Não! Eu não vou fazer isso!

Sou forte o suficiente para conseguir passar por cima disso, a Naomi não sabe o que fala, sei ignorar os meus sentimentos.

- Eu já vou indo. – Igor se prontifica.

- Tchau. – murmuro.

Ele caminha de volta para o carro e entro na casa da Naomi. Ela já está lá dentro e eu fico parada na soleira da porta.

- Eu consigo lidar com os meus sentimentos. – comento.

Naomi me encara de relance.

- Não sabe não, você age por impulso. – ela diz sabia.

Suspiro.

É melhor eu não discutir com a Naomi, ela é uma pessoa inteligente, muito inteligente. Ela já está nisso há anos e eu cheguei agora e já quero ter razão em tudo.

- O Nathan... – falo sem ter continuação alguma.

- Pare de por a culpa no Nathan, o problema é em você, não nele. – ela me encara- Quando souber diferenciar isso, vai ser mais feliz.

Meu queixo caiu no chão. Qual é? Ela vai ficar defendendo-o toda hora?

Respiro fundo e caminho até o sofá de novo.

**

O mês passou rápido na casa da Naomi e foi ela que fez meus ultrassons recentes. Já tenho até fotos da bebê.

Minha convivência com a Naomi está me ensinando muita coisa, principalmente manter o controle e não agir por impulso.

Não tive mais noticias do Nathan, não sei se isso é bom ou ruim, terei mais tempo para pensar nas coisas certas, porém não deixo de notar que Naomi vive falando com ele pelo telefone, raramente escuto ela falar de mim pra ele, o assunto que mais é falado por eles é sobre a Mariana. Coisa boa não é...

- Naomi, tem melancia?- sorrio.

- Acho que não, por quê?- ela me encara curiosa.

- Porque estou com vontade. – falo sem jeito.

- Creio que tenha mercados abertos essa hora, posso ir comprar. – ela opina.

- Não, eu como chocolate. – levanto do sofá com relativa dificuldade pelo tamanho da barriga.

Depois de comer uma barra de chocolate inteira, eu presto mais atenção na Tv e nos noticiários sobre as manifestações ocorrentes semanais.

- Será que eles nunca vão parar?- comento.

- Acho que vão parar quando o governo começar a reagir positivamente e atende-los. – Naomi diz sem prestar atenção.

Encaro-a. Ela está em frente à janela da sala olhando para o terreno desocupado atrás da casa dela, é aí que percebo que a casa da Naomi não tem cerca elétrica ou concertina é totalmente vulnerável, tirando que a habita.

- O que foi?- murmuro.

- Apenas intuição. – ela diz sem tirar os olhos da janela.

Sempre que tenho intuição acontece algo ruim, então vou ignorar isso para não ficar pensando merda.

DEPOIS da janta, eu lavo a louça enquanto a Naomi tira a mesa. Escuto o portão de a casa abrir e paro o que estou fazendo.

- Problema?- Naomi me encara.

- O portão abriu. – balbucio.

Naomi congela e o silêncio paira no ar. Há um barulho na porta como quem mexe na maçanete e depois insere a chave. Naomi larga tudo que está na mão e começa a revirar os armários da cozinha.

- O que foi?- falo amedrontada.

- Fique aqui. – ela ordena e saí andando.

Enxugo a minha mão e me afasto da pia.

Um barulho incomum vem da sala, da onde a Naomi não voltou. Com cautela caminho até lá e fico encostada na parede, quando minha presença é percebida.

- Cassandra. – Mariana fala animada- Muller vai gostar de te ver novamente.

Tenho náuseas e desencosto da parede.

- Como entrou aqui?- falo ríspida.

- A Vic pegou a chave reserva da casa, estava apenas esperando a hora certa. – ela sorri.

Desgraçada...

- Feche as cortinas. – Naomi ordena.

Sem hesitar, começo a fechar as cortinas da sala e da cozinha. Enquanto Naomi tenta conter a Mariana com aquele jeito ninja que só ela tem.

Fico bem afastado do local onde elas estão, sirvo como plateia.

Naomi tem os reflexos mais rápidos que eu já vi, Mariana mal consegue se focar em algo e Naomi ataca do outro lado, assim me sinto até inútil. Mariana finalmente consegue atingi-la e ganhar vantagem.

Estremeço...

Tenho que ajudar a Naomi, não é justo eu ficar apenas assistindo elas se matarem, mas o pior é que nem a policia eu posso chamar. Mariana deixa a Naomi no chão e se volta para mim com um sorriso triunfante no rosto.

- O Nathan não está aqui. – ela zomba- A princesa está indefesa.

Recuo.

- Não tenha meda Cassandra, não serei eu que vou te machucar. – ela sorri.

