Nathan está dormindo todo largado na cama, parecendo uma criança e eu rolando de um lado para o outro. Saio da cama e vou para a sala.

A Tv da sala está ligado, vou confiante achando que Alek, Lucas ou o Leo está na sala, mas o lugar está escuro, silencioso e a Tv está no mudo.

Reviro os olhos e pego o controle da Tv, desligando-a. Caminho com cuidado até a cozinha e vasculho a geladeira. Estou com muita fome.

Relances da festa de hoje passam em minha mente, me fazendo rir em lembrar da loira se afogando e das mulheres com cara de espanto ao meu lado, de como agi com o Nathan. Parecemos um casal de adolescente imaturos, que vivem brigando e se matando por ai.

Volto para a sala e a Tv está ligada em ums tela azul novamente. Congelo.

Do jeito que eu sou medrosa, estou quase tento um ataque cardíaco agora, principalmente em lembrar do filme que a Vic me arrastou para assistir, como é mesmo o nome? Paranorman? Parada? Atividade paranormal! Isso!

Vou com o coração na mão até a Tv de novo e tiro-a da tomada, se ela ligar de novo, eu tenho um treco aqui mesmo.

Escuto um vidro quebrando no fundo da casa. Mas pera... Só tem a gente aqui, não era isso?

- Nathan!- grito com medo.

Vejo um vulto a poucos metros de mim e meus pés grudam no chão.

- Nathan!- grito mais alto.

Escuto os passos lá em cima e deduzo que ele acordou com os gritos.

O vulto ficou mais perto de mim e recuo um pouco, procurando por um interruptor.

- Cassandra?- escuto a voz de Nathan.

- Estou aqui.

- Onde?

Não consigo vê-lo, não consigo achar um interruptor e meu coração parece estar em minha cabeça.

- Ascenda a luz. – falo quase gaguejando.

- Estamos sem luz. – ele diz cauteloso- Faça barulho.

Olho em volta e meus olhos começam a se acostumar com a escuridão, bato em uma cadeira ao meu lado.

- Bata de novo. – ele repete.

Bato mais umas três vezes na cadeira até alguém pegar em meu braço.

Grito.

- Calma baby. – é a voz do Nathan e relaxo.

- O que está acontecendo?­- murmuro.

- Eu que te pergunto. – ele ri.

- Tem alguém aqui. – olho em volta parecendo ter paranoia.

- Como assim?

- Primeiro um vidro lá de trás quebrou, depois em vi um vulto estranho passar perto e depois ficar mais perto, ai comecei a gritar o seu nome.

Nathan aperta a minha mão com força e começa a me guiar pela escuridão. Paramos em um lugar que não consigo reconhecer, Nathan mexe em algo e me entrega algo de metal gelado.

- O que isso?- murmuro.

- Uma arma. – ele diz obvio.

- Ah. – como eu não descobri isso antes?

- Se ver algo, atire. – ele avisa.

- Mas e se for algum dos meninos?- pergunto cautelosa.

- Eles foram a uma balada na cidade, não estão em casa, pelo menos não tão cedo. – ele avisa.

Foram para a balada e nem em chamaram, safados.

- Vamos até os geradores. – ele começa a caminhar de novo.

Andamos de cima a baixo, procurando coisas que eu desconheço, não vi mais um vulto, mas consigo escutar os barulhos que ele faz.

Nathan para do nada e eu bato em suas costas fortes, aperto a sua mão e olho em volta.

- O que foi?­- balbucio.

Olho na mesma direção que ele, vejo o vulto, bem perto de nós, é uma silhueta semelhante a alguém que conheço, embora em não me lembre. O vulto bem correndo em nossa direção, Nathan solta a minha mão e me joga para o lado, trombo com a parede e o vulto passa em seco por mim.

Agora não sei mais quem é o vulto e quem é o Nathan, olho para os lados procurando alguém, mas estou sozinha.

