But Fall For You...
1 Hummingbird - Capítulo Único
Notas iniciais
Em meu quarto, liguei o notebook. Entrei no Twitter e Facebook – apesar de não gostar muito, tudo isso tentando adiar mais e mais a hora em que eu entraria no MSN. E o pior era que eu sabia, bem no fundo, que tinha um motivo para eu abaixar a lista de contatos até onde ficam os nomes com “R”. Eu sempre fazia isso comigo mesma. Sempre com a esperança de que ele pudesse voltar a entrar. Mas ele provavelmente não estaria lá.
Eu tinha batido meu recorde de ignorá-lo caso ele entrasse, e ele fazia o mesmo. Costumávamos ter uma conexão incrível. Ás vezes, eu escrevia algo e, momentos antes de eu apertar ENTER, ele tinha mandado a mesma coisa. Ou eu abria a Janela de conversa para dizer “Oie coisa chata”, mas ele mandava exatamente isso, antes de mim. Ou quando eu passava horas olhando para o outro lado da sala de aula, o observando conversar bem alto com nossos amigos, e ele de repente levantava e se sentava no lugar vago atrás de mim. Apenas para me tirar do sério.
— Já posso começar a encher o seu saco? — Perguntava e eu negava, mas mesmo assim ele começou a me fazer cócegas. Eu começava a rir e me contorcer, o mandando parar. Era meu ponto fraco, e ele sabia disso.
— E...Eu mandei... Parar!... Ai!... Para, garoto! — Mandei em meio a risos.
É claro que ele não parava. Depois que ele foi embora, eu não tinha mais nada pra fazer. Não vou à diretoria há um ano, tempo exato que faz que ele foi embora.
Meu celular começou a vibrar. Ainda bem que estava sempre para vibrar, assim eu não teria que ouvir musiquinhas enquanto ignorava a pessoa. Mas ele parou de vibrar. E vibrou de novo. E de novo. E de novo. Eu estava quase ficando sem meu celular, grande era minha vontade de o atirar no triturador de alimentos.
Cinco minutos depois, a campainha tocou. Eu estava sozinha em casa, já era uma da tarde. Meu pai e minha mãe trabalham até as oito. Por isso, fui ver quem era – depois de enxugar as lágrimas e passar um pouco de base na cara.
— Estava chorando, não é?
Fechei a porta atrás de mim e caminhei até a cerca do jardim, onde minha melhor amiga estava encostada e sorrindo tristemente.
— Eu? Claro que não! De onde tirou isso, Larissa...? — Olhei para ela e percebi que seu sorriso tinha um tom irônico. — Merda. Por que você é tão observadora?
— Não existe corretivo entre amigas, baby. — Ela riu e foi entrando sem nem me esperar abrir.
E essa é Larissa Walter, minha melhor amiga de infância. E abusada. Muito abusada.
— Não quer deixar eu abrir a porta pra você, visita? — Brinquei e ela negou, entrando e indo direto pra geladeira.
Fiquei observando enquanto ela abria um armário em cima do microondas, pegava dois copos e os enchia com suco de caju.
— Alice, fala sério! Você precisa comprar coca-cola e burlar essa dieta de suco do seu pai. — Ela me entregou um copo e se jogou no sofá da sala. Relutante, olhei para a bancada da cozinha e suspirei. Claro que a jarra ainda estava lá.
Ela sempre vai ser igual.
Guardei a jarra do suco e fechei a geladeira – sim, ela deixou aberta – e a porta do armário. Depois, me sentei ao seu lado, liguei a TV na Nickelodeon e bebi meu suco em silêncio.
— Jã não está na hora de sair e pegar alguém? — Ela disparou. A única reação que tive foi cuspir meu suco na cara dela. — Obrigada, Alice.
Comecei a rir enquanto ela me encarava como se eu fosse retardada. E eu era, mas ela sabe que não é pra me fazer rir quando to bebendo. Ela foi ao banheiro e trancou a porta.
— Quer uma toalha? — Gritei, encostando uma orelha na porta e ouvindo o som do chuveiro.
— Não precisa! Eu pego. — Ela respondeu. Okay...
