By Your Side
8 Caos
Notas iniciais
Diga-me o que você quer que eu diga
Você me deixaria se eu te contasse que eu fiz?
E você me deixaria se eu te contasse o que eu me tornei?"
No Light, No Light - Florence + The Machine
Havia apenas uma distinta diferença entre a realidade e a fantasia. Uma delas não poderia se tornar verdade no dia seguinte. Talvez a ânsia pela mudança houvesse me levado àquele bar mais uma vez. Talvez as conversas banais e simples que trocávamos tivesse acarretado aquela sensação estúpida de que a realidade não me assombraria como sempre fez.
Mas a realidade sempre sufocaria qualquer tipo de fantasia que eu construísse ou alimentasse a partir de uma ideia boba de que eu ainda tinha alguma chance de alterar algum fato em minha vida; na vida que eu havia aceitado.
E novamente, o barulho irritante do celular chamava minha atenção. Meus olhos prendiam-se na tela piscante, anunciando um número que eu não queria conhecer e nem mesmo reconhecer.
– Vamos lá, atenda logo o celular. Isso é errado e está me irritando de verdade. – Yue disse de modo eufórico e contido. – É claro, se você quiser. O dono desse aparelho irritante é você. Atenda.
Agarrei o celular e levantei, abandonando o bar enquanto atendia a ligação. Respirei fundo duas vezes antes de pronunciar qualquer palavra.
– Diga logo o que você quer. Pensei que havíamos chegado num acordo. – murmurei, enquanto colocava a mão livre dentro do bolso da minha jaqueta. Um riso levemente grave ecoou do outro lado da linha.
– Acalme-se Itachi. Não liguei para relembrar de acordos dos quais eu devo lembrar que você não cumpriu fielmente. – havia certo humor na voz dele. Olhei para trás rapidamente e apertei o aparelho com certa força. – Mas, antes de qualquer coisa, gostaria de fazer uma proposta... Ela é bem interessante, na verdade. Tentadora.
– Não me interessa. Você deveria saber melhor do que qualquer um que eu não trabalho mais nessa área. Caso tenha esquecido Yamato, eu pensei que havíamos chegado num acordo. – murmurei com cautela as palavras enquanto o clima frio causava arrepios na minha nuca. – Então, não me ligue mais.
– Tudo bem, eu entendo. Você não quer mais participar da minha multimilionária companhia de entretenimento. Tudo bem... Isso não significa que seu irmão tenha a mesma opinião sobre. – rapidamente franzi as sobrancelhas enquanto as palavras dele infectavam meu cérebro e confundiam-me momentaneamente. – Quero dizer, Pain está nesse negócio há algum tempo. Você sabe disso melhor do que eu. Mas o ponto é: Sasuke está interessado demais em trabalhar comigo, tal como o irmão mais velho um dia fez. E estou pessoalmente tentado a fazer negócios.
Por um segundo, eu quis que aquela não fosse minha realidade. Por mais de alguns minutos, eu quis em silêncio ser outra pessoa, alguém com um pouco mais de sorte ou apenas com uma vida pacata demais para ser alterada. E por um tempo indeterminado, eu quis que aquela ligação fosse alguma parte fantasiosa de um sonho ruim. Ou que aquele peso em meus ombros estivesse nos ombros de alguém que realmente o merecesse.
Porém não houve uma resposta dos céus cinzentos ou das nuvens escuras quando os fitei que pudessem me contrariar e me fazer crer que nada daquilo poderia ser verdade. Em resposta, eu ouvi a risada de Yamato soando cínica e extremamente perigosa do outro lado da linha.
– Qual seria a sua proposta? – questionei, enquanto uma parte da minha mente gritava que eu deveria permitir Sasuke continuar e outra dizia o contrário.
– Bem, você sabe qual ela é. Quero que retorne aos negócios, e em troca eu afasto Sasuke do seu antigo estilo de vida. – Yamato retrucou. Era quase possível sentir seu sorriso na voz. Era quase palpável o quão a realidade era cruel. E era inadmissível aceitar que, mais uma vez, era eu a condenar meu próprio mundo. – Mas não me dê respostas agora. Odeio como a tecnologia altera os negócios atualmente. Encontre-me amanhã à tarde. Você já sabe o endereço. Ou se esqueceu?
– Não. Eu sei como chegar aí. – respondi enquanto a raiva lentamente transbordava pelas palavras, mas ainda estava contida debaixo da minha pele.
– É claro que sabe. – ele disse e encerrou a ligação.
