Vou até a cozinha e pego a cartela de anticoncepcional, já faz três dias que eu não tomo. Pego os comprimidos de hoje e o de ontem, um copo da água e tomo-os.

- Está pronta?- Nathan parece na cozinha.

- Pra quê?- franzo o cenho.

- Vamos fazer tatuagens. – ele se aproxima de mim.

Respiro fundo.

- Não quero fazer tatuagem. – resmungo.

Ele sorri.

- Já era.

Passo a mão no cabelo e volto para o quarto, abro o meu armário e pego um shorts jeans e uma regata rendada azul. Faço minha higiene matinal e me troco.

Saio do banheiro e não acho o Nathan, ando pelo apartamento procurando-o igual se tivéssemos brincando de esconde-esconde.

- O que está fazendo?- ele parece do nada.

- Procurando você. – falo sem graça.

- Eu desci pegar minha roupa no carro. – ele sorri e anda até o banheiro.

Encosto na parede e fico olhando para o chão de madeira.

A Vic não sai da minha cabeça, o que vai ser do relacionamento dela agora? O que será que a mãe dela falou?

- Vamos?- Nathan fica em frente a porta.

- Espera um pouco. – caminho até a cozinha.

Coloco a comida do Percy no chão e volto para a sala, seguindo Nathan até o elevador.

- Por que não usa mais boné?- encaro-o.

Ele se encara no espelho do elevador.

- Não sei, mas eu uso sim. – ele me encara de relance- Mas como você fala que gosta de mim sem o boné, perto de você eu não uso boné.

Sorrio.

O elevador para no térreo e seguimos para a portaria, entramos no carro dele e ele desperta o motor com um ronco.

ESTAMOS na Led’s Tattoo, é uma das melhoras tatuadoras do Brasil. Estou esperando na sala superior pelo Nathan, que já foi fazer a sua tatuagem. A sala é bem confortável, tem um grande aquário, é cercada por refletores pequenos e alguns quadros.

Ele sai da sala sorridente com o braço esquerdo com alguns curativos.

- O que você fez?- levanto da cadeira.

Ele encara o braço.

- Algumas tatuagens. – ele sorri.

- Algumas?!- arregalo os olhos.

- Relaxa, você pode fazer só uma. – ele pisca pra mim.

Reviro os olhos e caminho até a sala.

Sento em uma cadeira, parece aquela de dentista, azul. A sala é toda branca e tem um espelho.

Encaro o tatuador meio desconfortável.

- Onde quer fazer a tatuagem?- ele me encara.

- Hum... No braço direito. – murmuro.

- Sabe o que quer fazer?

Fecho os olhos e penso um pouco.

- O que eu posso fazer?

Ele fica em silêncio.

- Qualquer coisa, é só escolher. – ele sorri.

- Tudo bem. – respiro fundo- Quero fazer algo grande.

Ele examina o meu braço.

Em um relance, lembro do meu pai. Ele possuía uma tatuagem de dragão no braço direito.

Explico corretamente como quero a tatuagem em meu braço. Deito na cadeira e tento relaxar.

A dor não é muito forte, é apenas um desconforto, que mesmo assim faz lagrimas se formarem em meus olhos. Aperto um pouco a cadeira com a mão esquerda.

- Prontinho moça. – o rapaz fala calmo.

Abro os olhos e encara o teto branco.

- Já acabou?­- balbucio.

- Sim. – ele sorri.

Levanto da cadeira e fico de frente para o espelho. Fico exatamente como eu queria, ele vem desde meu bíceps até o meu punho. O dragão tem uma cor prateada e é cercado de flores, estrelas coloridas e chamativas.

Saio da sala sorridente e encaro o Nathan.

- Olhe. – ergo o meu braço.

Ele fico me encarando surpreso.

- Nossa, ficou muito legal. – ele sorri.

- Eu sei. – sorrio.

Ele paga as tatuagens e saímos da loja, torço para que possamos voltar pra casa.

- Agora vamos ao Soho. – ele sorri destravando o carro.

Reviro os olhos e entro.

Como sempre, ele me leva a um lugar chique. Estou pintando novamente meu cabelo, deixando-o acobreado novamente. Nathan está cortando o cabelo e é impossível não notar como as mulheres reagem ao encara-lo.

Termino de fazer o cabelo e o espero do lado de fora. O clima lá dentro está muito meloso, as mulheres só faltam derreter ao encara-lo. Gente estupida.

- Vamos?- Nathan para ao meu lado.

- Ah sim, por favor. – tento ser o menos irônica possível.

- Nervosa?- ele ergue uma sobrancelha.

- Possivelmente.

Entramos no carro e até que enfim, voltamos para casa.

- Temos uma festa para ir hoje. – ele me encara de relance.

- Festa do que?

- Da minha empresa. – ele sorri torto.

- Do que é sua empresa?

- Bioquímica. – ele sorri.

- Hum... – encaro a paisagem do lado de fora.

Literalmente, eu não me surpreendo com mais nada do Nathan.

