- Está nervosa comigo?- murmura ele.

- Sim. – sou ríspida.

- Quão nervosa?- ele pergunta com cautela.

- A ponto de cometer um ato de violência.

Ele fica em silêncio. Viro na cama e agora encara a parede branca do quarto, mas ainda não dirijo o olhar pra ele.

- Por que está nervosa comigo?- balbucia ele.

- Só pelo fato de você falar da boca pra fora.

Sinto um nó na garganta.

- Eu fiquei nervoso com você, sabe muito bem que eu as vendo para o exterior e você vai e arrebenta a cara da menina. – ele fala perplexo.

Dou um risinho com o tom de sua frustação e quando me lembro da cara da Fabiana depois que eu bati nela.

- Mas não posso negar que você sabe bater. – ele ri.

- Então tome cuidado comigo, Frost.

- Tenho isso em mente.

Respiro fundo e num passe de magica não estou mais tão nervosa com ele.

- Que horas vocês vão?- murmuro.

- Onde?

- Lá pro hotel pegar o Fred.

- Ah, mais tarde. – o sinto sentar na cama.

- Não toque em mim. – aviso.

- Relaxa. – murmura ele- Que roupa você vai usar?

- Qualquer uma. – murmuro.

- É uma festa formal, tem que estar usando vestindo. – ele avisa.

- Eu sei, vou olhar no armário depois.

- Posso chamar a Sue, pra ela te ajudar. – opina ele.

- Não precisa, sei escolher roupa. – dou de ombros.

- Sabe, às vezes eu não me imagino aqui, acho que não sou que estou passando por isso. Como se eu estivesse observando de cima para baixo. – continuo em murmuro.

- Eu sei como é isso. – murmura ele.

- Isso é medo?- viro e encaro-o.

- Não, é só uma forma de fugir. Já que não consegue fugir fisicamente, arranja um jeito de fugir mentalmente. – comenta.

- Por que você quis fugir?- apoio-me em meu cotovelo.

Ele morde o lábio e desvia o olhar do meu, encarando a janela.

- Porque o mundo foi cruel comigo e então e arranjei um jeito de sair daqui. – ele me encara e consigo ver a tristeza em seu olhar.

- Quer compartilhar?- sorrio.

- Não.

- Ok. – levanto da cama- Vou escolher minhas roupas e depois vou lá pra baixo.

- Tudo bem. – ele levanta e sai do quarto.

DEVE SER oito e pouco da noite, estou terminando de me arrumar e arrumar minha segunda roupa. Estou usando um vestido curto tomara que caia, decote em coração e bordados de paetê, miçangas e pedrarias. Ele tem variações de roxos, estou usando um sapato alto bottero peep toe roxo. Fiz um semi preso com nozinho no cabelo e passei uma maquiagem bem leve.

Desço os degraus com cuidado, não sei usar salto. Nathan está me esperando na sala, mas não vejo mais ninguém.

Ele está usando um smoking preto, deixando-o mas bonito e ainda não está de boné, e ele fica mais lindo assim.

- Onde estão os outros?- pergunto enquanto me aproximo.

Ele está mexendo no celular, atento.

- Nathan!- chamo sua atenção.

Ele vira para me encarar e parece surpreso.

- Eles já foram. – ele responde minha pergunta.

- Vamos?- aponto para a porta.

- Espera. – ele pega um lenço do bolso e vem até mim.

- Pra que isso?- indago.

- Para certificar que você saiba como se sai daqui.

Reviro os olhos. Ele coloca o lenço sob meus olhos e sinto a fina seda roçar em minha pele, ele amarra com delicadeza.

- Vamos. – ele pega na minha mão e vai me guiando para fora.

Depois de tanto tempo, consigo sentir a leve brisa bater contra o meu rosto e ar puro do campo encher meus pulmões. Ah... livre.

Me sinto como um passarinho fora da janela, pairando na brisa leve, até que entro no carro.

**

- Beleza, chegamos. – murmura ele e retira a venda.

Estamos de frente para um grande e luxuoso, ainda não sei em que cidade estamos, mas agora estamos na cidade.

- É agora ou nunca. – sorrio.

- Opa!- ele segura o meu braço- Use isso.

Ele me mostra um tipo de fone e fica discreto na orelha e um pequeno microfone.

- Por que preciso usar isso?- arqueio uma sobrancelha.

- Preciso saber de sua conversa com ele e te mandar alguma informação necessária.

Aquiesço e ele me equipa. Saímos do carro e ando com dificuldade até a entrada.

Uma recepcionista nos guia até o salão onde está ocorrendo a festa. É tudo muito luxuoso, mesas com toalhas vermelhas e brancas, arranjos de flores em cada uma delas, um grande buffet se encontra no meio, lustres gigantes iluminam o local e tem uma pista de dança muito animada.

- Aja naturalmente. – murmura Nathan em meu ouvido.

Um arrepio passa pelo meu corpo todo, concordo com um movimento rápido de cabeça.

- Fique onde em possa vê-la. – ele avisa e se dispersa na multidão.

Minha palpitação está forte, estou sozinha. Olho para todos os cantos e não avisto ninguém conhecido, começo a entrar em pânico, não sei o que fazer.

- Cassandra, Fred está a sua esquerda.