Soava como uma espécie de justiça poética. Soava como uma tragédia infinda. Soava real demais. Enquanto o vento cortava meu rosto e agitava as folhas espalhadas pela calçada, tudo parecia paralelo demais. Longe demais para ser alcançado e difícil demais de ser tocado e alterado.
Encarei o celular por alguns instantes e depois o guardei. As palavras de Pain e Yamato de misturavam, como se fossem partes de um veneno que corrompia a noção do que realmente deveria ser certo e errado, do que realmente deveria ter valor. Porém, parecia que nada daquilo fugia da verdade, parecia que os dois eram uma parte nítida de um passado que eu não poderia esquecer e rastros da realidade.
O som dos passos era apenas mais um detalhe. O ruído dos carros não chamava minha atenção ou o som das músicas que eram tocadas dentro do bar. Os sons de vozes e risos eram irrelevantes demais. Respirei fundo e novamente encarei os céus escuros, à espera de uma resposta que jamais viria.
À espera de uma mudança que eu jamais permitiria.
– Itachi! – a voz dela despertou minha atenção. Despertou as batidas aceleradas em meu coração. Despertou os nós que haviam se afrouxado ao redor da minha garganta. E simplesmente sustentou mais um sorriso enquanto ela se aproximava.
– Sakura, eu... – murmurei enquanto ela me encarava de modo gentil e animado. Seus olhos brilhavam de um modo estranho. Ou talvez, eu quisesse me esquecer do modo que eles brilham e principalmente, que não são para mim.
– Você simplesmente desapareceu nessa semana. O que aconteceu? Eu fiquei preocupada com você. – ela disse enquanto se aproximava mais e levantava os braços.
Eu deveria ter me afastado. Devia ter evitado que ela rodeasse os braços ao redor do meu pescoço enquanto ficava na ponta dos pés para igualar a altura. Havia uma lista de inúmeras sensações que eu devia ter trancafiado em algum lugar mais irrelevante em meu peito, uma série de possibilidades que não deveriam vir à tona. Várias palavras romperam minha mente, várias sensações fluíram sob meu sangue e por várias vezes recriminei-me por permitir que ela fosse a responsável por tudo aquilo.
– O que você faz aqui?
Ela me fitou confusa enquanto suas palavras sentenciavam a verdade logo atrás de mim. Franzi as sobrancelhas, divagando respostas que simplesmente morriam na ponta da língua. Porém os passos apressados atrás de mim sentenciaram outra verdade.
– Ei, Itachi... Por que demorou tanto? – a voz alegre e com o sotaque misto dela interrompeu o silêncio e pôs um sorriso confuso no rosto de Sakura imediatamente. – Ah... Desculpe... Eu não sabia que encontrou uma amiga...
– Acho que eu vim numa má hora, então. – Sakura murmurou em tom baixo.
Naquele instante, dois turbilhões diferenciados me atingiam. Mas igualmente abalavam-me. Traziam novos focos, novas concepções absurdas sobre passado e presente de uma vez; uma sequência limitada de escolhas e consequências que eu deveria tomar o mais rápido possível. Inalei o ar, como se ele pudesse dissipar aquela cena, aquele instante e todos os segundos que se passaram.
O silêncio — quase cômodo — se instalou por fim. E fragilmente as ordens eram gritadas contra meus tímpanos, atravessando minha sanidade por completo. Faça alguma coisa! Porém eu estava completamente paralisado, não havia vontade alguma de me mover ou de interromper o que quer que as duas estejam pensando a respeito daquela situação.
Porque, em algum lugar, havia uma imensa relutância em permitir que houvesse alguma intervenção de minha parte a respeito de Sakura. Principalmente pelo olhar arrastado e inconformado que ela me lançou, como se de fato ele pudesse significar alguma coisa.
E talvez, tivesse mesmo algum significado.
– Eu sou Yue. Prazer. – rapidamente e desconcertadamente Yue interveio, esticando a mão na direção de Sakura. O aperto de mãos fora rápido e silencioso. – Você é...?
– Sakura. Prazer, Yue...
Senti o olhar surpreso de Yue na minha direção e certo desespero começando a me consumir naquele instante. Rapidamente o silêncio se instalou mais uma vez. E mais uma vez uma pequena parte em meu cérebro exigia uma atitude ou ao menos, um conjunto de palavras que pudessem ter algum significado naquele instante e explicar a tensão que pairava no ar.
