Desço a escada bem rápido e já estou na cozinha. Os meninos, ou como diz o Nathan: marmanjos, estão na cozinha.

- Preciso da ajuda de vocês. – debruço no balcão.

Eles me encaram interrogativos.

- Quero me ensinem a usar uma arma. – vou direto ao ponto.

- Não. – Alek sorri.

- Por que não?- franzo o cenho.

- Por que você não foi feita para usar uma arma. – ele rebate.

- Machista.

- Não sou machista, apenas realista. – ele retruca.

Ignoro-o e encaro Leo, que pelo jeito é o melhor em armas do que todos aqui.

- Você me ensina Leo?- sorrio debilmente.

Ele respira fundo.

- Pra que quer saber usar uma arma?

Bem, digamos que o Nathan é protetor com todos aqui, tentando passar um exemplo- coisa que ele não teve na infância, mas ele não vai conseguir cuidar de todos a sua volta e eu preciso garantir uma segurança para mim mesma.

- Para minha própria segurança.

Ele me analisa sério e tento me manter em postura firme.

- Tá, eu posso te mostrar como se atira decentemente. – ele levanta.

Comemoro mentalmente e o sigo.

Ele entra na porta ao lado do escritório do Nathan, onde eu entrei a uma semana atrás e o lugar não mudou muita coisa.

Descemos a escada de madeira e paramos em frente aos alvos em forma de corpo humano, estão meio velhos.

- Prestem a atenção. – Leo para ao lado do boneco.

- Pode falar.

- Esse boneco está representando uma pessoa e é isso que você tem que por na cabeça: tem coragem de matar alguém?

Eu tenho? Realmente tenho coragem de puxar o gatilho de uma arma e tirar a vida de uma pessoa? Sim! Eu tenho coragem de matar uma pessoa.

- Mas se lembre que você não é o Nathan- ele avisa.

- Como assim?- pergunto cautelosa.

- O Nathan é um cara... – ele parece buscar a palavra certa- Que mata sem piedade, mata a sangue frio e você não vai fazer isso.

Sinto uma pressão no peito e me lembro do que o Nathan disse. Ele é assim por causa do pai dele.

- Então vou fazer o que?- pergunto debilmente.

- Atirar só em que te ameaça. – ele me entrega o fuzil.

Minhas mãos congelam e meu coração acelera, terei mesmo coragem de atirar?

Eu terei, por que estou fazendo isso pelo Nathan, ele não pode se preocupar comigo como se eu fosse uma criança indefesa e ironicamente, ele é a criança em apuros e eu sou quem o protege.

- segure a arma direito. – Leo ordena.

Obedeço mais que de imediato e seguro a arma altura de meu busto, apontando direto para o alvo.

- Preste a atenção. – ele aponta para o alvo e então percebo que ele tem círculos e números dentro, não sei o que significam.

- Está vendo o “x5”, isso significa que um ponto vital. – continua Leo- A partir do “x4” já um ponto vital e onde você tem que atirar. – ele se afasta.

Entro em pânico.

- Antes de atirar, focalize o local alvo e respire fundo. – Leo avisa.

Focalizo o x5 perto das costelas, a arma treme em minhas mãos, tento relaxar e respiro fundo.

Isso pode me ajudar a viver aqui, se eu soubesse fazer isso no dia do hotel, aqueles homens não teriam pegado a gente e o Nathan não ia precisar se preocupar comigo, mas como não sabia deu merda.

- Quando quiser. – Leo diz petulante.

Respiro fundo mais uma vez.

- Segure mais forte!- Leo diz alto e me assusta, dou um tiro acidental que se lança no ar com uma explosão, o fuzil volta na minha cara e eu caio no chão.

Estou zonza, não sei o que eu acabei de fazer, mas sei que o medo passou e agora é adrenalina que passa pelo meu corpo.

- Cassandra. – Leo está na minha frente- Se machucou?

