidade era impetuoso.
Quando o sol dava as caras não era problema. Os negócios desdobravam-se normalmente na parte do dia. Guarda-chuvas ocupavam a rua Kansas nos horários de pico e o parque Bassey era visitado por todas as crianças e galochas dispostas a espalhar lama. O grande sufoco mesmo era a noite, quando Zack Denbrough, aflito, começou a manter sua arma carregada no criado mudo da cama. Na mesma semana, Wentworth Tozier procurou seu antigo taco de beiseball no porão. Na época, o bastão ficou um bom tempo escondido perto da poltrona.
Na noite que Connecticut assoprou um vendaval para a região do Maine, Richie Tozier quase quebrou a vidraça da janela do quarto de Eddie Kaspbrak jogando cascalhos.
— Richie! — Eddie ralhou, deslizando a portinhola de madeira — Que merda você tá fazendo aqui? Deus, você já viu que horas são?
Da beirada da janela, Eddie conseguia apreciar a luminosidade da região norte de Derry. O horizonte estava pintado com pontinhos amarelos e brilhantes. Mas apenas o horizonte e mais nada. Naquele precioso momento, ele sabia que sortudos como Beverly Marsh e Ralph Roberts podiam contemplar a televisão ligada, enquanto Sônia Kasprak não podia nem pensar em acender o aquecedor da sala.
Um relâmpago roxo brilhou, deixando Derry com uma aparência pós-apocalíptica. Richie riu com vontade ao ouvir o amigo, e Eddie apontou a lanterna para seu rosto. Protegendo seus olhos do clarão, ele franziu os olhos e colocou os braços na frente da luz forte. O sorriso ainda estava estampado no rosto. Um sorriso embargado que combinava com suas roupas surradas. Richie se aproximou da janela, que era quatro palmos mais alta que ele, e esticou os braços para cima, infincando os dedos no beiral. Ele ficou na ponta dos pés.
— Vai me deixar entrar ou não? — Richie perguntou.
Eddie abriu passagem. Richie segurou nas laterais da janela e deu impulso com o pé. Seus cabelos desgrenhados caíram sobre os olhos e Eddie desligou a lanterna, virando de costas quando o amigo entrou. O quarto estava iluminado por velas de sacramento que a mãe havia guardado por quase três anos.
Eddie colocou a lanterna em cima da cômoda e se virou.
— Você tá fedendo álcool, sabia disso?
Richie assentiu.
— E você tá cheirando igual a bumbum de bebê.
Trovões estalaram acima das casas e a indesejada chuva começou a fazer um ruído regular no telhado. Eddie foi até a janela e a fechou. Richie o acompanhou, com um andar relaxado. O chuvisco começou a chicotear o vidro.
— Você tá bêbado, Richie?
Richie riu mais uma vez. Um riso bobo que deixou o seu olhar aéreo e volúvel.
— M-mm, Ainda não.
— Deus — Eddie murmurou, preocupado. Ele apoiou a mão no rosto e encarou Richie — Caramba, por que você fez isso?
— Ah, cara. Eu tava com medo. Então eu achei o armário de bebidas do meu pai aberto e
— Richie — Eddie chamou.
— Hm?
— Medo de quê?
A chuva batia sem parar na janela do quarto. O corpo rígido de Richie entregou seu desconforto.
Ele apoiou a mão na nuca, olhando para o chão, até Eddie disparar a pergunta de novo. No momento que Richie levantou o rosto, seus olhos se encontraram. Eddie estava com a mesma cara que um velho ranzinza. O olhar ansioso era o como de uma autoridade que o julgava como um delinquente.
— De não ter coragem — Richie murmurou — Uma vez ouvi Gretta Bowie dizer que as pessoas bebem para ter coragem de fazer as coisas que elas não têm coragem de fazer normalmente. Sabe, Eds? Se não estivessem bêbadas.
Eddie enrugou o cenho. Preocupado, ele se aproximou de Richie e segurou a lateral de seus braços. Conseguia ver o reflexo da chama da vela em seus olhos negros.
— Do que você não tem coragem?
Do lado de fora do quarto, relâmpagos piscavam dentro de nuvens enormes, e a buzina de um Chevrolet foi ofuscada por um tumultuado de trovões. O farol do carro refletiu na janela quando Richie subitamente beijou Eddie, com a mão encaixada em sua nuca. Um beijo dócil, que lentamente foi apartado. Richie conseguia sentir a malícia tomar conta de seu corpo. Para ele, o álcool deixava o ambiente mais quente e as calças mais apertadas.