– Ah, você é a Sakura... Ouvi falar a seu respeito. Não se preocupe; nada ruim. – Yue murmurou rapidamente enquanto arrancava um sorriso forçado de cada um.
– Vocês são amigos? É que... Na verdade, nunca ouvi falar a seu respeito. – instantaneamente Sakura retrucou, como se tais palavras a incomodassem de algum modo. Ou era o que eu queria enxergar. – Nem mesmo uma palavra.
– Nos conhecemos nesse bar, a propósito. – Yue respondeu enquanto dava dois passos à frente. Um sorriso satisfeito desenhou-se em seus lábios diante da expressão aparentemente pacífica de Sakura. – Somos amigos, sim. Porém recentes.
– É bom saber que você está bem, Itachi. De qualquer maneira, fiquei preocupada com você. – a resposta rápida de Sakura fragilizou o rápido silêncio que havia se instalado. – Foi um prazer conhecê-la, Yue.
– Igualmente. – ela limitou-se a responder enquanto Sakura lançava um sorriso na minha direção mais uma vez. Yue me encarou seriamente e depois suspirou.
– Sasuke também está preocupado com você, Itachi. Ele... andou perguntando sobre você ultimamente. – rapidamente Sakura falou enquanto se afastava a passos calmos.
E aquelas palavras tinham que conter uma essência de mentiras e de ilusões. Caso contrário, a insanidade estava me assombrando seriamente. Aquele momento, aqueles minutos tortuosos e as ações e reações quase forçadas tinham de ser uma parte fantasiosa da minha mente. Ou um grave sinal de que as coisas não estavam tão bem.
Ou de que nada era o que aparentava ser. Assim como eu.
– Ok. Você pode ir atrás dela agora... – o comentário de Yue me fez encará-la de imediato. Ela apenas revirou os olhos enquanto enfiava as mãos nos bolsos de sua jaqueta. – Vamos lá! Admita que é isso o que você quer fazer. É óbvio que você...
– Não. Eu não posso... Não mais. – murmurei enquanto dava as costas para Yue e para a silhueta de Sakura que dobrara a esquina.
De alguma maneira, nada mais soava sensato demais. Não enquanto meu celular continuasse vibrando nervosamente no meu bolso. Não enquanto Sakura e Yue ainda se tornassem pessoas distintamente intocáveis. Não enquanto eu soubesse que não haveria como fugir de um passado mal-acabado como o meu.
Como se fosse uma piada ruim, minha mente lembrou-me de palavras de consolo e de palavras animadoras que nada mais fazem do que ressaltar sua dor e sua miséria humana. Eu quis rir daquilo, como se fosse uma péssima piada.
Porém eu não poderia resumir seis anos em uma lembrança borrada. Não poderia camuflar um sentimento doloroso de amar uma pessoa por algo correspondido ou compreendido em algum ponto. E jamais conseguiria abrir mão dos erros que eu cometo por uma chance de amar de novo.
Porque em algum ponto, esse sentimento deveria ser bom, gentil ou quente. Alguma parte dele deveria juntar o que quebrou por dentro e não destroçar o que ainda lhe resta. Algo em mantê-lo deveria lhe dar uma retribuição pelos nós na garganta, pelos sorrisos forçados enquanto o mundo desmorona.
Mas há apenas o desesperador silêncio. Não há uma retribuição. Só existe a queda infinita nesse sentimento que é capaz de fazer um sorriso mentiroso valer a pena por mais um segundo perto dela.
Talvez o problema seja este: esperar muito de uma coisa intocável. Querer demais de um sentimento oculto e nítido. Acreditar, talvez por um instante ou dois, que no final do dia você estará inteiro e não mais despedaçado do que estava na manhã anterior.
Ou simplesmente manter tudo isto perto demais, e chamá-las de convicções e de ideais enquanto meu coração quebra de novo e de novo, e enquanto o que me resta é destruído mais uma vez.
Isto de chama amor? Se realmente é, não deveria doer.
– Espera um pouco. O que é que você quer dizer? Exatamente, por favor. – lentamente a voz de Yue capturou minha atenção. Andei até o bar, empurrei a porta e agarrei meu capacete rapidamente. – Ei, espera!
– Eu tenho que ir embora. – avisei enquanto empurrava a porta mais uma vez e passava por Yue.
– Ah, entendi. Você quer fugir porque não consegue admitir que sente alguma coisa por ela? – encarei-a enquanto a voz dela soava extremamente confusa. Mas suas palavras queimaram contra meu rosto. Um tapa doeria menos. – Qual é o problema em dizer?
