Bye - 6259
7 Corra
Voltou a encarar o quarto de paredes sem pintura, o havia deixado um caos como ultimo ato antes da loucura que iria fazer. Não havia saído dele nos últimos seis meses, ele não deixava. O menino tinha repulsa até em falar o nome daquele monstro, aquilo não podia ser um humano. Mesmo que o garoto fosse um escravo não merecia ser tratado desse jeito, ele estava cansado. Casado de lavar, varrer, cozinhar para alguém que lhe retribuía com tapas, puxões e... urg. Uma memoria ruim lhe invadiu a cabeça, ele a balançou como se o ajudasse a esquecer. Nunca mais passaria por aquilo de novo, nunca!
Ele segurou as lagrimas, pegou o facão e o colocou guardado no ombro. Abriu a janela sentindo a brisa quente do verão lhe atingir. Subiu nas prateleiras derrubando as coisas inúteis que tinham nelas.
Ele se ajoelhou na estante encarando o concreto. Dali eram pelo menos seis metros num calculo rápido. Da janela pro chão uma morte rápida. Ele ficou com medo. Morrer não era uma opção agradável. Poderia arrumar tudo antes que aquilo chegasse e poderia aquentar até que aquilo se cansasse dele e o trocasse... Mas isso poderia ser nunca.
Ele morreria se continuasse com esse tratamento. Morreria se aquilo não gostar mais de usa-lo. Morreria se fosse pras mãos de alguém pior. Morreria de alguma doença. Morreria envenenado com... Seja lá o quer for que ele comia. Morreria por conta própria.
Ele podia escolher o jeito que isso iria acontecer.
Ele desceu as janelas, se pendurando nos buracos no concreto até chegar ao chão em certa segurança. Escalar o muro foi mais complicado por causa do arame e dos caquinhos de vidro, acabou com alguns arranhões nos braços e nas pernas. Mas mesmo assim não se comparava com os outros que escondia. Desceu
Então ele simplesmente correu, correu como nunca. Tinha até se esquecido da sensação prazerosa de correr, o vento balançava os cabelos desgrenhados, o coração acelerava o impulsionando a ir cada vez mais rápido. As roupas grandes demais não pareciam pesar tanto. Seus machucados não pareciam doer mais. Suas culpas pareciam ser deixadas pra trás.
Correndo por entre os cadáveres de prédios abandonados viu de longe a barricada que demarcava a fronteira, depois dela era apenas um lugar desconhecido, um cadáver gigante do que já foi uma cidade. Ele não sentiu medo, a pulou sem pensar nas consequências que aquilo teria. Sem pensar em mais nada.
E sorrindo percebeu que ninguém o seguiria.
Sorrindo apenas continuou andando.
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