O elevador chega à recepção, os meninos saem primeiro. Demoro um pouco encarando a larga recepção e depois saio. Caminho até um dos sofás dali e sento, me aconchegando no couro creme.

OS MENINOS já estão nos quartos, estou no elevador ao lado do Nathan que ainda não pronunciou nenhuma palavra.

Está em silencioso e frio, não dirigiu o olhar pra mim e está distante. Odeio isso, prefiro muito mais brigar com ele e vê-lo falar ou gritar comigo, prefiro que ele tenha raiva de mim, mas fale e brigue comigo. Isso é uma tortura, ele não quer nem ao menos olhar pra mim.

Saio do elevador e sigo atrás dele, com a cabeça baixa encarando meus pés no salto alto e o chão de mármore branco, até que paro em frente a uma porta de duas folhas branca. Nathan passa o cartão e entra, entro logo atrás dele.

O quarto é grande, tem janelas do chão ao teto, paredes creme e detalhes em gesso, lustres grandes iluminam o quarto, uma cama de casal grande bem no meio do quarto, um closet, com roupas? E uma porta para o banheiro, também a uma sala de Tv.

- Por que não quer falar comigo?- murmuro.

- Não quero perder a cabeça.

Fico tensa e engulo seco.

- Desculpa, só não queria te deixar mais culpado do que já estava. – murmuro, mais parecendo um ronrono.

Ele inspira forte.

- Tudo bem, não te culpo. – ele senta na cama- Pode ir tomar banho.

- Por que tem roupas no closet?

- Eu peguei essa suíte por causa disso, é tipo um frigobar, mas ai é com roupas.

- Então vai pagar por cada roupa que usar?- inclino a cabeça.

- Sim, mas já paguei.

Aquiesço.

- Você vai dormir aqui?- a ficha cai.

- Sim, algum problema?

Minha palpitação aumenta.

- Sim, muitos.

Ele sorri, mas não argumenta mais nada.

Vou até o banheiro e me encaro no grande espelho. Cabelo bagunçado, maquiagem borrada, boca inchada e com um pouco de sangue seco no canto, pescoço ensanguentado, estou horrível.

Despi-me e entro no box. A água morna limpa o meu corpo e alma, debruço na parede do box e abaixo a cabeça, relaxando.

Saio e me enrolo na toalha felpuda do hotel, faço o mesmo no meu cabelo, parecendo a Carmim Miranda, olho em volta e onde estão as roupas? Meu deus, eu não peguei roupa.

Abro discretamente a porta do banheiro e olho o quarto, Nathan está deitado na cama com um braço jogado no rosto. Saio pisando em ovos e quase não respiro.

- O que foi?- a voz do Nathan me faz gelar.

- Esqueci-me de pegar uma coisa. – murmuro.

Ele levanta e eu corro para o closet, escuto sua risada, mas ignoro-o.

Olho pelo closet procurando um pijama descente, mas só acho camisolas e isso me lembra que vou dormir com o Nathan e isso me deixa tensa.

Escolho a camisola mais normal que acho, ela é de liganete igual a que tenho, só que é branca e vem acompanhada de uma calcinha shorts da mesma cor.

JÁ ESTOU NA cama, encarando a janela com vista para a cidade, a poucas luzes acesas e pouco movimento, mas ainda sim é uma bela vista.

Nathan não está na cama, deve estar vendo Tv e comendo alguma coisa. Hum... Falando em comida, eu não jantei hoje.

Em pensar que eu poderia estar morta, se não fosse o menino na sala ao lado. Se eu for ver os fatos, o Nathan não é o que ele tem de fachada, sei que ele pode ser melhor que isso. Fecho os olhos e acabo dormindo.

Acordo com a movimentação da cama, ergo o olhar por cima do ombro e vejo Nathan deitar na cama, vou mais para o lado, quase caindo da cama.

- Não queria te acordar. – murmura ele.

- Tenho sono leve. – murmuro ainda sonolenta.

- Sua boca está melhor?

- Sim, não está mais sangrando. – coloco o indicar no meu lábio inferior me certificando disso.

- Você jantou hoje?

- Não.

Escuto ele respirar fundo e me encolho.

- Quer comer alguma coisa?- murmura ele.

- Não estou com fome.

Minha palpitação da sinal de vida, estou realmente fazendo isso?

- Quer que eu durma no sofá?- ele pergunta cauteloso.

- Você está pagando pelo quarto para dormir no sofá?- viro e encaro-o.

Ele ri.

- Sua boca tá inchada. – ele fala, parecendo um lamento.

- Faz parte. – sorrio.

Ficamos nos encarando, ele está sentado na cama e eu me apoio no cotovelo para encara-lo melhor.

- Você já teve namorada?- murmuro.

Ele franze o cenho, com se recordasse de algo, mas seu olhar entristece.

- Não.

Mordo o lábio inferior e o solto rápido quando o sinto doer.

Por que ele nunca teve namorada?

- Então é estranho dormir comigo?­- pergunto cautelosa.

Ele sorri.

- Não, não é porque nunca tive namorada, que eu nunca dormi com uma garota.

- Estou dizendo no sentido que estamos dormindo. – resmungo.

- Ah, mas não é estranho.

Respiro fundo e bocejo.

- Está com sono?- ele me encara.

- Não. – contraio os lábios.

- Você gosta do Alek?- ele diz impassível.

Meu coração acelera. Meu deus por que ele perguntou isso?

- Não, apenas acho ele bonito. – murmuro.

- Parece que você gosta dele.

- Pareço nada, eu não gosto de ninguém.

- Hum...

- E você gosta da Fabiana?- pergunto petulante.

- Não gosto de ninguém das meninas.

- Então você gosta dos meninos?- arqueio uma sobrancelha.

- Já falei que não sou gay. – ele cerra os dentes.

- Desculpa “Sr. Eu não gosto de meninas, mas não sou gay”.

- Você é a menina mais petulante, briguenta, orgulhosa que já conheci.

- Obrigada.

Ele ri.

- Você fica bonito sem boné. – encaro seu cabelo revolto.

Ele passa a mão no cabelo e sorri.

- Obrigado.

Ficamos em silêncio de novo e eu odeio isso.

- Seu dedo melhorou?

- Sim. – encaro o meu gesso.

- Quando tem que tirar?

- Semana que vem.

- Se eu te contar uma coisa, não vai espalhar pra ninguém?- ele me encara.

Sorrio abertamente.

- Pode falar.

- Ás vezes que tenho pesadelos, já foi em psicólogos, mas ninguém resolve, dizem que é por causa do meu passado turbulento.

Não sei por que, mas sinto pena dele.

- Quando eu era pequena, minha mãe chegava perto de mim. – sento em cima de meus joelhos e me aproximo dele- E depois afagava meu cabelo até eu dormi.

Ergo a mão e passo por seus fios negros macios, sua respiração fica ruidosa e ele coloca a mão em cima da minha.

- Promete não sair daqui até eu acordar?- ele me encara.

- Prometo. – sorrio.

Ele parece um garotinho com medo do bicho papão, deve ser muito perturbado mesmo, talvez por isso seja tão fechado para ele mesmo. Ah como eu queria saber mais sobre ele.

Será que ele sofreu na infância