Fui até o meu quarto e sentei na cama. Depois, me olhei no grande espelho que ocupava uma parede inteira. Meus olhos não têm nenhuma graça, pretos, mas não os mais escuros que eu já vi. Meus cabelos, ondulados e castanhos. Grande coisa, já que faço chapinha todos os dias. Minha pele é mais pálida que a do Lord Voldemort. Não vou à praia há dois anos.
— Valeu, All. Nem é sábado e você já me faz ter que tomar banho — Lana disse divertida enquanto entrava enrolada numa toalha, vestiu a roupa e ficou me encarando. — É por causa daquele idiota da Rafael? Você ainda gosta dele, né?
— Não... Eu nunca gostei... — Ela intensificou o olhar. — Aliás, de quem você está falando?
Larissa ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços. Cinco segundos depois, começamos a gargalhar. Mudamos de assunto e ficamos desarrumando meu quarto até faltar meia hora para meus pais chegarem. Ela foi embora, já que meus pais não gostam dela.
Má influência!
Má influência são eles, que passam o dia todo fora e esperam que eu seja a filha que eles sempre quiseram ter. Se eu era legam com eles e eles não aproveitaram, agora eu posso ser do jeito que eu quiser. Pelo menos eu tentei. Acham que o dinheiro compensa sua ausência, mas quer saber? As coisas que eu compro com o dinheiro são bem melhores do que eles.
Depois de arrumar tudo, tomei um banho e coloquei um pijama. Liguei meu notebook e entrei no MSN, baixando a lista de contatos e procurando o nome da minha amiga virtual que conheci em um site de fanfiction, Phillipa, mas ela não estava online.
Foi quando eu vi. O nome que eu nunca pensei que estaria com o quadradinho verde ao seu lado novamente.
Rafael Grigori.
Sem poder me controlar, meu coração falhou em uma batida e minha boca se contorceu num sorriso, inconscientemente. Abri a janela de conversa umas três vezes antes de pensar novamente. Eu voltaria a chorar por causa de um garoto que não quis mais ser meu amigo? Seus pais tiveram que se mudar por questões profissionais, mas ele nem se deu ao trabalho de manter contato. Nem uma ligação, nem um entrada no MSN de madrugada, como sempre fazíamos. Nem uma SMS. Ele nem devia ter mais alguma lembrança sobre mim.
E, pensando nisso, eu quiquei de susto quando a janela ficou alternando entre laranja e prateado, depois fez um barulhinho.
Rafael Grigori says:
* Oi tudo bem?
Ele falou comigo?
Bom, no início ele falava comigo. Era como se nada tivesse mudado. Mas uns meses depois de ter se mudado, ele até chegava a entrar no MSN, mas ignorava minhas mensagens constantemente ou me respondia com “Uhumm” ou “rs”, não só para mim, mas também aos nossos amigos. E, fala sério, mandar um “rs” pra mim é caso de morte!
Quando voltei à mim, olhei para o aviso na parte inferior da janela e dei um pulo.
Ace 10 minutes.
Eu realmente fiquei encarando o notebook por dez minutos? Agora ele vai achar que eu não quis respondê-lo. Com certeza, ele está achando isso, porque o Rafa é um daqueles tipos de garotos impacientes que ficam pressionando o botão “chamar a atenção” de dez em dez segundos mas demoram três horas pra responder.
Mas o que importa o que ele pensa?
Alice Beliard says:
*Tudo.
Dei enter e esperei. Por cinco minutos, e posso dizer que foram os mais longos da minha vida.
Rafael Grigori says:
*Quanto tempo né
Se tem outra coisa que o desgraçado adora é dispensar as vírgulas e os pontos de interrogação. Poxa, não precisa de ponto-final, mas só uma interrogaçãozinha...?
Alice Beliard says:
*Uhum...
Não que eu esteja tentando me vingar nem nada, mas... Espero que ele se sinta culpado e ache que não dou mais a mínima para ele.
Rafael Grigori says:
*Tá ocupada
Merda! Isso é uma pergunta ou uma afirmação? Eu preciso saber pra responder à altura, arg!
Alice Beliard says:
*Estou falando com outra pessoa.
Apoiei a cabeça nos braços encarando a tela do computador. Eu não poderia chorar. Não agora que consegui superar isso. Eu devia ter saído no momento em que ele entrou. Sou uma idiota por achar que falar com ele seria bom.
Rafael Grigori says:
* não pode falar comigo também?
