Faço minha higiene matinal e saio do banheiro. Procuro por Nathan no quarto e o encontro sentado na cama, encarando a janela. Será que ainda está com o pesadelo na cabeça.

– Tá tudo bem?- murmuro.

– Sim. – murmura ele.

– Olhe pra mim. – falo hesitante.

Ele vira lentamente, seus olhos banhados pelo medo, sua expressão triste. Ah Nathan...

– Posso perguntar uma coisa?- balbucio.

– Fala.

– Você virou mafioso por causa da sua infância?

Ele respira fundo.

– Não. Tem motivos mais importantes do que minha infância.

Franzo o cenho. O que seria mais importante do que uma infância traumática?

Não vou mais julga-lo, ele tem motivos para ser quem ele é agora, para não sofrer do que muitos sofrem- do amor, esse mesmo amor que o foi renegado durante sua infância, justo no momento onde precisamos de amor e paciência.


ESTAMOS NO restaurante do hotel, o barulho da falação, talheres e garçons andando de um lado para o outro, indica que o ambiente está lotado.

Estou sentado em uma mesa redonda com uma toalha de mesa branca e um arranjo de flores vermelhas. O restaurante é self service, o chão de mármore preto, lustres enormes de cristais e as bancadas que servem o café.

Peguei ovos fritos, bacon e um suco de melancia. Mas comi apenas o bacon e tomei o suco.

– Por que está calada?- murmura Nathan.

– Não tenho assunto. – murmuro.

Alek está com a cara de sono, Lucas e Leo estão em uma ressaca brava e eu, pela primeira vez, estou muda.

Acho que pelo fato de ter descoberto quem é o Nathan; uma criança traumatizada e abandonada num internato de freiras demoníacas.

Perco o apetite em nisso.

– Não vai comer?- Nathan me encara.

– Perdi a fome. – sussurro.

– Cassandra, quer ir na piscina hoje?- Alek me encara.

– Sim, que horas?- me alegro um pouco.

– Eu acharia melhor ir depois do café, o sol não é tão forte. – opina ele.

– Tudo bem. – sorrio.

**

Estamos na piscina, minha sorte é que está calor e consigo tolerar a água gelada. Lucas e Alek estão se afogando e pulando um em cima do outro- igual criança. Leo nos observa de longe e eu estou boiando tranquila.

Fecho os olhos e relaxo de corpo e alma. Ignorando a agitação da água, os dois se afogando e o Leo com aquele olhar assustador.

Vou para um mundo singular, onde eu estou sozinha, onde sou eu que mando e onde eu apenas relaxo.

A imagem do menino assustado e abandonado vem em minha mente, a voz sofrida de Nathan enquanto fala de sua infância ecoa por minha cabeça e sua expressão de medo, angustia e tristeza me atormentam. Me mexo e acabo afundando, mas alguém me ergue de novo.

Engasgo e pareço sufocada.

– Cassandra?- a voz rouca de Nathan está perto.

– Desde quando está ai?- falo com os olhos mareados.

– Faz um tempo. – ele dá um sorriso tímido.

Esse momento irei guardar pro resto da vida, um sorriso tímido do menino mais frio e arrogante que já conheci.

Seu cabelo molhado está grudado na testa, seus olhos nítidos e brilhantes, seu peitoral a mostra, ombros largos, abdômen definido- um triangulo invertido perfeito. Ele é a perfeição do imperfeito.

– Gostaria tanto de entendê-lo. – murmuro.

– E eu gostaria que não quisesse isso. – ele afaga meu rosto com as costas dos dedos.

– Por quê?

– Por que isso é assunto meu, só meu.

Inspiro profundamente e tento busca conformidade nisso. Por que ele tanto esconde as coisas de mim?

– Pensei que não vinha nadar. – mudo o rumo da conversa.

– Eu também pensei, mas resolvi vir.

– Algo motivo em especial?- sorrio convencida.

Ele ri.

– Apenas para salvar uma menina que afogou.

– Eu não me afoguei. – falo emburrada.

– Se eu não tivesse aqui, iria se afogar. – ele fala todo cheio de si.

Reviro os olhos.

– Sempre convencido.

Ele sorri arrogante e nem parece aquele menino que ele me falou.



ESTOU ANDANDO pelo hotel, depois do banho de piscina, os meninos foram em algum lugar para jogar e Nathan sumiu, como sempre.

Não duvido muito que eu esteja no jardim do hotel. Observando o roseiro de frente comigo, as rosas em um vermelho vivo me lembra alguém, elas usam seus espinhos para se defender e o Nathan a sua fachada de mal, mas se você cortar os espinhos poderá apreciar a sua verdadeira beleza e é isso que atinge o Nathan, ninguém pode cortar seus espinhos, pois eles são profundos. Atinge sua alma.

