Coragem. Foi isso que me faltou na hora de falar; Eu não quero mais estudar. Foi ai que me deu vontade de desistir, mas não. Eu falei e pronto, tranquei minha matricula e a validade é até daqui uns dois anos.

Fiz minhas malas e estou partindo para o campo, ainda não sei o motivo. Ando meio estranha esses dias, mas os enjoos pararam.

– Vamos?- minha vó abre o porta-malas.

Concordo e coloco a mala lá dentro.

– Pronta. – falo confiante.

Entro no carro e respiro fundo. Lá vou eu...

Talvez eu esteja cometendo o pior erro da minha vida ou talvez não, talvez isso seja a coisa certa a fazer. Afinal ficar com ele eu tenho o risco de morrer.



ODEIO ficar no carro durante muito tempo, minha bunda fica doendo e meus joelhos travam em uma única posição e depois doem quando fico de pé novamente. Mas já me acostumei a isso, andei muito de carro com o Nathan. Ah Nathan.

Saio do carro e respiro fundo. O ar puro parece não pesar em meus pulmões e o cheiro de grama molhada invade o meu olfato.

– Vou chamar o caseiro. – minha vó saí andando até a pequena casa perto do lago.

Observo o celeiro e lembro-me de minha infância ali. Caminho até lá, observando tudo e me lembrando de tudo.

Entro e ele não mudou nada, continua com feno, selas, arrepios, uma charrete velha e alguns cavalos. Procuro por Troia.

Vejo um lindo corcel negro na ultima sela, caminho até ele. O mesmo está agitado e batendo na porta, hesito em me aproximar. Esse é o meu Troia.

– Hum... Desculpa, mas ele não é acostumado com estranhos. – alguém fala perto de mim.

Viro e vejo um garoto, deve ter a minha idade, cabelos castanhos, olhos da mesma cor, é alto e forte, tem a pele clara, realmente muito bonito.

– Eu sou a dona dele. – sorrio triunfante.

Ele arregala os olhos e abre a boca em O.

– Nunca pense que uma menina montasse um cavalo como ele. – ele diz baixo.

– Que preconceito. – sorrio.

– Não, não é isso. – ele diz rápido- É que ele é muito rebelde.

Concordo.

– Você é... ?- franzo o cenho.

– Enzo, filho do caseiro e imagino que você seja a Cassandra, neta da dona.

– Sim, como sabe?

– Sua vó fala muito de você. – ele sorri.

– Ah. – não duvido muito disso.

– Quer que eu o sele?- opina o rapaz.

– Não. Só vim ver como ele estava. – sorrio.

– Tudo bem, qualquer coisa é só falar.

Concordo e saio andando.

Entro na casa, ela é grande e térrea, ótima para a minha vó, também é rustica, com moveis antigos e de madeira. Meu quarto é o ultimo do corredor. Continua com aquele ar infantil.

Paredes rosas, brinquedos, ursinhos, bonecas. Uma cama de casal com edredom branco, armários de madeira branca, um espelho no canto da parede e algumas fotos.

Comecei a arrumar minhas roupas no armário, até que minha vó entra no meu quarto.

– Pode me explicar agora?- ela senta na beirada da cama.

Respiro fundo e tomo fôlego.

– Bem, pra começar, eu fui sequestrada por causa da minha herança, como é norma sequestrarem pessoas ricas pelo dinheiro. Mas eu descobri que quem pediu meu sequestro foi o sócio do meu pai e que era para pegarem minha herança e me matarem logo em seguida. – contrai os lábios- Mas isso não aconteceu porque minha mãe verdadeira é casada com esse tal sócio e ofereceu uma quantia maior para eu continuar viva e então aqui estou eu. – sorrio amarelo.

Minha vó não diz nada, apenas me encara ainda processando a informação.

– Graças a deus que ela apareceu. – minha avó finalmente fala.

Respiro aliviada.

– Agora entende?- murmuro.

– Sim e garanto que esse cara não vai mais voltar. – ela aperta a minha mão- Você precisa descansar.

Passo a mão no cabelo.

– Posso andar no Troia?- pergunto baixo.

– Claro, se ele ainda permitir ser montado. – ela ri.

Sorrio e levanto.

Volto para o celeiro e Enzo ainda está lá.

– Hum... Pode selar o Troia pra mim?- murmuro.

Ele vira e me encara.

– Claro.

Espero durante uns 10 minutos ou até menos e Troia já está prontinho para a montaria.

– Sabe montar?- Enzo me encara.

– Não. – falo meio ruborizada.

Ainda sei andar a cavalo?

– Bom, eu ajudo. – ele sorri.

Caminho até o Troia e seguro na rédea e na sela. Enzo junta as mãos e faz pezinho, dando impulso, logo consigo montar no Troia.

– Sabe como guia-lo?- Enzo me encara.

Ele é meu cavalo, logico que eu sei!

– Sim. – sorrio.

Toco Troia para fora do celeiro e vou em direção a trilha, antes de entrar na mesma, começo em um galope leve, me acostumando com o Troia novamente. Faz anos que eu não o monto, mas parece que só faz algumas horas.

Em cima dele, sinto a liberta que geralmente me privo, sinto-me como um pássaro voando livre, fora da gaiola e longe do medo. Me sinto longe de mim mesma.

E isso é bom, muito bom.

**

Chego em casa na hora do almoço, coloco Troia de novo no celeiro e sigo para a casa.

Minha vó está na sala mexendo em algo que a distrai e um cheiro ótimo vem da cozinha.

– Aonde andou?

Meu coração dispara.

– Na trilha. – sorrio.

– Ele pode ser montado?- ela sorri.

– Claro. – rio- Ele é normal.

– Se você diz...

O almoço não demora muito assim como eu não demoro muito para me acostumar com o ambiente.

**

Os dias passam rápido no campo, porém cada dia você faz algo diferente.

Coloquei o meu apartamento para locação e evito de ir em lugares com muitas pessoas, prefiro ficar na fazenda, andar no Troia e conversar com o Enzo no final da tarde.

Não tive noticias do Nathan, o que no meu estado é bom. Ficar longe dele me faz repensar nas coisas. Eu nunca poderia me envolver com a máfia igual eu me envolvi, eu poderia ter sido presa, morta, trafica, roubada e muitas outras coisas, graças a minha mãe eu estou bem.

– Por que resolveu vir pra cá?- Enzo me desperta.

– Eu precisa respirar um pouco. – murmuro.

– Sua vida é tão complicada assim?

Rio.

– Não, mas os últimos acontecimentos vem bagunçando minha mente e fica meio difícil ficar assim.

– Acontecimentos com o namorado?- ele me encara.

Sorrio e respiro fundo logo em seguida.

– Talvez.

Se ele fosse apenas o meu namorado.