* poxa, faz muito tempo que a gente não se fala
Não, eu não posso. E sabe por que? Porque quanto mais eu falo com você, mais saudades eu sinto. E foi com essa mesma “vontade” que digitei uma breve mensagem, talvez ele nem percebe o quão puta eu estava.
Alice Beliard says:
* Fico online de 14:00 ás 22:00, todos os dias, desde que você foi embora. Se quisesse falar comigo, eu estaria aqui. Mas agora não será quando você resolver que é melhor.
* Se me der licença, preciso falar com o meu namorado.
Meu Deus, por que eu disse isso? É claro que não tenho namorado! Mas... ele não sabe disso. O problema é que eu não sei porque fiz isso. Pra causar ciúmes? Eu já superei isso, não?
Não?
Ele ficou dez minutos sem dizer nada. E quando disse, me fez ter vontade de chorar.
Rafael Grigori says:
* Tudo bem, pelo menos você ficou bem depois que eu fui embora
* desculpa ter atrapalhado.
Que droga, ele usou pontuação, agora é sério.
Não, eu não fiquei bem. Fiquei péssima e chorei por meses. Há pouco tempo, decidi admitir para mim mesma que eu sempre senti alguma coisa a mais por ele. Algo que eu nunca percebi ser tão forte como era.
Era.
Não respondi. Era desnecessário, pelo menos era o que eu dizia na minha cabeça, mas a resposta que eu recebia de mim mesma era que não adiantaria. Poderia contornar o que eu disse se eu continuasse a conversa, mas não valia a pena pela dor que eu senti todos os dias, todas as noites. As pequenas coisas em que ele encostou estão guardadas. Com todo o cuidado do mundo, tento preservar as lembranças divertidas de nós dois. Naquela época, a nossa amizade parecia a coisa mais certa do mundo. Agora, percebo que foi tudo um erro.
Fechei o notebook e me joguei na cama. Não importava que ainda fossem nove horas e que eu ficasse acordada a noite toda e fosse sempre cheia de olheiras para a escola. Eu só precisava ouvir uma música e dormir. Esquecer. Sonhar.
Sonhar? Digamos que essa palavra agora seja bem irônica, já que a única coisa com que sonhei foi com estar acordando. Já tive pesadelos bem bonitos comparados a esse.
Me olhei no espelho e nem cheguei a me assustar, afinal, eu já estava acostumada. Cabelos rebeldes e desgranhados, olheiras fundas – levemente escondidas por corretivo -, lápis de olho um pouco manchado, já que meu reflexo de manhã não é nada bom. O uniforme da escola só servia para piorar minha imagem. Calças jeans – graças a Deus -, blusa branca com o emblema da escola, tênis All Stars preto e uma mochila roxa com bottons das minhas bandas favoritas.
Nem pensando nas minhas bandas favoritas eu conseguia me animar.
Joguei o cabelo para trás novamente tentando acordar e me dirigi à garagem. Meus pais me esperavam já dentro do carro com expressões impacientes.
— Atrasada. — Ralhou minha mãe.
Fiz minha melhor cara irônica e me dirigi a ela.
— Jura?
Não era novidade que eu me atrasasse ás sete da manhã de uma terça-feira. Eu nunca consigo chegar no horário certo aos lugares, por que chegaria de manhã e na escola?
E ainda existem pessoas que acordam renovadas.
— Má noite? — Perguntou meu pai enquanto dava a partida. Olhou para mim pelo retrovisor e sorriu, com sua expressão palhaça. — Péssima? Que cara é essa?
Revirei os olhos. Ele ainda não entende que meu humor não é nada bom quando acordo? Pelo menos em algo eu deveria puxar á minha mãe.
Eu gosto bastante deles, mas eles nunca vão ser aqueles pais que são amigos ao mesmo tempo. Eles mal têm tempo para se dirigirem a mim, muito menos para termos uma conversa decente.
— Fica quieto, pai. — Mandei calmamente, apertando as têmporas e fechando os olhos. Me sentia como se estivesse de ressaca. — Estão vendo? Eu nem bebo e já tenho ressaca! Então por que não posso beber agora mesmo?
— Porque você não consegue não passar mal nem sóbria, imagina bêbada? — Brincou minha mãe. Era raro vê-la brincando, mas a gente se acostuma com umas surpresas de vez em quando.
