Bury Me
1 Introdução
Eram quase quatro da manhã. Havia chovido a noite inteira, as ruas estavam vazias devido ao frio congelante. O único barulho naquela área vinha do pequeno pub que emanava cheiro de cerveja, lotado de jovens que não sabiam onde ir na pequena cidade que dormia em paz. Sam estava a porta, tomando coragem para sair do ambiente confortável que o ar-condicionado proporcionava e enfrentar o ar gelado. A iluminação da rua era escura, os poucos postes que ainda funcionavam não davam luz suficiente para os cantos escuros. Sam não queria voltar para a escola, entrar essa hora seria no mínimo perigoso. Na certa nem haviam notado sua ausência no dormitório. Sem dinheiro para o taxi e nenhum lugar para ficar até o amanhecer, sabia aonde ir.
Acendeu um cigarro enquanto observava o céu. A chuva ameaçava retornar, tinha que ser rápida se desejava chegar na escola até o amanhecer. Caminhava de forma esguia, sem chamar muita atenção. A entrada do bar estava vazia, exceto por dois ou três casais se agarrando nas paredes com tinta descascada. O letreiro luminoso piscava incessantemente, latas e mais latas de cerveja estavam jogadas na calçada. Conforme ia se distanciando, a música ia diminuindo e dando lugar ao som dos seus próprios passos, fazia frio, e estava começando a se arrepender de ter saído apenas com uma blusa leve.
O parque ficava perto de casa, era acostumada a pular a janela e se esgueirar pela rua para ir lá desde que tinha uns dez anos. Não nascera para ficar trancada em casa, os pais conservadores a obrigavam a estudar em uma escola conservadora e só quando fugia tinha os únicos momentos em que podia ficar sozinha consigo mesma. Não que o lugar tivesse algo de especial, apenas meia dúzia de brinquedos com tinta velha e descascada, algumas árvores e mesinhas de xadrez completamente pichadas. Ninguém mais ia lá, e era justamente isso que atraia Sam.
- E aí, gostosa! – Um bêbado gritou de longe. Estava acompanhado de alguns amigos, todos seguravam garrafas nas mãos. Na certa também haviam acabado de sair do pub. – Vem aqui que eu te mostro quem é homem!
- Vá se foder! – Foi a resposta mais bem educada que conseguiu falar antes de sair de vista as pressas.
Esse era o problema de andar sozinha na rua essas horas. Ainda estava tonta por causa das doses extras de bebida. Um leve torpor começou a tomar conta do corpo enfraquecido de Sam. De repente não conseguia mais dar mais sequer um passo em direção a rua. Respirava ofegantemente, olhando ao redor. Por sorte, não havia ninguém. Alguém colocou algo na bebida, pensou. Pelo menos havia conseguido sair de lá em segurança. Era apenas um mal estar passageiro, logo conseguiria se levantar.
Alguns segundos se passaram, quem sabe minutos. O estado de Sam começava a piorar. A visão estava embaçada e o calor não passava. Tentou alcançar o celular, foi quanto lembrou que uma das professoras o tinha recolhido na última aula. Mesmo assim, quem iria chamar? Suas amigas estavam presas na escola ou haviam se embebedado também. Seus pais nem desconfiavam que ela estava fora da escola. Ligar para a polícia? Provavelmente seria ridicularizada, sem falar que seus responsáveis seriam chamados e seu plano iria por água abaixo.
Ouviu passos de repente. Tentou identificar alguma forma na escuridão, porém sua visão distorcida pelo álcool a impedia de focalizar alguma coisa em ambos os lados da rua. Sam estava com medo, mas não tinha certeza se conseguiria se levantar. Imediatamente pensou no grupo de homens bêbados que haviam mexido com ela e sentiu o terror arrepiar seus pelos da nuca. A garganta estava seca pelo medo, os passos pareciam ficar mais altos e parecia não haver saída.
Ainda cambaleando, pegou o par de saltos que usava em mãos e correu no sentido oposto dos sons suspeitos sem olhar para trás. Gritou por ajuda, mas todas as luzes das casas estavam apagadas. Era um bairro perigoso, deveria ser quase normal ouvir gritos na rua essa hora da madrugada. Correu por metros, sempre seguida de perto por quem quer que seja que estivesse seguindo-a. Quase sem fôlego, virou na primeira rua que viu a direita, o que se comprovou um grande erro.
Era um beco sem saída. A grade que o separava do outro lado da rua era imensa, não tinha tempo para tentar escalá-lo. Havia apenas alguns latões de lixo malcheirosos agrupados em um canto. Desesperada, Sam se enfiou com dificuldade entre alguns deles. Seus pulmões queimavam, sentia que suas pernas não iriam aguentar mais um passo sequer. Os passos se aproximavam, com certeza o que quer que fosse que a perseguia tinha visto-a entrar aqui. Talvez fosse embora, pensasse que ela conseguira escalar a grade.
Apertou os olhos e rezou para algo, qualquer coisa. Nunca acreditara em Deus, talvez por ter sido jogada em uma escola católica por pais negligentes, sendo forçada a acreditar e engolir uma religião. Os passos chegavam mais perto. Eram pesados, e sabiam muito bem onde estavam indo.
Uma sombra invadiu o pequeno canto onde estava. Agora era só o som de sua respiração agitada, e a respiração calma e profunda de seu perseguidor.
- Por favor... pode levar minha bolsa. Eu não falo nada pra ninguém, eu juro. – Disse, tremendo.
Sua surpresa foi levantar a cabeça e encarar um par de olhos completamente negros. O homem, se aquela coisa fosse um homem, abriu um pequeno sorriso e retirou uma arma prateada do bolso do casaco.
O som dos soluços de Sam preencheu o ambiente. Ela estremeceu quando ele puxou o gatilho e um grito invadiu a noite. Ela era a trigésima vítima.
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