Tirando a ardência e a do que sinto no meu maxilar e em minha bochecha, estou bem.

- Quero de novo. – levanto.

- Por que está fazendo isso mesmo?

Respiro fundo.

Por que estou fazendo isso mesmo? Para provar para o Nathan que ele pode confiar em mim e não se preocupar com minha segurança, e para minha defesa ou apenas para a minha defesa, afinal eu moro com assassinos.

- Eu não sei. – falo firme.

Leo ri.

- Se você não tiver um proposito, nunca vai conseguir atirar. – alguém fala, mas sei que não é o Leo.

Olho para o lado e vejo Nathan me analisando.

- Eu consigo. – tento convencer a mim mesma.

- Não, você pensa demais pra fazer as coisas e isso serve como bloqueio quando está com uma arma na mão. – ele diz paciente.

- Mas eu atirei. – murmuro.

- E não acertou o alvo e ainda por cima, caiu no chão.

- Então quer que eu faça o que? – encaro-o.

- Como assim? – ele inclina a cabeça.

- Estou morando com quatro mafiosos assassinos e não tenho como me defender.

- Não precisa de defender de ninguém.

- Esqueceu do Fred?- fecho a cara.

Ele solta um som de desaprovação, acho que por lembrar.

- Aquilo não foi esperado. – murmura ele.

- Por isso que tenho que saber usar uma arma, para esperar o inesperado. – tento convencê-lo.

- Não quero você mexendo com armas. – ele retira o fuzil da minha mão.

Bufo e cruzo os braços.

- É só para minha segurança. – resmungo.

- Eu cuido da sua segurança. – ele rebate.

- Nossa, cuida muito. – digo irônica.

- Quando eu achar que está na hora de você saber usar uma arma, você vai saber usar.

Mordo o lábio inferior com força e seguro as objeções que tenho.

- Tá legal. – forço um sorriso.

- Obrigado Leo. – ele dirige a palavra para Leo. Tinha até esquecido dele.

Ele acena com a cabeça e começa a arrumar algumas coisas dali.

- Até parece que sou uma criança. – resmungo e começo a andar.

- Mas você é uma criança. – ele caminha atrás de mim.

- Não enche!

Nem adiantou o esforço eu ter levado uma bancada na cara, Nathan não tem confiança em mim com uma arma e muito menos em mim mesma, como ele quer que eu confie nele?

- Por que queria aprender a atirar?- murmura ele.

- Por que não quero ser um zero a esquerda aqui, quero me sentir bem e se eu soubesse atirar...

- Atirar não te traz segurança Cassandra. – ele me corta- A arma que você usa para sua defesa pode ser a mesma que te mata pelas costas.

Paro bruscamente no corredor, ele está se referindo ao pai?

- Como quer me dar segurança aqui se eu nem sei segurar uma arma?- viro e encaro-o.

- Eu cuido da sua segurança aqui. – ele dá de ombros.

- Por que não confia em mim?- pergunto meio débil.

- Eu confio. – ele para e franze o cenho – Só não posso perder, não de novo.

Como assim perder de novo? Ele já perdeu alguém por causa de uma arma? É isso?

Ah! O Nathan me confunde muito.

Tento me conformar e fico calada, encarando-o.

- Olha você é uma menina incrível, deve se prender a algo mais importante do que saber atirar.

- Então atirar é importante?- falo petulante.

-Não, pois se fosse, você já nasceria sabendo atirar. – ele rebate.

- Isso não vem ao caso. – resmungo.

- Relaxe Baby, vou te ensinar tudo o que eu acho importante. – ele sorri lascivo e sai andando.

- Vai nessa. – reviro os olhos.

Fico parada no corredor, vendo-o passar elegante ao meu lado. Ele está como sempre, uma calça jeans escura caída no quadril, uma camisa branca e o boné que eu dei pra ele.

- Nathan!- escuto a voz exasperada de Lucas- Era uma armadilha!

Gelo. O que era uma armadilha?