Meu pai encostou o carro na calçada da minha escola. Era um lugar chato, onde um bando de fofoqueiros enchem o saco de pessoas como eu: que não fazem nada que chame atenção. O carro encostou na calçada da minha escola, murmurei um “Tchau” e saí do carro, batendo a porta com força.
— Woou! Esqueceu de levar a porta junto? — Gritou meu pai. Sem olhar para trás, soltei uma risadinha e abaixei a cabeça para entrar.
O corredor estava cheio com os idiotas de sempre. Quando passei por eles, senti olhares queimando em minhas costas. Ameacei cada parte do meu corpo caso eu caísse agora. Felizmente, consegui chegar à sala sem nenhuma interrupção. Porém, quando entrei e vi o "aluno novo" em pé, quase tive um AVC.
— Senhorita Beliard, nos dê a honra de sua presença. — Disse o diretor Fernando. — Atrasada.
— Uma turma inteira está lá na porta. Duvido que todos eles estejam estudando ao ar livre. — Fiz a minha melhor voz boazinha, mas devo ter soado como irônica porque o diretor fechou a cara e me mandou sentar.
— Como já sabem, o aluno Rafael Grigori está voltando a estudar conosco a partir de hoje...
Enquanto o diretor tagarelava sobre algo que ninguém queria saber, meu olhar estava preso no dele. Seus olhos castanhos continuavam profundamente escuros, do jeito que me lembrava. Seus cabelos pareciam mais claros, mas devia ser da minha cabeça. Talvez eu já estivesse começando a esquecer certos detalhes... Ah, e ele tinha feito tatuagens nas mãos.
— Por que não se senta ao lado da sua velha amiga, Rafael? — Perguntou o diretor, olhando de mim para ele.
— Hãn... — Seu rosto era desconcertado e confuso. Como se ele não soubesse se devia fazer algo ou não. — Acho que ela não iria gostar...
Ele se interrompeu e olhou para mim. Ele achava que eu estava chateada com ele? Ainda bem, porque eu estou, mesmo que doa em mim saber que as coisas não são mais as mesmas.
— Por que ela não gostaria?
Não falei nada, e nem ele. Mas, para o professor, isso pareceu dizer que estava tudo bem.
— Viu, senhor Grigori? Pode se sentar ao lado dela. — Insistiu o diretor. As carteiras eram duplas, e o único lugar vago era o meu já que a Lana sempre mata o primeiro tempo.
Rafael tirou a mochila e se encaminhou até a cadeira ao meu lado. Depois de se sentar, ele decidiu que encarar o caderno de desenhos era melhor que falar comigo.
— Não vai mesmo falar comigo. Incrível como as coisas podem voltar aos seus devidos lugares e parecer que nada mudou, e ainda assim tudo ser diferente.
Sua cabeça se levantou e seus olhos me encaravam em dúvida. Ele estava como quando me chamava de bipolar. Me questionei se ele realmente merecia...
Sim, ele merecia.
— Hãn... o que?
O tom envergonhado dele me fez rir, mas o professor de artes me mandou uma cara feia e tive que parar na hora. O diretor já tinha saído e nós tivemos que fazer Desenhos Contrastantes. É quando duas pessoas criam um desenho e o dividem ao meio. Cada metade é decorada de um jeito oposto.
Olhei para a mesa ao lado. Era Fanny e o Daniel. Uma metade era rosa e florida, a outra era preta e cinza, com muitos símbolos estranhos. Me lembrei do chilique que a Fanny deu quando teve que fazer par com o Dani.
— O que você quer fazer? — Perguntei para ele, que sorriu. Eu teria que esquecer minha irritação por alguns minutos, afinal, trabalho é trabalho.
— Não sei. — Olhei para ele, depois para minhas mãos. Elas estavam cheias de anéis pretos e de prata, meus pulsos eram tomados por fitas coloridas. E o Rafa... Bem, o Rafa é o Rafa. E é por isso que seu pulso direito carregava milhares de fitas coloridas, seu nariz e sua boca tinham piercings e seu cabelo tem um jeito desarrumado. — Nós costumávamos ser iguais.