– Não existe problema, Yue, porque eu simplesmente não posso! – retruquei sentindo minha voz elevando-se. – Eu... Droga! Eu não posso. Ponto.
– Está bem na sua cara que você gosta daquela garota. Por que não pode dizer? Não... Por que não consegue admitir a porcaria do fato de que você ama aquela maluca cega? – a voz dela se elevou enquanto ela apontava um dedo na minha direção. – É isso aí! Você a ama!
Arduamente, eu queria não poder.
Inalei o ar com certa dificuldade enquanto sentia alguma coisa quebrando-se. Deviam ser as falsas esperanças de acreditar nas negações. Encarei Yue. Desviei os olhos daquele par esverdeado que me encarava furiosamente e confusamente.
Definitivamente... Eu queria não poder amá-la...
– É isso o que você quer ouvir? – perguntei enquanto mais um sorriso mórbido se instalava em meu rosto e mais um nó se fechava em minha garganta. – Porque, bem... Eu não entendo por que você se importa com isso, Yue.
– Alguém tem que se importar. – ela respondeu rapidamente enquanto suas palavras adquiriam um tom ameno.
– Não... Não tem que ser você; muito menos qualquer um. – o sorriso em meu rosto desfalecia lentamente. – Na verdade, eu não preciso mais que alguém se importe. Porque no final, eu sempre vou ser estúpido o suficiente para me importar enquanto o mundo está fodendo com a minha vida.
– É tão difícil admitir que você a ama? – Yue perguntou por fim e o sorriso em meu rosto retornou, mais difícil ainda de ser mantido.
– Não. Porque ela ama meu irmão, Yue. Por isso nunca vai ser difícil admitir uma coisa que não pode acontecer. – respondi enquanto ela apenas ficava em silêncio e a verdade queimava mais do que eu lembrava. – Simples assim. Ela escolheu o meu irmão. É o suficiente?
Sim. Tem de ser o suficiente.
Aquelas palavras soavam covardes, fadadas ao conformismo e fracassadas demais. Porém não havia motivos reais ou ilusórios para me afastar daquela linha de raciocínio. Era apenas mais uma verdade, mais um amontoado de pequenos fatos que diariamente eu tentava negar e por anos queria transformar no resumo banal da minha existência.
Não ousei encarar Yue ou seus olhos surpresos e verdes que me fitavam insistentemente. Aquilo soava extremamente covarde da minha parte, admito. Porém eu não teria mais forças ou vontade de encará-la sabendo que a verdade havia escapado junto com as mentiras que eu havia construído.
Não quis ouvir seu pedido ou suas palavras seguintes. A pena estava nos olhos dela. Recriminava-me de modo gentil. Mas era como um veneno, mais uma verdade esperada e dura demais para ser aceita.
Andei com pressa até minha moto estacionada do outro lado da rua. Ignorei os gritos de Yue e o som alto da buzina de um carro. Coloquei o capacete e subi na moto assim que estava próximo o suficiente dela. Em segundos, o único som que eu me atrevia a prestar atenção era o do motor da moto.
E em minutos obriguei-me a forçar a adrenalina corroer minhas veias. Ignorei riscos e consequências enquanto dirigia alucinadamente pelas ruas frias de Tókio. Apenas ignorei as batidas incertas em meu peito, ignorei a dor em minha mandíbula por ela estar trincada há algum tempo e ignorei-me dos lhos verdes que assombravam minha sanidade.
{ ... }
Sete ligações não atendidas. Treze novas mensagens de texto. Nove mensagens em sua caixa postal. Duas chamadas ignoradas.
Bateria fraca.
As palavras brilhavam na tela do meu celular. Um barulho alto e estridente vinha dele, anunciando mais uma vez que a bateria acabaria em qualquer instante. Os raios solares pareciam ser capazes de queimar minha retina, a brisa suave parecia formigar minha pele enquanto agitava meus cabelos.
Por uma fração de segundos eu quis acreditar que as razões que me levaram ao antigo colégio eram racionais. Mas a verdade era simples. Não havia mais lugar para fugir ou algum lugar seguro o suficiente que pudesse enterrar fantasmas do passado e do presente. Simplesmente não havia mais escapatória.
Por outra fração de segundos eu quis absurdamente dizer que era um golpe do destino ou uma lição irônica da vida em algum ponto daquilo tudo. Eu queria afirmar abertamente que nada daquilo era merecido, que nenhuma situação infernal que estava acontecendo era minha culpa.
