Notas iniciais
Quero agradecer as meninas; Srta HeLL, heleninha18 e a Felipah Albuquerque, obrigada pelas recomendações, estou muito feliz por isso.
Ps: Cap em homenagem a vocês!

São três horas da manhã, estou sentada na sala encarando a Tv desligada.

Eu quero mesmo ver ele? Falar com ele? Saber dele?

Não! Não quero olhar na cara e me lembrar do que ele me fez passar, escutar aquela voz que um dia foi o motivo sério de meu pranto e aquele sorriso arrogante que um dia tive vontade de arrancar.

– Não vai subir?

Naomi mais uma vez, quase me mata do coração.

– Sim. – levanto do sofá- Já estou indo.

Subo a escada bem devagar, mirando bem onde se localizam os degraus.

O corredor está escuro e acho um móvel assim que bato o meu dedinho nele.

– Inferno. – resmungo.

Meu dedo lateja e meus olhos lagrimejam. Entro no quarto quase não conseguindo pisar no chão direito e deito na cama, virando para o lado esquerdo.

**

Uma dor horrível me acorda em um susto, meu corpo está suando frio e minha palpitação está acelerada demais, mal consigo respirar.

Minhas pernas endurecem e doem quando tento mexê-las, fico imóvel em cima da cama.

– Naomi!- grito em pânico- Naomi!

Escuto passos no corredor.

Ela abre a porta em escancaro e me encara assustada.

– O que houve?- ela se aproxima de mim.

– Minha barriga, está doendo muito. – falo controlando a respiração quando uma dor aguda me retira o fôlego.

Naomi me encara aflita e não saí do lugar.

– Liga pra emergência. – falo entre dentes.

Ela saiu como um vulto do quarto enquanto eu me ajeito na cama, encostando minhas costas na cabeceira.

Mantenho uma respiração controlada; inspira, expira. Apenas segurando os gritos na hora da dor aguda que congelo e contorce todos os meus nervos, fazendo deles gato e sapato.

Naomi volta para o quarto com um telefone e acende a luz central do quarto.

– Como assim vocês não podem vir?- ela diz nervosa- Minha amiga está gritando de dor aqui e ela está gravida!

Ela anda em círculos no quarto.

– Manifestação?!- ela exclama.

Sinto uma pressão estranha, como se o meu coração não estivesse no corpo e logo depois voltasse a bater como espasmos momentâneos e logo em seguida uma dor sufocante, arrancando gritos.

Naomi joga o telefone longe e o mesmo se parte assim que encontra com a parede.

– Eles não vêm agora. – ela pragueja.

– Por quê?- arregalo os olhos.

– Os manifestantes viraram a noite, agora são médicos contra alguma coisa dos cubanos, enfim, eles só poderão vir daqui três horas. – ela cerra os punhos.

Ofego.

– Você pode fazer alguma coisa. – falo convicta.

– Sou assassina, não parteira. – ela para e me encara.

– Você fez medicina!- grito e junto tudo com a dor que sinto.

– Foi apenas alguns meses, o básico do básico. – ela grita de volta.

– Mas mesmo assim fez!- rebato.

Uma dor terrível trinca os meus nervos e um grito agudo escapa de minha garganta. Por que tanta dor?

– Naomi, você precisa me ajudar. – murmuro quase sem voz.

Ela me encara lívida, sinceramente, ela não parece a assassina a sangue frio que eu conheci. Seus olhos estão fixos em algum ponto, pelo qual procuro.

Até que vejo uma visível mancha vermelha manchar o lençol e meu pijama. Meu coração bate mais rápido que o normal.

– Cassandra eu não sei o que fazer... – Naomi quase gagueja.

– Sangramento não significa boa coisa. – cerro os punhos- Me tire da cama.

– Consegue andar?- ela franze o cenho.

Geralmente sangramento na gravidez é aborto, mas está muito tarde para isso ou ruptura uterina, mas nada foi identificado em meus ultrassons que indique isso ou eu estou me esquecendo de coisa que cause sangramento.

Naomi me dá apoio enquanto eu afirmo, dolorosamente, minhas pernas no chão.

– Me leve para a sua sala de médicos... Medicina... Você entendeu.

Ela caminha bem vagarosamente, parando quando sinto dores mais fortes, mas por que sinto dores?

Meu coração tem espasmos mais frequentes, sendo até dolorosos, minhas pernas estão congeladas e meus nervos parecem estar sendo esticados.