Ele me imitou, observando nós dois, e riu. Rir com ele foi um alívio para mim. Foi como tirar o tampo do ralo e a água descer rapidamente.
Nós decidimos por deixar a ideia do trabalho de lado e cada um desenhar sua parte. Eu fiz um mural cheio de símbolos, como Paz e Amor, Rock in Roll, Folk... Tudo isso num fundo cinza, lilás e roxo. Já ele fez os mesmo símbolos que eu, mas com um toque masculino. Os traços do desenho eram mais fortes enquanto os meus, delicados e simples. O fundo de seu desenho era preto, roxo e vermelho.
Olhando por outro ângulo, o trabalho até teve seu real objetivo cumprido. O meu foi algo feminino e o dele masculino. Existe algo mais oposto que os sexos?
— Perfeito, pessoal. — Elogiou o professor, ao lado de nossa mesa. — Ah, Fanny, largue o piercing do Daniel...!
Relaxei na cadeira. Agora eu não precisaria mais olhar para ele.
— Você está bem? — Perguntou o Rafael, tocando a mão que eu apoiava na cadeira. Automaticamente, afastei minha cadeira da sua e olhei irritada para ele.
— Claro. Por que não estaria? — Sorri cinicamente e comecei a encarar o quadro branco na frente da sala, enquanto enrolava as mechas roxas e vermelhas na ponta dos meus cabelos e fingia que fazia algo super interessante.
Depois disso, ele não se arriscou a falar comigo novamente.
Almoço? Se resumiu à uma palavra: A coisa mais chata do mundo. Fiquei fingindo para a Lana que não olhava para o Rafa, mas acho que não a convenci muito, não.
Ele se sentou com os que se diziam ser meu amigos. A verdade é que, dois meses depois de ele ter ido embora, metade dos nossos amigos viraram os “populares”. Stefanny, Rebecca e Camila eram minhas melhores amigas, assim como a Lana. Hoje elas são: Fanny, Becky e Cammie.
Meu Deus, como essas pessoas suportam esses apelidos? Eu sei que o da Larissa é idiota também, mas é só porque dá preguiça de escrever o nome dela, e o meu... bem, foi um certo amigo meu que escolheu.
— Podemos conversar, All? — Perguntou uma voz conhecida. Eu tinha abaixado a cabeça para morder minha pizza e quando levantei, dei de cara com uma carinha de criança.
Mas minha raiva falou mais forte.
— Estou comendo, Rafael. E se quiser inventar apelidinhos ridículos, fica perto das Super Poderosas lá. — Apontei com a cabeça para as três ridiculamente apelidadas.
É claro que eu adorava quando ele me chamava de All. Ele dizia que All significa tudo em Inglês, por isso eu era tudo para ele.
Oh, acho que vou chorar de fofura! Pelo amor de Deus, como eu era idiota em acreditar nessas coisas!
— O que houve com você? Acho melhor ir tratar esse seu problema de humor! — Ele ergueu as sobrancelhas e me encarou irritado.
— Ah, eu preciso me tratar, sou bipolar e problemática? Mais alguma coisa? — Ergui as sobrancelhas também e me levantei, ficando em frente a ele.
— Sim, você também é louca! Louca e mentirosa. — Eu fiz uma cara confusa. — Acha que eu não sei que você não tem namorado? Com quem você falava ontem, Alice? Seu irmão mais velho ou sua avó?- Ele deu as costas e me deixou lá, com todo mundo sussurrando sobre como o meu ex-melhor amigo me deixou falando sozinha.
— MEU IRMÃO FUGIU DE CASA E SUMIU E MINHA AVÓ FALECEU. TRÊS MESES DEPOIS DE VOCÊ TER IDO EMBORA. — Eu gritei e me controlei pra não deixar que as lágrimas saltassem de meus olhos. Eu estava bem! Muito bem. Mas ele, é claro, tinha que aparecer aqui e acabar com o muro de indiferença que eu tinha criado.
Ele parou, de costas para mim, mas depois continuou seu caminho. Estava tudo desmoronando. Pedra por pedra que eu havia usado para construir o meu muro. Agora estava tudo no chão. Eu percebia isso enquanto as pessoas olhavam para mim. Algumas preocupadas, outras assustadas.
Desocupados. Um bando de desocupados.