Mas era só mais uma mentira oca e desestruturada vinda do fracasso eminente e do dilacerante cansaço. Porque é extremamente cansativo saber que independente de tentativas ou de erros, eu sou o único e real culpado pelas mentiras que me iludem ou pelas novas e velhas dores que me atormentam.
Afinal, sou eu quem as mantém e não o mundo.
O solitário som da guitarra, baixo e calmo ecoava do alto falante do meu celular, enquanto as primeiras linhas de Ugly eram cantadas pelo vocalista do The Exies. Continuei ouvindo a música que havia me atormentado por sete vezes durante a madrugada e pelo começo da manhã, e agora, pela oitava vez.
O visor do celular piscava enquanto os sons da bateria e do baixo acompanhavam agitada e lentamente a voz do vocalista e o som da guitarra ao mesmo tempo.
Yue Shaw — Recusar ou Aceitar.
Em alguns segundos, a ligação foi direcionada para a caixa postal e Ugly fora silenciada imediatamente. A tela do celular piscou de novo e o som estridente sobre a bateria incomodou-me mais uma vez.
Oito ligações perdidas. Bateria fraca.
– A nostalgia sempre foi o seu pior defeito. – permaneci encarando a tela do meu celular e a mensagem insistente do mesmo. – O que faz por aqui, Itachi? Até onde eu sei Sasuke não está causando nenhum problema à Pain.
– Não estou aqui pelo Sasuke. – murmurei enquanto desviava a atenção do aparelho para os céus azuis e claros.
– Finalmente decidiu viver sua vida? Ou está aqui por algum outro motivo em especial? – zombeteiramente, a frase de Konan me fez encará-la por alguns minutos. O sobretudo dela era agitado pelo vento e os cabelos dela estavam desalinhados. – Apenas diga se quiser.
– Na verdade, estou aqui por mim. – respondi enquanto um suspiro era solto por ela. – Ou é o que eu acho.
As nuvens se moviam. Poucas manchas esbranquiçadas se destacavam nos céus azulados. Eu queria manter minha atenção e pensamentos apenas no clima, nos raios solares que atravessavam a palma da minha mão e pareciam perfurar minha pele por alguns segundos de um jeito indolor.
Havia uma divisão invisível em minha mente, forçando-me a bloquear quaisquer pensamentos relacionados à noite passada ou aos anos anteriores. Porém eles permaneciam intactos e mesclados em minha mente.
Novamente meu celular tocou e o som do The Exies tocava mais uma vez. Encarei o visor do celular e franzi as sobrancelhas rapidamente enquanto o desentendimento me afetava por alguns segundos.
– O que é que você quer? – questionei rapidamente após atender a ligação.
– Oras Itachi... Você nunca foi tão mal humorado, pelo menos enquanto trabalhava comigo. – a voz arrastada e debochada de Yamato irritou-me profundamente. – Apenas liguei para dizer que estou disponível para uma negociação em uma hora e meia. Acha que consegue ser pontual e chegar aqui antes do Sasuke?
– Eu pensei que havíamos chegado num acordo Yamato. – pronunciei o nome dele raivosamente enquanto a risada dele soava do outro lado da linha, extremamente cínica.
– Itachi... Suas esperanças ainda me divertem. Assim como a sua esperança de que poderia se livrar de mim após seis anos de trabalho... – ele disse em resposta e senti minha mandíbula trincar e meus músculos enrijecerem. – Caso você não tenha lembrado, ainda não chegamos a acordo algum... Ainda.
– Então eu devo considerar que não temos o que discutir certo? Já que não há acordo nenhum ainda... – retruquei rapidamente enquanto tentava controlar a raiva eminente. – Ou há alguma razão que eu deva considerar para gastar tempo com você?
– Eu não usaria esse tom. – Yamato alertou-me tranquilamente e riu em seguida. – Caso você não tenha notado ainda, coisa que está suficientemente clara, é você quem tem razões para gastar seu tempo comigo... Sasuke tem uma namorada, certo? E ultimamente... Bem, parece que você está saindo com uma loira atraente também...
– Você está fazendo acordos com aquele miserável mais uma vez? – Konan questionou irritada e surpresa, puxando meu ombro rapidamente.
Apertei o celular com força enquanto o silêncio sobrepunha-se a qualquer tipo de resposta, tanto à Konan quanto à Yamato naquele momento. Medos e anseios começavam a criar um turbilhão confuso em minha mente. Perguntas que eu queria evitar surgiam e respostas que eu não queria ter, simplesmente estavam ali.