- Fique longe de mim. – rosno.

Ela gira a arma na mão e balança a cabeça negativamente.

- O Nathan pode não estar, mas eu estou!- a voz da Naomi surge do nada e vejo um objeto rápido cruzar o ambiente e raspar no braço da Mariana, derrubando a arma. O objeto para na parede e vejo que é uma faca.

Olho para a Mariana e vejo o corte em seu braço ganhar vida com o sangue, ela aperta o ferimento e encara a Naomi novamente, que ataca em surpresa derrubando a Mariana em cima da mesa, fazendo o vidro de quebrar em mil pedaços.

A campainha toca, congelo.

- Atenda. – Naomi diz ofegante.

Ando em passos largos até a porta e fecho-a assim que saio, tem uma senhora no portão.

- Sim?- não chego muito perto do portão.

- Oi, sou a vizinha aqui do lado e notei uns barulhos estranhos, está tudo bem?- ela me encara.

Caralho.

Sorrio amarelo.

- Então, é porque eu comprei o enxoval do meu bebê e meu marido não está conseguindo montar o berço. – minto bem descaradamente.

- Mas ai não mora uma japonesa?

Ô inferno, vai pra casa velha.

- Sim, sou prima dela e aluguei a casa por um tempo curto.

- Ah, tudo bem então, boa noite. –ela sai andando.

Paro por um instante buscando as batidas do meu coração, e agora consigo senti-las na cabeça.

Abro a porta e vejo uma faca vir em minha direção, fecho a mesma novamente e escuto o barulho forte da faca bater contra a faca.

Tenho vontade vomitar e meu coração bate tão forte que me dá dor de cabeça. Abro a porta de novo e encontro uma Naomi machucada e ofegante, encostada na parede. Rolo os olhos pelo local e vejo o corpo da Mariana jazido no chão.

Meu deus, ela matou a irmã do Nathan.

Fico lívida.

- Relaxa, a morte dela já estava encomendada. – Naomi explica, vendo meu estado.

- Como assim?- sopro as palavras pra fora.

- Fiz um grande favor para o Nathan, ele já ia mata-la mesmo, apenas antecipei. – ela sorri- Mariana é uma grande traidora, se infiltrou na máfia do irmão para conseguir destrui-lo internamente e depois externamente.

Continuo encarando o corpo da Mariana no chão e sinto um mal estar forte.

- Eu consigo limpar isso rapidinho. – Naomi respira fundo.

- Relaxa, só estou um pouco em choque. – sorrio amarelo e encosto na parede.

- Vou pegar uns curativos. – Naomi anda até a escada.

Passo a mão no cabelo e sinto minhas mãos tremerem e suarem frio.

Tenho vontade de sair correndo e gritando, o liquido vermelho vivo escorre pelo chão de mármore claro, dando contraste e eu simplesmente me vejo observando-o.

A vida é algo tão delicado que um simples deslize nos marca para sempre e eu sei bem como é isso.

Não sei exatamente porque estou tão apreensiva assim, mas meu corpo está tremulo e em completo pânico. Busco uma saída para essa sensação, mas simplesmente não existe.

NAOMI já está terminando de limpar o estrago, enquanto eu já estou na terceira dose de chá de erva doce. Meu coração ainda bate acelerado e minha respiração está difícil.

- Aonde vai colocar o corpo?- encaro-a.

- Na sauna. – ela diz terminando de esfregar o chão- Aí depois eu queimo.

- Onde você queima?- inclino a cabeça.

- Depende. – ela me encara- Ás vezes em terrenos baldios ou eu enterro na parte gramada da casa.

- Mas depois não é fácil achar? Se você vender a casa?

- O corpo entra em decomposição e vai perdendo a espessura, aí fica mais fácil queimar.

Nunca pensei que a Naomi tivesse tanto sangue frio assim.

- Mas essa aqui o Nathan vai querer, então provavelmente o Leo virá buscar. – ela comenta.

Respiro fundo.

- Como será que a Vic pegou a chave reserva?- balbucio.

- Eu deixo uma chave reserva na cozinha, ela deve ter pegado e levado embora, fui tão burra que nem percebi. – ela balança a cabeça negativamente.

A Vic está se saindo melhor que a encomenda.

— Sabe, você pode me fazer um favor?-mudo de assunto.

- Qual?- ela franze o cenho.

- Quero que faça uma pesquisa completa sobre Adolf Morozov.

- Pra que?- ela indaga.

- É uma pessoa aí... – falo sem interesse.

Está na hora de enfrenta-lo de uma vez por todas, senão sempre irei carregar e, como a Naomi disse, pode me prejudicar bastante.

Faz tanto tempo que não penso no assunto que dá até medo de relembra-lo...