Como sempre, fui andando até minha casa sozinha. Larissa insistiu em matar sua aula de cálculo pra ficar comigo, mas não deixei. Enquanto passava por lugares bastante conhecidos, revivi lembranças de um passado não tão distante. A galera apavorando as criancinhas na praça. Eu e o Rafa correndo atrás delas para trazê-las de volta antes que morressem atropeladas.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Por que ele fez isso comigo? Simplesmente me esqueceu, depois voltou e agiu como se não tivesse feito nada. Como se tivesse sido ontem que ele me contou que eu era sua melhor amiga, que eu era diferente. Como se tivesse sido hoje mesmo que quase quebramos os carrinhos bate-bate do Shopping com a galera.
Antes que acabasse fazendo algo de que me arrependesse – como fazer uma visitinha à Sra. Grigori. Cheguei em casa, tomei um banho e botei um short preto e uma blusa preta da banda NeverShoutNever, arrumando meu cabelo depois em um coque, que se soltou quase todo graças ao meu cabelo extremamente liso por causa da chapinha.
Eu estava pensando no que faria o dia todo para me distrair quando a campainha tocou, então fui atender à porta. Quando a abri, vi Rafael encostado na cerca que o jardim separava da porta da minha casa e olhando para o chão.
Eu ainda poderia fingir que não estava em casa...
— Eu já te vi. — O ouvi dizer quando me virei para entrar novamente. Bufei frustrada por ter sido pega e desisti. Fechei a porta atrás de mim, passei pela cerca, me encostei á sua frente e cruzei os braços.
— O que você quer? — Fiz uma cara entediada.
— Saber o motivo de tanta ignorância. — Ele disse. — Mas eu não quero ter que adivinhar, como você espera. Quero que me diga. Agora, na minha cara.
Que legal, eu pretendia almoçar antes. Afinal, todos os homens são assim tão burros, insensíveis, retardados, lerdos...? Enfim, todos são homens? Arg, sem pensamentos feministas assassinos agora. Essa não é você, Alice.
— Quer saber? Eu digo. — Respirei fundo e me preparei para o pior. — Você foi embora.
Primeiramente, ele sorriu. Devia pensar que eu estava brincando. É, ele pensava. Depois, ele arregalou os olhos e quase abriu a boca.
— Eu... Eu o que? — Ele mordeu o piercing da boca. Ele sempre fazia isso quando ficava nervoso. — Você disse que entendia a necessidade dos meus pais de irmos para lá. Não foi uma escolha minha ir embora!
— Não "foi embora" fisicamente, idiota. Mas foi uma escolha sua ter simplesmente me ignorado por um ano, ou seus pais te proibiram de entrar na internet? Sem celular e MSN por um ano? — Eu perguntei sarcástica, procurando a melhor maneira de parecer indiferente, mas não encontrando. — Você e a Rebecca pareciam muito próximos essa manhã. Quantas SMS será que você enviou para ela do Tennessee?
Rafael olhou para mim com mágoa em seu rosto e abaixou a cabeça, olhando para seus pés. Ele parecia bastante triste, mas eu não deixaria que isso me abalasse. Mesmo que minha vontade fosse abracá-lo, eu tinha que deixá-lo entender o que eu sofri. Ele tinha que sentir, em um dia, o mesmo que eu senti em um ano, só para que eu pudesse perdoá-lo só na minha cabeça. Porque não adiantava simplesmente dizer que estava tudo bem se ele pudesse achar que o que eu passei aqui foi uma grande besteira.
— Eu... não tive contato com mais ninguém. — Murmurou. Ele parecia incomodado com alguma coisa, mas ao mesmo tempo confuso. Vendo sua dificuldade, coloquei cada mão de um lado de seu rosto e olhei bem fundo em seus olhos. Não porque estava menos chateada. Mas porque eu não conseguia. Não conseguia ser grossa com ele para sempre, uma hora eu acabaria cedendo.
— Só o que quero saber é: Por que me ignorou por todo esse tempo? — Disse pausadamente, vendo suas feições mudarem para melancólicas. — Hey, estou aqui. Como sempre estive.
Ele pareceu relaxar ao meu toque, mas mesmo assim, só um pouco.
— Sempre? Mas ontem...