- Nathan?- murmuro.

Escuto passos atrás de mim, viro rápido e com certeza essa silhueta não é a do Nathan, o vulto chega mais perto e eu não consigo destravar a arma e então sou mais pratica, bato com a arma no vulto e saio correndo.

Corro me guiando pelas paredes e vidros, sempre atenta a qualquer barulho. Agora que não consigo ver, minha audição parece estar mais aguçada e sensível, me fazendo perceber um passo a um quilometro de mim. Subo e desço escadas, não sei mais onde estou.

A pior coisa do mundo é fugir de alguém e agora eu estou fugindo de alguém que nem consigo ver.

Luzes de emergência ascende no corredor que estou e percebo que estou no segundo andar, perto da suíte onde eu fico com o Nathan, acho que ele achou o gerador. Escuto um disparo, não muito longe de mim e congelo.

Corre até a escada e desço bem devagar, olhando em volta. As luzes não são muito fortes, mas consigo ter a noção das coisas a minha volta e de onde eu estou mais claramente. Procuro por Nathan ou pela pessoa que está aqui.

Alguém passa pelo pé da escada, mas não sou rápido o suficiente para ver a pessoa, desço mais três degraus e continuo em cautela. Algo agarra o meu pé e me faz rolar os degraus restantes da escada.

Estou atordoada, deitada perto da escada, minha arma está meio afastada de mim e consigo ver uma pessoa me encara, não sei quem.

- Então você casou com ele. – a voz está em repulsa.

Eu conheço essa voz.

- Quem diria que a ovelha na verdade era o lobo. – a voz continua.

- Nathan... – sussurro.

- Ele não pode te salvar agora. – a pessoa sorri.

Então o baque passa por minha mente. Melissa!

- Desgraçada!- murmuro me levantando- O que você faz aqui?

- Eu vim a trabalho. – ela sorri- E meu trabalho aqui é te matar logo de uma vez.

Minha boca fica seca.

- Não vou embora tão cedo. – sorrio petulante e olho em volta.

Algo aqui tem que me ajudar a derruba-la.

- Melissa, vamos conversar com calma. – digo paciente.

- Não!- ela grita- Já cansei de ter calma com você e ai, quando te deixo em paz, você quase com o meu Nathan!- ela não parece bem, está com aquele olhar psicopata louco, será que usa drogas.

- Querida, eu não o peguei, na verdade era para você estar casada com ele, mas você sumiu, era apenas um treino para ele te pedir em casamento. – tento enrola-la.

- Sério?- seus olhos brilham em compaixão.

Não! Ele é MEU sua vadia psicopata!

- Claro que sim. – sorrio fingida- Agora abaixe a arma. – faço um sinal devagar e amistoso para ela.

- Não!- ela grita e eu levo um susto- Eu não acredito em você, você o roubou de mim!

- Não é verdade. – tento esconder o medo.

- Sim! E se ele não é meu...

Ah, eu conheço essa frase.

- Melissa, ele é seu!- tento garantir.

- Não!- ela grita e destrava a arma.

Meu coração meu na cabeça e eu congelo mais uma vez. Seu me mexer, já era...

- Melissa... – sussurro.

- Não!- alguém grita e me assusta, escuto o disparo e fecho os olhos.

Busco a dor em meu corpo, qualquer coisa que denuncie o disparo, mas não sinto nada. Abro os olhos e vejo a Melissa branca e Nathan perto dele.

Ele está com a mão no abdômen e com os olhos cheios de lagrimas, ajoelhado. O tiro não foi em mim, foi nele.

Corro em sua direção e não consigo pensar em nada. Ajoelho de frente pra ele e meus olhos enchem de lagrimas.

Pego em seus ombros e o deito no chão de madeira, retiro suas mãos do abdômen e vejo o sangramento, está muito profundo.

Retiro minha camisa e coloco em cima do tiro, estancando o sangue.

- Nathan olhe pra mim. – falo em pânico.

