Notas iniciais
Pov. Cassandra

Sinto um baque em meu corpo.

Abro os olhos no impulso e encaro a escuridão do quarto, não sinto minhas pernas ou braços, meus ouvidos escutam sobre pressão, pequenos e distantes bips eletrônicos, consigo sentir meu coração bater novamente e me sinto viva outra vez, porém falta algo.

Não sei onde eu estou, meu senso de direção parece ter sido retirado de mim, ainda me lembro de vagar coisas do passado.

Um quarto, sangue, pessoas a minha volta e logo em seguida um bebê, minha filha!

A circulação começa a completar o meu corpo, alguma coisa segura a minha mão imóvel, pareço não ter mais liga com o meu corpo.

Olho para baixo e vejo uma mão segurar a minha, faço muito esforço mental para lembrar o meu cérebro dos movimentos exercitados pelas minhas mãos, consigo senti-la novamente, ela volta a ser minha.

Fecho-a em torno da mão que segura a minha, a um choque entre as duas, minha mão é gelada e morta, enquanto a que a segura é quente e viva, ela também é maior que a minha mão.

Minha cabeça dói, tenho lembranças repentinas do passado, um lugar distante de mim, não consigo me lembrar de mais nada, apenas daquela noite, da dor que toma todos os nervos do meu corpo, das pessoas que me cercam e do bebê sendo levado embora, não sendo isso, parece que minha memória foi apagada.

A cama mexe, viro a cabeça devagar para o lado e vejo uma pessoa, um garoto adormecido, tem cabelos negros, pele clara e musculatura forte. Um lindo rapaz.

Mas eu o conheço?

Uma coisa em mim diz que ele é familiar e que eu o conheço, outra recua e parece não reconhece-lo por completo.

Ele abre os olhos, eles possuem uma coloração linda, um azul piscina claro.

- Cassandra?- ele pare espantado.

Ele me conhece! Da onde ele me conhece?

- Naomi. – esse nome escapa de minha mente.

Consigo me lembrar quem é ela, mas não sei quem é ele.

O menino ao meu lado continua imóvel e então de repente desce da cama e saí do quarto.

Não demora muito e ele volta com uma mulher, ela fica espantada em me ver e vem até mim.

- Como se sente?- ela me encara.

- Confusa, não sei onde eu estou. – olho em volta.

A mulher respira aliviada.

- Vou entrou em coma logo após o nascimento da sua filha, desde então está aqui. – ela diz curtamente- Consegue se lembrar?

Fico encarando-a e então repasso algumas cenas em minha mente; as pessoas, a dor, o bebê, eram o nascimento da minha filha!

- Sim. – murmuro.

Ela sorri e se volta para o menino.

- Daremos um tempo á ela, as pessoas que voltam de um coma de longo prazo sofrem perda de memória, lembrando apenas de alguns momentos antes de entrarem em coma.

O menino me encara de relance e fica imóvel.

- Onde está minha filha?- encaro-os.

- Já vou pedir para trazê-la. – a médica saí do quarto.

Continuo encarando o menino a minha frente sem saber o que falar, não sou muito de conversar com estranhos.

- Não se lembra de mim?- ele balbucia.

- Deveria?- franzo o cenho.

Ele suspira e passo a mão no cabelo.

Aqueles olhos são familiares para mim, não sei onde eu os vi, mas eu os conheço.

A situação fica desagradável.

Escuto a porta ser aberta de novo, dessa vez entra uma japonesa com uma bebê nos braços, eu sei quem é ela, pela primeira vez me sinto bem.

- Naomi. – sorrio.

Ela vem até mim.

Encaro a bebê em seus braços hesitando em pega-la, sei que essa pequena é minha filha.

- Aqui. – Naomi a me entrega- Tudo sua.

Ajeito-a em meus braços com tudo o cuidado, ela está tão grande e gordinha, a coisa mais linda que eu já vi, mas a algo incomum nela, seus olhos tem cores diferentes.

- Ela é cega?- balbucio.

- Não. – Naomi ri- Ela tem heterocromia.

- O que é isso?­- encaro-a curiosa.

- Quando os olhos possuem coloração diferente, mas nada afeta a visão. – ela diz calma.

Respiro aliviada. Minha bebê é saudável.

Naomi me encara e logo depois encara o rapaz que ainda permanece para me encarando.

- Não se lembra dele?- ela parece pasma.

- Não. – encaro-o- Eu deveria saber quem é ele?

Ela me encara triste como se eu tivesse falado algo errado.

- Isso é triste. – murmura ela- Muito triste.

Não dou muita importância e continuo encarando a bebê.

- Qual o nome dela?- afago sua bochecha.

- Genevive. – Naomi diz baixo.

- Lindo nome. – sorrio- Obrigada.

Naomi acena com a cabeça e fica em silêncio.

O rapaz caminha até a porta e me encara por cima dos ombros, logo depois abre a mesma e sai andando.

- Quem é ele?- encaro Naomi.

Ela fecha os olhos e respira fundo.

- Nathan Frost. – ela diz bem devagar.

Esse nome ecoa por minha mente, vagando em todos os acontecimentos, como se ele tivesse liga com eles.

- Parece ser um cara legal. – comento.

Naomi dá um sorriso torto e senta na beirada da cama.

- Quando se lembrar dele, perceberá o quão legal ele pode ser.

Não entendo muito bem o que ela quis dizer com isso, afinal, eu mal o conheço.

Vários médicos entraram no quarto e tive que deixar a Genevive, realizei vários tipos de exames, principalmente de memória. Dizem eles que minha memória retornará com a minha reabilitação e espero que isso não demore muito.

Ainda não vou receber alta do hospital, terei que ficar internada durante alguns dias até meu quadro melhorar um pouco.

Naomi me conta algumas coisas para ver se influencia em minha memória e me ajuda a lembrar de algo.

- Olhos azuis, o que tem lembram? – ela me encara fixa.

Fecho os olhos e encosto calmamente no travesseiro.

Olhos azuis, o que eles podem em lembrar?

Lembro vagamente de alguém, não sei como é seu rosto ou como ele é de verdade, não sei seu nome ou característica, apenas sei que ele é alguém importante pra mim, mas eu estou o esquecendo.

Franzo o cenho e me esforço mais uma vez.

É impossível ele ser importante pra mim e eu o esquecer, meu coração acelera e eu luto contra minha própria mente, mas eu não sei quem ele é.