— Ontem? Fala sério, Rafa, eu inventei que tinha um namorado porque não queria parecer desocupada. — Fui sincera. Afinal, ainda era ele, e eu nunca conseguia esconder nada do Rafael. — E te ignorei porque estava com raiva, sim, mas também para não iludir a mim mesma. Quais eram as chances de você voltar em menos de dez horas?
— Bom, um voo até aqui dura... — Ele contou nos dedos, mas eu dei um tapa em sua cabeça. — Ai!
— Esquece isso, Rafa. O que eu dizia era que as chances de você voltar eram nulas. Eu me preparava para nunca mais te ver de novo. — Eu disse e sorri tristemente para ele. Depois disso, ele me envolveu em um abraço forte que me pegou de surpresa, me deixando sem tempo de afastá-lo. Pela primeira vez desde que ele se foi, eu me senti em casa.
— Quer realmente saber o porquê? — Ele perguntou ao pé do meu ouvido. Assenti com a cabeça, ainda agarrada a ele, e o senti respirar fundo em meus cabelos. — Pelo mesmo motivo pelo qual você me chutou ontem no MSN.
O larguei e cruzei os braços. Fiquei fitando sua expressão sincera, tentando decidir o quanto ele poderia ser bom em mentir.
— Estou falando sério! — Ele sorriu e se aproximou de mim. Não ousei recuar. — Todas as vezes em que falava com você, eu sentia a distância se abrindo entre nós. Sempre que dávamos tchau, parecia que a realidade se materializava bem na minha frente. Foi quando eu percebi que não aguentaria mais saber que você sentia tanta saudade de mim quanto eu de você e não poder mudar isso. Simplesmente abri mão da nossa amizade porque doía muito pensar que um dia ia acabar te perdendo porque você teria seus amigos aqui que estariam perto de você, e conheceria um garoto, começaria a namorar... Você ia acabar esquecendo de mim um dia e eu queria facilitar as coisas. Pra nós dois, sendo honesto. Pra você, que não precisaria gastar seu tempo sendo legal comigo porque não consegue simplesmente deixar alguém de lado. E pra mim... que não conseguiria deixar você ir se esperasse mais um pouco, se me iludisse com ideias de que poderíamos ser amigos mesmo estando tão longe um do outro. — Ele disse tudo em um tom envergonhado. Suas bochechas estavam mais coradas. Eu o encarei, porque eu sabia que ele estava sendo sincero e porque ele era um idiota.
Olhando em seus olhos, seu sorriso simples, sua maneira de se desligar de todos quando estava comigo... Ele parecia ser a maior coisa que importava na minha vida. E ele é.
— Rafa, você é um idiota. — Eu sussurrei como se tivesse dito pra mim mesma. Eu mesma não podia acreditar que o entendia. — Eu entendo. Mas é totalmente possível duas pessoas serem amigas mesmo com a distância. Eu mesma tenho amigos virtuais.
— Eu sei, duas pessoas que são amigas conseguem... — Ele começou a tagarelar. Isso foi estranho, até porque Rafael é muito silencioso. Quase que discreto. Quase. — Mas pra mim não era só isso. E também não disse que ia voltar porque pensei que você não iria ligar, pelo jeito como agiu ontem. Meus pais me deram essa escolha, eles não precisavam mais estar no Tennessee, então eu pedi para voltar. Eu voltei por você. Isso que eu queria dizer ontem.
E abri a boca quando comecei a entender.
— Você disse...?
— Eu disse muitas coisas nessa última frase. — Ele disse e eu ri. Quando percebi que ele me encarava, parei abruptamente e olhei em seus olhos escuros. — Mas não disse que você é linda, que quando você sorri tudo parece melhor, e que eu nunca esqueci de como eram os seus olhos.
Sorri envergonhada e olhei para minhas mãos.
— Já são três frases. — Eu disse desconcertada e peguei em suas mãos. Fiquei vendo suas tatuagens. Em cada dedo — com exceção do polegar — tinha uma letra. Todos juntos, formavam “Live Free”.
— E daí? — Ele ergueu uma sobrancelha e inverteu a posição de nossas mãos. As dele segurando as minhas.
— Humm... — Fingi pensar. Eu não fazia ideia do que dizer naquele momento. Parecia uma idiota, mas graças a Deus ele sabia.
— Eu te amo. — Rafael disse e sorriu.