Ah, meu pequeno menino.

Respiro fundo e toco nas rosas, delicadamente e sinto a suavidade de suas pétalas.

– Por que uma moça tão bonita está sozinha?- estão falando comigo?

Olho para os lados até achar um menino alto, seu cabelo é um loiro queimado, tem a pele bronzeada e olhos claros.

– Só estou de passagem. – balbucio.

– Sou Jake, meu pai é dono do hotel. – ele sorri.

– Sou Cassandra. – sorrio de volta.

Então essa é a tática dele, mostrar que tem dinheiro de sobra para impressionar as mulheres. Bela tática, para um idiota...

– Você chegou hoje, não foi?­- ele me encara.

– Na verdade foi ontem. – sorrio.

– Ah, foi você que chegou com o Nathan?

– Sim. – concordo.

– São namorados?

– Não. – arregalo os olhos.

Ele ri.

– Tá certo então.

– E você, tem namorada?

– Não, não tenho muito tempo para namoros.

– Hum...

Continuamos caminhando pelo jardim de rosas, que começaram a variar de cor.

– É um jardim muito bonito.

– Foi minha mãe que fez e meu pai manteve até hoje. – murmura ele.

– Ela morreu?- balbucio.

– Não, eles se separam, mas meu pai gostava muito dela. Ela só não aprovava os negócios dele e viviam brigando, até que não deu mais. E meu pai não fazia um esforço para evitar as brigas, ás vezes era ele mesmo que provocava.

Por um momento, lembro-me de mim e do Nathan. Nossas brigas, minha objeção ao seu jeito de ganhar dinheiro e como age. Será que isso é um aviso?

– Cassandra. – escuto a voz do Nathan e o procuro, até acha-lo perto de nós e não parece muito contente.

Dou um sorriso amarelo e desarmo por dentro.

Puta merda, ele não queria que eu andasse sozinha e nem falasse com ninguém.

Ele se aproxima de mim e ignora Jake, pega no meu braço e me arrasta do jardim, sem ao menos deixar em me despedir de Jake.

Sou arrastada para o quarto do hotel, ele nem deu importância para as pessoas que nos encaravam com espanto e nem aos meus gritos.

– Você não me escuta mesmo. – pragueja ele.

– Eu esqueci. – tento me explicar.

– Isso não é desculpa, você prometeu seguir as regras e está quebrando todas. – ele diz trincando as mandíbulas.

– Ah, desculpa se eu preciso ter uma vida social, respirar sem ter você me controlando e tentar esquecer o que estou passando. – levanto a voz.

– Aqui não é lugar pra essas coisas. – pragueja ele.

Vai começar...

– E aonde é lugar? Se onde eu estou, você impõe limites, regras e ordens em mim. Se qualquer coisa que eu faço você desaprova, se qualquer coisa que eu falo você leva para outro sentido. Como quer que eu viva assim?

– Se você fosse tão teimosa eu não seria assim. – rebate ele.

– Eu sou teimosa por que estou sendo sequestrada e nem sei o porquê disso, não sei se amanhã você resolve me matar ou me vender.

Ele arregala os olhos.

Lembro-me dos pais de Jake e sinto um aperto no meu peito, um medo profundo e sufocador, tenho vontade de gritar.

– Agora me castigue de qualquer jeito, só não me faça me apaixonar por você. — murmuro.

Ele está estático na minha frente, seus olhos azuis me analisam.

Será que era isso que me sufoca? O medo de que isso seja apenas uma armação da parte dele, que quer me fazer passar pelo o que ele passou. Medo de que ele não possa sentir o que eu posso, medo de amar que não pode ser amado.

As lagrimas brotam em meus olhos e a angustia cresce dentro de mim. Mas ao mesmo tempo me sinto livre.

– Só não quero que use o amor como sua arma e não vou usa-lo como minha munição. – falo com a voz falha.

Ele passa mão no rosto, está perplexo.

Senta na cama e me encara. Continuo em pé, a metros de distancia dele, segurando as lagrimas do jeito que posso.

Prendo a respiração e caminho até o banheiro, fecho a porta e me aproximo da pia.

Sem mais forças, começo a chorar e ajoelho.

Não posso acreditar que eu falei aquilo, não posso acreditar que esse é o meu medo. Sentir algo tão forte por alguém tão frio, como se eu usasse a arma contra mim mesma.

Isso é algo tão mortal que eu prefiro um tiro no peito, a aprender a ama-lo.

Notas finais
ficou legal?