Deito na cama que tem lá com muito cuidado e pareço estar sendo sufocada, Naomi anda de um lado para o outro.

– Eu posso sedar você. – ela sugere.

– Não!- exclamo- Se me sedar, vai sedar o bebê também, causando a morte dele.

– Antes ele do que você. – ela diz como o Nathan diz.

– Naomi fique parada!- praguejo.

Gritar com ela está me ajudando a não sentir tanta dor.

– Ligue para o Marcos. – ordeno- Agora!

Ela aquiesce e corre para fora do local. Inclino um pouco a cabeça, estou ficando enjoada.

A dor continua e não sei se minha bolsa estourou ou não, o sangramento estragou tudo.

– Naomi!- grito.

Ela volta com o celular na mão.

– O Marcos está vindo. – ela diz um pouco aliviada.

– Só ele?!- arregalo os olhos.

Eles não vão conseguir fazer o parto sozinhos.

– Não, a mulher dele vem junto.

– Ela é médica?- encaro-a séria.

– Sim.

– Ótimo.

Ela anda de um lado para o outro juntando algumas coisas perto da cama onde estou. Seguro os grito, agarrando os lençóis ou trincando o maxilar.

– O que está fazendo?- observo seus movimentos.

– Ele pediu para eu juntar algumas coisas, mas não tenho todas.

– Pegue apenas o que tem. – tento acalma-la- Ele vai demorar muito?

Naomi para.

– Não, ele mora aqui perto, uns 10 minutos talvez.

10 minutos é muito tempo, o bebê pode estar morrendo agora, vamos ter que começar o parto assim mesmo.

– Vai ser cesariana. – falo convicta.

– Você tem problema?- ela diz pasma.

– Tive sangramento, é cessaria de emergência!

– Aqui?- ela olha em volta- Vai pegar uma infecção.

– Desinfete todo que vamos usar. – dou de ombros.

Ela balança a cabeça negativamente, sendo breve e logo começa a fazer o que eu pedi.

– Ande logo. – apresso-a- Eu que estou tendo o parto aqui!

Sinto-me tonta e enjoada, nunca quis tanto vomitar na minha vida.

Os minutos parecem não passar nunca e o Marcos não chega nunca, assim como a Naomi que sumiu.

– Eu estou parindo aqui!- grito para chamar a atenção dela.

– Já estou indo!- ela grita de volta.

Escuto vozes vindas do andar de baixo e me sinto aliviada, pela primeira vez hoje.

Marcos aparece no quarto e me encara, não parecendo gostar do que vê.

– Posso ser preso por fazer isso. – ele comenta.

– Não vai. – sorrio forçadamente.

O Nathan ainda está solto...

A mulher dele entra, ela é bem mais bonita que ela, tem cabelos ruivos curtos e olhos mel, sua pele é bem clara.

– Não podemos usar sedativos, vai fazer isso a sangue frio?- ela murmura.

– Isso ou a morte dos dois, pelo menos um tenho que salvar. – ele diz sério.

Engulo em seco.

Nunca parei para pensar na morte, principalmente quando ela pode estar tão perto.

– Suas facas são precisas?- ele encara a Naomi.

– Sim. – ela diz convicta.

– Ótimo, porque eu não tenho bisturi. – ele sorri.

– Médicos deviam andar com bisturis. – ela adverte.

– Só ando com o suporte, a lamina fica no hospital.

Sou como uma terceira pessoal na historia, eles parecem terem se esquecido de mim e de que eu estou tendo um bebê.

– Andem com isso!- praguejo.

– Não podemos esperar a ambulância chegar?- Naomi interfere.

– Eu já avisei o hospital, estão mandando uma unida, mas pode demorar. – Marcos diz paciente.

– Estão esterilizadas?- a mulher encara as facas.

– Sim e são de diferentes cortes, ficam a escolha.

A mulher concorda e se dirigi a mim.

– Respire fundo. – ela diz terna.

Puxo o ar para dentro e tenho dificuldade para coloca-lo para fora. Ela coloca uma mascara em mim e com uma bombinha de ar, a mulher aperta a bombinha e o ar entra novamente em meus pulmões e saí com mais facilidade.

Doutor Marcos se aproxima de mim com luvas nas mãos e tenho literalmente vontade de sair correndo e pular a janela.

– Não! Não! Acho que mudei de ideia, ela pode esperar. – sorrio amarelo.