Ele se aproximou de mim, acariciou meu rosto com uma mão, com a outra envolveu minha cintura. Eu sou um pouco mais baixa que ele, por isso ele inclinou um pouco a cabeça e encostou sua testa na minha. Eu suspirei ao sentir seu hálito de bala Freegells de morango recheado com chocolate um minuto antes de seus lábios macios tocarem os meus e suas mão irem para meus cabelos. Lá, ele fazia carinhos na minha nuca e eu me arrepiei completamente. Quando nos afastamos, suspirei e encostei nossos narizes.
Foi o melhor selinho que eu dei na minha vida – não que eu tenha dado muitos.... Ah, vocês entenderam!
Abri os olhos e o peguei me encarando, sorrindo como eu nunca tinha visto. Ele se aproximou novamente e fechei meus olhos outra vez. Timidamente, toquei seus lábios novamente. Nos beijávamos com carinho, saudade e... amor.
Quando nos separamos, eu tive vontade de voltar para ele, mas estava ofegante demais para sequer pensar nisso. Ainda em seus braços, eu sussurrei só para ele:
— Eu também te amo, Rafa. — Sorri e o abracei. — Sinto muito por demorar tanto tempo pra perceber isso. Precisei te perder e chorar infinitamente todas as noites pra entender o que eu sentia, e então já era tarde demais.
Rafael se soltou do meu abraço e segurou meu rosto, olhando bem fundo em meus olhos como se procurasse a resposta do universo.
—Espera, você já sabia disso?
— Ahn... Quando? — Franzi a testa em confusão.
—Antes. Antes de hoje.
Entendi o que ele estava pensando. Na verdade, eu sempre sabia o que ele estava pensando e vice versa. Era fácil pra gente, sempre foi.
—Sim, eu meio que passei a aceitar o que eu sabia, mas tentava fingir pra mim mesma que não sabia... É complicado e esquisito, só deixa pra lá. — Disse agitada, me mexendo histericamente como quando fico com vergonha, o que o fez rir. — Não ri de mim, seu babaca!
Dei um empurrão em seu peito. Rafa ergueu as sobrancelhas, claramente me desafiando.
— Merda. — Murmurei.
— Corre. — Ele falou e eu saí correndo pra dentro de casa. Me tranquei lá dentro e fiquei rindo encostada na porta.
Rafael era daquele tipo de pessoa que nunca deixava pra lá. Como quando eu joguei água nele na aula de educação física e acabei em baixo do chuveiro com as roupas molhadas no vestiário masculino. Ou quando o empurrei e ele caiu no chão na frente de todo mundo na festa da Camila, e ele me jogou na piscina vestida.
Pois é, ele não sabe a diferença entre se vingar a altura e fazer com que a pessoa NUNCA MAIS QUEIRA ENCOSTAR EM VOCÊ POR UMA SEMANA
—VOCÊ NUNCA VAI CONSEGUIR SE VINGAR DESSA VEZ! — Gritei. Eu realmente odiava cócegas, ainda mais quando ele estava empenhado em se vingar de mim, e eu sabia que era isso o que ele ia fazer. Estava na cara dele quando ele decidia fazer isso. Meu deus, eu já estava me tremendo toda.
— Aham, claro. — A voz dele veio de algum lugar bem á minha frente, e logo estava ele saindo da cozinha e chegando até mim, me pegando no colo e correndo pro meu quarto. — Seu pai me odeia, mas eu nunca me importei em entrar escondido pelos fundos.
Gritei enquanto ele me tacava na cama.
— Pelo amor de Deus pai todo poderoso, Rafael Grigori, não faz isso, por favoooor!
Ele subiu em cima de mim me olhando com sua expressão de quem vai aprontar.
— Eu já perdi muito tempo com cócegas. Pode deixar que não vou mais.
E ele me beijou. Não perdi tempo e o abracei enquanto ele rolava para deitar ao meu lado.
— Não agora que você admitiu que me ama. — Ele sorriu e olhou para o teto, onde antes ficavam as fotos que eu tinha com meus amigos e a maioria era com ele. — Vamos encher esse lugar de fotos nossas quando você aceitar namorar comigo.
E agora eu podia admitir para mim mesma. Eu tinha tudo o que eu queria.
Tudo o que eu queria era ele.
Fale com o autor