Uma panela caindo no andar de baixo foi o que fez Richie perceber que Eddie tinha um olhar abalado. O nervoso subiu como um arrepio. Frustrado, ele virou de costas e se afastou de Eddie com passos pesados. Colocou a mão na testa, preocupado, o coração palpitando como louco. Sentia não só as mãos, mas o corpo todo trêmulo. Richie começou a chorar.
— O que foi que eu fiz? Meu Deus, Meu Deus, Meu DEUS, Eddie. Eu sinto mu
Ele sentiu mãos geladas lentamente lhe enlaçarem por debaixo da camisa. Eddie o abraçou por trás e apoio a cabeça em suas costas. Ele afagou o rosto no torço de Richie, depositando beijos carinhosos. Richie ouviu choramingos.
— Eddie? — ele sussurrou, preocupado.
— Quê?
— Você tá chorando? Você tá chorando porque eu beijei você?
Eddie fungou.
— Você me assustou, seu merda. Você veio até a minha casa a beira de ficar bêbado, dizendo ter medo de fazer algo que não teria coragem de fazer sóbrio. O que você acha que eu pensei? Heim, Richie? — Eddie o soltou, se afastou e andou pelo quarto alarmado, esfregando as mãos no rosto — Que merda que você acha que eu pensei!?
Richie virou e acompanhou Eddie com os olhos.
— Eddie, eu
— Você fez eu achar que você ia se matar!
Mesmo com a situação nada engraçada, Richie colocou a mão na frente do rosto para conter um riso. Ele explodiu em gargalhadas que deixaram Eddie incrédulo.
— Caralho, Rich! Eu sou uma piada pra você?
Nervoso, Eddie pegou a sua bombinha de cima da cômoda. Sentia a boca.
Richie se aproximou e, bruto, arrancou a bombinha de asma das mãos de Eddie.
— Eu acertei um palhaço assassino de merda bem na fuça com a porra de um taco de beisebol pra me manter vivo e você acha que agora eu quero me matar?
— E-E-Eu
— Escuta.
Richie jogou a bombinha em cima da cama, que pousou pesadamente sobre o travesseiro. Ele suspirou e apoiou a mão no rosto bochechudo de Eddie.
— Eu tenho tudo o que eu preciso aqui. Bill, Stan, Beverly, Ben, Mike e você. Minha família. Eu tenho tudo aqui. Eu não preciso de mais nada. Eu não preciso disso aí — Richie fungou, coçou os olhos com as costas dos dedos e ajeitou os óculos — Você é meu melhor amigo. Melhor amigo mesmo. E eu gosto de você. Gosto de você da mesma forma que o Monte de feno gosta da Bevvie. Eu vim aqui por isso. Pra me abrir e admitir que eu sinto algo forte por você. Eu só não sabia como eu iria fazer isso.
— E-Eu
— Shh. Deixa eu terminar. — Richie olhou para a porta e voltou a encarar Eddie — Eu não viria aqui e te beijaria se soubesse que você não quisesse também, por mais que eu estivesse com medo.
— Do que você tá falando?
— Eu sei que você gosta de mim também.
— Você o quê?! Voc
— Beverly me contou.
Eddie fechou o punho e o bateu no ar.
— Merda!
— Põe merda nisso, Eds. Você é uma puta de uma bicha e eu nunca achei que eu ia ficar tão feliz em saber disso.
— Vai se foder.
Richie deu um sorriso malicioso e pegou Eddie no colo. Ele caminhou até a cama quando sua embriaguez apitou de novo. Os dois caíram no acolchoado, um em cima do outro, e se beijaram calorosamente. Eddie estava no colo de Richie quando tirou a blusa e sentiu um volume acintoso empurrar suas calças. Os lábios de Richie exploravam seu pescoço de forma amorosa. Beijos, beijos e mais beijos molharam o seu cangote em meio aos risos embargados e apaixonados.
Suspiros baixos bateram nas paredes do quarto. Os moradores da região norte de Derry podiam ficar com toda a energia que quisessem. Que se danasse Ralph Roberts e a sua televisão ligada nos Looney Tunes. Eddie Kaspbrak tinha algo muito mais interessante para fazer naquele noite de outono chuvoso.
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