Que tipo de mãe eu sou?

Tenho uma leve impressão de me comparar ao Ícaro; o filho sempre em segundo plano na minha vida.

Sinto uma dor mais forte, fazendo-me contorcer em cima da cama e trincar o maxilar com força.

– Ande logo com isso!- Naomi ordena.

– Não tenho habilidades com esse tipo de coisa. – Marcos segura uma faca.

– Essa faz um corte profundo e delicado. – Naomi comenta.

– Tome. – Marcos entrega para a Naomi- Faça o melhor que conseguir.

– Isso tem que ser feito com bisturi elétrico. – ele diz ríspida.

– Naomi. – repreendo-a – Pelo amor de deus. – suplico.

Não quero mais sentir essas dores, não quero sangrar mais e não quero perder a minha bebê.

A mulher do Marcos aplica algo na altura de minha coxa como se fosse uma injeção, arfo.

– Ela ficar bem. – alerta a mulher.

– Comecem logo isso!- grito.

Marcos sussurra algo para a Naomi e passa os dedos em uma parte de minha barriga, onde ela faz pressão com a faca.

– Cuidado, não sabemos onde o bebê está localizado. – Marcos avisa.

Naomi aquiesce e difere uma pressão maior, deixando o local mais dolorido.

A lâmina da faca finalmente perfura a minha barriga de uma forma lenta, grito e agarro o lençol da cama.

Ela continua, ignorando os meus gritos. A mulher do Marcos segura os meus ombros e me pressiona contra o colchão, me deixando presa. Minhas pernas entram em dormência e parecem estar cruzadas, a dormência vai subindo pelo meu corpo.

Naomi passa a faca por cima do corte, fazendo um segundo corte, a dor é insuportável e não consigo segurar os gritos.

Estou suando frio e tremendo, não sei por que, meu coração bate mais acelerado e a dor é insuportável, meus nervos parecem estar sendo esticados até eles mesmo se romperam.

Meus gritos vão falhando e se tornando agudos, minha respiração fica descompassada e a mulher do Marcos aperta a bombinha da máscara e faz o ar entrar em meus pulmões novamente.

– Naomi!- arfo- Isso dói demais!

– Calma. – ela diz paciente.

Ela repete o mesmo processo mais uma vez, rasgando as camadas de tecido que eu possuo, a tremedeira fica mais forte e o suor escorre até o lençol.

– Ela está sangrando muito. – murmura Naomi.

A mulher saiu de perto de mim e pega algumas toalhas, entregando para o Marcos.

Naomi aperta a faca em meu abdômen, onde consigo a sentir deslizando perfeitamente em minha pele e a dor se alastra até o meu fio de cabelo. Não tenho mais força nem pra gritar e então trinco os olhos e encosto a cabeça no travesseiro, buscando algo que me distrai.

Escuto um barulho forte vindo de fora, a mulher corre para do quarto e Naomi para por instante, me dando tempo de respirar e relaxar um pouco o corpo, assim que isso acontece, uma dor aguda consome meu abdômen e me faz congelar na hora.

– Ande com isso, pelo amor de deus. – suplico.

Passos se dirige para o quarto, vejo pessoas de branco e equipamentos estranhos. Eles cercam a mesa e começam a ajudar a Naomi, ela deixa a faca de lado e pega algo menor.

Ela continua com o corte, meus olhos lagrimejam e minha visão fica turva e embaçada, minha respiração fica pesada demais e sinto algo mexendo em minha barriga.

Meu coração volta a ter espasmos e meu corpo fica quente, embora eu transpire frio.

Sinto uma pressão interna e um vazio logo em seguida. Rolo os olhos pela sala e vejo uma mulher carregar o bebê para fora do quarto junto com outras pessoas, mas ela não está chorando...

– Por que ela não chora?- falo baixo.

– Calma. – uma mulher de branco me encara- Vamos leva-la para o hospital.

– Eu quero ver a minha bebê. – tento levantar da cama.

A dor me impede e tenho uma tontura forte, deitando novamente, meu corpo fica gelado e minhas pálpebras ficam pesadas.

Meu corpo para tremer e minha respiração fica devagar. Pareço estar boiando em uma piscina ou em um mar muito calmo, as pessoas a minha volta começam a falar e estão desesperadas, minha visão fica branca e paro de escutar qualquer coisa a minha volta.

O mar me abraça caloroso e meu corpo fica leve...