– Isso não vai durar por muito tempo. – retruquei enquanto a sensação de rendição era absurdamente ácida em minha mente e em minha boca. – Entendeu?
– Claro. Assim como há seis anos... Não é? – Yamato disse mais uma vez em tom zombeteiro e em seguida encerrou a ligação.
Por um minuto ou mais, parecia que as palavras de Yamato eram uma espécie de alerta anestésico de que eu não poderia ignorar ou enterrar meu passado tão facilmente como havia acreditado. Os rostos de Yue e Sakura perturbaram-me imediatamente. As palavras raivosas de Konan soavam como zumbidos quase inaudíveis.
Logo a raiva crescia, juntamente com o temor e com a hesitação. Porém havia apenas a clara certeza de que aquela era apenas mais uma consequência descontrolável que se espelhava apenas em escolhas que eu havia tomado.
– Você disse que estava livre dele, Itachi. – Konan disse, capturando minha atenção e seu olhar brilhava raivosamente. – Você e Pain concordaram que Yamato não iria entrar em contato mais uma vez, e você sabe o que Yamato significa.
– Eu já sei. – retruquei rapidamente enquanto a encarava. – Eu sei que aquele miserável quer ganhar dinheiro as minhas custas de novo e me incriminar quando for preciso. Eu sei disso, Konan!
– Não, Itachi. Você não sabe. Porque se soubesse de alguma coisa, estaria longe de Tókio como prometeu. Estaria longe do Yamato e do seu negócio como havia prometido. – Konan disse duramente enquanto me encarava com certa repugnância. – Se realmente soubesse de alguma coisa, tomaria decisões próprias e não pelos outros.
– Ele quer o Sasuke, Konan. Eu... Não posso permitir que ele faça... – murmurei enquanto tentava acreditar em minhas próprias palavras. Elas soavam incertas demais. Ocas demais.
– Não pode permitir que ele faça os mesmos erros que você fez? Não pode permitir que ele obedeça Yamato como você fez? Não pode permitir que ele faça um acordo que não pode cumprir, como você fez? – Konan falou em tom baixo enquanto sua expressão era quase indiferente. – O problema não é esse. A verdade é que você não quer viver sua própria vida, ao menos uma vez.
– Então eu devo deixar que Sasuke seja chantageado pelo Yamato? É isso o que você acha que é certo, Konan? – questionei enquanto sentia minha voz alterar-se. – Eu não tenho escolhas.
Minta... Continue mentindo até que mentiras virem verdades...
– Realmente, você já fez suas escolhas há muito tempo. – Konan falou enquanto sua voz soava feroz e tranquila ao mesmo tempo. – Provavelmente Pain irá falar com você depois que souber que você e Yamato estão fazendo acordos mais uma vez. Eu o aviso assim que ele tomar alguma decisão.
– Konan. – a chamei enquanto ela se virava para ir embora. Ela apenas ficou parada e em silêncio. – Pain não precisa saber disso. É um assunto meu.
– O assunto lhe envolve ou envolve o seu irmão? – ela retrucou rapidamente e fiquei em silêncio. – Foi o que eu pensei... – Konan murmurou em seguida e simplesmente retomou seus passos para longe de mim e daquele lugar.
O silêncio predominou e me incomodou rapidamente. Os raios solares ficaram mais fracos, a força do vento maior e o turbilhão em minha mente dissipou-se lentamente. O único barulho que quebrou por alguns segundos viera do meu celular. O visor brilhava fracamente enquanto o som irritante era emitido e a mesma mensagem ainda estava lá.
Bateria fraca.
Inalei o ar e procurei pelo capacete. Não o encontrei e simplesmente andei até minha moto, que estava estacionada a poucos metros dali. Passei pelo portão meio enferrujado e pisei nas folhas que ainda estavam sobre a calçada.
Guardei meu celular no bolso pouco antes de subir na moto e girar a chave e acelerar para longe dali. Observei a quantidade restante de gasolina e a velocidade que a moto estava. Ainda me restava alguns litros de gasolina e deveria ser o suficiente para cruzar a cidade até o oeste.
O ponteiro do velocímetro apontava para os vinte quilômetros. Acelerei mais ainda enquanto passava por uma placa desbotada de “Pare”. O vento cortava meu rosto e meus dedos. Meus olhos focavam-se na estrada e nas palavras de Konan e de Yamato.