Sinto uma pressão no peito e uma dor profunda, sinto como se minha vida dependesse dele.

— Nathan!- grito e as lagrimas começam a escorrer.

- Eu estou olhando pra você. – ele diz baixo, quase inaudível.

- Vai ficar tudo bem. – eu acho que isso está sendo mais pra mim do que pra ele.

- Eu sei que vai. – ele sorri torto.

As lagrimas começam a escorrer até meu queixo e eu perco as forças, minha camisa já está encharcada de sangue e não para mais de sair esse liquido quente e vermelho, minhas mãos estão machadas disso e eu sinto como se eu também sangrasse.

- Cassandra... – ele sussurra o meu nome.

- O que?- encaro seus olhos azuis, que tem um brilho fraco, mas ainda único.

- Promete não sair do meu lado?- sua voz está rouca e fraca.

- Prometo, claro prometo. – minha voz sai mais chorona do que de uma criança berrando.

- Não suje suas mãos. – murmura ele.

- Pare de falar, relaxe. – enxugo minhas lagrimas com o ombro.

Ele está morrendo na minha frente e eu não sei o que fazer, pra quem pedir socorro ou pra onde ir.

- Vou achar o resgate. – levanto e procuro um telefone.

- Não!- sua voz sai um pouco mais alta- Fique comigo.

Pego o telefone e volto até seu lado, ele pega o aparelho e digita um número e depois me entrega.

- É o número do Lucas. – ele sussurra.

- Alô?- a voz de Lucas me desperta.

- Lucas!- falo em pânico.

- Sim, Cassandra?- ele fala alto por conta do som.

- Lucas, o Nathan levou um tiro e não sei se ele vai aguentar muito tempo. – falo chorando de novo.

- Como?

- Chama o resgate e vem pra casa!- ignoro a pergunta dele.

- Como ele levou o tiro?

- Chama o resgate e vem pra cá porra!- grito.

- Ok. – ele desliga.

- Nathan... – sussurro e o encaro.

- Não sei o que dói mais, o tiro ou perder você. – ele sorri.

- Você não vai me perder, eu estou aqui. – aperto a sua mão.

Ele prende a respiração e fica tenso.

As lagrimas escorrem sem controle pelo meu rosto e a dor é mais forte que antes.

- Nathan eu te amo, eu não posso te perder assim, não desse jeito. – como a chorar em pânico.

A dor diminui, finalmente consigo colocar tudo o que eu sinto por ele pra fora, não estou mais me sufocando.

Ele afaga meu rosto com cuidado e depois sorri, embora seus olhos brilhem com tristeza.

- Eu achei que não era de capaz de amar uma pessoa como eu.

- Todos têm direito de ser amados, Nathan. – fungo.

- Você deveria me odiar. – murmura ele.

- Mas eu não odeio. – sorrio torto.

Seus olhos perdem a cor azul nítida, estão fracos e focos, sem vida.

- Ah Cassandra... – ele suspira.

Começo a chorar de novo, não sei o que fazer. Eu estou o perdendo, estou vendo ele ir embora e não posso fazer nada para impedir isso!

- Nathan não me deixe. – imploro.

Ele respira fundo.

- Eu não vou te deixar. – ele pisca pesadamente.

Soluço de tanto chorar.

Abraço sua mão com força, como isso adiantasse algo.

- Eu também te amo. – ele sussurra.

Congelo, as lagrimas escorrem ainda mais. Não sei se fico alegre ou triste por isso. Ele confessou que me ama, ele me ama! Só a mim!

- Então não me deixe!- soluço.

- Nunca. – ele sussurra.

Inclino o meu corpo e beijo delicadamente seus lábios.

Seus olhos azuis perdem a cor e sua mão fica pesada.

- Nathan!- grito.

Ele não responde, seu pulso está fraco e seu sangramento ainda não parou.

- Nathan!- grito chorando mais.