- Por que está nervosa?

- Você sabe muito bem. – resmungo.

- É por causa das meninas do salão?

- Ah, viu como você sabe.

- Cassandra, eu não tenho nada com elas, apenas foi levar você cortar o cabelo.

- E recebeu um corte de cabelo de graça. – praguejo.

Ele ri.

- Isso é ciúmes?- ele me encara.

- Não, só raiva. – desço do carro.

Caminho até a portaria e entro primeiro que ele. Pego o elevador e corro para o meu apartamento.

Não sei por que estou assim, mas estou com raiva do comportamento dele com elas.

- Cassandra. – ele entra no apartamento- Pode me explicar o que está acontecendo?

- Estou com raiva de como você tratou elas, todo meigo, sorridente, o príncipe encantado. – estreito os olhos- Mas comigo você parece um... Um... Um ogro.

Ele ri.

- Ogro?- me encarando segurando o riso.

- É, um ogro. – falo mais firme.

Ele se aproxima de mim, com aquele jeito sedutor que me deixa desarmada contra ele.

- Não. – paro-o segurando em seu peito.

Ele me encara com a cabeça inclinada.

- Você sabe que ganha quando faz isso. – resmungo.

- Ganho, é?- ele se faz de desentendido.

- Sim, mas hoje isso não vai acontecer. – falo confiante.

- Isso é por causa de ciúmes?- ele sorri.

- Não!- rosno- Mais que saco, eu não tenho ciúmes de você!

Ele me encara não crendo muito.

A campainha toca. Graças a deus.

Me solto dele e caminho até a porta, abro-a, esperando ser a Vic, mas não, é o Igor.

- Oi!- sorrio.

- Oi Cassie, está ocupada?- ele me encara.

- Não, pode entrar. – dou passagem.

Ele entra e Nathan o encara sério.

- Nathan esse é o meu amigo Igor. – apresento-o a Nathan- E Igor esse é o meu namorado Nathan.

Eles se cumprimentam com um movimento rápido de cabeça. Coisa de homem...

- Sente. – aponto o sofá para o Igor- O que te trouxe aqui?

- Você pintou o cabelo?- ele me encara.

Rio sem graça.

- Faz tempo, só dei uma retocada. – pego uma mecha do meu cabelo.

- Nossa!- ele pega em meu braço- Que tatuagem louca, quando você fez?

- Hoje. – murmuro.

- Hum... Eu tenho uma nas costas, mas nunca esperei a Cassandra fazer uma. – ele ri.

- Por quê?- me faço de ofendida.

- Oras, você é toda certinha. – ele sorri.

Encaro o Nathan de relance. Ele está encostado no balcão me encarando de um jeito frio e dominador. Tome do próprio veneno Frost...

- Então. – Igor volta a ficar sério- Eu passei aqui para ficar um tempo com você, aquele dia nem deu para eu ficar.

- É verdade, o que houve?- encaro-o inclinando a cabeça.

- A minha está no hospital, então eu tive que ficar com ela.

- Nossa, eu não sabia disso. – murmuro.

- Relaxa, foi só um tombo besta. – ele sorri- Aquela sua amiga me dá medo.

Rio.

- É o jeito dela.

- Mas ela é bem bonita.

- Isso eu tenho que concordar com você. – sorrio- Ela está passando por um momento difícil, talvez por isso não passasse uma boa impressão.

- Ah claro, mulheres e seus enigmas.

Encaro Nathan mais uma vez.

- Nathan, venha aqui com a gente. – chamo-o delicada.

- Não obrigada, estou bem aqui. – ele diz sério.

Igor me encara.

- Seu namorado é sério assim mesmo?- murmura ele.

- Às vezes. – rio- Mas ele é bem legal.

- Deve ser mesmo, você não é de ficar namorando.

Reviro os olhos.

- Nem começa com esses assuntos do passado Igor. – resmungo.

Ele ri.

- Não vou, só comentei.

- Quer beber alguma coisa?- mudo de assunto.

Ele balança a cabeça negativamente.

- Bom, eu quero beber água. – levanto do sofá e caminho até a cozinha, onde sou barrada pelo Nathan.

- Qual é o joguinho Cassandra?- ele diz sério.

- Não tem nenhum jogo. – digo séria também.

- Só por que ficou com ciúmes de mim, vai querer fazer igual?

- Por quê? Está funcionando?- rebato.

Ele contrai os lábios e fica muda.

Sorrio.

- Viu, foi assim que eu me senti no salão. – falo mais calma.

Ele respira fundo.

- Estamos parecendo crianças. – murmura ele.

- Sim, estamos.

- Vamos parar com isso para não dar briga.

- Tudo bem. – concordo- Mas agora me deixe passar.

Ele abre caminho e eu passo rápido perto dele.

Posso concordar que tive ciúmes dele com aquelas mulheres, e talvez fizesse um pouco de ciúmes com o Igor. Mas ele tem que entender que o que ele faz, eu consigo fazer sem nenhum esforço também.