Eu sabia que elas não deveriam abalar minhas convicções e muito menos implantar o receio do desconhecido e a necessidade de ação em meu sistema. Mas os dois estavam certos. E em algum ponto, aquilo não deveria ter tamanha importância ou criar mais perguntas. Pois eu não queria mais saber das respostas, porque elas tinham a verdade. E a verdade sufocava.
Era extremamente sufocante crer que meu passado não poderia me afetar, mesmo sabendo que de algum modo, ele não afetaria apenas a mim. Era quase asfixiante lembrar dos sorrisos que eu ostentava, das mentiras que contava a mim mesmo e de palavras que jamais seriam ditas apenas a mim.
E era dolorosamente verdadeiro admitir que a culpa iria recair apenas nos meus ombros. Seria o peso dela a doer todas as vezes em que os fatos se sobrepusessem às ocas ilusões que eu havia criado, como se elas pudessem me proteger da realidade.
Pois em algum ponto, deveria existir um mérito por sorrisos quebrados e por um coração despedaçado. Devia existir uma recompensa pelos acordos sujos feitos e pelas decisões impróprias. Em algum momento, alguma gratificação tinha que vir depois de vãs esperanças terem voz e depois da incapacidade de abandonar o que me destruía ditar o que eu podia fazer.
Mas havia e sempre haveria o silêncio. O nada. O vazio e a hesitação de fazer alguma coisa que não se baseasse em mais mentiras e verdades distorcidas. Ao auge do desespero, eu sentia minhas mãos atadas e meus soldados na incerteza, como há muito tempo estava.
Porque não havia esperança de um futuro melhor quando eu mesmo havia destruído as perspectivas.
Acelerei mais ainda e olhei o velocímetro mais uma vez. Quase sessenta quilômetros por hora. Porém eu queria mais. Queria a adrenalina aquecendo meu sangue e queria que ela explodisse. Queria que a sensação de culpa e de insuficiência fossem carregadas pelo vento para o mais longe possível.
E eu queria correr de mim mesmo e do erro que estava prestes a cometer. Porém eu apenas acelerava mais ainda, corria cada vez mais rápido para aquele erro e para mais uma mentira que eu teria de alimentar.
{ ... }
O imenso galpão de quase seis andares ostentava uma aparência velha. As portas trancadas e o muro acinzentado que circulava a área do galpão criavam a sensação de segurança, assim como os dois portões que estavam acorrentados na lateral do muro. Estacionei a moto perto do portão, tirei a chave e a guardei em meu bolso.
Olhei em volta, e como esperado, não havia ninguém. Tirei a corrente que estava entrelaçada nos dois portões e empurrei um deles, o rangido do metal era alto e indicava que a ferrugem estava corroendo as dobradiças.
Atravessei os quinze metros até uma das portas do galpão com pressa. Minha mente alterava-se entre perguntas e avisos para sair dali o mais rápido possível. Eu tinha consciência de que estava prestes a condenar-me ao passado mais uma vez. A cometer os mesmos erros.
Porém era quase irracional acreditar que aquilo poderia ser a atitude certa a ser tomada. Pois era apenas mais uma decisão tomada às pressas, mais uma ação impensada que se resumiria em mais sorrisos forçados e em palavras cruéis.
Apressei um pouco mais o passo e finalmente alcancei o portão. Chutei o mesmo algumas vezes; depois de algum tempo a porta foi destrancada e aberta. O rosto pálido e os cabelos grisalhos de Kakashi, espetados para o lado, chamaram minha atenção de imediato.
– Vim conversar com Yamato. – falei rapidamente enquanto Kakashi apenas concordava num acena mudo e abria um pouco mais a porta, permitindo que eu passasse.
Passei pela porta e as rampas num “U” incompleto chamaram minha atenção. Os amontoados de terra e as argolas gigantes fixas por cabos no alto da estrutura do galpão soaram como um aviso para sair enquanto havia chance. As arquibancadas nas laterais do galpão e a luminosidade quase confortável dali me fizeram arrastar os pés até a escada mais a frente.
Subi os degraus de metal rapidamente e parei em frente à porta de madeira. Bati nela duas vezes antes de ouvir uma ordem rápida para entrar. Agarrei a maçaneta e a girei rapidamente, passei pela porta e o sorriso de Yamato surgiu.
– Itachi... Pontual como sempre... – Yamato comentou enquanto eu adentrava no seu escritório. Ele estava sentado numa cadeira revestida de couro giratória, atrás de uma mesa de vidro. – Feche a porta, por favor.
