- Você vai trazer a Genevive?- encaro-a.

Ela aquiesce e levanta.

Me ajeito na cama e encaro o teto branco, minha cabeça dói e estou morrendo para ver a minha pequena.

A porta abre e meu coração bate acelerado.

- Obrigada. – continuo encarando o teto.

Naomi não responde nada, apenas continua caminhando.

Olho para ela e percebo que é aquele menino de novo, sorrio tímida.

- Desde quando está aqui comigo?- murmuro.

- Desde que está internada. – ele senta no sofá ao lado da minha cama.

- A onde me conheceu?

Ele sorri, um sorriso lindo.

- No seu condomínio. – ele me encara.

- Se mudou pra lá?- franzo o cenho.

Ele ri.

- Pode se dizer que só foi lá para te ver.

Ele é estranho, como alguém vai a um lugar para ver uma pessoa que mal conhece?

- E no hospital, faz quanto tempo que estou aqui?- encaro-o fixa.

- Meses, alguns dias atrás você ia para o isolamento, mas eu não deixei, passei a ficar com você da hora que começa até o ultimo horário para visitas, a Genevive não pode mais vir comigo, então eu vinha sozinho. – ele diz olhando para o chão.

Ficamos em silêncio.

- Você lembra quem é o pai da sua filha? – ele me encara.

Aqueles olhos azuis, eu me lembro deles.

- Sim, mas não sei quem ele. – murmuro- É algo muito estranho.

Faz alguns dias que eu acordei, minha memória ainda tarda em chegar.

- Espero que um dia lembre-se dele. – o menino levanta.

Também espero.

- Aonde vai?- observo-o cautelosa.

- Tenho que ir embora, irei fazer uma viagem a negócios hoje. – murmura ele.

- Para muito longe?

Não sei quem ele é, porém gosto de ter ele por perto.

- Colômbia. – ele sorri.

- Vai voltar?- minha voz sai baixa.

- Daqui a um tempo. – ele diz firme- Mas eu volto, sempre volto.

Ele sai andando.

Essa frase ecoa em minha mente, trazendo uma lembrança importante, alguém importante, trazendo minha vida de volta.

Os olhos dele, o sorriso, seu jeito de me olhar, seu jeito de falar e observar tudo. Minha mente começa a clarear um pouco mais, o rosto daquele rapaz em minha mente vai aparecendo, seus olhos se sobressaem mais do que tudo, ele está sorrindo e eu gosto do que vejo e sinto. Meu coração desperta em batidas rápidas demais e fico ofegante.

Tudo começa a fuzilar a minha mente com força, começo a lembrar de varias coisas ao mesmo tempo e todas elas têm esse menino.

As coisas começam a vir juntas e me faz lembrar de muitas coisas, que um dia, eu fui capaz de viver e relembrar.

Estou em um quarto claro e com janelas de cadeia, tem mais alguém ali comigo, ele possui os olhos azuis mais lindos que alguém pode possuir, seu cabelo negro escapa pelo boné e ele parece estar me encarando há muito tempo; De repente estou em um quarto de hotel, ele está muito perto de mim, consigo sentir o seu cheiro em mim e desejo mais que nunca seus lábios embora eu tenha receio disso; Ele está deitado no chão sangrando e sofrendo, seus olhos azuis estão se apagando aos poucos e o medo de perde-lo me consome, eu sabia que eu o amava ali, só que tinha medo que fossem apenas palavras jogadas no vento; Ele voltou, está no bar me esperando, eu consigo tê-lo em minhas mãos novamente e então nunca mais vou solta-lo; Estamos em um quarto, nossas respirações descompensadas e estamos suando, o quarto está abafado e eu me sinto feliz; Então eu estou fugindo dele sem motivo, com medo e ele aparece novamente para me salvar, seus olhos azuis são minha luz no momento; Descubro algo dentro de mim e brigamos mais uma vez; Voltamos a morar juntos e ele confessa coisas que tem medo; Estamos na piscina e ele volta a ser o meu menino; Eu enfrento o tal receio dele; Ele se acostuma com a coisa dentro de mim e parece gostar dela; Podemos voltar a normal, quando tudo desmorona novamente diante de mim e então ele vai embora novamente...

Nathan!

Esse nome estala em minha mente junto com a lembrança, levanto da cama, eu estou cometendo o mesmo erro novamente, deixando-o ir embora.

Os aparelho ligados em mim me impedem de levantar e seguir atrás dele, então eu os puxo, arrancando-os com brutalidade do meu corpo, a dor aguda me faz torcer a cara. Saio da cama e meu senso de equilíbrio fraqueja, quase me levando ao chão.

- Nathan. – sussurro.

Olho para a porta e crio forças para continuar, ergo o meu corpo novamente e ando até a porta, abro-a e encaro o corredor, que só tem pessoas de branco andando de um lado para o outro, escolho a direita e começo a correr até o final, o mais rápido que consigo.

Ele não está lá, meu coração vem na boca, aumento a velocidade e o ar me falta, eu preciso alcança-lo, vou direto para a escada e posso escutar algumas pessoas atrás de mim, desço os lances de escada o mais rápido que consigo e vou parando nos andares, procurando-o.

Tenho medo, eu o decepcionei em me esquecer dele, fiz isso a mim própria, como eu consegui esquecê-lo?

Paro no térreo e saio correndo na recepção, tem algumas pessoas ali que me encaram com espanto, ele está parado perto do balcão retirando o crachá e conversando com a Naomi, com a Genevive no colo.

O ar me falta.

Alguém segura em meu braço e me para de repente, não consegui chegar até ele, meu braço dói com o puxão que levei, alguns médicos se aproximam de mim. Ele está indo embora.

Tento gritar, mas a voz não sai, o pânico me consome e eu não consigo!

Abro a boca e o ar me escapa, vejo-o ir embora à minha frente e não consigo fazer nada.

- Nathan!- o grito sai forte e angustiante.

Todos param e me encara, como se eu fosse louca. Ele para perto da porta e vira, me encarando. Lagrimas escapam de meus olhos e me sinto livre, leve e solta.

Puxo o meu braço e sinto o corte aumentar, ignoro a dor e começo a caminhar em sua direção, minhas costelas doem pela falta de ar, vejo o carro dele chegar na porta, mas ele ainda não foi embora.

As lagrimas escorrem até o meu queixo, embora eu esteja sorrindo.

- Eu lembro de você. – murmuro quando estou de frente com ele- Sei quem você é.

Minhas mãos tremem e minhas pernas fraquejam.

Ele continua me encarando.

- Eu já disse isso uma vez e isso foi esquecido com o tempo, por isso vou repetir. – encaro-o – Eu amo você, Nathan.

Nathan sorri e me abraça.

- Não me deixe de novo. – falamos em uni som.

Aperto-o contra o meu corpo e continuo a chorar, como eu pude ser capaz de esquecê-lo.

- Eu também te amo. – ele diz baixo.

Uma vez essa palavra foi dita sem fazer o menor significado para mim, eu nem sabia o que era amar de verdade, no entanto, hoje eu sei o que é amar de verdade, pois eu aprendi na pratica e não na teoria com historias de decepções ou arrependimento, hoje eu amo do jeito que eu aprendi a ama-lo e assim será.