Nathan fala no fone de ouvido e eu levo um susto. Olho discretamente para o lado e avisto um home de vinte e poucos anos, cabelos castanhos caídos na testa, usa um smoking cinza, olhos escuros e um sorriso jovial.

- É esse?- murmuro para o aparelho.

- Sim.

Olho em volta a procura de Nathan e o encontro encostado na parede, me observando como um gavião.

Criando coragem, estufo o peito e caminho até a mesa onde Fred se encontra. Ele me encara de relance e eu dou um sorriso de volta.

- Vá até o bar.

Caminho até o bar como pedido pelo Nathan e me sento em um dos bancos vagos.

- Ótimo, ele está te encarando.

Cruzo as pernas e sento de lado no banco, podendo encarar os dois ao mesmo tempo. Fred levanta e vem até mim.

Dou um largo sorriso assim que ele senta ao meu lado.

- O que uma jovem como você faz no meio desses velhos?- ele me encara.

- Vim curti um pouco a festa. – respondo com a voz meiga.

- Como se chama?

- Isabelle.

- Isabelle e você?

- Fred. – ele sorri.

- Pergunte se ele está hospedado no hotel.

- Você está hospedado no hotel?- apoio meus braços sobre minhas pernas.

- Sim e você?

- Estou, me hospedei hoje. – sorrio.

- Já conheceu o lugar?- ele dá um sorriso torto.

- Mais ou menos, quando cheguei tive a oportunidade de dar uma olhadinha por ai.

- Certo...

- Pergunta se ele está acompanhado.

- Está acompanhado?- encaro-o.

- Não de mulheres. – ele ri.

Tenho a vontade louca de revirar os olhos, mas tenho que agir profissionalmente.

- Peça uma bebida.

DEPOIS DE ALGUMAS taças de vinho, Fred foi se soltando mais até que consigo convence-lo a ir para o seu quarto de hotel. Pegamos o elevador social 2 e subimos até o terceiro andar.

Ao caminhar pelo corredor, noto uma câmera de segurança e lembro-me de Alek, ele deve estar já na ala da segurança cuidando disso. Faço uma careta para a câmera.

O quarto de Fred é o 389. Deixo a porta encostada para Lucas consiga entrar depois. Coloco-o sentado na cama.

- Vou ao banheiro. – murmuro e vou a passos largo até o mesmo.

- Lucas está chegando e levando sua segunda roupa.

Dou graças a deus de estar recebendo informações do Nathan, sem isso eu estaria perdida. Apoio às mãos na pia e abaixo a cabeça, e então me dou conta que agora eu faço parte do grupo dele e estou o ajudando, isso é o pior.

- Cassandra?- é a voz do Lucas.

Saio voando do banheiro e encontro com Lucas, ele me entrega um sobretudo preto, coloco-o e tampo o vestido, desmancho o penteado e encaro o Lucas.

- Você conseguiu o deixar bêbado. – ri.

- Ande logo. – falo ansiosa.

Ele aplica uma injeção em Fred. Contamos no relógio cinco minutos e ele já estava sob o efeito do tranquilizante.

Lucas o carrega no ombro e entre o seu revolver.

- O que eu faço com isso?- falo com as mãos tremulas.

- Atire só quando eu mandar. – ele diz serio.

Aquiesço e abro a porta do quarto pra ele.

Saímos em total silêncio, caminho ao lado do Lucas, olhando para todos os lados e me certificando que não há ninguém nos corredores antes dele passar.

- Conseguiram?

- Sim Nathan, estamos indo para o carro. – murmuro.

Lucas entra no elevador de serviço e aperta o -2. Estou inquieta, participando de um assassinato e ainda carregando uma arma.

- Se eu disparar, não vai fazer barulho?- murmuro.

- Está com silenciador docinho. – Lucas sorri.

Assim que o elevador para, saio na frente e não há ninguém ali. Caminhos até uma BMW m3, até que três seguranças aparecem do nada no final da garagem, estavam armados e não eram do hotel.

- Merda!- resmunga Lucas e joga Fred no chão.

- O que eu faço?- entro em pânico.

Os homens começam a atirar contra nós, Lucas me puxa para baixo e ficamos na lateral do carro, ele empurra o corpo do Fred para debaixo do mesmo.

- Já jogou paintball? – ele me encara.

- Sim.

- Então, a arma é automática, é só apertar o gatilho, mirar e já era. – ele sorri.

Minha boca fica seca e minhas pernas bambeiam.

- Eu não consigo fazer isso. – murmuro.

- Ok. – ele pega a arma da minha mão- Arraste o corpo dele entre os carros e tome cuidado para não ser vista, continue indo até o BMW. – ele joga a chave pra mim.

Puxo o corpo de Fred de debaixo do carro e com dificuldade vou arrastando. Os seguranças se aproximam mais e continuam atirando.

Meu coração está a mil, meu sangue flui rapidamente em minhas veias e não consigo pensar direito, apenas gravei o que Lucas me disse. Fred é muito pesado e tenho dificuldade por causa do gesso.

Escuto os disparos mais perto e tenho vontade de sair correndo. Mas continuo indo até o carro.

Até que sinto um metal gelado em minha nuca. Gelo.

- Solte o Fred e erga as mãos. – uma voz grave ordena.

Levanto com cuidado e ergo as mãos, meu coração parou e minha respiração está ruidosa, o metal continua em minha nunca e o medo me assombra de novo.