– Não vou demorar. – falei rapidamente enquanto o sorriso no rosto dele continuava intacto. – Não quero saber o que tem a me propor, eu já sei. Tenho duas condições, caso você não aceite alguma delas, eu vou embora.
– E eu coloco Sasuke no seu lugar. – ele rebateu rapidamente. – Mas, de qualquer modo... Diga quais são suas condições. É justo, até. Também tenho um acréscimo de duas condições nesse acordo.
Encarei Yamato rapidamente e cerrei os punhos.
– A primeira condição é que Sasuke não pode e nem será envolvido nisso, nem mesmo a namorada dele ou qualquer outra pessoa que eu quiser. Muito menos saber que você respira. – sentenciei tentando controlar a vontade de ir embora. – A segunda condição é que eu fico apenas por três meses. Por três meses eu irei trabalhar com você, mas depois desse prazo eu vou embora. E não quero que você me chantageie ou que procure Sasuke ou qualquer outra pessoa que eu conheço.
– Agora, minhas condições. – Yamato disse, como se nenhuma palavra minha pudesse abalar o sorriso em seu rosto. – A primeira é bem simples, você deve assinar um contrato de um ano. Caso contrário, não serei eu a incomodar qualquer pessoa, Pain será responsável por isso. – fiquei em silêncio e Yamato apenas sorriu mais ainda. – Mas, há um detalhe sobre o contrato. Você pode ir embora depois de um ano, ou antes.
– O quê? – perguntei enquanto franzia as sobrancelhas.
– A segunda condição é mais simples ainda. Tudo o que você tem que fazer é cumprir o que estiver no contrato, sem contestar. Se não concordar com o contrato... Bem, Sasuke ou sua namorada podem sentir um pouco a sua falta. – Yamato disse tranquilamente. – Por um longo, longo tempo... E quem sabe, eles podem fazer falta antes de você. Nunca se sabe.
– Não... Você disse que... – murmurei tentando encontrar algum tipo de argumento que pudesse reverter aquela lógica.
– Por enquanto, nada foi confirmado da minha parte. Eu não disse se concordo com suas exigências. Ainda. – ele disse em resposta, tomando meu silêncio como resposta. – Mas, se você concordar com o contrato, nada acontecerá. Prometo. Mas isso vai depender de você também Itachi. Eu cumpro minha parte, você cumpre a sua... Todos vivem e ficam felizes.
Eu não tenho opções. Eu não tenho opções... Aquelas palavras eram mentirosas e eu tentava me convencer de que elas poderiam ter algum sentido, de que eram palavras certas para confiar no momento em que Yamato levantou de sua cadeira e andou na minha direção.
– Essas são as minhas condições. São bem razoáveis. Estou até lhe dando uma chance de diminuir seu tempo de trabalho... Que tipo de negociador faria isso? Nenhum. Ou algum morto. – ele sorriu mais ainda e estendeu a mão. – E então? Temos um acordo?
Eu não tenho opções... Aquela frase ressoou mais uma vez em minha mente quando apertei a mão dele. Rapidamente e silenciosamente, eu havia me condenado mais uma vez. Havia me lançado à sorte, como se ela pudesse me ajudar.
– Temos um acordo. – murmurei por fim.
– Espero não me arrepender de apostar em você mais uma vez, Itachi. – Yamato disse enquanto seu sorriso diminuía rapidamente e depois, aumentou mais uma vez. – E a propósito, Sasuke irá passar aqui mais tarde. – franzi as sobrancelhas rapidamente enquanto a raiva se agitava sobre minha pele. – Acalme-se. Você comprou meu silêncio... Por enquanto.
Notas finais
Mais um capítulo, perdões pela imensa demora em postar e espero que tenham gostado do capítulo. ^-^
1º motivo da demora: acabei ficando sem internet recentemente e sem imaginação por uns tempos para By Your Side.
2º motivo da demora: achar uma música para o capítulo deu certo trabalho e também quero agilizar algumas coisas e explicar outras, mas não quero acelerar tudo também.
Bem, nesse capítulo tentei mostrar mais ou menos como vai ser a nova postura do Itachi em relação a algumas coisas. E no próximo capítulo algumas coisas sobre o passado dele serão esclarecidos.
Por enquanto, é mais isso.
Agradeço os comentários, aqueles que estão acompanhando e que favoritaram a fanfic. ^-^
Até o próximo!
o/
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