- O que acha que está fazendo?- ele diz sério.

Engulo seco.

- Aprendendo a me defender no seu mundo. – rebato.

Ele fecha os olhos.

- Eu mandei você fazer isso?- ele tenta manter a calma.

Respiro fundo.

- Não, mas mesmo se pedisse ou não, eu ia fazer isso. – rebato mais uma vez, mas dessa vez sem intenção.

- Você não sabe como isso me deixa louco. – ele diz ríspido.

- Eu quem deveria estar louca vivendo com você.

Ele cerra o maxilar e abre os olhos, os mesmo estão mais frios.

Mordo o lábio inferior e solto assim que sinto uma dor aguda no local.

- Cassandra eu acho que você não sabe escutar ou não presta atenção no que falam pra você. – ele diz baixo.

- Eu não presto a atenção?- falo pasma- Eu faço o que eu acho certo pra mim mesma, o que eu sei que vai me deixar mais segura. – falo ríspida.

- Não é o que parece.

- Pois é né, porque eu ainda continuo voltando com você. – as palavras saem com o fluxo, sem eu ao menos projeta-las em meu cérebro.

Ele arregala os olhos e fica tenso, mas logo sua feição muda e ele fica irritado.

- Voltou por que quis, pois eu não te obriguei a nada. – ele diz grosso.

Sinto-me fraca e pequena perto dele, isso doeu, quer dizer que ele não se importa com a minha presença?

- Então você prefere a presença de uma vagabunda como a Melissa, que te mata por um melhor a mim?- falo indignada e segurando as lagrimas.

- Pelo menos as vagabundas me obedecem. – ele retruca frio.

Sinto como se alguém tivesse atracado uma faca em meu peito e estivesse girando-a bem devagar, causando uma dor imensa.

- Ah, é isso que importa? O seu poder sobre as pessoas, o sentimento de dominação. – fala amargurada.

- Por isso eu sou assim. – ele sorri triunfante- Por isso as mulheres gostam de mim.

Cerro os dentes e as lagrimas escorrem.

Me sinto apenas mais uma pra ele, apenas mais uma que caiu sobre suas graças.

Retiro o meu sapato e jogo nele, acertando em cheio o seu peito. Levanto devagar e caminho para a escada, ignorando sua feição de espanto, assim que saio, encontro Naomi na sala, que me encara confusa.

- Sabe, eu preferiria ter levado uma facada sua a escutar o que eu escutei agora. – comento baixo e enxugo as lagrimas.

Ela continua parada me encarando, com pose ereta e impecável. Invejo a Naomi, gostaria de poder ficar assim como ela, reservar meus pensamentos, sentimentos e atitudes apenas para mim, mas não, eu tenho que mostrar isso ao mundo, tipo para o Nathan, logo ele.

As palavras dele ainda estão em minha mente, a dor em saber que ele prefere a Melissa, que ele prefere uma mulher que o mate, mas o obedeça a uma que o ama e o respeita pelo o que ele é e não pelo o que possui.

Entro no quarto e taco a porta, com tal violência que acho que os vidros das janelas irão quebrar.

Estou com vontade de matar o Nathan mil vezes seguidas ou tomar uma surra da Naomi de novo e de novo, apenas para ver se eu caio na real. Devo ser a maior trouxa que ele já ficou. Da onde eu tirei a ideia de que Nathan gostaria de mim.

A porta abre de novo.

- Se entrar aqui, é capaz de eu te matar, fazendo-o atravessar a janela. – praguejo ainda de costas.

A porta fecha devagar.

- Você escutou?- pergunto ríspida e viro, encarando seus olhos azuis.

- Sim. – ele diz breve- Mas não vou obedecer.

Cruzo os braços e o fuzilo com o olhar.

- Viu, é assim que você me deixa, louco. – ele sorri.

- Não sorria!- grito- Estou a ponto de entrar em colapso. Sabe como eu estou me sentindo?

Ele fecha os olhos.

- Estava nervoso e acabei falando coisa sem pensar. – ele passa a mão no cabelo.

Ele não usa mais boné?

- Então eu posso atirar em uma pessoa e falar que eu estava nervosa. – rebato.

Ele ri.

- Talvez...

- Cala a boca!- grito- Some da minha frente, eu não quero olhar pra você, estou me sentindo usada, massacrada, humilhada e fraca. – falo sentindo as lagrimas escorrerem.

Ele respira fundo.

- Eu sinto muito, eu não...

- Não sinta!- interrompo-o- Não quero nada vindo de seus sentimentos.

Seus olhos entristecem e os meus desabam em lagrimas.

- Eu esperaria qualquer coisa de você. – falo chorando- Menos isso, você prefere uma vagabunda, uma prostituta que te ama pelo seu dinheiro a mim, logo eu que aprendi a gostar de você pelo Nathan arrependido, perdido e com medo. Não pelo Nathan mafioso e assassino, e é esse Nathan que me machuca e você não percebe isso. – enxugo as lagrimas.

- Agora me leve pra casa, eu tenho aula amanhã. – passo por ele sem dirigir o olhar para seus olhos azuis tenebrosos.

ESTAMOS em frente à portaria do meu prédio, estou respirando fundo. Nathan não disse nada o caminho inteiro e eu também não, principalmente eu estando vendada e não podendo encara-lo.

As palavras dele ainda pesam em minha mente, assim como as dores pesam em meu corpo. Abro a porta do carro e encaro Nathan, esperando ser a ultima vez.

- Quero que faça um favor pra mim. – murmuro.

- Hum...

- Quero que me deixe em paz e nunca mais volte aqui, nunca mais me procure. Entendeu?- encaro-o por cima de meu ombro.

Ele fica tenso e seus olhos se arregalam, parece processar o que eu falei.

- Entendi. – ele diz tão baixo que mal consigo escuta-lo.

- Ótimo. – falo ríspida e saio do carro.

Caminho sem olhar pra trás. Isso foi o fim da picada, o jeito como ele me tratou, me olhou e falou, como me desmereceu e não se importou com isso. E agradeço por ter feito isso, pois até que eu fim eu acordei do meu sonho de fadas. Onde eu estava com a cabeça de amar um mafioso como ele? Pessoas como ele tem que ser presos ou mortos, eliminados da existência.

Entro no meu apartamento e Percy vem me encontrar todo alegre. Pego-o no colo e o aperto junto ao peito, realmente, ele é o único que me ama. Vou na cozinha e sirvo a comida dele, sento no balcão de mármore e encaro a porta da sacada, fui ali que tudo começou.

Respiro fundo.

**

A semana passou muito rápido, a faculdade está me esgotando, não sei fazer outra coisa a não ser estudar e estudar. Vic sempre faz minha rotina mudar, me levando a restaurante ou a shoppings fazer compras. Tenho visto o Alek com frequência, mas não troco muita palavra com ele, apenas o necessário do necessário, ele é a Vic estão progredindo no relacionamento e eu, bem, nunca mais ouvi falar no Nathan.

Hoje eu vou encontrar o Igor, meu melhor amigo. Ele mora em outra cidade e conseguiu pegar esse fim de semana para vir me ver.

— O Alek não atende. – Vic resmunga.

- Deixa ele em paz, você ligou pra ele umas cinco vezes seguidas. – encaro-a do sofá.

Ela revira os olhos e continua mexendo no celular. Volto minha para a Tv, onde está passando um noticiário sobre a morte de quatro traficantes. Penso em Nathan e nos meninos, mas é impossível, eles têm a Naomi.

Sorrio em pensar isso.

A campainha toca e meu coração acelera de animação, o Igor deve ter chego.

Abro a porta e dou de cara com um menino alto, meio bronzeado, o cabelo em um tom de loiro queimado pelo sol, olhos mel brilhantes e um sorriso perfeito.

- Igor!- sorrio assim que o vejo.

- Cassie! – ele sorri.

Abraço-o e rio.

- Estava com saudades de você. – me afasto dele.

- Eu também, faz dois anos que a gente não se vê. – ele sorri sem jeito.

Concordo.

- Entra. – dou passagem.

Ele passa por mim bem devagar e entra, fica no meio da sala. Encaro-o de relance e vejo o Nathan, congelo.

- Você está bem?- ele me encara.

- Ah, estou sim. – sorrio tímida e vou para a cozinha.

- Dá pra largar o celular?- trombo com a Vic de proposito- Temos que sair agora.

- Ah claro. – ela coloca o celular no bolso- Aonde vamos?

- Bem, eu ia pedir pra você escolher. – esfrego o meu braço.

- Ok, vamos a um barzinho. – ela sorri.

Faço uma careta, não me dou bem com bebidas.

- Relaxa, é um barzinho chique, tem porções de comida e se você quiser beber algo, você bebe. – ela pisca pra mim e sai andando para a sala.

Passo a mão no cabelo.

- Oi Igor. – escuto-a cumprimenta-lo.

- Oi. – ele diz baixo.

Sinto um peso na consciência como se estivesse fazendo algo errado, porém não sei o que é...